8.2.08

A festa do mijo II

Enfim, cheguei, junto com as cinzas do Carnaval. Voltei para casa, em Ilhéus. Salvador é sempre uma delícia, mas atualmente não é mais minha casa. É um local gentil, para onde pretendo sempre ir, quem sabe um dia voltar a morar, mas, por enquanto, não é mais a minha casa.

Tenho sempre boas lembranças de Salvador. Duas faculdades, trabalho, alguns bons e queridos amigos, parentes, o mar, a cultura, a diversão. Salvador me transformou. Uma parte de mim pertence à cidade, não tenho como negar. Lá vivi por vários anos e tenho fascínio e orgulho pela cultura popular que permeia a vida na capital da Bahia.

A grande festa de Carnaval e as deliciosas festas de largo. A comida dourada do dendê que, felizmente, também chega forte ao Sul do Estado. Fui criado no dendê do acarajé, do abará, da moqueca de peixe, de camarão e no almoço-banquete da sexta-feira santa. Eu, soteropolitano de coração, tive de discutir com colegas de trabalho - nativos de Salvador - sobre a importância da festa de Iemanjá, no Rio Vermelho. É preciso mudar de cidade para ver o que sua própria cidade tem de bom a oferecer.

Em Salvador aprendi que a cultura popular é um dos maiores bens de um povo. Aprendi que a vida é muito mais do que o quadrinômio (esse termo existe?) casa-estudo-trabalho-lazer. Aprendi que há um mundo africano, índio e branco que permeia tudo, tudo, tudo. Por mais que pareçe ser somente branco, envolto em ternos, cabelos pintados de loiro e ares-condicionados.

O Carnaval é a grande prova da mistura, e que parece mesmo não ter fim. No bloco Skol, na terça-feira, durante a apresentação do DJ Fat Boy Slim, as cabeleiras eram basicamente aloiradas e ruivas, as peles claras. Com certeza poucos falavam português. Mas também havia muita, mas muita gente morena e mais escura acompanhando o trio elétrico. A música eletrônica veio para ficar na Bahia.

Fora das cordas dos blocos, em toda o percurso da festa, havia vários garotos catando latas nas ruas. Alguns pequenos, magros e - mais cruel - descalços e sem nada que lembrasse uma luva. Circulavam lado a lado com as placas da Prefeitura apregoando o fim do trabalho infantil no Carnaval de Salvador. A quem as autoridades querem enganar?

Pulei, curti prá caramba, cantei, dancei, encontrei amigos. Tomei muito S. Ice, aquela bebida enlatada de vodca e limão, que estava por um preço bem em conta, pouco mais que uma cerveja, que também estava muito barata. Convenhamos, uma latona de cerveja gelada, de quase meio litro, por apenas 2 reais é de beber até o cu fazer bico. O chato é só a mijação e a disputa por um banheiro químico ou uma parede qualquer. Isso para os homens, porque a última moda entre as garotas no carnaval de Salvador é o truque do short molhado.

Descrição do evento: agacha-se, entre carros ou em plena avenida, deixa-se o mijo escorrer pelo short. Para dar o truque geral, joga-se um pouco de água mineral entre as pernas. A foliã em seguida se levanta, alegre e faceira, como se nada tivesse acontecido. A festa continua. O cheiro também.

Mas o meu Carnaval mesmo, esse mais particular, foi na quinta-feira. Foi uma brasa, mora? Nada de cinzas. Simbora véio.

2 comments:

Juliana Protásio said...

Oi, Danilo!
Fiquei muito feliz pela sua visita e o comentário no meu blog. Adorei o re-encontro... Beijos grandes

floresdeplastico said...

Puyz, lembrei que Salvador numa semana pré foi o cenário onde eu me agachei e fiz xixi no meo da rua - nem estava tão bêbada, foi por necessidade mesmo. Melhor que esse truque do short molhado, eca pro cheiro depois! :p