7.8.11

Línguas que seduzem

Ainda há muita estrada à minha frente quando se trata de inglês. Apesar de ter estudado e experimentado mais a língua inglesa do que a francesa durante a vida escolar e profissional, o mergulho no francês foi mais profundo. Vários cursos intensivos, sessoes sobre a cultura do Québec, treinamento de francês escrito, um ano de curso técnico com sete horas por dia de convívio na língua de Molière. Várias leituras de autores franceses e quebequenses durante invernos cinzentos em Montreal.

A decisao de vir para Toronto foi rápida e nao sobrou muito tempo para a dedicaçao ao inglês. O convívio em português também nao ajuda muito. Estudo de inglês no Canadá, em sala, foram apenas os quatro meses de aulas diárias em Montreal.

Com a leitura de jornais e livros, o meu vocabulário vem aumentando consideravelmente. Já consigo ler sem precisar ir toda hora ao dicionário. Às vezes um adjetivo ou advérbio fica incompreendido, mas dá para pegar o sentido geral. À medida que a lista de livros aumenta, o entendimento fica mais firme.

Mas é questao de tempo para acostumar o ouvido. Tem uma hora em que nao adianta estudar mais, pois a língua que as pessoas falam nas ruas é muito mais rápida do que a do professor na sala de aula. Entao o tempo, a convivência com os falantes e a exposicao à uma língua serao os grandes professores. Ouvir rádio e tv ajudam muito também.

Em um mundo altamente conectado, a vontade de aprender mais uma língua sempre fica martelando. Seja pela vontade de fazer uma viagem, seja pela influência de um amigo vindo de outro país, seja pela culinária, seja por uma música, seja por uma atraçao qualquer.

Quando eu morava no Brasil uma das minhas grandes vontades era poder praticar outras línguas, poder entender, falar e ler fluentemente. Esse sonho se realiza duplamente no Canadá, em inglês e francês. E, para mim, essa é uma das grandes riquezas deste país, uma das coisas que mais adoro aqui.

Mas o comichao da superficialidade está sempre à espreita. Entao, pensar em estudar mais uma língua? Calma, nada de longos estudos, pois a prioridade agora é o inglês. Mas no futuro poderá ser italiano. Ou alemao. Ou russo. Cada uma dessas línguas tem os seus atrativos e as suas dificuldades. Vejamos.

Italiano. A proximidade com o português é um grande facilitador. Há o fascínio pela culinária do país, a beleza das cidades e do seu povo. A vontade de rodar toda a bota. Como ponto negativo, a restriçao a um único país. Como uma língua tao bonita nao se expandiu mais pelo mundo?

Alemao. A língua mais falada da Europa, mas que também se restringe à Alemanha e Áustria. Ouço falar que o alemao da Suiça é quase outra língua, os suiços dizem que se chama "suiço-alemao". Tenho muita vontade de conhecer o país, mas tenho a impressao de que os alemaes mais articulados e interessantes sabem falar inglês e vao querer praticá-lo, principalmente com uma pessoa vinda do Canadá (olha eu aí me achando...). Além disso, a língua nao é fácil, tem várias declinaçoes (masculino, feminino, neutro).

Russo. O alfabeto cirílico é lindo, parece um código secreto em um filme de aventura. Está aí um grande desafio: aprender um outro alfabeto. Além disso, há várias declinacoes, conjugaçoes verbais e pouca coisa do francês ou do inglês que possa ajudar na aprendizagem do novo vocabulário. Vantagens: os russos, pelo menos os do Canadá, sao pessoas bem legais, simpáticas, gostam de conversar. Vários países do leste europeu e da Ásia falam a língua russa. Muita vontade de viajar pela Rússia, conhecer Moscou e Sao Petersburgo. E também conhecer a Ucrânia.

Entao, o que decidir? Bom, é coisa para o futuro, para daqui a alguns anos.

17.7.11

Tudo isso online

Coisas fantásticas da internet via Facebook. Conhecer uma música francesa por um filme baixado na internet. Ir atrás de informaçoes. Chegar ao site do autor e cantor. Dar um "like" na pagina Facebook do cantor. O cantor convida para ser amigo no FB. Dias depois, ele informa que disponibiliza os arquivos MP3 de alguns dos seus álbuns antigos, justamente o que tinha "aquela" música.

Conhecer mais cançoes, ouvir sem parar uma delas. Publicar um pedaço dessa letra no mural do Facebook. O cantor percebe e dá um "J'aime" em sua publicaçao. Que mais dizer?

Grosseria gratuita

A possibilidade de comentar e receber comentários na internet, sobre qualquer tema, sempre me assustou, desde a época da Faculdade de Comunicaçao. A raiva e a agressividade gratuita, tao comum entre os internautas brasileiros, pegaram o Chico Buarque de surpresa. Quando comparo os comentários feitos nos jornais canadenses online, percebo mais cuidado e respeito da parte dos internautas. Será isso consequencia do maior nível de educaçao? Com certeza, mas acho que nao é só isso. É um certo traço caracterísco brasileiro, que, no confronto sobre uma idéia, parte para o ataque pessoal, em vez de uma argumentaçao mais educada e bem elaborada. Infelizmente, é a grosseria gratuita.

http://www.youtube.com/watch?v=n5LuD2CFhYE

9.7.11

Do lado de cá

Bike, sol forte, calor, praia do lago, livro na areia, água fria. Cisnes brancos. Cherries and blueberries. Verao do lado de cá.

30.6.11

Método de memorizaçao

O canadense foi nadar na piscina do clube. Antes de cair na água, depositou alguns papéis, previamente colocados de envelopes plásticos transparentes, apoiados na placa de indicaçao de velocidade, para que ficassem em pé. Sim, cada raia tem sua própria velocidade (alta, média ou baixa) e uma placa indicativa com sua cor respectiva. Notei uma curiosidade geral entre as pessoas que estavam por perto. Eu estava na mesma raia e nao resisti. Discretamente fui ver do que se tratava. Era uma lista de verbos em italiano, com traduçao para o inglês.

No final de cada volta, o canadense tirava a cabeça da água e lia a lista, para decorar a liçao do curso de italiano. Ou talvez estivesse estudando por conta própria e tivesse acabado de inventar esse método "genial" de memorizaçao nos intervalos da atividade física. Será que se eu fizesse a mesma coisa com uma lista dos temíveis phrasal verbs do inglês, conseguiria aumentar o meu vocabulário? Ou apenas passaria por mais um maluco na piscina?

15.5.11

Faux European manners

Por ter morado dois anos em Montréal e prestes a completar um ano em Toronto, tive e tenho a oportunidade de conhecer as culturas de origem francesa e inglesa que formam o Canadá. Tive o privilégio, assim considero, de vivenciar as duas culturas na pele de um observador estrangeiro.

Os modos franceses indiscutivelmente se parecem mais com os brasileiros. Português e francês sao línguas provenientes do latim e compartilham muitas palavras e entonaçoes. Alguns hábitos também se assemelham. Como, por exemplo, beijar no rosto ao cumprimentar alguém.

O beijo no rosto, na forma de cumprimento, parece ser algo que fascina e aterroriza ingleses, americanos e canadenses, seres de fala e de cultura anglo-saxônica. Mais de uma vez já li sobre o ato de beijar no rosto como se fosse uma prova de emotividade exacerbada. Uma vez foi em um jornal em Montréal, escrito por uma cronista/jornalista de um periódico em inglês. Outra vez foi no livro que estou lendo agora, One Fifth Avenue, da americana Candace Bushnell, conhecida por ser a autora do livro Sex and the City, que deu origem à famosa série de TV.

Madame Bushnell diz em uma breve passagem que beijar no rosto é uma "faux European manner", ou seja, diz que quando um americano beija no rosto, é uma maneira falsa e afetada de mostrar comportamento europeu. Breve tentativa de provar falso refinamento. Como se beijar no rosto fosse privilégio dos europeus.

Na cultura latina brasileira, beijam-se mulheres entre mulheres, homens com mulheres e homens com homens caso haja um grande vínculo familiar ou de amizade. Entre espécies de outras culturas, como árabes, iranianos e indianos, o beijo no rosto entre os homens faz parte da rotina e dos maneirismos sociais.

Mudar de país e de cultura implica em adaptaçao. Entao, nada de grandes manifestaçoes de afeto no Canadá inglês. Se é que o fato de cumprimentar com beijo no rosto pode ser considerado como grande demonstraçao de afeto. Entre os seres canadenses ingleses, o ápice da simpatia consiste na frase "How are you doing?", ou seja, "Como vai você?". Dita de modo enfático, com uma cara simpática. E só. Quem mergulha nessa cultura acaba mudando a maneira de agir e interagir. Quem era acostumado a distribuir beijocas, termina por esquecer (ou negar)o beijo no rosto, que dali para a frente fica lhe parecendo aberraçao.

No caminho da adaptaçao dentro de uma cultura, as pessoas se esquecem que o mundo é mais amplo que parece. Que os beijos no rosto como cumprimentos sao mais disseminados pelo planeta do que a pobre cultura norte-americana e inglesa é levada a crer. O próprio Canadá francês está aí para provar.

4.5.11

Mudanca de hábito

Quando se muda a moradia para outro local, a gente acaba mudando também os hábitos alimentares. Pelo simples motivo do tipo de oferta dos alimentos. Se isso acontece dentro de uma mesma regiao, Estado ou de País, quando se muda de hemisfério, a mudança é gigantesca.

A alimentaçao de uma populaçao está relacionada com o clima, o solo, os recursos hídricos e com o transporte. Isto significa que é natural, prático e mais barato que se consuma o que é produzido localmente. Trata-se de aproveitar os recursos naturais sem ter que recorrer ao transporte de longa distância.

A alimentaçao do Canadá é fundamentada na herança inglesa. Entao, como pièces de resistence, encontramos sanduíches, batatas fritas, salsichas, ovos, bacon, tortas de carne. No entanto, a influência dos imigrantes ampliou enormemente a oferta de alimentos, diversificou o cardápio e sofisticou os hábitos alimentares canadenses. Os chineses trouxeram o arroz, o molho de soja, o frango General Tao e todo o seu menu milenar. Os árabes chegaram com o couscous, o tabule, o homus, o pao pita, o falafel. Os italianos adicionaram as pizzas e as massas. Os mexicanos enviaram as tortillas, os nachos, os burritos. Os gregos legaram souvlaki, o queijo feta e spanakopita. Os japoneses ensinaram o mundo a comer sushi e sashimi. A lista é grande, praticamente infindável.

O Brasil ainda nao tem tradiçao de algo exportável, em termos de culinária ou hábito alimentar, e que se torne assimilável por outras culturas. Feijoada e churrasco sao os maiores candidatos, mas eles nao se mostram facilmente produzíveis em outro local. Pouca disponibilidade dos ingredientes e cortes específicos de carne restringem a produçao e assimilaçao dos pratos brasileiros. Os pratos de dendê da Bahia ou os quitutes da culinária amazônica, mesmo dentro do Brasil, sao consumidos localmente.

Cada local tem as suas maravilhas, nao dá para fazer comparaçoes. Se as frutas tropicais enchem os olhos de cores e o paladar de sumos, os países frios nos presenteiam com as berries: strawberry (morango), raspberry (framboesa), blueberry (mirtilo ou arando), blackberry (amora), cranberry (oxicoco?!). E as cerejas, que para mim e boa parte da populaçao canadense, sao as rainhas da delícia.

Resta entao aproveitar o que cada local tem de bom. Apesar de adorar cookies, muffins, tourtières (tortas de carne), salmao e berries, ando sonhando com pao de queijo, acarajé, vatapá, coxinha de galinha, empada, beiju recheado, doce de leite, paozinho da Bahia (que em Salvador é chamado de pao delícia). Coisas que saciam o estômago e acariciam o coraçao. Em breve mato a saudade.

3.5.11

Livros que chegam

O fácil acesso aos livros é uma das coisas mais bacanas no Canadá. A leitura neste país recebe todo tipo de incentivo. Existem bibliotecas confortáveis, onde se pode passar horas lendo ou pegar emprestados livros, CDs e DVDs para levar para casa. Os lançamentos estao disponíveis sem muita fila. As publicaçoes recebem subsídios do governo e os preços sao acessíveis.

Quando eu morava em Montréal vivia pegando livros nas bibliotecas. Existe uma bem grande, com vários andares, um belo prédio de vidro e metal, bem no centro da cidade, a Grande Bibliotèque et Archives Nationales du Québec, com muitos títulos e em várias línguas. Mas eu preferia quase sempre as bibliotecas dos bairros em que morei, pela proximidade e comodidade.

Se por um lado a obrigaçao de ter que devolver o livro após três semanas é uma coisa chata, por outro lado é motivaçao para nao ficar enrolando e terminar logo a leitura.

Aqui em Toronto aconteceu algo diferente. Nunca entrei em uma biblioteca. Aliás, minto. Entrei uma vez na biblioteca central e fiz o cartao de associado. E nao voltei mais. A razao? Nao precisei, os livros vieram até mim.

Um amigo trabalhou em um condomínio e me trouxe vários títulos descartados por moradores. Achei uma caixa cheia de livros para serem doados, na calçada de uma rua vizinha. Ainda escolhi o que queria. O antigo dono tinha bom gosto. Trouxe Ian McEwan, Doris Lessing e Dan Brown para casa, entre outros. Também comprei livros em francês e inglês a um dólar cada em feira beneficente. Os livros chegaram até mim sem prazo para devoluçao!

O resultado é que a prateleira está cheia. E, como a minha velocidade de leitura em inglês ainda nao é muito alta, ainda tenho muitas páginas pela frente.

27.4.11

Cadê o verde que nao chega?

Daqui a uma semana a primavera chega na metade, pois oficialmente ela teria começado em 21 de março. Mas as árvores ainda estao sem folhas! Se a gente olha com atencao, vê que os brotos estao nascendo, mas ainda vai levar alguns dias (ou semanas) para as paisagens voltarem ao verde total. Essa conversa de estaçoes definidas por aqui é história para boi cochilar. Aqui faz é frio durante 7 ou 8 meses. Mais um mês de primavera, menos de um mês de outono e 3 meses de temperatura razoavel, sendo somente um deles de calor. Que nao é nem um pouco agradável, por sinal, já que o isolamento térmico para o frio transforma os ambientes em fornos durante o calor. Pelo menos aqui em Toronto as temperaturas altas duram mais do que o mísero mês de verao em Montréal. Isso mesmo, o verao em Montreal se resume a um mês. Julho. Ou entre julho e agosto. E que ainda pode ter chuva, como ocorreu há uns dois anos, quando eu morava lá.

Uma característica interessante é que, mesmo com um verao tao curto, a Prefeitura de Montreal, exigencia da tradiçao popular, faz questao de manter piscinas exteriores. Que ficam fechadas por uns 9 a 10 meses por ano!

Em um livro de Michel Tremblay, um dos maiores escritores do Québec, ele reclamava que um local onde as árvores ficavam 5 meses sem folhas nao é bom para se morar. Pois este ano eu estou reparando que as árvores estao sem folhas desde o fim de outubro. Isso dá 6 meses de galhos secos e arbustos retorcidos, ausencia total de verde. Monsieur Tremblay foi otimista.

1.4.11

Keith Haring

Enquanto a primavera nao chega

O inverno acaba mas a primavera demora de chegar. O inverno no Canadá nao dura somente os três meses oficiais. Na realidade sao 5 meses - ou um pouco mais - sem folhas nas árvores. Em Montréal eu vi neve cair no dia 30 de outubro. Em outro ano vi tempestade de neve no meado de abril.

Mas o canadense nao se entrega e, mesmo com todo o frio que ainda resta no início da primavera, se arrisca nos esportes ao ar livre, sem a proteçao de casacos fortes, seja correndo ou pedalando.

É uma pena que parques, lagos e outros locais abertos, de natureza exuberante, só possam ser aproveitados praticamente durante metade do ano. O que o país faz para aproveitar ao máximo é concentrar a época dos estudos durante o inverno. Difícil aí é levantar cedo para ir estudar.

Desde o fim de março a primavera vai aos poucos se instalando. Os sinais vao aparecendo aqui e alí. Os primeiros brotos vao aparecendo. A festa de Saint Patrick, padroeiro dos irlandeses, é comemorada em março e vai animando a cidade. Muita gente veste uma peça de roupa verde, a cor típica deste evento, para lembrar a data. Os pubs irlandeses se enchem de beberroes. Boa parte do Canadá inglês foi formada por imigrantes irlandeses. O verde da festa de Saint Patrick parece lembrar que a verdadeira primavera está para chegar.

"De repente me lembro do verde, da cor verde, a mais verde que existe, a cor mais alegre, a cor mais triste, o verde que vestes, o verde que vestistes, no dia em que te vi, no dia em que me viste". Caetano Veloso, nas palavras de Paulo Leminski.

25.1.11

Entre índios e inuits

É certo: em dia de baixa temperatura ou de nevasca, vai haver dificuldade de transporte. Seja para quem usa transporte público, seja para quem tem o seu próprio carro.

O ônibus está lotado, sou obrigado a esperar o próximo. O seguinte vem confortável, com assentos disponíveis. Mas eu já estou atrasado. Para completar, ainda há ruas interditadas. O trajeto é desviado, tenho que descer em local mais distante, o que estica ainda mais o tempo de caminhada. Se tivesse vindo a pé talvez teria gasto o mesmo tempo, ou menos.

Já conheço alguns rostos que repetem a viagem todos os dias, no mesmo horário, indo para o trabalho ou para os estudos. Os casacos de frio também se repetem e tornam fácil a identificaçao de quem o porta. No inverno eles sao repetidos infinitamente até que se tornem insuportavelmente enjoados. Mas é o tempo em que o frio termina, os casacos voltam para o armário e sao esquecidos até a estaçao do próximo ano.

Em temperaturas chegando a -20, tem-se a impressao de que a média da estaçao (que deve ficar entre -5 e -7) parece clima de primavera. Entao fico tentado a ir caminhando ao trabalho, quando o termômetro subir um pouco. Isso parece possível. Felizmente, ainda nao cheguei ao estágio de alguns malucos canadenses que se agasalham e enfrentam as ruas de bicicleta em temperaturas negativas.

Uma professora que tive em Montréal costumava falar que o frio nao é problema, basta estar bem protegido. No início da vida profissional ela havia morado no Norte do Québec, regiao onde habitam os inuits (esquimós), onde o clima nao dá muita diferença do Pólo Norte e onde só se chega de aviao. Segundo ela, para os moradores da pequena cidade gelada, ir para um local como Montréal - que já é um terror de frio para os brasileiros tropicais -, por exemplo, dentro da mesma província, é como ir para a Flórida. Comparaçao de temperaturas que só canadense entende. Ou acha graça.

Pela história da professora, deu para notar que nao é só no Brasil que os profissionais em início de carreira recebem propostas de trabalho nos cafundós. Ou seja, trabalhar no Norte do Québec nao dá muita diferença de trabalhar no meio da Floresta Amazônica. Nao tem mosquito nem cobra, mas tem urso. E muito gelo e frio.

21.1.11

Para ler um português

O senhor tinha os cabelos totalmente brancos, vestia um casaco de la e eu me dei conta que ele lia um livro de José Saramago durante a curta viagem de ônibus. É uma curiosidade que sempre tenho, confesso agora. Ou me dou conta disso: fico tentando descobrir em que língua lêem as pessoas no transporte público do Canadá. Eu fico tentando achar alguma palavra familiar, um título conhecido, o nome de um autor, entre os livros corajosamente empunhados entre as paradas e as partidas de ônibus, metrô ou bonde - sim, Toronto tem bondes. Claro que o inglês predomina, mas às vezes tem francês, espanhol, russo, línguas orientais e até português! Hoje eu achei alguém lendo em português.

O ônibus estava lotado, em consequência do inverno. Os ciclistas recolheram os seus camelos e poucos pedestres se arriscam a caminhar. Para uma pequena distância de três quarteiroes, as pessoas tomam transporte público. Ninguém quer andar na calçada cheia de neve, com o vento açoitando na pele, dando a impressao que o frio chega a -15 graus, mesmo que o termômetro indique ''apenas'' -8. Nesse clima, míseros dez minutos de espera em um ponto de ônibus sao uma eternidade.

Além do aumento considerável do números de passageiros, estes também aumentam de volume. E nao estou falando do tradicional aumento de massa corpórea que resulta das deliciosas massas, sopas e cremes exigidos pelo inverno. Falo dos imensos casacos que aumentam a circunferência corporal e fazem todos semelhantes a um ''bonhomme'' de neve. Entao fica um aperto danado no ônibus. E todo mundo torcendo que o inverno acabe logo, para poder voltar a caminhar ou ir ao trabalho de bicicleta. Sim, esse sonho é possível no Canadá e suas cidades cheias de ciclovias.

No ônibus cheio, que me fez lembrar os melhores momentos da linha Nazaré-Federaçao, em Salvador, às 6 horas da tarde, com todo o seu esplendor de apertos e cheiros, o senhor passava os olhos pelas longas sentenças de Saramago.

Fiquei com saudade e me deu muita vontade de voltar ler em português. Nada de notícias rápidas e da leitura desconfortável na internet. E sim dizer sim ao prazer de ler no suave aconchego da língua materna, sem a necessidade (ou a precipitaçao) de ir toda hora ao dicionário para aprender o significado de uma nova palavra, seja em inglês ou francês. Se bem que, ao ler Saramago, o dicionário sempre ajuda para aumentar o entendimento entre Brasil e Portugal.

O senhor viu o seu ponto se aproximar, fechou as letras de Saramago e colocou o livro dentro da pasta. Um senhor português idoso e distinto. Poderia ser brasileiro, mas os portugueses estao há muito tempo no Canadá, enquanto os brasileiros sao mais recentes, no máximo há vinte e cinco anos, entao sao mais jovens. O senhor pedia licença para sair do ônibus com um sorriso no rosto. Pedia gentilmente para abrir espaço entre os passageiros amontoados e acolchoados pelos grossos casacos de frio intenso. Ele devia estar feliz em poder fruir da imaginaçao de Saramago.

Lembrei que ainda tenho o moçambicano Mia Couto antes de voltar a qualquer autor em português. Possivelmente ele será a minha próxima parada literária. E lembrei que, infelizmente, há poucos - e disputados - exemplares nas bibiotecas, tanto de Montréal como de Toronto. Acho que só vou ter esse privilégio na próxima mala de viagem que trouxer do Brasil.

Desci no mesmo ponto em que o provável lusitano desceu, na Queen Street. Fui em direçao ao trabalho, aproveitando o caminho aberto aberto pelo português, para conseguir sair do ônibus. Fui seguindo o caminho das Indias.

14.12.10

Na falta de mendigos e vendedores de balinhas, os punks

Os punks sao figurinhas fáceis em Montréal. Vindos de todos os cantos do Canadá, às vezes do outro lado do país, do Oceano Pacífico, lá vem eles para passar o verao na metrópole francófona e curtir os festivais gratuitos de música e teatro.

Eles sao facilmente reconhecíveis. Tatuagens, piercings, cabelos coloridos ou de corte moicano, coturnos, roupas pretas ou de estampa militar, sempre rasgadas. Correntes, couro e tachas em profusao. Quase sempre acompanhados dos seus cachorros.

Mudando de cenário para Toronto, eu tinha acabado de pegar um ônibus. Fiquei feliz de encontrar assentos vagos, o que nao é nem tao difícil de acontecer. Escolhi rápido um local e me sentei. Eu estava cansado, saindo do trabalho.

Nao tive tempo nem de esperar a respiraçao normalizar, quando senti um cheiro forte. Olhei para a o outro lado, em direçao à outra fileira de assentos e vi um punk bem jovem, com boné, piercings em todos os apêndices da cara e cabelos moicanos tingidos de amarelo-ouro. Ao lado dele um filhote de cachorro dormia tranquilamente. Cansado como eu estava, olhei para o bicho (o cachorro!) com uma ponta de inveja. Fiquei imaginando de quem vinha o cheiro, do punk ou do cachorro. Ou dos dois, depois de tao longa e próxima convivência.

Olhei mais à frente e em outro banco também havia um punk, também de boné, cabelo azul e infinitos piercings. E outro cachorrinho, este mais inquieto. O dono-punk tratava de acalmá-lo para nao incomodar as vizinhas do banco da frente, uma indiana e uma chinesa, ou que talvez fosse uma filipina. A diferença é que os filipinos têm a pele mais bronzeada que os chineses.

No desejo pela brincadeira, o cachorro balançava o rabo para os lados e eu conseguia ver a mistura entre os pelos do bicho e as madeixas das orientais, que, tendo absorvido calma e fleuma canadenses, eram incapazes de reclamar, apenas viravam o pescoço e olhavam com leve reprovaçao.

O dono foi fazendo carinho e o cachorro foi acalmando. Os punks também amam. Os seus cachorros.

Crianças e cachorros no Canadá sao os mais dóceis que já vi. As maes circulam por todos os lados, empurrando os carrinhos com as suas crias e estas quase nao choram. Já os cachorros quase nao latem. Seria por causa do frio? Será que se os cachorros canadenses fossem para o calor do Brasil continuariam tao silenciosos?

Pois bem, o cheiro forte continuava. De onde viria? Os cachorros tinham pelo curto e brilhante, indicando bom tratamento. A nhaca parecia vir mesmo dos outsiders. Jovens de pele e olhos claros, canadenses de longa data, possivelmente consumidores de drogas pesadas e defensores de um estilo de vida sem amarras.

Aí eu lembrei da Bahia. Aqui nada de vendedores de balinha, nada de mendigos, de deficientes, nem daqueles performers que vao para a frente do ônibus contar a tragédia das suas vidas nos minutos entre duas paradas e pedir ajuda financeira. Tipo: ''Eu poderia estar roubando, eu poderia estar matando, mas estou aqui pedindo ajuda a vocês...'' Os dramas sao diferentes, mas sao dramas.

Gostaria de estar com a máquina fotográfica para registrar o momento. Mas eu acho que nao arriscaria. Tenho amor à pele, melhor mesmo nao fazer isso. Nao quero saber de punk irado correndo atrás de mim. Tomando satisfaçao, querendo saber se eu o havia confundido com alguma atraçao turística local, talvez algum personagem do Cirque du Soleil.

31.10.10

Dia das Bruxas

Halloween, dia das bruxas. Em Toronto as festividades sao intensas. As casas sao decoradas e as festas acontecem por todos os cantos. As pessoas circulam fantasiadas nas ruas e no transporte público. A data é 31 de outubro, mas bem antes disso já tem canadense se exibindo com máscara, peruca, fantasia ou pintura no rosto. É muito engaçado ver gente de terno e gravata, indo ou voltando do trabalho, ao lado de múmias, bruxas, diabos e o escambau. Uma antiga moradora de Toronto me disse que é um fenômeno recente, de uns dez anos para cá. A festa tem mais tradiçao nos Estados Unidos.

As indústrias de doces faturam alto nesta época. A criatividade nao tem fim. Bombons, pirulitos e jujubas viram caveiras, gatos pretos, esqueletos, olhos de monstros, chapéus de bruxa. As delícias sao oferecidas às crianças para que nao façam nenhuma travessura. Entao, ao saborear um pacote de guloseimas monstruosas, incluindo bala de olho ensanguentado e jujuba de gato preto, lembrei do meu primeiro Halloween.

Acho que eu tinha uns treze anos. A escola de inglês em que eu estudava organizou uma bela festa, que movimentou a cidade. Havia um mapa indicando as casas dos alunos participantes. Na porta de cada uma delas havia um jack-o'-lantern, aquela abóbora recortada com uma vela acesa dentro.

A gente ia passando de carro pelas casas. Estávamos todos fantasiados. Eu saí vestido de fantasma. Eram uns três ou quatro amigos, todos na mesma faixa de idade. Um deles nao era nem aluno da escola. Era uma cidade pequena, naquela época nao havia fiscalizaçao rígida e, aos catorze anos, os moleques viviam de carro para cima e para baixo. A gente localizava as casas e chegava falando 'trick or treat' para encher de bombons a sacola de tecido que a escola havia nos dado.

Acho que nunca comi tantos doces na vida.

5.10.10

Toronto, personagem secundário


Eu estava tranquilamente vendo Chloé, com Julianne Moore, Liam Neeson e Amanda Seyfried. Achei as locaçoes bem bonitas, com neve, ruas nao muito largas e placas de sinalizaçao em um estilo retrô. Depois achei interessante que as personagens marcaram um encontro em um bar chamado The Rivoli. É o mesmo nome do bar em que acontece o encontro Toronto Babel Language, do pessoal do Couchsurfing. Aí eu pensei, que coincidência, um café ou bar nos EUA (pelo menos no filme!) também chamado Rivoli. E ainda fiquei imaginando que o nome originalmente devia ser alguma praça, fonte ou local famoso na Itália, pois Rivoli me parecia algo italiano.

Quando as personagens se encontraram, tomei um susto quando, pela janela do bar/café, vi um streetcar (bonde) vermelho passar. Aí a ficha caiu. Gente, é mesmo Toronto no filme. Nao fizeram nem questao de mudar o nome do bar onde eventualmente vou nas quartas-feiras, localizado na Queen Street.

A partir daí uma série de locais conhecidos desfilam na tela. Allan Gardens, Royal Ontario Museum, Museu de Arte Moderna, um campo de hóquei.

Cloe é o remake de Nathalie, filme francês de 2002, com Fanny Ardant, Gérard Dépadieu e Emmanuelle Béart. Bom drama e bom para quem quiser ver Toronto no cinema, além da sempre talentosa Julianne Moore.

10.9.10

Música para lembrar

Talvez a coisa mais intensa, mais profunda, mais emocionante, mais gratificante de estar vivendo em inglês é poder ouvir e entender - se nao completamente, aos menos grandes pedaços - as cançoes americanas e inglesas que marcaram momentos de história pessoal. :-)))

1.9.10

Calor

Três dias de temperatura acima dos 30 graus sao considerados como uma ''onda de calor'' no Canadá. Para quem é acostumado com o clima brasileiro, isso nao é lá grande coisa. O problema é que, mais adaptados ao clima frio, alguns prédios e locais fechados nao têm boa ventilaçao, entao fica um calor insuportável. Mas que dura só três ou quatro dias. Felizmente.

31.5.10

Fluindo

A noite caminha sem pensar no que poderia esperá-la. Os sons passaram, percebo os movimentos, as luzes, as cores. Com pessoas troquei palavras, entendi o gestual. A cidade ainda fascina, com seus gestos, seus enigmas, suas respostas. As chegadas e as partidas estão incluídas. Há palavras que não entendi. Há histórias dolorosas, que foram ditas em liguagem indecifrável. Há carinho e alguns afagos. Há compreensão e há desentendimento. Há luzes que embelezam a dança, de forma colorida e mágica. Existem olhos que tudo captam. Existem registros que ficarão para o dia seguinte. Existe a permanência e a lembrança na imagem. Há olhos que brilham de tristeza, olhos que querem chorar. Há olhos que explodem de alegria. Há mentes e corpos que só querem viver a sua juventude. Há uma alegria a resgatar. Há opções que precisam se definir. Há compreensão e há cumplicidade. Existem repetições que se perpetuam, que marcaram o tempo, que foram importantes, que superaram barreiras. Há desespero, há esperança ao mesmo tempo. Existe contradição, como em qualquer mente que se divide entre o querer, o poder e o escolher.

20.5.10

Esperando

Ouço ''Say it right'' de Nelly Furtado. A música toca no rádio durante o horário de trabalho. Já acabei de fazer as minhas atividades, mas ainda exite tempo a vencer. Finjo que estou ocupado. A música me lembra um tempo que estive a esperar. Agora novamente é tempo de espera. É época de fechamento de ciclo. Sigo fechando portas e janelas, esvaziando prateleiras, apertando os pontos, riscando as páginas em branco, costurando o que está em pedaços separados. É tempo de mudança. Há alegria e há tristeza, disfarçada de nostalgia. Nostalgia? Nao sei de que. Vou trocar de língua. Mais uma vez. Mudar de língua é mudar de país, é descobrir uma nova pátria. Vou resgatar algo que sempre esteve em mim, que faz parte da minha história, que me toca profundamente, que me diz muito. Assim como a música da cantora canadense.

27.4.10

Andanças

Dia de sol, passeio pelo Parc Lafontaine. Fotos em preto e branco, como se fossem registro do que está por se tornar passado. Muita gente estendida nos gramados, os personagens se multiplicam. Os loucos itinerantes estão lá, com suas guitarras desafinadas. As bicicletas se espalham por todos os espaços. A cidade é realmente um vila histórica de ciclistas. Fotógrafos de fim de semana buscam os seus modelos e os seus objetos.

O percurso segue pela rua Rachel, no coração do Plateau Mont-Royal e do Pequeno Portugal. Pausa na padaria para um soberbo pastel de nata. Essa iguaria é conhecida no Brasil como pastel de Belém, talvez porque uma padaria centenária de Portugal, que também tem o nome de Belém, produza os melhores exemplares do divino doce.

Mais adiante, há outra padaria com uma fila imensa. Fiquei curioso e reparei, pelas vidraças, que em todas as mesas havia o mesmo prato. Esse comércio se adaptou ao gosto local, adicionando ao frango assado português as batatas fritas norte-americanas. As caixas térmicas, para comer no local ou levar para casa, são sucesso e mantêm a casa cheia.

Chega a rua Coloniale. Lembro de Nely Arcand, a escritora que morava por alí e que se suicidou há pouco tempo. Pelos seus livros, pude entender um tanto do que se passa na cabeça das pessoas de Montréal. Compreender um tanto dos jovens profissionais, artistas, atores, músicos e comunicadores que habitam e circulam pelo Plateau Mont-Royal. A morte dela foi uma grande perda para a cultura do Québec.

Passo pela praça de Portugal e vejo, na vidraça do café luxuoso que fica em frente, um cartaz da Copa do Mundo 2010. Gostaria de ver essa festa, especialmente se o Brasil ficar em boa colocação. É a hora em que as bandeiras das nações que compõem o Canadá se desvelam. É o tempo em que americanos do sul e do centro se reúnem em torno time que melhor os representem. Talvez não esteja na cidade para ver o movimento e isso me trouxe uma ponta de tristeza.

A minha destinação fica no mesmo lado da calçada, o Les Bobards. Minha amiga Gabrielle, co-organizadora do evento que vai reunir gente que fala português, espanhol e francês, já está na mesa onde tradicionalmente nos reunimos. Ela havia chegado cedo, saiu do trabalho direto para o bar. Ela rabiscava alguma coisa em um pedaço de papel. Seu espírito criativo estava a falar, acho que eu interrompi. Começamos a falar em francês para a seguir mudar para o português. Minutos depois as pessoas começam a chegar. Adicionar o espanhol ao encontro atraiu muita gente.

No clima

Quase na metade da primavera, cai chuva e neve em Montréal. Aff.

19.4.10

A força da palavra

Há vários anos, eu trabalhei em uma cidade do interior da Bahia. Meu primeiro emprego, eu estava feliz da vida em trocar a vida da cidade grande, no litoral, por uma cidade distante, perdida no mapa e sem praias.

Fiz vários amigos, as pessoas daquela cidade me surpreenderam pela simpatia e facilidade de fazer a aproximação. Vários conservo até hoje, me comunicando à distância, via MSN, Orkut, ou qualquer outra facilidade da informática.

Ontem conversava com um dos melhores amigos que fiz naquela época. E ouvi - quero dizer, li - pela tela do computador, coisas que não imaginava.

Ele atualmente possui uma lan house na cidade e possui a sua graduação e pós-graduação em uma Faculade local. Ele me disse que devia tudo a mim. Fiquei surpreso e perguntei por que ele atribuía isso à minha pessoa.

Ele me disse que eu o havia incentivado a estudar. Na época eu ensinava inglês na cidade e estava mais consciente do que nunca do valor da educação. Eu notava que ele era um rapaz inteligente e trabalhador, mas tinha uma deficiência enorme, principalmente em português, fruto do ensino deficiente da rede pública na cidade.

Eu disse que ele deveria investir nele e estudar mais, que ele era inteligente, que ele era capaz. Na época, ele me disse que não era preciso, que tinha um bom emprego, e que, pelos padrões da sua família, ele já havia conseguido muito, pois entre os seus pais e irmãos, ninguém havia estudado muito.

O tempo passou, mudei de cidade, a gente continuou a amizade. O rapaz acabou por perder o seu emprego, mas nunca ficou parado, sempre se virou bem. Foi a época em que veio a febre da instalação das universades particlulares pelo país adentro. A cidade já possuía universidade pública estadual, mas outras particulares se instalaram.

Ele decidiu voltar a estudar e entrou na Faculade de Administração. A cabeça se abriu mais e ele resolveu ser empreendedor. Com o dinheiro dos seus empregos anteriores, comprou alguns computadores, reformou a garagem da casa herdada dos pais - e compartilhada com os irmãos - e montou uma lan house. A localização da casa, no centro da cidade, ajudou para o sucesso do empreendimento.

Ele concluiu o curso e, não satisfeito, fez ainda uma pós-graduação. A sua pequena empresa vai bem, ele já montou uma casa para sua filha e a colocou em uma escola particular. Agora ele está pensando em estudar inglês para que, quem sabe, eu não duvido nada, ele possa fazer um mestrado.

Pela comunicação via MSN eu pude comprovar que o português do meu amigo melhorou de forma impressionante. Eu disse a ele que eu não tinha nenhuma responsabilidade no seu sucesso, que tudo era resultado do seu esforço. Mas ele insistiu que as palavras que eu tinha lhe dito fizeram mais sentido do que eu imaginava. Ele me disse que as palavras de encorajamento que a gente diz para uma pessoa ficam sempre marcadas na memória. Ele me disse ainda que, quando se deparava com dificuldade nos estudos, ele lembrava sempre: "não posso decepcionar o meu amigo, ele confia em mim". Confesso que fiquei alguns instantes sem respirar, com as lágrimas insistindo nos meus olhos.

E, para completar, ele disse que convenceu duas de suas irmãs a estudar. Elas agora também estão fazendo cursos superiores. Eu disse a ele que isso era resultado do círculo virtuoso da educação. Eu ganhei o dia.

7.4.10

Boulettes

Hoje Montréal amanheceu cinzenta e chuvosa. Peguei chuva nos cinco minutos - que pareciam uma eternidade - de caminhada da estaçao do metro até o meu destino. O guarda-chuva nao foi suficiente e fiquei com as canelas ensopadas.

O Canada sempre me traz novidades climáticas. No meu trajeto na chuva, vi pequenas bolas brancas se mexendo no chao. Pequenas e redondinhas, misturadas com as gotas de chuva que salpicavam a calçada. Meio lento como sou, início de manha, nao entendi nada, quase achei que era alucinaçao. Elas pareciam bolinhas de isopor. Depois percebi que elas vinham do céu e que o barulho da chuva estava mais forte sobre o meu guarda-chuva. Granizo!

2.4.10

Verde

Início de abril e a temperatura chega a 25 graus em Montréal. Melhor acolhida impossível para os turistas que vieram aproveitar o feriado de Páscoa. A cidade está em clima de festa. E pensar que, em abril de 2007, primeira vez no Canadá, as temperaturas estavam abaixo de zero. Algo está realmente acontecendo no planeta Terra. A neve demorou de chegar, só apareceu no final de dezembro e foi embora antes de março começar.

No parque Lafontaine a temperatura de 25 graus convive com as últimas barras de gelo que vão derretendo. Os patos saíram da toca e nadam pelas poças do grande lago, que só estará cheio quando o tempo se firmar.

As árvores começam a reviver e plantas vão brotando, mas ninguém espera. Todo mundo já está com a toalha, cobertor ou esteira estendida no que deveria ser um gramado, mas ainda é apenas terra e raízes. O verde brilhante da grama ainda está por aparecer.

Gente fingindo que está lendo um livro, mas está mais interessada no movimento. Gente jovem reunida em torno de garrafas de cerveja e vinho, devidamente escondidas em sacos de papel e mochilas. Restos de sanduíche fazendo a alegria dos esquilos. Gente jogando cartas, gente jogando jogos orientais, gente namorando, gente batucando, gente tocando violão. É primavera, n'est-ce pas?

24.2.10

Flocos

A neve cai por detrás da parede envidraçada. Aqui dentro a água continua morna, é um óasis de calor sob o manto branco e frio que vai se formando. Os flocos caem suavemente, sem pressa, e montam um espetáculo tranquilizante. Gosto de estar aqui, no meu recanto público que tornei particular.

9.1.10

25.12.09

Merry Xmas

Ainda bem que a salada de Natal ficou bem gostosa. A partir de uma receita simples de salpicao, feito com batatas, adicionamos outros ingredientes. Fiquei com medo de ter carregado no alho em pó, mas o resultado ficou muito bom. Os condimentos secos nem sempre sao fáceis de serem utilizados, pois os sabores estao concentrados.

O jantar de teve peru com molho de laranja e mostarda, carne assada em estilo brasileiro, porco assado, arroz temperado. Muito vinho espumante com licor de cassis. Coquetel de líchia. Vinho tinto. Uma farra. Para completar, pesquei uma garrafa de Amarula na brincadeira de amigo ladrao.

Natal quase sem neve em Toronto, com temperaturas acima de zero. A pouca neve que caiu já derreteu.

6.12.09

Manha

Colocar o casaco, gorro, luvas, sair para tomar um café logo pela manha, ler calmamente o jornal do domingo, enquanto a cidade acorda. Isto é Canada. Os senhores se reúnem para um bate-papo amigável. Tem gente que fica em frente do computador, trabalhando ou estudando, olhando o movimento na rua. Estao todos sós, temporariamente ou definitivamente, mas estao cercados de gente, do cheiro de café e de pâtisseries. A cafeteria é mais aconchegante do que a mudez em frente à televisao ou internet.

20.11.09

Perfeita (in)definiçao

''Os chineses se perguntam sobre Obama. Não sabem se é a cara amável e momentânea de uns EUA debilitados pelos disparates de Bush e pela crise econômica, ou o novo rosto de uma superpotência adaptada a um mundo mais equilibrado e multipolar.'' Do El País.