4.11.12

O humor pirracento de brasileiros e argentinos

Antes de começar a estudar espanhol, no Brasil, há vários anos, alguns fatores influíram na minha escolha pela língua de Cervantes. O Mercosul estava muito em destaque, a língua espanhola começava ser ensinada nas escolas brasileiras, havia a proximidade com o português e a possibilidade de adquirir fluência em pouco tempo, uma vez que o aprendizado de uma língua muito diferente da sua língua materna é mais longo. E nada assegura que um dia você terá capacidade de se comunicar com facilidade nela. Além tudo disso, havia a possibilidade de praticar viajando dentro da própria América do Sul ou conversando com turistas no Brasil.

Os estudos de espanhol foram muito agradáveis. Optei pelo curso de extensão no Instituto de Letras da UFBA. Mais barato que nas escolas especializadas e de ótima qualidade. A primeira professora que tive foi uma espanhola da Cataluña. A proximidade entre português e espanhol possibilita um fato espantoso. Já no primeiro semestre, a professora falava inteiramente em espanhol. E a turma entendia tudo.

Ela não precisava passar para o português para dar explicações nem fazer malabarismos com as mãos para se fazer compreender.

No semestre seguinte, com o início dos estudos na Faculdade de Comunicação, passei para as aulas aos sábados, apenas uma vez por semana. Apesar de parecer pouco tempo, o conteúdo era bem rico. Eu fazia contorcionismos para conjugar trabalho, estudos acadêmicos, espanhol, análise e vida social. A turma era ótima e nós permanecemos juntos até o final do curso.

Tive mais três professores durante os seis semestres: uma brasileira (casada com um argentino, ela foi a mais fraca de todos), um peruano (um senhor gordo, com cara de índio, muito divertido) e outro brasileiro da Bahia. Este baiano talvez tenha sido o melhor professor. Ele fazia carreira acadêmica na área de linguística da UFBA e era apaixonando pelo espanhol. Passava longas temporadas no México, estudando teoria e, claro, praticando a língua com nativos.

Por conta de tantos professores com sotaques diferentes, não sei com qual vertente o meu espanhol com sotaque brasileiro se parece mais.

Lembrei de toda essa história depois que fui participar de um encontro linguístico (mais um!) de gente se revezando entre francês e espanhol. E fico surpreso como o espanhol chega fácil na ponta da língua. Se os brasileiros compreendem com certa facilidade o espanhol, não se pode dizer que a reciproca seja verdadeira. O português não é imediato para hispanos.

Uma professora de linguística me falou rapidamente que isso se deve a alguns sons extras que usamos no português, mas que não existem no espanhol. Daí a cara de espanto deles quando usamos palavras que parecem tão comuns aos dois idiomas, mas que, para eles, é algo irreconhecível.

Havia venezuelanos, colombianos, argentinos, canadenses e gente de outras partes do mundo. Conversar com os latinos não é nada difícil. Assim como os brasileiros, são falantes e têm aquela empatia rápida e forte que nos caracteriza.

Depois de quatro anos no Canadá e conhecendo um número cada dia maior de sul-americanos, como nunca aconteceu no Brasil, eu começo a perceber características que se repetem. Peruanos e venezuelanos são muitíssimo simpáticos. Os venezuelanos um pouco mais exuberantes, os peruanos mais tímidos. Colombianos são levemente esnobes, orgulhosos, medem bastante as pessoas. Mas, passado estranhamento inicial, são comunicativos e gentis. Colombianos e venezuelanos têm uma rixa histórica, coisa de vizinhos, mas não chegam a ser hostis entre si.

Brasileiros e argentinos têm em comum aquele irritante senso de humor piadístico-sarcástico. Aquela velha história de perder o amigo mas não perder a piada. Apesar de toda a pirraça, principalmente sobre futebol, brasileiros e argentinos não são inimigos. São países suficientemente inteligentes para ter noção da força um do outro.

Exemplo de "gracinha" feita por um site brasileiro
Existiram algumas guerras entre Brasil e Argentina, por influência e disputa de terras. Mas os dois foram aliados, ainda com o apoio do Uruguai, contra o pobre do Paraguai, em uma guerra bem sangrenta, a Guerra do Paraguai. Essa aliança parece não ter mais terminado.

Em uma prova bem recente, o trio ternura Brasil-Argentina-Uruguai aproveitou a suspensão do Paraguai, por causa da deposição do presidente, para incluir a Venezuela no Mercosul. O Paraguai era contra a inclusão.

Argentinos sonham com as praias brasileiras e os brasileiros adoram passar alguns dias de sonhos europeus, tomando vinho e café acompanhado de água com gás. Comendo carnes e massas em Buenos Aires. Sem esquecer de alfajores e empanadas.

O sotaque espanhol dos sul-americanos para mim é mais fácil de ser compreendido do que o sotaque mexicano e da Espanha. Tenho a impressão de que há ritmo e entonação semelhantes. Talvez, em terras europeias, portugueses e espanhóis compartilhem a mesma impressão quando conversam entre si. Coisa de hemisfério.

Uma coisa interessante que vim perceber ao mudar para o Canadá é a questão da imagem entre os vizinhos. Dentro do Brasil, a gente sempre acha que foi ou é vítima dos outros países, que fomos explorados por europeus e sofremos intimidações constantes da América do Norte.

Entre os vizinhos do Sul, pelo contrário, o Brasil chega a ter uma imagem de imperialista. Como uma amiga argentina uma vez reclamou: "Os brasileiros querem tudo!", falando das constantes disputas comerciais do seu país com o Brasil.

E se a gente for olhar na história, realmente o Brasil tem um lado forte de dominação e luta pelo território. Basta olhar a aquisição do Acre. Eram terras que pertenciam à Bolívia, mas que estavam cedidas aos Estados Unidos e ocupadas por fazendeiros brasileiros. Frente aos conflitos, o governo brasileiro acabou por adquirir a área e incorporá-la ao mapa do Brasil.

Não é preciso ir muito longe para ver atualmente uma situação semelhante. Produtores brasileiros dominando o cultivo de soja no Paraguai. Os famosos brasilguaios. Porém, na atualidade diplomática, as encrencas são resolvidas sem maiores danos, salvo um ou outro tiroteio por aquelas bandas.

29.10.12

Em tempo de chuva

Ontem estava na academia e pensava na vida. Sim, isso existe. É possivel pensar enquanto se exercita. Dizem mesmo que o exercício com pesos ajuda na concentração, mais do que as atividades aeróbicas como corrida ou natação.

Eu pensava em como a época cinzenta e chuvosa é chata, que quase faz esquecer como a época de sol e calor é boa neste país. Impossibilitadas as atividades ao ar livre, restam os bares, casas noturnas, bibliotecas, clubes e casas dos amigos. Ou viagens para lugares tropicais, para quem está com tempo e dinheiro disponível.

A pouca luminosidade afeta o humor. As pessoas ficam menos alegres e lutam para manter a disposição física e o bem-estar. As roupas voltam aos tons escuros. No princípio do outono, as folhas vão mudando de cor e proporcionam um belo espetáculo, mas que é levado pelo vento em poucos dias e massacrado pelo cinza do céu. Resta esperar que a neve traga o manto branco e luminoso.

Neste ano a mãe Natureza foi bem generosa. O inverno foi brando, terminou mais cedo, o verão foi longo e mesmo agora no outono, há alguns dias, o clima estava quente e ensolarado. Os esportistas ficam atentos. Na semana passada, quando a temperatura chegou aos 18 graus, ruas e parques ficaram cheios de gente correndo e pedalando. Gente até de bermuda. Bares abriram as varandas e retomaram ares de verão. Mas durou pouco.

Os dias chuvosos são ótimos para ficar quieto em casa, ler, escrever, cozinhar, ouvir música, ver tv, pintar quadros, fazer artesanato, lavar roupa, passar aspirador na casa e tudo mais de bom e de chato que se possa fazer dentro do lar.  Escrever este post, mais um exemplo.

 

22.10.12

Snake bite

Um pneu de bicicleta furado no parque a quase dez quilômetros de casa. Em um belo dia de sol e 17 graus. Volta a pé, com intervalos pedalando apoiado sobre os pedais, jogando o peso do corpo no pneu da frente, que estava inteiro. Com cuidado para nao rasgar a borracha do de trás, o vazio. Bicicleta de pneu fino é mais leve, mas é mais frágil. Uma simples vala aberta (e nao vista) em uma obra no asfalto, um baque enorme. Pelo menos nao caí nem me machuquei.

Liçao do dia: manter a pressao das câmaras de ar sempre atualizada. Segundo o cara da oficina, uma porrada em pneu com baixa calibragem causa um "snake bite", mordida de cobra. Traduçao: vários furos na mesma parte da câmara.

A solidariedade dos ciclistas canadenses é impressionante. No meio do caminho, vendo que eu empurrava a bike, um cara me ofereceu uma câmara sobressalente, que ele levava na pequena bolsa debaixo do selim. Agradeci e recusei. Eu nao tinha ferramentas e nem sei como fazer tal o serviço.

21.10.12

Amaluna

Amaluna é o mais recente espetáculo do Cirque du Soleil. Depois de quatro anos no Canadá, é a primeira vez que vou a espetáculo da famosa companhia do Québec, conhecida no mundo inteiro. Desde que estive em Montréal pela primeira vez e vi o toldo azul e amarelo ser montado na beira do rio Saint Laurent, fiquei louco para ver a apresentaçao.

O Cirque du Soleil é algo para ser assistido pelo menos uma vez na vida. É deslumbrante. Luzes, cores, movimentos, contorçoes, figurinos elaborados, música envolvente tocada ao vivo. Tudo contribui para uma atmosfera mágica.


Valeu cada centavo pago.

Um dos números mais interessantes foi o da montagem e equilíbrio de uma pilha de gravetos. Os gravetos eram talos secos de folhas de palmeiras, talvez coqueiros. O público quase nao respirava enquanto a performer ia fazendo a montagem.




 


28.9.12

O brasileiro é um sedutor

O brasileiro é conhecido pela simpatia. Em geral é comunicativo, alegre, gosta de fazer amigos, quer agradar, foge do isolamento. Os brasileiros têm uma boa imagem entre os demais povos do mundo. Principalmente porque o país não costuma entrar em guerras.

O sonho de muitos franceses é passar o verão no Rio de Janeiro. Portugueses, espanhóis, italianos e alemães veem o Brasil ainda como uma terra de oportunidades. Mesmo que a "oportunidade" seja a de ter uma casa de praia a preço acessível. Russos, indianos, chineses e iranianos têm despertado, principalmente nos últimos anos, para um curioso país que vem enriquecendo, é um bom parceiro comercial e tem uma gente simples e receptiva, sem preconceitos típicos de outras civilizações mais antigas. Turistas israelenses veem o Brasil como um lugal tranquilo e sem maiores conflitos para as férias. Canadenses admiram o clima, a natureza, as festas e o notam como concorrente em importância na América. Os americanos continuam a fingir que nada veem.

Às vezes penso que há algum excesso em tudo isso.

O brasileiro é mais do que simpático. O brasileiro é um sedutor.

O verbo seduzir tem vários significados, positivos e alguns negativos. No lado positivo, seduzir significa causar admiração ou atração. Encantar, fascinar.

Essa sedução começa dentro do país. No Brasil há um culto sem fim à beleza. Os especialistas da cirurgia estética são conhecidos mundialmente. Modelos brasileiros, mulheres e homens, são exportados em containers de navios, partindo principalmente da região Sul. Mas também tem gente que sai do Nordeste e vai brilhar no planeta, como aquela baianíssima morena de olhos verdes que ilumina as publicidades da Victoria's Secret.

Os espetáculos de Carnaval mostram pessoas seminuas, homens e mulheres, sambando na tela da tv, cobertas por minúsculos fios de tecido, seduzindo o país e o mundo. Mas a nudez parcial ou total em uma praia urbana pode incitar ao apedrejamento pelo júri popular. Uma revelação das contradiçoes de um povo que não se livra do estigma de ser índio e de ter que cobrir a sua nudez tropical, tão pacífica e natural.

O mestre da sedução
Pelo lado negativo, sedução, no âmbito jurídico, é  "crime que consiste em iludir jovens, acima de 14 e abaixo de 18 anos, valendo-se da sua falta de experiência ou da sua confiança para manter com ele/ela conjunção carnal". Talvez, por esse sentido, o termo sedutor seja pouco utilizado para descrever pessoas.

Mas seduzir também significa ter grande influência sobre alguém. O sedutor, na realidade, não quer apenas agradar. Ele quer ter poder e influência sobre aquele a quem tenta ser agradável. Não necessariamente quer conseguir vantagens imediatas, mas não quer perder alguma possibilidade. Seja financeira, amorosa ou de status social. Quer tornar a sua vida melhor, de algum modo. Seja pelo lado material ou pela harmonia nas relações ou construção de uma rede de relacionamentos (a tal da network), que talvez lhe seja útil para conseguir um emprego mais tarde. Ser considerado  "gente boa" é talvez a consagraçao pelo esforço de agradar.

E para isso vale tudo. Até a utilização do seu "capital erótico", como um livro recentemente lançado definiu. É quando beleza e charme de homens e mulheres funciona como moeda de troca em ambientes profissionais.

Neste mundo de população gigantesca e de batalha difícil pelo sucesso, vale tudo. Manter o corpo atraente, a pele bem cuidada, o cabelo caprichado, vestir-se com elegância. Ser simpático e agradável.

As brasileiras são mestras nos aspectos da vaidade e no mundo só acham rivais entre as russas e ucranianas, depois de desbancar, e isso faz muito tempo, as elegantes francesas. As brazucas são ases na difícil ciência de andar de saltos altos. Uma incógnita que deixa várias canadenses, chinesas e muitas europeias sem entender a arte do equilíbrio daqueles movimentos suaves, quase circenses, sobre apoio de superfícies de um simples centímetro quadrado. Do salto do sapato, quis dizer, não do trapézio ou do fio de aço esticado lá no alto.

Já muitos brasileiros cultuam em demasia a boa forma dos corpos. Seja o alheio ou o seu próprio. Além do jeito expansivo que caracteriza o "gente boa". Quando quer agradar, veja bem.

O lado duro é que o excesso de preocupação pode revelar baixa auto-estima e falta de confiança em si próprio. Há mesmo tanta necessidade de beleza e de agradar? Para os italianos, a beleza, em todos os aspectos, é uma questão de vida. É como se não houvesse confiança em mais nada, na justiça, nas instituições, nas relações humanas e restasse apenas a estética. A beleza sagrada das obras de arte, da comida elaborada, do design dos móveis, roupas e objetos, além dos rostos e corpos.

Continuo achando que há um excesso em tudo isso. Em minha reles opinião, aquilo que se realiza pelo outro, o modo gentil de tratamento e a empatia são bem mais marcantes do que o "impacto" causado pela atratividade que a beleza traz.

22.9.12

Vida digital

Blog, Twitter, Facebook, Google+, Couchsurfing, Meetup, Email, MSN, Skype e outros não citáveis. A vida intermediada, ampliada ou reduzida pelas redes sociais..

20.9.12

Livros a mancheias

Desde que decidi trocar de país, mudei de casa seis vezes durante cinco anos. A quase totalidade dos meus livros ficou em local seguro, em recinto familiar, com hospedagem gratuita. Com tanta mudança na vida, o espaço habitável disponível vale como pedra preciosa. Livro ocupa muito espaço e é pesado na hora da mudança. Então prometi a mim mesmo evitar comprá-los.

Nos últimos tempos uma boa opção é ler no e-reader. Lá cabem centenas de livros sem ocupar volume algum e com peso zero. E posso transportar o apetrecho facilmente para qualquer lugar. Às vezes sinto falta de rabiscar no livro, de anotar a tradução de alguma palavra. Para isso, só o de papel ou e-ereaders mais avançados. O meu não tem esse recurso.

Também pego muita coisa na biblioteca pública. Além de ser gratuito e não ocupar espaço, o prazo de devolução serve como um incentivo para não ficar enrolando e terminar logo a leitura.

A oferta de livros em Toronto é muito grande. Adquiro, vou confessar, alguns por preços simbólicos em feiras beneficentes e em lojas de artigos usados. Encontro livros deixados para doação em caixas nas calçadas e até na lavanderia do prédio, onde os moradores deixam exemplares para que outras pessoas levem para casa.

Como se nao bastasse toda essa facilidade, de vez em quando as livrarias fazem promoções fantásticas. E quando se dá sorte de achar o que se quer, é uma maravilha. Há alguns meses entrei na loja de uma grande rede para comprar um livro no formato de arquivo eletrônico. Havia uma surpreendente promoção dos livros reais, não digitais. Até 80%(!) de desconto. Achei um romance de um dos meus autores favoritos, o irlandês Colm Toíbin. De 30 por 7 dólares. Não tive escolha, apesar da promessa que fiz, carreguei o luxuoso exemplar de capa dura e sobrecapa para casa. 

15.9.12

Mar de água doce

Nada comparável a algumas cidades européias, onde a cultura do ciclismo é mais antiga e mais forte, Toronto oferece várias vias que permitem passeios bem interessantes de bicicleta. Atualmente um dos meus trajetos preferidos é a ciclovia que vai até o Tommy Thompson Park, uma península que segue lago adentro.

Pássaros fingindo que são folhas (clique para ampliar)
Saindo do centro da cidade, o caminho passa por Cherry Beach e vai margeando o lago Ontario. Ciclistas, corredores e patinadores dividem a pista de multiuso. Há uma curta interrupção, pega-se o acostamento da pista de carros e retoma-se a via asfaltada do parque Tommy Thompson, com uma bela vista de Toronto.

Apesar de toda a beleza, o parque não foi criado pela natureza. Inicialmente era um cais para acostamento de grandes navios. Com a desistência do projeto, virou depósito de entulho de construções. A natureza fez então a sua parte. Os pássaros tomaram conta do local, que estava abandonado. A vegetação se espalhou e se desenvolveu. Com o apoio e proteção de grupos ecologistas, o monte de pedra e entulho virou um bosque no meio das águas, bem perto do centro da cidade. 

Lá não é permitida a circulação de veículos. A pista asfaltada é tomada por esportistas e gente passeando a pé. Existe também um clube náutico, mas só para barcos pequenos.  Há uma parte que virou habitação dos pássaros e o acesso não é permitido, nem para pedestes. Os pássaros não gostam de barulho. Os corvos-do-mar voam em fileiras, formando cordões no céu e indo pousar nas árvores como se fossem folhas.

Pego a minha bicicleta mais nova e mais leve, de quadro de alumínio e chego com menos esforço e em menos tempo, uns 40 minutos. A minha mais antiga, cheia de suspensões e amortecedores é incrivelmente mais pesada. Ela tem, no entanto, a vantagens de ser mais confortável para as imperfeições das pistas da cidade. Com ela subo e desço até degraus, mas na hora da distância longa, o esforço é muito maior. 

Na pista do parque vou me deparando com ciclistas que, solitários ou em grupos, pedalam com seus trajes esportivos. Capacetes, óculos protetores, luvas, tênis sem cadarço, bermudas e camisas de tecido sintético e coladas no corpo, para diminuir o atrito do vento. As bermudas são acolchoadas internamente e as camisas têm bolsos nas costas.

Fui dar uma olhada nos preços dos equipamentos. Tem bicicleta de aço carbono que chega ao preço de um carro novo. A grande vantagem dessas bicicletas é o peso reduzido, que permite vencer distâncias com maior velocidade, menos esforço e menos tempo. Mas algumas são caras demais. Tem gente que prefere então comprar um bom exemplar usado e reserva uma parte do orçamento para manutenção.

Os acessorios não são menos caros. Uma simples bermuda de ciclista, com tecido antimicrobiano, em loja especializada, pode custar o preço de uma bicicleta simples, em uma grande loja de departamentos. Uma simples bermuda de tecido sintético e colante, com reforço de acolchoamento nos fundilhos. Para não machucar os... fundilhos.

No final da pista do parque há um farol com mais um belo panorama da cidade. No lado oposto, a imensidão das águas: o lago Ontario. Quase um oceano, que faz a vista se perder. Onde tudo que vê é o horizonte infinito, caminho para se chegar a um outro pais. É um mar tranquilo, sem ondas, de águas doces. Um dos Grandes Lagos, um dos maiores tesouros norte-americanos.

13.9.12

Encontrando Monsieur Lazhar

Pessoas que chegam de todos os cantos e de origens as mais diversas se encontram no French Meetup de Toronto. É como se fosse um pequeno retrato do que é a cidade. Com um drinque, água ou chá na mão, seja para desinibir ou para molhar a garganta, os participantes deixam a língua solta.

O último encontro foi bem rico. A primeira pessoa de quem me aproximei foi uma senhora com cara de francesa. Cabelos claros e curtos, um grande nariz aquilino, ela segurava um copo de chá quente fumegante. Não era francesa, era canadense. E o seu francês não era grande coisa, às vezes eu tinha dificuldade de entender ou escutar, pois ela falava baixo. O seu nariz, tão marcante, me pareceu uma herança árabe ou espanhola. Não quis perguntar, fiquei com medo de parecer indiscreto.

Acabei descobrindo que ela trabalha por conta própria operando com açoes na bolsa. Conversamos sobre aplicaçoes financeiras no Canadá e no Brasil e ela me convenceu que os títulos da Petrobras, atualmente em baixa, vão subir em pouco tempo, assim como os de outras petrolíferas, por causa das confusões no Oriente Médio e no Norte da África.

Logo a seguir conheci um franco-canadense originário de Winnipeg, capital da província de Manitoba, vizinha de Ontario. Eu sabia que existem comunidades francófonas em Manitoba e foi muito bom saber mais sobre o assunto. Uma das grandes escritoras do Canadá chama-se Gabrielle Roy, é originária de Manitoba e escreveu sua obra em francês.

O rapaz aparentava ser bem jovem, mora e trabalha em Hamilton, uma cidade que fica a uns 70 quilômetros de Toronto. Cabelo preto, pele clara, óculos redondos, não parecia descendente de ingleses ou irlandeses. Para chegar no French Meetup ele pega o carro e dirige uns 40 minutos. O sotaque dele era um pouco mais brando, menos nasal, do que o dos québecois. Ele me falou que considera o francês a sua língua materna. pois estudara em escola  francófona, apesar de ter feito universidade em inglês.

Perguntei por que optar por se alfabetizar em francês. Ele me falou que é a língua da sua família.Que a população da cidade de onde ele veio, na região metropolitana de Winnipeg, que não lembro o nome, também fala francês. Ele ainda me disse que algumas cidades francófonas de Manitoba têm nomes de santos. Religião Católica e língua francesa são inseparáveis.

Comentei que eu acho enriquecedor uma criança estudar em francês no Canadá. Pois vai aprender inglês de qualquer modo, pela televisão, computador, videogame ou nas ruas. Ele fez uma observação interessante, que, além disso, o inglês ensinado na escola francesa é de boa qualidade, o que facilita tudo.

A situação inversa não costuma acontecer com crianças e jovens que estudam em inglês. Os canadenses que moram fora do Québec aprendem francês na escola como segunda língua, mas quase não têm oportunidade de praticá-la e acabam esquecendo. Do mesmo modo como ninguém aprende a falar inglês no Brasil só estudando na escola.

Depois foi a vez de bater papo com um senhor da Argélia. Gorducho, pele morena, cabelos grisalhoso cacheados. Vi de cara que era árabe. Ele mora e trabalha em Brampton, na região metropolitana de Toronto, e ensina matemática e ciências em uma escola francesa. Lembrei imediatamente de Monsieur Lazhar, o filme do Québec que concorrreu ao Oscar de filme estrangeiro neste ano e que ganhou o prêmio de melhor filme canadense no Festival de Toronto 2011.

O filme conta a história de um professor argelino que vai ensinar francês em uma escola de Montréal. Na sala de aula ele se depara com diferenças culturais, com o novo método de ensino e com a carga emocional causada pelo suicídio da professora anterior. Ele me falou, entre risadas, que quando foi ver o filme, também se reconheceu na tela. A arte copia a vida, não é? Conversamos mais um pouco sobre assuntos polêmicos do Oriente Médio, mas o tema é bem espinhoso, melhor seria não provocar mais.

O professor foi embora e eu fiquei decidindo se tomaria mais uma cerveja. Sim, decidi ficar mais um pouco.

Ao lado estava um grupo conversando animadamente. Achei o sotaque diferente e perguntei se eles estavam falando francês com sotaque italiano. Um rapaz mais comunicativo, de olhos claros e cabelo curto e espetado deu risada e disse que não. Disse que era russo, que morava há muito tempo em Toronto, que tinha chegado aos dez anos de idade no Canadá. Falou que tinha aprendido francês enquanto estava estudando na Espanha. Ou seja, era daqueles que falam uma quantidade de línguas que podem superar o números de dedos de uma mão.

Ele era bem jovem, não aparentava nem 25 anos e falava francês com ótimo vocabulário. Em minha experiência aqui neste país, tenho visto que alguns russos têm uma capacidade inacreditável de aprender novas línguas. Eu tenho a impressão de que, como a língua deles é muito complexa, cheia de variaçoes, e o alfabeto cirílico mais extenso, com sons que nem todas as línguas possuem, os russos devem achar o resto fácil de aprender.

Os últimos personagens da noite não foram menos interessantes. Eu tinha reparando antes, um cara completamente careca, pele morena, óculos modernos de aros grossos e uma "mosquinha" branca logo abaixo do lábio. Quando eu falei que era brasileiro, ele falou em francês que também falava português. Achei que mais alguém capaz de falar algumas frases de português misturado com espanhol. Mas ele revelou logo a seguir que era angolano.

Ele falava um francês excelente. Perguntei onde tinha aprendido e ele me disse que havia morado durante oito anos na França. Comentou que havia uma brasileira no evento. Ela chegou logo depois. Olhos amendoados, cabelo bem preto, liso e comprido. Feições orientais. Descendente de japoneses, de São Paulo, pensei e acertei no alvo. O primeiro brasileiro que encontrei no evento que frequento há alguns meses.

Muito simpática, ela tinha ido apenas acompanhando o angolano, pois não falava nada de francês. Eles trabalham juntos no mercado imobiliário em Toronto e estão tentando convencer canadenses a comprar imóveis no Brasil. Conversamos um bocado - em português. O sotaque do angolano não era difícil de compreender. Falei da grande quantidade de imóveis no litoral  do nordeste brasileiro adquiridos por europeus, que os possuem como casas de veraneio. Desejei boa sorte à dupla na empreitada, mesmo sabendo que canadenses e americanos não costumam ir além do Caribe e da América Central.

4.9.12

Festa brasileira em Toronto

Ontem foi o Brazilian Day Canada 2012, uma festa da cultura brasileira que ocorre em algumas cidades do mundo: Nova York, Toronto, Tóquio, Londres, Los Angeles e Luanda (Angola). O evento ocorreu em uma das praças mais centrais e movimentadas de Toronto, a Dundas Square. Há um grande palco montado para os shows e várias barracas de comidas, vendas de produtos, publicidade. É um bom cartão de visita para dar visibilidade à cultura brasileira. A imigração brasileira acaba de completar 25 anos em Toronto. É uma das comunidades mais novas no Canadá.

A atração principal deste ano, a dupla Jorge e Mateus, parece estar fazendo muito sucesso no Brasil, ao misturar música sertaneja romântica, forró e batidas de axé music. Mas não me disse muita coisa. Preferi o show de Ivete Sangalo, há dois anos. De qualquer modo, foi bom ouvir a música hit, sucesso mundial, "Ai se eu te pego" cantada e tocada ao vivo, por um grupo brasileiro, pela primeira vez!

Foi ótimo encontrar uma turma de novos amigos, alguns brasileiros, os demais de outras nacionalidades. Os amigos brasileiros que conheço aqui, já moram há bastante tempo e não têm mais disposição para este tipo de evento. Havia muita gente com camisas amarelas da seleção brasileira, bastante gente jovem, mas poucas famílias. Tive a impressão, posso estar enganado, que a maior porção dos participantes era de estudantes brasileiros em Toronto.

Eu me recusei a ir atrás da coxinha de galinha. Os expositores aproveitam este tipo de evento para vender a comida quase pelo triplo do preço normal. Prefiro ir comer nas padarias e bares do bairro português, que têm boa oferta dos salgados brasileiros. Optei por comida tailandesa (!) no Eaton Centre. Os pratos de feijão-com-arroz, disponíveis na festa, sempre preparo em casa, então não sinto falta. Brigadeiro, da mesma forma. Queria mesmo era acarajé e abará, com muito vatapá e molho de camarão seco e defumado. Mas aí só em um "Bahia Fest Canada". Quem sabe um dia.

31.8.12

Novo morador

Tenho um novo roommate. Ele ainda não decidiu se vai ficar para morar, está achando o aluguel caro. Mas ele é corajoso, sobe onze andares pelas paredes do prédio em busca de um amendoim perdido ou de alguma maçã em cima da mesa. Ele é boa vida, trabalha divertindo turistas nos parques, só para ter o que comer. Acho que ele quer mesmo é ser pet e ganhar casa e comida de graça. 
Spider, o esquilo-aranha
 

27.8.12

Destrua o vestido de noiva

Durante os passeios de bicicleta pela cidade, principalmente nos sábados à tarde, vejo uma cena que se repete com frequência. Um casal de noivos, ela de vestido branco de casamento e ele de terno, fraque, ou qualquer outro traje apropriado, quase sempre com buquê de flores nas mãos, acompanhados por um fotógrafo, perambulando pela cidade em busca de boa locação para fotos do álbum.

A cena é mais comum na beira do lago ou nos parques, obviamente, pela beleza. Mas eu já vi trio fotógrafo-noivo-noiva andando pelo viaduto Broadview. Onde, acredito, a atratividade do local consiste de carros passando em alta velocidade.

Canadenses não se importam em usar trajes diferentes. Seja para atrair a atenção ou para testar se a política da indiferença com a vida alheia, tão querida e apregoada por este povo, continua firme. Então de vez em quando passa alguém fantasiado de Batman pela rua. Não importa se é época de Halloween ou não. Não importa se a pessoa está chegando ou saindo de alguma atuação teatral. Não importa se está indo para alguma festa a fantasia. O importante é ser criativo. 

Fotógrafos e noivos parecem levar a criatividade aos últimos consequências. Para quem é estrangeiro, é estranho, mas acaba sendo divertido. Na praia da beira do lago, vi que um grupo de espanhóis beberrões ficou olhando para os noivos com ar de espanto e comédia. Um deles não aguentou e foi tirar foto, com seu proprio iPhone, com o casal, que meio sem jeito, o acolheu no meio. A foto deve ter ficado com cara de ménage à trois.

No Brasil o trabalho do fotógrafo seria impossível. Haveria fila de pessoas querendo tirar fotos com o casal, assovios para a noiva, piadinhas sobre a vida sexual, pedidos de convite para a festa do casamento. Só alguns exemplos da interação que os brasileiros gostam de fazer com aquilo que lhes parece exótico, divertido, estranho , atraente ou exibicionista.

Mas a onda das fotos criativas do casamento norte-americano vai além. Existe um modismo de poses depois da festa. É o “Trash the Dress”. É a destruição do vestido, o vestido vai para o lixo. Então tem noiva que, passados casamento, festa, lua-de-mel, viagem e entrando na monotonia do cotidiano, resolve se vingar.

Sob os olhares atentos e os cliques rápidos do fotográfo, ela posa para fotos depois de rolar na lama, de queimar partes do vestido, de encharcá-lo na água, ou depois de qualquer outro método de destruição escolhido.

Parece estranho, quando se poderia simplesmente doar o vestido, já que não se quer mais guardá-lo ou não se tem mais espaço para armazenar o trambolho. E, efetivamente, pode haver acidentes, como o que ocorreu no Québec.

Primeiro pensei que se tratava de uma notícia falsa, pelo tom quase inacreditável. Mas foi verdade. A noiva entrou no rio para encharcar o vestido. O vestido ficou pesado demais e a correnteza a arrastou. O fotógrafo não conseguiu resgatá-la e ela morreu afogada. Uma bela mulher de 30 anos. Adeus vestido, adeus casamento, adeus noiva.

Confira aqui:
http://www.ctvnews.ca/canada/caution-urged-after-bride-s-photo-shoot-death-1.930467

23.8.12

Sobre comida e troca de ideias

Querida amiga,

Estou lendo um livro cuja primeira - e acho que única - indicação para mim foi sua: Afrodita, Cuentos, Recetas y Otros Afrodisíacos, de Isabel Allende. Eu estava na época do trabalho de conclusão de Jornalismo, que tratava da comida da nossa região, e você viajava comigo. Sei que o tema também lhe é muito querido. Então a gente conversava muito nos intervalos de trabalho e você sempre me trazia ideias e sugestões de temas, detalhes, personagens. Nós viajávamos juntos.

Eu creio que, naquela época, o livro da escritora chilena servia de inspiração para a sua criatividade culinária e talvez amorosa, provavelmente. Sei que, naquele tempo, você não era muito próxima das panelas, mas adorava o assunto e adorava viver rodeada de bons resultados no fogão, seja lá de quem viessem. Livros e panelas (ou, melhor, o produto delas) sempre nos atraíram.

Outro dia li um comentário seu sobre o reencontro com amigos de longa data. Sobre o carinho existente, sobre como é bom não precisar medir as palavras, para não correr o risco de ser mal interpretado. Os velhos amigos cumprem bem esse papel, tenho certeza.  

Aqui neste país de línguas estranhas eu vivo uma realidade que adoro. Comidas do mundo inteiro ao alcance fácil das mãos - e do bolso. Livros que nunca imaginei poder ler. E, o que é melhor, em suas línguas originais. O sistema de bibliotecas da cidade me dá acesso a livros em um número inacreditável de títulos em inglês, francês, espanhol e português.

Depois de quatro anos aqui e de bastante esforço - uma tarefa agradável, no entanto -, aprendi a ler sem muita dificuldade em francês e inglês. Com o aumento do vocabulário, entranhamente, até o espanhol ficou mais fácil. Por isso preferi ler Afrodita na versão original, sem recorrer a traduções.

Mas, sabe, acho que o que mais me motivou a escrever esta missiva foi saudade da nossa troca de informações. Algo muito presente entre mim e os meus amigos, algo que sempre tive ao meu alcance. Lembro que você sempre chegava com uma novidade, um detalhe inesperado, um filme inédito, uma peça de teatro estreando, um plano de viagem, fosse ela mental ou a um local distante.

Graças ao céus, aqui também conheço pessoas bacanas e generosas, capazes de grandes gestos de ajuda e companheirismo. Aqui também tenho pessoas instruídas e cultas ao meu redor. Seres de culturas, de origens e línguas diferentes. Mas falta um pouco da viagem. Não aquela aos locais distantes, um gosto compartilhado por todos. Mas a viagem das ideias.

A sobrevivência em um mundo estrangeiro induz ao pragmatismo. E a um certo consumismo, infelizmente. Trava-se uma busca incessante por segurança, pelo aluguel do próximo mês, por realização profissional. Totalmente compreensível. Aqui não se conta com a rede familiar. Aqui parte-se do zero para a construção de uma nova vida. O que é muito bom, mas também tira muito da energia para fruição, do prazer de aproveitar e debater pequenos e grandes detalhes da cultura e dos hábitos em que fomos criados e nutridos. Ou do local em que estamos inseridos e que é a nossa casa atual.

Querida amiga, esta carta é algo de crônica de uma bela lembrança. De um pequeno desabafo, talvez. Somos felizes por poder transformar em letras os pensamentos e sentimentos. E de poder ter com quem compartilhar. 

Se isso for apenas mais uma incumbência para transportar, nessa frágil existência humana, que o fardo seja leve, alegre e traga boas palavras ao mundo.

Um beijo. 

6.8.12

Hamburguer de qualidade

Para quem vive fora da America do Norte, hamburguer eh praticamente sinonimo de McDonald's. Isto significa sanduiche sem graca, gorduroso, com um sabor que beira algo entre plastico e borracha. Quando se conhece mais profundamente o que eh um verdadeiro hamburguer, o gosto muda e a experiencia se intensifica. 

Aqui no Canada existem restaurantes especializados na iguaria, nos quais fica dificil ateh escolher os ingredientes, entre os diversos tipo de carne, queijos e molhos sem fim. Ateh o simples hamburguer que se compra congelado para preparar em casa tem algo de excepcional, como o que acabo de devorar agora, com carne defumada, estilo barbecue feito com lenha de hickory. Para acompanhar, nada mais do que o pao, queijo Cheddar, catchup de boa qualidade e mostarda Dijon. E basta, eh alegria geral.

30.7.12

Comida estrangeira

Um amigo baiano que mora em São Paulo me conta que foi almoçar com a família de uma amiga baiana, comum a nós dois, que mora também em São Paulo. Ele ficou surpreso e contente. A mãe dela havia trazido acarajés da Bahia, que foram prontamente devorados. Que luxo, acarajés vindos de Ilhéus! Os baianos adoram os bolinhos dourados. Eles são parte dos nossos recantos do sabor e da lembrança. Conheço gente que mora no Rio, em Brasília e, cada vez que volta da Bahia, leva acarajé e  abará, fresquinhos do dia, no avião. Conheço gente da Bahia que mora aqui em Toronto e que traz na mala, tudo congelado!


Abarás cozidos na folha de bananeira
Quase todas as iguarias da cozinha baiana são possíveis de reprodução em outros locais, em maiores ou menores distâncias da origem, mas o acarajé é o mais difícil, pela quantidade de dendê usada na fritura. 

Enquanto o acarajé é frito, o abará é cozido no vapor d'água. Os dois tem a mesma massa, mas um pouco de dendê é adicionado ao abará, que precisa ser engenhosamente enrolado em folha de bananeira para o cozimento. A folha de bananeira serve para dar o formato, mas também para dar sabor.

Há algum tempo, para matar a minha vontade de comer os bolinhos baianos, bolei um modo diferente na hora de fazê-los. Preparei a massa no modo convencional, ela é simples, apenas feijão-fradinho e cebola, batida no liquidificador. Coloquei um pouco de dendê, que trouxe na mala, na última vez que fui ao Brasil, para dar cor e sabor, e levei ao forno, na assadeira de bolinhos, aquela para o preparo de cupcakes. 


Para preparar o abará já pensei em usar folha de lótus, encontrada nos mercados chineses, com a qual eles preparam uns bolinhos cozinhos de arroz com recheio, que são bem bons. Os pacotes de arroz chineses ficam com um aspecto bem parecido com os abarás. Não imagino como ficaria o sabor.

Então a minha criação ficou assim meio abarajé assado, nem uma coisa nem outra, nem tico nem taco, mas até que ficou gostoso. O pessoal aqui devorou. Nham nham.

28.7.12

O polêmico logo de London 2012

O logo das Olimpíadas de Londres está cheio de polêmicas desde o lançamento. A ideia parecia ser simples e efetiva: é a representação do número 2012 com os anéis olímpicos dentro do zero. Pela primeira vez o desenho básico será usado tanto nas Olímpiadas quanto nos Jogos Paraolímpicos.


O logo é flexível e pode mudar de cor de acordo com a situação. As cores básicas são verde, azul, laranja e magenta (algo entre rosa e violeta), mas pode incorporar as cores da bandeira da Inglaterra ou de qualquer empresa patrocinadora. Tudo muito bem pensado e articulado, não é mesmo?

Mas o povo não gostou. Em uma sondagem no site da BBC, 80% dos internautas detestaram o símbolo. Vários jornais fizeram concursos próprios para sugestões do logo. Entre os selecionados pelo The Sun havia um pintado por um macaco! Houve também várias reclamações sobre a leve semelhança com uma cruz suástica, o símbolo do nazismo.  

O que achei mais polêmico efetivamente foi a reclamação do Irã, que ameaçou boicotar os jogos. Os números guardam bastante coincidência com as letras z, i, o, n. Letras que formam a palavra Zion (ou Sion, em português), um sinônimo de Jerusalém. Sionismo é o movimento político iniciado em 1892 que defende o povo judeu e a existência de um Estado judaico independente, do modo como existe atualmente.

O Irã levou as reclamaçoes ao Comitê Olímpico Internacional, acusando o logo de racista e pedindo explicaçoes aos criadores. O Comitê não aceitou a solicitação. O Irã está participando das Olimpíadas.

Eu gosto do logo. Acho criativo, flexível, moderno e bonito. Mas eu sei que em comunicação visual nada é por acaso. O que faz aquele ponto entre os números 1 e 2? Por que ele estaria ali? Somente para preencher um espaço vago ou para formar a letra i?

Alguém fez a rearrumação do símbolo e publicou na internet.
 
E então, o que você acha? Foi uma simples coincidência ou foi proposital?

21.7.12

Amigos para siempre

Tenho um dicionário de francês-português que me acompanha há uns 18 anos. E que continuo utilizando com frequência. Eu comprei esse dicionário quando não tinha a menor ideia de que um dia moraria em um país de língua francesa. Na época eu morava em uma cidade com poucas opções de cultura e diversão, que não tinha nem livraria. Pedi o dicionário via encomenda postal, para me auxiliar nas aulas de francês que tinha resolvido tomar com uma professora particular.

Tive dúvida se a Ediouro, a editora do dicionário, ainda existe. Busquei no São Google, ela está aí, presente no ciberespaço. Esse dicionário tem uma característica interessante, algo impensável atualmente: a pronúncia das palavras não é escrita na linguagem universal dos sons, mas em português. Por exemplo a pronúncia da palavra manteau (casaco) é escrita mantô.  Isso não existe mais em nenhum dicionário bilíngue, mas era algo que achava bem prático enquanto eu aprendia francês.

Os professores de línguas sempre me falaram que os dicionários bilíngues (por exemplo inglês/português, português/inglês) servem somente para o início da aprendizagem. Que a partir de um certo tempo é preciso partir para um dicionário da própria língua, que explique o significado das palavras e não faça somente a simples tradução.

Concordo, mas mesmo sabendo disso o meu velho dicionário Ediouro é companhia constante quando leio algum livro em francês, como faço agora, lendo dois ao mesmo tempo, uma coisa meio maluca. La Meilleure Part des Hommes, de Tristan Garcia, e L'appartement Témoin, de Tatiana de Rosnay.  Nem sempre acho lá tudo o que procuro, mas sempre acho que é mais fácil procurar nele, que tem menos páginas para revirar do que o Micro Robert, por exemplo.

Mas revirar páginas de dicionário está virando coisa do passado. O São Google está cada dia mais poderoso, eficiente e o seu tradutor economiza um tempo enorme de busca. E, o que é melhor, ajuda nas expressões idiomáticas, já que o site faz a tradução completa do texto. O Google Tradução eliminou o meu desejo de comprar um tradutor eletrônico, uma maquininha que vi há muitos anos nas mãos de estudantes japoneses, na época em que tudo que era eletrônico e moderno era produzido no Japão, lá pelos anos 90.

O dicionário de papel serve romanticamente de partner para o livro em papel, como um casal unido e harmônico há muito tempo. Como goiabada com queijo. Como pão com manteiga. Como hambúrguer e batatas fritas.  

20.7.12

Barato e bom, do jeito que gosto

Sem querer ver a miséria de nenhum país, mas a crise econômica tem uma consequência bem saborosa: os vinhos europeus estão chegando no Canadá a um preço inacreditável. Eu tinha lido na coluna de vinhos do Toronto Star algumas recomendaçoes, um deles, um italiano, bem pontuado, com um preço tão baixo em relação aos outros, que cheguei a pensar que tinha sido erro de impressão do jornal. Quando cheguei na loja de vinhos, não encontrei mais o tal exemplar, provavelmente os leitores-bebedores deram cabo de todos. Mas havia muitos na mesma faixa de preço. Os vinhos italianos e alguns espanhois estao mais baratos que os argentinos e chilenos. Não achei o recomendado, mas trouxe para casa um Farnese 2011 Montepulciano D'Abruzzo, da mesma origem controlada, que estou provando agora e que está totalmente aprovado. Por meros CAN$7.50 a garrafa, com impostos incluidos.

12.7.12

Canadá, Nigéria, Benim e Bahia em francês.

Faz algum tempo que frequento o French Meetup de Toronto, um encontro mensal de pessoas que tem o francês como primeira língua ou que gostam de praticá-lo. A reunião acontece em um restaurante-bar na Bloor Street East perto da Yonge. Cada vez é uma experiência diferente. Cada vez tem gente diferente, com sua história de vida para contar.

Ontem conheci um holandês que veio criança para o Canadá. Os pais imigraram para Alberta e ele se mudou já adulto para Toronto, para trabalhar. A sua língua materna é o holandês, mas ele foi educado em inglês, no Canadá. Francês ele aprendeu na escola e em cursos. Apreciador de línguas, aprendeu espanhol, pois morou dois anos na Espanha, em Barcelona. Ele trabalha em um banco e já foi responsável pela área de negócios com a América Latina. Ele considera o espanhol a sua terceira língua.  Como se nao bastasse, foi casado com uma brasileira, então fala português também. Somando tudo, ele fala 5 línguas e me disse que compreende um pouco de alemao, que tem alguma semelhança com o holandês. Ufa!

 Revi uma conhecida (estou prestes a considerá-la uma amiga, pelas várias vezes que a encontro e é sempre muito agradável) nigeriana, com quem trabalhei durante um período curto, e que eu não sabia que falava francês. Depois de sermos apresentados no trabalho, acabei por reencontrá-la no French Meetup.

A língua oficial da Nigéria é o inglês, mas ela aprendeu francês durante os quatro anos que passou em Montréal estudando Contabilidade. Eu achava que ela era filha de imigrantes, que morava no Canadá há muito tempo, pelo menos desde criança. Mas ela revelou que chegou no Canadá aos 16 anos, que os pais ainda moram na Nigéria. E que ela viaja para lá todo ano. Fiquei surpreso porque ela faz um trabalho altamente qualificado, imaginei que tivesse sido totalmente educada no Canadá. Tudo bem, a universidade onde ela estudou é das melhores do país. Para mim, ela seria um caso de sucesso - existem vários - de estudos e trabalho de imigrantes no Canadá.

Quando converso com ela, a gente passa um bom tempo comparando as culturas da Bahia e da Nigéria. Ela fica surpresa com as coincidências. A cultura afro-baiana veio basicamente daquela região da África, principalemente dos povos Yorubá, Hauçá, Fon, Lgbo. Comida, hábitos, música, religião.  Ela me contou que os nomes de pessoas na Nigéria são com frequência os mesmos nomes das entidades do candomblé brasileiro . Ou seja, existem vários oshuns, shangos, ifás e oguns circulando pelas ruas da Nigéria. Quando a nigeriana chegou, eu estava, por coincidência, conversando com um canadense filho de nigeriano e de mãe do Québec. O francês dele nao era grande coisa, às vezes ficava difícil compreendê-lo, mas ele era simpático e comunicativo.

Um pouco mais tarde, talvez a personagem mais interessante da noite se aproximou. Ela tinha o rosto redondo e largo, cabelo bem preto e comprido, os olhos bem puxados, a pele clara, mais de 40 anos, provavelmente. Ela me fez lembrar os inuits (esquimós) do Canadá. Mas ela era francesa e bastante simpática. Nativa da cidade de Nice, no Sul da França. Filha de alemão com vietnamita. Life coach, psicóloga, trabalha com comunidades francófonas em Toronto. Também trabalha em inglês. Ela morou em vários locais e contou as maravilhas de Vancouver. Ela também já havia morado nos Estados Unidos durante bastante tempo. Fiquei curioso e perguntei a ela em que local ela tinha a maior sensação de pertencimento. Curiosamente, uma vez que os franceses não morrem de amores pelo Tio Sam, ela falou que era nos Estados Unidos. Mas ela diz adorar o Canadá.

Mais tarde um outro rapaz, este do Benim, chegou e começou a conversar com a nigeriana. Acho que  eles já se conheciam de outros encontros. O Benim é um país francófono e vizinho da Nigéria. A francesa foi embora e continuei o papo com os dois. O Benim tem a cultura bem parecida com a Nigéria e, por tabela, com as características afro-baianas. Acarajé, por exemplo, é conhecido como acará na África.

Lembrei que eu já havia experimentado comida do Benim em Salvador, no restaurante Casa do Benim, no Pelourinho. Também contei a ele a lenda que uma vez ouvi, talvez criada pelos próprios donos do restaurante, para aumentar a mística do local. A história dizia que, se as terras da África e a América se juntassem novamente - se é que isso aconteceu alguma vez -, Salvador iria coincidir com o Benim. 

Comentando sobre questões da língua portuguesa, falei sobre a influência dos teleromances (novelas) brasileiros no modo de falar da própria comunidade de países lusófonos. Foi com surpresa que ele falou o nome em português "novela". E revelou que as novelas brasileiras são uma febre naquele país africano - e provavelmente em outros da região também. Depois lembrei que uma amiga minha do Québec, que havia passado um tempo fazendo trabalho humanitário no Benim, já tinha me falado disso. As famílias param na frente da televisão, no maior silêncio, quase hipnotizadas, para acompanhar a trama. Nada muito diferente das famílias brasileiras. O beninense (ou beninês) também conhecia a música de Carlinhos Brown.



14.6.12

Meus parabéns

Que coisa mais bacana as redes sociais na internet proporcionam: ao fazer aniversário, receber parabéns de pessoas queridas espalhadas por vários cantos do mundo. A gente vai caminhando, passando por vários locais, fazendo amigos. De algum modo teme nao ter mais oportunidade de vê-los. Mas a internet consegue reunir todo mundo. Recebi parabéns vindos de Ilhéus, de Salvador, de Barreiras, de Feira de Santana, de Vitória, do Rio de Janeiro, de Sao Paulo, de Brasília, de Montréal, de Sherbrooke, da Florida, de Toronto. Vieram parabéns até de Dubai, nos Emirados Árabes! Obrigado a todos, é um prazer enorme e um privilégio conhecer vocês.

31.5.12

Leitura leve

Estou descobrindo (ou reconhecendo) uma das melhores vantagens de um eReader, o leitor eletrônico: a leveza. Estou lendo um livro de 600 páginas, The Son of the Circus, do americano John Irving. Leitura, na maior parte das vezes, feita na cama, antes de dormir. Então fico olhando para o meu pequeno leitor eletrônico, levinho de 180 gramas e imaginando o peso e o volume que estaria carregando se estivesse com um exemplar impresso de 600 páginas nas mãos. Os braços agradecem.

27.5.12

Tem quibe no tabuleiro

Não faz pouco tempo que conheço comida árabe. Desde criança fui acostumado a saborear quibes - nas versões frita, assada e crua! -, esfirras, homus tahine, tabule, mejandra, charutinhos. A culinária árabe, especificamente síria e libanesa, chegou ao Sul da Bahia na bagagem dos imigrantes em busca de riquezas. Jorge Amado fez a parte dele, colocando personagens libaneses, sírios e turcos marcantes em seus livros. Especialmente no ótimo "A Descoberta da América pelos Turcos".

O meu pai gostava muito de comida árabe e minha mãe procurava aprender novos pratos. Em alguns finais de semana, a gente frequentava o restaurante de um árabe (sírio, acredito) que ficava em uma belíssima localização, de frente para o mar de Ilhéus e servia pratos bem feitos. Onde houvesse comida árabe de boa qualidade na cidade, lá íamos nós experimentar. A cozinha do Oriente Médio é rica e delicada. Os sírios e libaneses costumam servir pequenas porções de uma infinidade de pratos deliciosos.

Swarma Wrap
A força comunidade de origem árabe possibilitava encontrar nos mercados da cidade produtos como o tahine, a pasta feita de gergelim, que dá o sabor levemente tostado ao homus, que é feito de grão-de-bico cozido e moído, alho e limão, basicamente.

Aqui no Canadá me deparei com uma quantidade enorme de restaurantes árabes fast-food. Eles são diferentes da rede brasileira Habib's, que basicamente vende lanches árabes prontos e sanduíches. Os restaurantes fast-food daqui sempre têm um buffet de saladas, molhos, carnes e acompanhamentos. Que podem ser servidos com arroz ou enrolados em pão árabe, bem fino, para montar um wrap (sanduíche enrolado) bem saboroso. O sanduiche fica nutritivo, pois tem bastante salada, pequenos pedaços de frango ou carne grelhada, homus tahine e molho de alho. Quibe é que, infelizmente, nunca encontrei por aqui, embora tenha ouvido falar que existe em alguns resturantes.

O frango e a carne são preparados na grelha giratória, do tipo que no Brasil se conhece por "churrasco grego". Onde as carnes são amontoadas e vão grelhando aos poucos. Para a minha insatisfação, toda vez que peço um wrap, a quantidade de homus colocada é bem pequena. Acho que eles ficam economizando. Compenso a vontade de comer a tal pasta preparando grandes quantidades dela em casa.


Churrasco "grego"
As famílias árabes do Sul da Bahia deixavam as famílias baianas com água na boca e ávidas por conhecer as receitas. Todos queriam aprender a cozinhar o que os Midlej, Ganem, Rabat, Maron, Medauar, Hage, Chaui, Challoub faziam em casa. Minha mae aprendeu a fazer homus tahine, eu copiei a receita e eu não vivo sem isso. Faço a pasta com frequência, e em quantidade enorme, regada com azeite extra-virgem. Devoro com pão, substituindo o queijo e presunto, reduzindo a consumo de gorduras animais. E, sem querer me gabar, e já me gabando, o homus que preparo é bom-bom. Quem provou disse que é tão bom ou melhor que o dos restaurantes. Também preparo saladas de trigo, inspiradas no tabule, variando os ingredientes, passando pela ricota, cenoura ralada, pepino, ervilha e até pelo tofu grelhado com alho. Quando encontro hortelã no mercado, é uma festa, a salada fica genial. Quando nao acho, o coentro quebra o galho.

A cozinha do Oriente Médio caiu nas graças dos canadenses - e do mundo - pelo sabor delicado e pelos ingredientes leves. O homus é adorado por carnívoros e herbívoros. Aqui acha-se ele pronto, com diversos sabores adicionados: alho grelhado, pimentões, cebolas grelhadas, azeitonas, etc.

Quando comecei a pesquisar sobre cozinha baiana, na época da Faculdade de Comunicação, conversei longamente com senhoras de algumas dessas famílias vindas do outro lado do mundo. Fiquei impressionado com a paixão pela culinária, com as lembranças que as comidas traziam, com os procedimentos de preparo. Com a emoção de falar das melhores recordações que a comida traz. Quase que eu mudo o foco do meu trabalho. Quase que paro de falar do dendê e do acarajé e vou falar da cozinha árabe do Sul da Bahia. Da presença do quibe no tabuleiro da baiana.

19.5.12

Atores da vida urbana

Os dois seres subiram no ônibus em um intervalo rápido. O primeiro era um rapaz com várias tatuagens, inclusive no rosto. Ele usava um casacão vermelho e preto que mais parecia uma grande capa. Ele tinha a pele morena, mas os olhos claros, verdes. Quando ele abaixou o capuz, pude ver o cabelo crespo e curto, quase carapinha, tingido de vermelho. Ele tinha minúsculas tatuagens verticais nas maças do rosto, que lhe davam um ar triste, quase de choro, como se fossem lágrimas saindo dos olhos. O cabelo crespo e os olhos claros revelavam a mistura de raças que resultou naquele personagem sentado quase de frente para mim nos últimos bancos do onibus.

As tatuagems nos dedos e todos os outros apetrechos completavam o visual de rapper, com influências de punk: grandes anéis, colar de elos grossos, o cabelo descolorido e tingido. Parecia que a qualquer momento ele poderia pular do banco e comecar a cantar alguma coisa em um tom agressivo. O seu visual para mim queria dizer violência urbana e revolta. Desencaixe e incertezas. Talvez criatividade, com um pouco de sorte.


Ele só não era mais estranho do que a jovem que entrou logo a seguir. Pele bem branca, cabelo bem preto, unhas pintadas de preto. Ela entrou como um raio e se sentou no banco junto de um rapaz louro, que usava casaco de lã e boina e que continuou impassivelmente a escutar as suas musicas preferidas com os fones dentro do ouvido, sem dar a minima atenção a quem se sentava ao seu lado.

A garota parecia estar sob efeito de alguma substância alucinógena. Ela se contorcia, olhava para todos os lados, tremia as maos. O pescoço virava quase em 360 graus, ela olhava para todas as direçoes. O rapaz ao seu lado saiu do transe musical e passou a olhar desconfiado para o que estava acontecendo ao seu redor. Acho que ele comecou a ficar receoso de qualquer reaçao extremada da mulher transtornada que nao conseguia ficar quieta. Ou ficou com medo de tomar alguma cacetada. Mas a polidez canadense o impedia de qualquer reclamaçao pelo incômodo.

O ônibus continuava seu percurso na rua Sherbourne. Mais algumas paradas, a garota deu um salto do banco onde estava sentada, abriu a porta do veículo e ganhou a rua, correndo para encontrar um homem que estava sentado nas escadarias de um pequeno prédio logo ali perto do ponto de ônibus. Ela rapidamente chegou até ele e se sentou ao seu lado, calmamente iniciando uma conversa indecifrável para quem passase por perto. Um conversa de loucos.

O rapaz de cabelos vermelhos continuou o seu percurso. Possivelmente iria descer no ponto da estaçao do metrô. Talvez estivesse indo encontrar o seu grupo grupo musical. Ou sua gang. Nao pude conferir, nao poderia, mesmo se quisesse. Desci antes.

    

12.5.12

O cheiro e o mau cheiro

Não lembro se foi alguém que comentou comigo, ou se li em algum lugar. Cada estação do ano tem um cheiro diferente. Eu nunca tinha percebido isso, até que essa impressão me veio forte nos últimos dias, ao caminhar pela cidade e sentir um aroma diferente.

Não sei dizer se era bom ou ruim. Acho que o cheiro vinha do pólen recém-nascido nas árvores e flores. Ou talvez seja o cheiro dos brotos de alguma árvore em particular, que me fazia lembrar vagamente o aroma de palha molhada. Então isso pode ser agradável ou não, a depender de cada nariz. O cheiro invadia as ruas e era como se estivesse marcando a instalação da primavera e afirmando que o verde chegou definivamente para ficar. Pelo menos pelos próximos sete meses.

Em outro local, em uma das ruas na rua por onde caminho para chegar em casa, neste época em que a temperatura começa a subir, sempre há um cheiro adocicado e agradável que todo ano chega junto com a primavera. Lembra o cheiro de lírio, mas é mais forte. Parece ocupar a rua inteira. Olho para as árvores, suspeito que seja uma variedade com pequenas flores brancas. Naquela rua estreita e residencial há varios exemplares dessa espécie, então é bem provavel que seja ela a reponsável pelo cheiro.

Se a primavera é a estacão das flores, para mim tambem é a estação dos perfumes. Flores e cheiros estão intimamente ligados, não é nenhuma novidade. Mas não conseguiria dizer se as demais estações teriam cheiros, como ouvi alguém afirmar, ou li em algum canto. Não consigo sentir cheiro da neve. No entanto, percebo o cheiro marcante da chuva na terra seca e quente, por exemplo. O mais marcante da neve é o barulho que faz quando se anda sobre ela. Para quem nunca teve a experiência, é semelhante ao som de pisar na areia fofa da praia.

Neste país de clima frio, as sensações térmicas na pele falam mais forte que os aromas, principalmente quando se está ao ar livre. A sensação de umidade do outono e a secura dos ambientes fechados no inverno são muito marcantes. A secura é provocada pelos aquecedores e pelo vento frio que resseca e parte os lábios,

E, para piorar a época fria, com a pequena circulação de ar, em ambientes fechados e com pouca ventilação, qualquer cheirinho vira uma explosão. Os canadenses são bem tolerantes a tudo mas detestam cheiros fortes. Em muitos locais de trabalho, como hospitais, por exemplo, os perfumes são proibidos. Até o cheiro da comida é criticado. Os indianos, pobres coitados, com seus condimentos e aromas fortes, que invadem os ambientes e mudam o cheiro da pele, vivem sob o exame cuidadoso e detalhado dos chatos de plantão.

Então todo mundo toma - ou deveria tomar - muito cuidado com os cheiros corporais. E com os incidentes. Qualquer pum vira um torpedo nuclear de grandes proporções na nação canadense.

4.5.12

Um taxi, a noite

Tomei um táxi que me levou até o monte das realezas. O táxi chegou no fim da noite, quando o transporte público ficou inacessível. Quando a espera era impossível do lado de fora, pelo frio. Quando as bicicletas dormiam sob a capa branca. O veículo me conduzia pela cidade com luzes cortando a noite, que seguia pela cidade que não queria dormir, para não esquecer as suas últimas alegrias. Havia uma impressão de conforto nunca experimentada nos trópicos. A introspecção do frio e os novos personagens da noite. O táxi, grande e confortável, aquecido, de estofamento macio, como um último afago da noite no corpo.

A noitada vinha se encerrando aos poucos no trajeto para casa, entre palavras emboladas e a beleza de apreciar o que estava calado pelas horas avançadas. Havia luzes de todas as cores, clareando os ultimos bêbados, os boêmios resistentes, os vendedores de o que quer que seja, os personagens malditos, as roupas colantes,os saltos mal equilibrados, o resto de perfume aprisionado, os gritos da histeria. Havia nomes sagrados despejados no vento sob forma de insultos. Havia o frio que envolvia todos os notívagos. Havia a neve que retinha o ar de pureza, mas que machucava os ossos. Havia o aquecimento do carro para compensar, ainda bem. A cidade dava os ultimos passos, em pernas trôpegas, antes dormir.

O transporte público, por sua vez, estava cheio de últimas chances, de tentativas frustradas, de derradeiras alegrias, da chamada final antes de o bar fechar. Antes que o frio congelasse totalmente os espíritos notívagos, os últimos estertores da juventude, os suspiros de alegria que fugiam com o tempo. A alegria que eles queriam reter a qualquer custo, os melhores momentos que não ficam quietos.  Aqueles instantes tão intensos, tão rápidos, tão transcendentes, que não se perdem na brisa gelada, que parecem não existir, que eram praticamente sonhos experimentados, que davam uma vontade intensa e quase incontrolável de parar o tempo, como em uma festa inacabada. Um iceberg gigantesco a esmagar o passado.

Eram novidades que pareciam eternas, disfarçadas de aprendizagem, de pessoas de fala estranha e de novas informações. Um aprendizado contínuo e sem fim, cheio de possibilidades e de quebras no tempo. Seriam caminhos que levariam a estradas lindas e cheias de sabedoria, que passariam pela beleza que não entraria no fogo do desejo nem poderia ser tocada.

O veículo cruzava ruas com nomes de santos e pecadores, em avenidas largas limitadas por calçadas e vitrines, onde o poder do dinheiro e da beleza se encontravam. Eu via bebidas ocultas em sacos de papel pardo, sob casacos escuros e pesados, via bolsos cheios de continuações. De alegria, de energia, de prazer, de ilusões, de perdas. Via novas portas que se abriam para a diversão enquanto outras iam se fechando. A noite continuava para alguns, começava para outros e terminava para uma grande parte. O táxi completa o caminho, para na esquina de nome elegante e segue em frente.

18.4.12

Metablogagem

Conheci o mundo dos blogs na época da Faculdade de Comunicação. Depois do e-mail, o blog foi o instrumento de comunicação que veio a seguir. O professor de cibercultura usava um blog para fazer os alunos escreverem um resumo da aula anterior. Ao ver aquele instrumento de publicação tão acessível, gratuito, sem limites, eu fiquei muito interessado e cadastrei logo um para mim. Este aqui.

Mas foi depois da conclusão do curso que tive mais tempo e passei a (tentar, pelo menos) escrever com regularidade. Descobri então uma das melhores características de um blog: a resposta imediata do leitor, com a possibilidade de interação pela seção de comentários. Isso fazia diminuir a sensação de estar enviando palavras ao vento ou guardando papéis para o mofo das gavetas. O leitor agora tinha nome ou pseudônimo e estava ao alcance de um clique.

Lendo e publicando online, comecei a participar da blogosfera e conheci vários blogueiros, de Salvador e de outras cidades. A rede social dos blogs unia aqueles que gostavam de escrever e trocar ideias. Acompanhávamos as histórias de vida, os amores, as viagens, os filmes, as peças de teatro, os shows, as mudancas de comportamento, os problemas pessoais, os fatos políticos. Tudo pelos olhos e ouvidos dos blogueiros, agora transformados em relatos. Era como se transferíssemos e expandíssemos os nossos sentidos, dando poderes a outras pessoas com as quais tivéssemos afinidade. E muitas vezes nem conhecíamos ao vivo essas pessoas, tão interessantes e com tanto a dizer.  Mas conhecíamos as suas trilhas na vida - e os seus olhares e percepções.

Lembro de uma ciber-amiga que escrevia um blog muito legal. Ela se mantinha anônima e se permitia extravasar emoções, alegrias e as angústias nos seus escritos, sem a imposição de qualquer auto-censura. Ela atualmente se dedica aos estudos de doutoramento, talvez até ja tenha terminado, não sei, e à sua rede de comunicação no Twitter. Nunca tive o desprendimento e a audácia que ela tinha ao se expor tanto publicamente - protegida pelo anonimato, é claro. Procuro evitar temas íntimos ou muito espinhosos. Coisa de jornalista, possivelmente.

Se as novas redes sociais Orkut, Facebook e Twitter intensificaram a resposta imediata do leitor, elas no entanto espalharam as letras. A velocidade das redes tira parte da energia útil para escrever textos mais longos e um pouco mais profundos do que os 140 caracteres do Twitter ou cinco linhas de uma postagem no mural do Facebook. Mas nada se perde, nada se cria, tudo se transforma, já dizia a velha lei da ciência aprendida na escola. O que tem acontecido, pelo menos comigo, é que os temas e comentários lançados no Facebook acabam me inspirando, rendendo pequenos posts como este.

O tempo passa rápido, os blogs mais antigos comemoram em torno dos 10 anos de existência. Poucos ainda estão funcionando com regularidade, salvo os ligados aos grandes meios de comunicação. As redes sociais continuam a ocupar o maior tempo dos internautas. A diferença é que agora são milhoes de pessoas no mundo publicando ou republicando diariamente.

De vez em quando volto aos meus arquivos do blog e relembro o passado recente. Leio sobre as mudanças que ocorreram, sobre o que foi marcante. Leio tambem o que não foi dito, o que não foi escrito. Isso talvez seja até mais importante para mim.


12.4.12

Multilinguismo

Há alguns dias recebi um e-mail do grupo Toronto Babel falando que uma rede de tv de Toronto procurava uma pessoa "hiperpoliglota", que falasse seis ou mais línguas, para uma matéria. O Toronto Babel é um evento que ocorre toda semana, às terças-feiras, há mais de um ano, em um bar da cidade. As pessoas que vão a esse encontro buscam praticar línguas estrangeiras, não importa qual seja. Ou inglês, no caso de visitantes ou estudantes no Canadá. Ou mesmo moradores recém-chegados. Então fica gente praticando inglês, francês, mandarim, espanhol, português, russo, italiano e o que mais se imaginar.

O evento é informal, regado a cerveja, vinho e muito bate-papo, terminando sempre no onipresente inglês. Ou no português, como no meu caso, uma vez que os conversadores brasileiros não conseguem deixar de lado a língua pátria quando estão juntos.

A organizadora do evento Toronto Babel, uma estudante de doutorado em Linguística, já virou referência na cidade quando se fala em articulação de pessoas em práticas de linguagem. Por isso os meios de comunicaçao correm para ela quando precisam de fontes.

Falar seis linguas parece algo de seres extraterrestes, mas é possivel em Toronto. Tem gente que vem para o Canadá vindo de pais onde se fala mais de uma língua. Chega aqui e aprende inglês e francês. Adquirido o vício da mala sempre pronta, sai viajando pelo mundo, em estadias mais ou menos longas, vendo novas paisagens, conhecendo gente nova, saboreando pratos desconhecidos e aprendendo novas palavras.

Em outro encontro que às vezes frequento, o de francês, conheci um indiano que me garantiu que falava mais de seis línguas. Ele trabalhava em hotelaria no seu pais de origem e sabia, além de inglês, francês e árabe, as linguas da India: hindi, urdu, bengali, punjabi e outras mais. Além das línguas nacionais, que são o inglês e o hindi, a India tem mais 20 línguas usadas regionalmente. E cada uma delas falada por milhões de pessoas. Como se não bastasse, ainda tem o português que ficou perdido na região de Goa e que ninguém mais fala. Só vi o tal indiano uma vez e não teria como testar se ele falava mesmo a quantidade de línguas que ele prometia. E nem queria essa atribuição para mim. Isso seria trabalho para a rede de tv.

Tenho um outro amigo que com certeza sei que fala cinco línguas: russo, ucraniano - do seu país de origem-, mais inglês, francês e até português, aprendido durante um ano morando no Brasil e que ele fala quase sem sotaque, de uma maneira inacreditável para tão pouco tempo de estadia em terras lusófonas. Sim, este nome pomposo é aplicável a todas as pessoas que falam e aos locais onde se fala português. Ou seja, todo brasileiro é lusófono, queira ou não.

Com certeza a rede de tv deve ter encontrado o seu personagem para fazer a matéria. Os hiperpoliglotas não são seres alienígenas. Com algum esforço eles podem ser encontrados nas grandes cidades do Canadá.

Fiquei pensando se a língua do P poderia entrar na conta das línguas dos hiperpoliglotas.

16.3.12

Tempo de sol e bicicleta

O tempo ficou louco no Canadá. Ainda em final de inverno, a temperatura está chegando aos 19 graus. Aproveito o dia bonito para ir de bicicleta para o trabalho. Quase me arrependo de ter comprado o passe mensal do transporte público, mas já o utilizei bastante e vou continuar usando nos dias de chuva. Os turistas já estão aproveitando a cidade, passeando naqueles ônibus de dois andares e sem cobertura, que possibilitam a vista para todos os lados.

Lembro que, na primeira vez em que cheguei a Toronto, era começo de abril, encontrei temperaturas negativas. Ainda no hotel, acordei durante a noite e levantei para ver a neve cair pela janela. Semanas depois, já em Montréal, peguei uma grande tempestade de neve. Estava na aula de francês e o professor, lembro bem, em tom levemente irônico, nos deu as boas-vindas ao clima de Montréal.  Era final de abril, era para ser primavera. Portanto, é com alegria que vejo, no meado de março,  pessoas nos parques de Toronto, caminhando pelas ruas, pedalando. Sorrindo, coisa difícil de ver no inverno. As mesas de bares e cafés estão espalhadas pela calçada, cheias de gente. Ainda há uma temperatura fria o suficiente para não provocar suor, mas com um belo sol. A primavera chegou mais cedo.

O sol vai abrindo espaço no céu da cidade
As bicicletas estão de volta, a todo vapor, isto é, a toda pedalada. Acabei de aquirir uma nova, de cor azul escuro metálico, com uma barra de suspensão branca. A minha antiga, branca e vermelha, com cara de bandeira canadense, foi roubada há alguns meses no estacionamento de bicicletas na entrada do prédio onde moro. Roubo de bicicleta é uma das ocorrências mais comuns no Canadá.  Por aí dá para sentir o gosto dos canadenses pelas duas rodas.

Li uma frase interessante, em um jornal brasileiro, sobre o atual fenômeno das bicicletas, dizendo que se antes o cara moderno queria ter um carro, hoje ele quer se livrar dele. Achei genial, apesar de parecer oportunismo para construir uma imagem de juventude e modernidade em cima de um modismo talvez passageiro. A frase foi dita por um politico que vai trabalhar pedalando, talvez para angariar simpatia. Ele pessoalmente se beneficiou, perdendo quase 15 quilos.

Fiquei pensando se eu tambem não seria modismo que eu estaria seguindo. Mas, não, não mesmo. A bicicleta faz parte da minha história, não é de hoje. Tirando infância e adolescência sobre rodas, comuns a qualquer ser humano, eu ando de camelo desde a década de 90, já adulto e trabalhando. Eu morava em uma cidade pequena e plana, na qual as bicicletas faziam parte da paisagem. E só não ia pedalando ao trabalho por causa do clima quente demais, que me faria chegar transbordando de suor. E sem possibilidade de banho. Já que a bicicleta não era possível, foi para evitar o ônibus que comprei o meu primeiro carro.

O problema do calor e suor excessivo é menor aqui em Toronto. Mesmo durante o verão, salvo uma ou duas semanas de heat wave, canicule ou onda de calor, a temperatura é bem agradável para pedalar pela manhã, para quem mora a uma distância "pedalável" até o trabalho.

12.3.12

Sabores que rodam o mundo

Ainda não foi por agora que a famosa comida da Etiópia passou a fazer parte do rol das minhas experiências gastronômicas. Mais uma vez o tal restaurante estava fechado. Para as férias de março. Eu nunca ouvi falar nessas férias.

Os donos do restaurante não devem ser bons administradores, de acordo com o que li em comentários na internet. Em um deles, a pessoa anotava que o atendimento não era bom, apesar da cozinha "de diamante". Ele dizia ainda que se o restaurante se preparasse para vender comida para levar para casa, como é bem comum por aqui, poderia ganhar uma fortuna. Mas talvez isso faça a diferença do local. O modo slow food. Comida lenta e bem feita. 

Já que a comida etíope estava de férias, talvez tenha ido passear nas suas origens africanas,  fiquei em dúvida entre os galetos assados portugueses - e seus pratos gigantescos - ou a "cozinha caribenha de Pam", que eu já havia provado e aprovado. Fui visitar a simpática madame Pam, originária da Guiana, que se apoderou da cultura do Caribe para ganhar os seus trocados. Tudo bem, a Guiana está ali na beira do Mar do Caribe, faz parte da liga dos países da região, mas será que o Brasil também não poderia requisitar do mercado turístico a sua porção caribenha?  

O pouco lembrado Amapá está ao lado da Guiana francesa, tem um litoral gigantesco, mas, pelo que pude pesquisar, já que nunca andei por aquelas terras, o Estado não incorpora elementos da cultura do Caribe. O prato mais forte é o tacacá, típico da regiao norte. Dominante como a cultura brasileira é, a feijoada e o churrasco devem ser mais comum por lá do que o "jerk chicken" caribenho. O Estado brasileiro que parece mais dialogar com o Caribe é o Maranhão, com a intensa paixão popular pelo reggae jamaicano.

Na cozinha de Pam provei o prato principal da casa: o roti. Uma espécie de crepe recheado com opçoes de carne, frango, camarão ou legumes, com batatas, grão-de-bico e bastante temperado. O sabor do cominho (ou seria curry?) é bem intenso.  Pedi a versao jerk chicken e, como da vez anterior, aquele molho escuro do frango estava delicioso. O "envelope" de roti é muito bem feito, o molho não encharca o invólucro nem vaza.

Era a cara desse da foto. Bom, né?
Fui buscar mais informaçoes sobre o roti. Na verdade é um pão sem fermento, de origem indiana, que recobre o que achei com cara de crepe. As Guianas, tanto inglesa, como holandesa e francesa - isso é algo novo para mim -, receberam muitos imigrantes chineses e indianos. Os sabores indianos passaram a fazer parte da cultura da América do Sul. Então ficou explicado o sabor apimentado e marcante de curry que havia no prato.

Barriga cheia, mas sempre existe espaço para o café e o doce. E, em plena região portuguesa, nada mais imediato do que pensar em pastel de nata, acompanhado pelo café expresso da padaria. Voltei para casa carregando um daqueles sacos de papel marrom cheio de pães portugueses, crocantes por fora e macios por dentro, como os das melhores padarias brasileiras. Mas com um sabor de qualidade portuguesa dificil de copiar.