30.9.04

O trabalho do caruru e vatapá

Em homenagem aos santos gêmeos Cosme e Damião - e ao meu estômago-, resolvi fazer vatapá e caruru, aproveitando alguns quiabos que ganhei de presente. Mesmo quem mora em cidade grande, às vezes, se o santo ajuda, abocanha alguma lembrancinha que vem da zona rural.

Vatapá, eu já tinha feito uma vez. Caruru, nunca. Fui seguindo as instruções do fabuloso "Meu Caderno de Receitas para Todos dos Dias", de Maria Célia Midlej, a fada madrinha da cozinha do Sul da Bahia. Antes de ser dona de buffet, ela dava aula de culinária. Por isso, o livro é simples e bem didático.

Para começar, toca a cortar os quiabos. Que dureza. Primeiro é preciso selecionar os que estão macios e serão utilizados. Para isso, pressiona-se a ponta inferior, mais fina. Se partir o pedaço inteiro, está bom. Se não partir, e em vez disso abrir, é porque o quiabo está duro e fibroso, não serve para cozinhar. Entre os quiabos que havia ganho, nem todos estavam macios, tive que descartar alguns.

Lavei os quiabos e cortei fora as cabeças. Cortei em cruz e fui picando tudo. A epopéia começou aí. Tem que cortar bem pequeno. Meia hora depois, quiabos picotados, pus em um pouco de água com sal e levei a ferver. Enquanto isso, moí os camarões secos e defumados no liquidificador, separando alguns inteiros para colocar na panela. Peneirei e joguei fora o que não passou pela peneira. Para os gatos (em meu caso) ou para o cachorro. A mesma coisa com os amendoins e as castanhas.

Nas receitas dos vatapá e caruru, a única coisa fácil de fazer é quanto aos temperos. Basta jogar cebolas, alhos, tomates e temperos verdes no liquidificador e bater tudo.

Primeira vez no preparo, achei de colocar muita água e sal nos quiabos. Tive que esperar um tempão para a água evaporar. Aí joguei os temperos batidos no liquidificador e previamente refogados em um pouco de óleo. Adicionei camarão, amendoins e castanhas. Deixei cozinhar. Quase pronto, joguei o dendê, deixei a ferver só mais um pouco. Fim da primeira etapa.

Fiz o vatapá com farinha de trigo. Também pode ser usada farinha de mandioca ou pão francês (de sal) embebido (parece bêbado, mas não é!) no leite. Pus a farinha no liquidificador junto com leite de coco e um pouco de leite de vaca, para misturar sem embolar.

Joguei a massa na panela com os temperos e fui mexendo, mexendo, mexendo (a colher de pau, não as cadeiras!), adicionando mais leite para não ficar grosso. No final do cozimento, o toque de cor e sabor: o dendê.

Entre uma coisa e outra, ainda coloquei alguns pedaços de bacalhau para aferventar e tirar o sal. Retirei peles e espinhas, desfiei. O objetivo era misturar no vatapá, mas, atendendo a pedidos, deixei separado. Coloquei um pouco do tempero (o mesmo do vatapá, que serviu para tudo), azeite de oliva e salsa picada. Depois de tudo pronto, ainda preparei o arroz branco.

A brincadeirinha durou mais de duas horas e meia. Ainda acham que comida baiana é simples. Muito pelo contrário. É trabalhosa, refinada e os ingredientes não são baratos - são todos especiais para a ocasião. Não é aquela comida que se faz com "o que tem na geladeira". Mas o resultado compensa.

Se for bem feita, a comida de dendê não é pesada. O problema é que os pratos quase sempre são sobrecarregados de azeite e leite de coco. Procuro usar o mínimo possível. Comida, para estar saborosa, não precisa de muita gordura. Aliás, comida gordurosa está sempre mal-feita, pode reparar. O que dá sabor é o tempero.

29.9.04

Estratégias e artifícios do cinema
O ato de ver ou rever bons e premiados filmes antigos é sempre um exercício interessante. Muitas vezes as narrativas parecem ingênuas. Outras vezes, a montagem e as imagens parecem toscas, sem o auxílio das tecnologias. Com o perdão da palavra, forte para obras de arte, alguns filmes hoje parecem datados. Ou simplórios, não no conteúdo, mas na forma.

Vi Teorema, do italiano Pier Paolo Pasolini, em DVD que aluguei na Casa de Cinema, no Shopping Rio Vermelho.

Em 1968, em rapaz misterioso (Terence Stamp) se hospeda na casa do rico industrial italiano Paolo (Massimo Girotti). Aos poucos, o estranho envolve-se com todos os componentes da família, incluindo a empregada, o filho e a esposa (Silvana Mangano). Causando a degradação da família burguesa.

Teorema é tido como a obra-prima de Pasolini (1922-1975). Proibido durante anos, em vários países, hoje talvez não tivesse censura 14 anos. Poderia estar tranquilamente entre os filme da TV. Não há cenas de sexo, é tudo sugerido. Mas a censura não era por conta das rápidas cenas de nudez. Era por causa da crítica feroz à estrutura capitalista em que está inserida - até hoje - a família burguesa. Então, para tentar burlar o controle da censura, os cineastas tinham que recorrer às metáforas e alegorias, contando com o entendimento inteligente do público.

A impressão de ingenuidade, ou de marcado pela época, acontece ao perceber os artifícios utilizados no filme para dizer coisas óbvias hoje. Aquilo que o cineasta precisou fazer para enviar o recado do que desejava criticar. Aí residia, sem dúvida, grande parte do talento.

Hoje, o trabalho é mais direto. Se Shyamalan faz uma alegoria sobre o medo presente entre os americanos em A Vila, é porque assim o desejou, para dar mais charme. Michael Moore não precisou nem de ficção: fez um documentário atacando os envolvidos em cultivar o medo dentro do próprio país. Mais incisivo impossível, ainda que não haja em Fahrenheit 9/11 nenhuma crítica a ideologias políticas. Em nenhum momento o capitalismo americano é atacado. Moore critica as ações do governo Bush.


Chamego chamegoso: Ronrom e Kika

28.9.04



O Pensador do Campo Grande
A obra mais famosa do escultor francês Auguste Rodin (1840-1917) pousou na praça do Campo Grande, em Salvador. Uma das 25 cópias da escultura O Pensador, que pertence a um colecionador americano, ficará a refletir sobre a realidade baiana, durante 60 dias.

A peça, feita em bronze e com pátina esverdeada sobre a superfície, foi instalada ao ar livre para não danificar o piso do Museu de Arte Moderna, já que pesa 800 quilos e está sobre um uma base de mármore baiano de 4.300 quilos, totalizando 5,1 toneladas.

Enquanto isso, o homem que pensa vai aproveitar para tomar um arzinho fresco, fora de algum museu. Satisfeito, poderá esticar os olhos e checar os andarilhos que passam para lá e para cá, em suas caminhadas matinais. Longe do teto seguro do museu, estará sujeito a receber algum presente aéreo dos pombos, o que lhe poderá, talvez, conferir boa sorte na estadia baiana.

Quem sabe será procurado pelos cachorros desavisados, que, acostumados ao território livre da praça, levantarão suas patinhas traseiras para homenagear tão famoso personagem da arte mundial.

Algum mendigo passeador, familiarizado com a sombra e o conforto da estátua de Castro Alves, poderá buscar aconchego junto àquele francês e intelectual. Ao confundir cordialidade brasileira com aridez européia, será prontamente demovido do seu objetivo pelos seguranças.

Ainda assim, O Pensador terá bastante tempo para analisar o cenário social e político baiano. Nas madrugadas, com acesso fechado ao público, poderá meditar sobre a pobreza, as diferenças sociais, as eleições e seus candidatos, com tantas promessas de melhorias.

Melhor seria se tivesse vindo durante o Carnaval, para conferir ao vivo a propalada alegria do povo baiano. Instalado em ponto central da festa, poderia ser agraciado com um camarote-homenagem, bancado pelo poder público, assim como foi bancada a sua viagem até Pindorama. Imagine a boca-livre, regada a champagne, foie gras e acarajé com vatapá. O Pensador iria enlouquecer: "Ué, cadê a miséria?".

27.9.04

Passeio de caranguejos

No último domingo. o jornal A Tarde fez reportagem de página inteira sobre a redução dos caranguejos nos mangues da Bahia. Eles agora estão vindo, olha o luxo, de avião de Belém do Pará. O texto lista diversos motivos para a redução: contaminação microbiológica, inclusive por influência das criações de camarões, poluição e redução dos manguezais.

O jornal esqueceu de elencar um outro grande fator: o consumo monstruoso pelos caranguejeiros de plantão. Só um restaurante de Salvador, citado no texto, vende em média 800 unidades dos crustáceos por dia. Imagine isso multiplicado pelo número de bares da capital e do interior do Estado.

Essa conjunção de fatores não dá tempo suficiente ao caranguejo para crescer e ficar de tamanho aprazível para consumo. O consumo, aliás, é algo que exige técnica, concentração e longos anos de prática, além de profunda satisfação. É uma pena.

26.9.04

Escolhas
Uma peça filmada, um texto com momentos de profundidade que dificilmente se vêem no cinema. Em A Dona da História, Carolina (Débora Falabella), 18 anos, descobre o amor com o idealista Luiz Cláudio (Rodrigo Santoro). O tempo passa, Carolina (Marieta Severo) continua casada com Luiz Claúdio (Antônio Fagundes). Quatro filhos criados e longe de casa, o casal decide vender o apartamento em que morou por 32 anos.

A proposta é mudar para um local menor e aproveitar o dinheiro para uma sonhada viagem ao exterior. Só que Carolina agora está na menopausa, passa por reposição hormonal e questiona as suas escolhas de vida. Com direção de Daniel Filho, o filme é baseado no texto da peça de sucesso de João Falcão, encenada também por Marieta Severo e por Andréa Beltrão.

As duas Carolinas dialogam e discutem diferentes caminhos. Ela poderia ter sido uma atriz famosa. Ou uma solteirona amarga que trabalha em uma locadora de vídeo. Ou talvez uma dondoca que se casou por dinheiro.

As relembranças e o questionamento do presente a partir de escolhas passadas de A Dona da História fazem eco aos recentes Efeito Borboleta e Brilho Eerno de Uma Mente Sem Lembranças. É coincidência demais para não notar que o cinema está refletindo a inquietação do ser humano em tempos de futuro sombrio e de escolhas cada vez mais variadas e possíveis. Em um milênio que inicia, parece que todos estão a se perguntar se escolheram os caminhos corretos e se fariam tudo igual novamente.

O texto é bem humorado, o que diminui o peso do drama do envelhecimento e dos conflitos. A reconstituição de época, principalmente das festas, ficou muito bacana. Marieta Severo está excelente, o bom resultado do filme é todo dela. É uma oportunidade para quem não pôde ir ao teatro.

No final do projeção, já na parte dos créditos, preste atenção na belíssima voz que canta a música "Sombra na Roseira", de Tom Jobim. Pensei que se tratava de Maria Rita. Surpresa geral: nada mais, nada menos que Sandy. Dêem a ela um bom repertório e aguardem o show de voz: doce, melódica, uma cotovia. É simplesmente demais, de cair o queixo, de arrepiar. E, por um instante, inacreditável.
Astral
Há dias em que é preciso se alimentar. O sábado foi um desses dias. O alimento vem em forma de conversas, de vivências, de percepções, de discussões, de novas informações. Nem sempre é um tempo fácil, mas sempre é rico. Consiste em mais absorver do que expelir palavras. Mais sentir do que externar. Mais ouvir do que falar. Mais pensar do que agir. Mais deixar fluir. O sábado foi um desses dias.

Hoje, para mim ainda sábado, o planeta Júpiter entrou em Libra, a quinta casa dos geminianos, o recanto das diversões, dos amores, da criatividade, da poesia. Júpiter é o planeta da expansão, da proteção, da boa sorte. Novas promessas, bons argúrios. Nâo dá para reclamar. É só esperar.

24.9.04

Juventude nos 70
Gosto muito de uma livraria no Pelourinho chamada Espaço do Autor Baiano, mantida por uma parceria do Instituto Pedro Calmon e do Governo do Estado. A preço acessível, estão disponíveis obras que não se acham em outros lugares. Comprei Poesia Completa, de Sosígenes Costa, e um exemplar da coleção Dramaturgia da Bahia, com três peças de Cláudio Simões.

Sosígenes Costa é baiano de Belmonte, nascido em 1901 e falecido em 1968. A maior parte da vida morou em Ilhéus, onde escreveu sua obra, de grande qualidade. No longo poema Iararana, deuses gregos unem-se à mitologia indígena brasileira para contar a história da origem do cacau no Sul da Bahia. No livro de Claúdio Simões estão os textos de Quem Matou Maria Helena, Quem Não Ama Não Mata (Abismo de Rosas) e Nada Será Como Antes. Assisti às duas últimas.

Gostei muito de Nada Será Como Antes, que vi na segunda temporada, no Cabaré dos Novos, no Teatro Vila Velha, encenada pelo grupo Argonautas, com a presença de Lucci Ferreira no elenco. Na primeira, em lugar dele estava Vladimir Brichta. A peça é um musical que mostra as aventuras, os amores e os dramas de um grupo de amigos, moças e rapazes, às vésperas do Vestibular, nos anos 70 em Salvador.

Quando a asssiti, acho que em 1999 ou 2000, tive muita identificação com aquele ambiente. Apesar de ter vindo para Salvador no final dos anos 80, tudo foi muito parecido comigo: a vivência na nova cidade, a experiência de dividir apartamento com outras pessoas, as idas à praia do Porto da Barra, os romances.

Ler o texto após assistir à peça é interessante para ficar relembrando os momentos da encenação, dirigida também pelo autor. O texto é simples, direto, sem literatices exageradas, com bom humor e ritmo ágil.

Adoraria ter em mãos os textos de cada peça, antes ou depois de assistí-la. Aposto que iria fruir muito mais. Ou não.

Kandinski

23.9.04

Mais Arrocha

Por que tanta gente insiste em diminuir o valor do ritmo Arrrocha? Que mania é essa de criticar antes de perceber a cultura popular enquanto fenômeno de massa?

É certo que o Arrocha não é um "novo movimento cultural", como tenta ser vendido por produtores locais. Não provoca nem traz em si nenhum lampejo de criatividade. É simplesmente uma nova forma de tocar e dançar músicas populares, novas ou já consagradas, em ritmo próximo ao bolero. De criatividade não tem nada. Talvez por isso o modismo não dure muito tempo. Talvez.

A gozação que se ouve e lê por aí, feita com o ritmo, parece ter um dos pés fincados em preconceitos com a cultura popular, produzida e consumida principalmente por classes de baixa renda.

O Arrocha talvez também não consiga o alcance do axé e do pagode. Talvez não seja batucado em ônibus. Talvez não seja tocado em uma roda de amigos, durante o intervalo da aula na escola pública ou particular. Talvez não seja batido em latas pelas ladeiras de Salvador. Talvez ninguém leve um órgão eletrônico para tocar no boteco, com se faz com o cavaquinho, típico do pagode.

O Arrocha não traz em seu interior a batida forte dos tambores que consagram os ritmos afro-americanos. Mas, ainda assim, contagia uma multidão de pessoas, seja de pele clara ou escura, com creme hidratante ou não no cabelo, morenos de olhos claros, escuros ou com lentes de contatos coloridas. Pessoas que irão aos shows e terão que esperar o dia clarear para voltar de ônibus, como sempre fazem ao sair à noite.

Não morro de amores pelo tal do ritmo. Não sei dançar. É difícil, tente para ver. Exige muito molejo e coordenação de passos. Ainda assim, prefiro o tom romântico do Arrocha ao estilo quase sempre desrespeitoso e grosseiro dos tigrões, lacraias e outros bichos.

22.9.04

Romance chinês

Na época da ditadura de Mao Tse-Tung, na China dos anos 70, dois jovens burgueses são enviados para uma aldeia nas montanhas para "reeducação", ou seja, para verificar como é dura a vida no campo. Lá os dois amigos conhecem uma moça, a costureirinha, que vai balançar os seus corações. Balzac e a Costureirinha Chinesa (França, China, 2002) é dirigido por Daí Sijie (foto), chinês radicado na França, também autor do romance de mesmo título, sucesso de vendas, que gerou o filme.

Um dos jovens decide ensinar a moça a ler, contando com a ajuda de livros "proibidos" pelo governo chinês, como os de Honoré Balzac. O romance vai se desenrolando. O outro rapaz permanece sempre por perto, apoiando a relação e sofrendo, talvez por ter que abdicar do amor da costureirinha em função do amigo.

O filme é delicado, uma bela narrrativa, de ritmo envolvente, que aborda um período histórico só possível de ser mostrado agora, no atual momento de abertura econômica e cultural chinesa.

Podem até não concordar comigo, mas há uma outra história dentro da história principal. Um sentido subliminar, muito tênue, que o diretor magistralmente só registrou com imagens, sem palavras. O desejo do chinês que apóia o romance não é tanto pela costureirinha. É pelo amigo.

Não há nenhum diálogo que deixe a atração clara. Percebe-se por olhares e por conta da dedicação e cuidados dispensados ao casal. Pela aproximação e abdicação em função do outro, como se fosse uma relação a três. A impressão se cristaliza no encontro dos dois amigos, anos depois. Não estou fazendo nenhum juízo de certo ou errado nisso.

Não li o livro Balzac e a Costureirinha Chinesa, estou com o segundo do autor , O Complexo de Di, para ler. Se o filme é dirigido pelo próprio escritor, é muito provável que o real sentido do texto tenha sido mantido na tela.

21.9.04

Conta, vai
A madrugada chega e o vinho me atiça. O aroma amadeirado sobe à cabeça me deixando tonto e sensível. O gosto do vinho tinto que permanece rascante na língua. Eu me revolvo e me contorço cheio de lembranças que me atormentam. Volto ao passado recente e vejo pêlos que se acumulam próximos à minha boca e ao meu céu de estrelas. Lembro de gostos que passam como imagens rápidas de cinema, em um filme ágil de ação e drama.

Lembro dos cheiros fortes que atormentavam as minhas sugestões de desejos, que permaneciam se repetindo e repetindo, soando como sinos insistentes em minha cabeça. O desejo que se revelava cada vez mais intenso e irreconhecível, sob a forma de descontrole, de doce desespero.

O vinho sobe à mente por brumas azuladas e macias, que me fazem sentir como em um sonho inquieto. Imagens que se propagam em ondas contínuas, que distraem os sopros de criação. O vinho é quente e é colorido em um tom indefinível, que produz manchas resistentes em meus arredores, um legado para a posteridade imediata. Com os aromas, permitidos ou não, desfaço a teia que me aprisiona em conceitos pífios. Consigo alcançar uma dimensão ainda não imaginada e pouco prevista em uma atmosfera de palavras mágicas, que vão aumentando e aumentando, prestes a explodir. Palavras que podem ser ásperas, podem ser gentis, podem aprisionar e podem transportar para outra galáxia.

E a madrugada vem, resistente. Fruto da semana que se arrasta para carregar o peso deixado no caminho. A noite, aquela que chama com suas vozes soturnas de intranquilidade, traz novas sugestões. O vinho é da cor da noite e tem o sabor do amanhecer desolado, brilho saturado de informações dispensáveis, ansiando pelo sol que irá nascer para trazer um dia com mais alguma esperança.

A noite comanda um lote de oportunidades imperdíveis, de realização do que a semana prometeu. Três horas de promessa de felicidade eterna, planejada por outras longas horas. Alguns minutos de lento desespero, de vazio inclemente, de dor pungente. As horas passam e a promessa se esvai como a fumaça azul do cigarro.
Migrante

Ela chegou assustada e ressabiada, olhando para todos os lados, procurando reconhecer o novo ambiente. Acostumada com sua rede de conhecidos, o lugar diferente lhe soou amedrontador, com suas novas cores e odores, as pessoas expansivas, mas um tanto esquisitas. "Serão confiáveis?", pensou. Parecem dispostas a colaborar. "Será que fiz boa opção em vir para cá?"

Aos pouquinhos ela foi conhecendo o território. Gentil e com delicadeza, ela foi se aproximando, chegando, chegando. Em pouco menos de um mês, ela já faz parte da família. Ela se refestela com toda a sua graça sobre os corações entregues à nova candidata à senhorita simpatia.

Com gestos suaves e passos macios ela caminha por ruas e corredores. Quando menos se espera, ela chega derramando charme em passos sensuais. Agora, já dona da quitanda, ela dá as cartas. Faz e desfaz, pinta e passeia. Atrai os olhares dos mais desligados. Tornou todos dependentes da sua presença.

20.9.04


Romântico
Estréia em breve nos cinemas um filme sobre a vida do músico e compositor Cole Porter, autor dos clássicos Night and Day e Begin the Beguine. O trailer já está passando. O título é Delovely e tem a participação luxuosa de Alanis Morrissette, Sheryl Crow, Diana Krall, Robbie Williams, Mick Hucknall, Natalie Cole, entre outros. Imperdível.

19.9.04

Vamos repartir o bolo

Está circulando por aí uma espécie de corrente da felicidade diferente. É a receita do Pão de Padre Marcelo Rossi. Funciona da seguinte maneira: a pessoa recebe de algum conhecido uma porção do fermento "que veio de Jerusalém", junto com a receita do pão. Seguindo os passos, "os seus bens espirituais e materiais serão aumentados, de acordo com suas necessidades".

A preparação se dá em três etapas. No primeiro dia, trata-se de ampliar o fermento adicionando leite (1x), açúcar (1x) e farinha de trigo (1x). No segundo dia, mais farinha de trigo (1x). Sempre misturando e deixando tampado, à temperatura ambiente. No terceiro dia é que o fermento está pronto para ser utilizado. Deve-se então separá-lo em quatro partes. Fica-se com uma delas, para preparar o pão, e passa-se as restantes para três pessoas da família ou conhecidas, junto com a receita, para dar continuidade à corrente.

O pão, na verdade um bolo, fica uma delícia. Leva mais farinha de trigo (1x), açúcar (1x), óleo (1x), ovos (3, claras em neve), sal (1p), fermento em pó (1c sopa ), maçã picada sem casca (1), passas (4x) e essência de baunilha (gotas). Depois de pronto, após 40 minutos de forno, polvilha-se com canela e açúcar.

O fermento "de Jerusalém" vai fazendo bolhas e cresce bastante. É preciso, portanto, passá-lo para uma vasilha maior, para que não transborde. O interessante é que a quantidade de fermento em pó recomendada na receita é suficiente para fazer um bolo normal, como se não houvesse nenhuma levedura prévia, seja de Jerusalém ou da Bahia.

Deve-se reservar um pedaço do pão para a pessoa que lhe passou o fermento e repartir o restante entre família e amigos, sempre com as mãos, "para comer da mesma maneira que Jesus fez". O difícil é sobrar alguma parte para contar história.

Ganhei o fermento de uma amiga, junto com um pedaço do bolo. Imaginei logo que não iria prepará-lo, depois lembrei do sabor e fiz hoje pela manhã. Agora, meio-dia, metade da assadeira já foi embora.

18.9.04

Super size, super size me

A cultura do fast food, típica americana, é atacada ferozmente em Super Size Me, documentário de Morgan Spurlock. Em português,o filme leva o subtítulo A Dieta do Palhaço, em referência ao palhaço-propaganda Ronald MacDonald - e ao consumidor de hamburgueres.

O protagonista, o próprio diretor, aumenta 11 quilos em 30 dias, por conta de refeições somente na rede MacDonald's. Além do peso extra, são detectados aumentos de colesterol, gordura no fígado, diminuição na libido, problemas depressivos. Super Size Me faz uma análise criteriosa da ação da alimentação na saúde, com a opinião de médicos, a partir de exames.

Junto com a crítica à rede de lanchonetes, que promove programas para aliciar (!) os consumidores desde crianças, vem o questionamento aos hábitos alimentares da maioria dos americanos, que incluem porções gigantescas de refrigerantes, batatas fritas, sanduíches e doces. Vem daí o "super size", o tamanho extra, ou super.

É interessante imaginar como o cineasta conseguiu realizar o trabalho sem levar processos judiciais. Talvez se isso tivesse acontecido, a publicidade teria sido ainda maior. A direção do McDonald´s evitou qualquer contato com o cineasta durante as filmagens.

De certa forma, o filme dá certa visibilidade à rede de lanchonetes, que é mostrada em detalhes. E, de início, ao ver o cineasta-ator devorando lanches, dá até fome e vontade de ir provar um sanduíche daqueles. Mas logo depois, com os problemas de saúde que vão acontecendo, vem a saudade do feijão com arroz.

Morgan Spurlock não suaviza na crítica e mostra um gordo e ávido consumidor de refrigerantes (8 litros por dia) precisando se submeter a cirurgia de redução de estômago.

O filme tem boa estrutura narrativa, com efeitos visuais ilustrativos e bom humor. Tem aproximadamente 1 hora e 40 minutos de duração, o que o torna menos cansativo que Fahrenheit 11/09.

16.9.04

Para meditar
O Centro de Raja Yoga Brahma Kumaris, organização internacional reconhecida pela ONU, promove as palestras Viver mais, preocupar-se menos, no dia 17 de setembro, sexta-feira, às 19h, e Resolução de conflitos, no dia 19 de setembro, domingo, às 18h30. Ministradas por Ken O’Donnell, coordenador na América do Sul da Brahma Kumaris, as palestras acontecem na sede dos Barris, na Rua Rockfeller, 80, em Salvador.

Ken O’Donnell é australiano, radicado no Brasil, praticante de meditação Raja Yoga há quase 30 anos. Consultor internacional nas áreas de qualidade e desenvolvimento organizacional holístico, é palestrante e autor dos livros A Última Fronteira, A Paz Começa com Você, Lições para uma Vida Plena, A Alma do Negócio, Novos Começos, No Olho do Furacão, Raízes da Transformação, Endoquality e Caminhos para uma Consciência mais Elevada.

A entrada é fraca. Estacionamentos próximos: em frente ao shopping Piedade e em frente à Biblioteca Central.

15.9.04

Rei dos cavaleiros
A lenda dos Cavaleiros da Távola Redonda já teve várias versões para o cinema e TV. Em Rei Arthur (King Arthur, EUA, 2004), que entra em cartaz a partir de sexta-feira, o foco é menos na fábula e mais na tentativa de arrumação das circunstâncias no período histórico.

O Império Romano se estende por vários países, incluindo a Bretanha (ou Britain, hoje a Inglaterra), onde conta com a aliança de Arthur (Clive Owen), líder dos Cavaleiros da Távola Redonda, entre os quais se inclui Lancelot (Ioan Gruffudd). Arthur deseja abandonar a Bretanha e ir para Roma viver em paz. Em sua ultima missão contra os saxões, percebe que, quando Roma cair, a Bretanha precisará de um líder. Com a orientação de Merlin (Stephen Dillame), desta vez sem poderes mágicos, e apoio da guerreira Guinevere (Keira Knightley, queridinha atual de Hollywood), Arthur decide ficar no país para liderá-lo.

A atuação de Clive Owen merece destaque. Dirigido por Antoine Furqua, Rei Arthur é basicamente ação com muitas cenas de batalhas, que receberam edição para diminuir a violência e conseguir censura mais branda nos Estados Unidos.

14.9.04

Mas não é só o mineiro. É o homem, o ser humano. Eu, o senhor ou qualquer um... (Nelson Rodrigues)

O XIX Curso Livre de Teatro da UFBA traz a montagem de Otto Lara Resende ou Bonitinha mas Ordinária, de Nelson Rodrigues (foto), para o Teatro Martim Gonçalves. A peça mostra os conflitos de Edgar, que ama a vizinha Ritinha, mas escolhe se casar com Maria Cecília, a filha caçula de um milionário. Descortina-se daí uma teia de prostituição, suborno, estupro e interesses, com muitas revelações.

O Martim Gonçalves é um teatro em construção: sem poltronas, sem ar-condicionado, sem isolamento acústico, iluminação precária. Não tem nem porta. Aparece até um morcego ou outro voando. O local faz lembrar aquela música: "Era uma casa muito engraçada, não tinha teto não tinha nada".

O público fica sentado nas arquibancadas de cimento, com dureza suavizada por pequenos colchões de tatame. A Escola de Teatro não tem verba para terminar a obra e aguarda ajuda do poder público. Mas é justamente aí que, com todas as dificuldades, pode-se ver a força e o amor com que atores e diretores se dedicam ao teatro.

A direção é de Paulo Cunha. Do cenário áspero - só há uma cama em um ambiente cinzento, de cimento cru -, mas cheio de possibilidades de entradas e saídas, os personagens de Nelson Rodrigues tomam forma, com as suas taras, perversões e neuroses.

Na época do lançamento da primeira montagem, Otto Lara Resende, jornalista e escritor mineiro, que fazia parte das relações de Nelson Rodrigues, ficou indignado com o título. Mais irritado ainda por imaginar que o público poderia achar que a "bonitinha mas ordinária" poderia ser ele. Recusou-se então a assistir à peça. Nelson era mesmo um mestre no teatro e na pirraça. No texto, a expressão "O mineiro só é solidário no câncer" guia os personagens e é repetida à exaustão.

Bem verdade que a frase quer dizer que quando a pessoa perde tudo, não tem mais nada, pode revelar o seu lado positivo ou altruísta. Mas, para quem assiste a peça, a repetição soa como uma grande provocação. E, em se tratando de Nelson Rodrigues, não é possível fazer observação definitiva sobre a finalidade.

As oito atrizes do Curso Livre - não há nenhum homem na turma - contracenam com outros atores com mais experiência, alguns que também já passaram por edições anteriores do treinamento, como os do Nata (Núcleo de Aperfeiçoamento do Trabalho do Ator), Bruno Neves e Klleper Reis. Mais quatro atores convidados: João Paranhos, Marcos Soares, Neyde Moura e Sérgio Telles. O diretor Paulo Cunha também atua. Bruno Neves apresenta evolução em sua atuação, com melhor desempenho do que em Beijo no Asfalto, também sob direção de Paulo Cunha.

O espetáculo tem duas horas de duração. Difícil de encarar com a falta de poltronas. Só se vê gente se remexendo, tentando diminuir o desconforto. A recompensa é o texto pungente de Nelson Rodrigues, junto com a dedicação dos atores e a direção mais que bacana de Paulo Cunha, que oferece momentos memoráveis como o encontro de todos os atores usando máscaras, evocando atividades circenses e evoluindo para um bacanal, no qual as máscaras, desta vez as sociais, são reveladas.

12.9.04

Canto afrolírico

Havia quase quatro anos que Virgínia Rodrigues não se apresentava na Bahia. A cantora baiana promove a carreira musical fora do país. O último disco, Mares Profundos, foi gravado na Alemanha. O show ocorrido no Pelourinho, hoje, foi presenciado por uma platéia educada que demonstrava boa aproximação com o trabalho da mezzosoprano.

No repertório da apresentação, músicas dos discos O Sol Negro (1996) e Nós (2000), este último uma homenagem aos blocos afros baianos. Foi emocionante, envolvente, de fazer brotar lágrimas. Virgínia usa tons de canto lírico em canções da MPB. A cantora parece tomada por alguma divindade que agracia aqueles que estão presentes e usufruem da sua voz que parece não ser deste planeta. É um timbre completamente diferente.

Além de composições brasileiras, também famosas em outras vozes, ela cantou a Ave Maria de Gounod. Foi de fazer crer os mais céticos. Mas ainda não foi dessa vez que pude conferir Canto de Iemanjá, que faz parte do CD Mares Profundos, e é uma das minhas canções favoritas na voz dela.

O Quincas Berro D'Água não estava cheio em demasia, quase todo mundo pôde apreciar sentado. Fiquei assistindo e provando um arrumadinho de carne-do-sol no Pomerô. Pelo show, bastava pagar apenas uma lata de leite em pó como ingresso. Ô vida difícil... Não é por nada não, mas é por essas e por outras que morar em Salvador tem vantagens.

Na mesa ao lado estavam quatro negras bem arrumadas, com cabelos que justificavam o texto publicado aí abaixo. Cada uma delas tinha arranjos diferentes, tranças ou dread locks. Depois fiquei sabendo que uma delas era famosa cabeleleira do Pelourinho, especialista em penteados afro. Ela inclusive havia feito o penteado da cantora e foi citada entre os agradecimentos do show.


Na trança
O baiano não tem medo da inovação no visual. Dos cabelos trançados aos dreadlocks dos rastafáris, passando pela profusão de brincos, colares e pulseiras e pelos tecidos coloridos, o povo da Bahia, pretos ou brancos, não tem receio de ousar.

É nas festas populares que a criatividade fica em alta. Cabelos descoloridos, lentes de contato de todas as cores, roupas customizadas. Vários brincos para mulheres e homens. Sobrancelhas delineadas também para homens. Colares e anéis sempre presentes. Roupas de cores ácidas e motivos tribais. Cabelos quase raspados com desenhos. Òculos escuros de camelôs. Cabelos com gel para umedecer.

A ousadia do povão no vestir e no trato dos cabelos é bem maior do que na da classe média-burguesa. A criatividade contagia até os turistas, que vão logo querendo cabelos e roupas parecidas. E vale tudo, não há o menor preconceito. Para valorização do cabelo, não há limites nos cortes e enfeites. As tranças e os apliques sintéticos podem ser feitos, para homens e mulheres, em todos os lugares da cidade.

O fenômeno não é novo. Há muito tempo, Gilberto Gil usou o cabelo cheio de contas, algo hoje pouco visto. Atualmente, a moda black parece estar mais confiante, valorizada e disseminada. Talvez pela elevação - ou aspiração - de pessoas à categoria de estrelas populares da música, no país ou aqui mesmo dentro do Estado, não há medo de ousar. Os cabelos afro-americanos não se resumem mais aos curtos quase raspados ou aos alisados. Há uma miríade de formatos, cores e texturas.

10.9.04

Leitura violenta
Budapeste, de Chico Buarque, e Abusado, de Caco Barcellos, ganharam os prêmios Jabuti nas categorias romance e não-ficção, respectivamente.

Abusado está em minha estante há um ano e não tenho coragem (leia-se: não faço esforço) para lê-lo. Ando sem querer encarar livros pesados, daqueles que ficam em pé sozinhos: Abusado tem 557 páginas. Uma amiga comentou que o livro é forte, e, pelas poucas páginas que li, é mesmo.

Será que é uma resistência inconsciente à leitura por conta do tema da violência? Quando li Inferno, de Patrícia Melo, também sobre a violência do tráfico de drogas, cheguei a sonhar com o livro. Então percebi a força da boa literatura.

9.9.04

Tema de crônica
De notícias e não-notícias faz-se a crônica. Li no jornal a grande verdade e também título do livro de Carlos Drummond de Andrade, hoje tema de um concurso literário, que me fez voltar no tempo. Retornei à época da escola, quando o livro me foi recomendado. Talvez a época em que a gente lê a maior quantidade de livros de autores consagrados.

Era um período de tanta efervescência hormonal que não permitia a concentração na leitura e o entendimento devido daqueles livros bacanas. Lembro que na adolescência preferi ler Feliz Ano Velho (Marcelo Rubens Paiva), Morangos Mofados (Caio Fernando Abreu), Porcos com Asas, o "diário sexo-político de dois adolescentes" e Com Licença, Eu vou à Luta (não lembro os autores, sei que o último é de Eliane alguma coisa).

Eram livros que continham alguma dose de rebeldia na adolescência ou na vida jovem. As pessoas sempre gostam de se ver espelhadas na literatura. Aliás, até hoje, quem não tem a impressão de que ainda não leu aquele livro fantástico que contenha as suas idéias? Eu precisava ter eco para as minhas inquietações. Precisava entender o despertar do sexo e a minha nova posição no mundo.

Já adulto, pós-adolescente e universitário, vi uma montagem de Porcos com Asas na Sala do Coro do Tca, quando o espaço ainda parecia um galinheiro. Explico. Era um teatro de arena onde não havia assentos, somente tábuas pintadas, como se fosse um circo - ou um puleiro de aves. Quem vê o conforto que é hoje, não imagina o que foi um dia.

Voltando à montagem, foi interessante, bem irreverente. Era um grupo bem jovem, de atores de outro Estado. Com mais idade, vi o texto com outros olhos. É o que seria bom fazer agora com o livro de Drummond, do qual não lembro mais nada.

8.9.04

Comédia no aeroporto
O novo trabalho de Steven Spielberg é diferente dos filmes de ação ou dramas que o famoso diretor de Indiana Jones, Jurassic Park e A Cor Púrpura fez antes. O Terminal (The Terminal, EUA, 2004) é uma comédia rasgada.

Ao desembarcar no aeroporto de Nova York, Viktor Navorski (Tom Hanks), proveniente da Europa Oriental, é impedido de entrar nos Estados Unidos porque o seu país de origem sofreu um golpe de estado, o que invalida o seu passaporte. O viajante é então retido no próprio aeroporto, na área destinada aos turistas internacionais. Com a situação se arrastando por meses, Navorski vai conhecendo a vida no interior do terminal e se interessa pela comissária de bordo Amelia (Catherine Zeta-Jones), que transita por ali.

Comédia inteligente, que critica de forma leve o modo de vida consumista americano, o filme também brinca com tipos irônicos, como o faxineiro indiano do aeroporto, de longe o personagem mais interessante. As referências a Nova York e ao jazz, junto com seres urbanos e neuróticos, dão pistas de que o filme faz certa homenagem a Woody Allen. O Terminal é boa diversão com a chancela do sempre excepcional Tom Hanks.

7.9.04

Procurando Nemo
Eu estava quebrando a cabeça e já pensando em pedir ajuda. Tentava colocar no Festa dos Sentido um mecanismo interno de busca por palavra-chave.

À medida que o conteúdo do blog vai aumentando, o número de visitas procurando informação sobre qualquer assunto também aumenta. Tem gente que chega atrás de receita de vatapá, Rita Cadilac, troca de casais, puteiro na Bahia, caranguejo, Procurando Nemo, festa dos anos 70, como organizar festas de 15 anos e o escambau. Fico dando risada e pensando se realmente escrevi algo a respeito daqueles assuntos ou se é meramente um jogo de palavras.

Muitas das visitas são por meio de sites de busca como Google e Yahoo. Só que as palavras procuradas quase sempre não estão na página que está em tela. Podem estar nos arquivos. Daí a necessidade de um buscador interno.

Cheguei a testar a incorporação de um "search" na página, gravando os comandos em Html, mas não deu certo. Foi então que percebi que o Blogger.com, junto com o Google, já fizeram o trabalho por mim. A tarja em branco aí em cima, no alto da página, é justamente para fazer buscas dentro do próprio blog. Eu pensava que era para buscas em outros sites.

Portanto, se você procura alguma informação já publicada nos arquivos deste blog, é so escrever a palavra e clicar o "Search", que serão listados os links para os arquivos. Que bom que os pensadores do Blogger.com fazem o trabalho para a gente. Se antes cheguei a pensar em tirar a barrinha aí de cima, para limpar o visual, agora estou cheio de amores por ela.

5.9.04



Vai, vai, vai começar a brincadeira
Um leão desdentado, um palhaço esgarçado e o toldo furado faziam a festa na cidade. O circo chegara trazendo alegria. Os garotos curiosos vinham correndo, a pé ou de bicicleta, procurando saber mais da novidade, acompanhavam o movimento das estacas e da lona, procurando pelos animais. O olho mais ávido era na trapezista boazuda, que iria rodopiar pendurada na corda.

A lona tinha tantos furos que parecia roída por traças gigantes. Era o resultado de anos e anos de trabalho pelas estradas do país afora. Ela se lembrava orgulhosa de, nos bons tempos, já ter ido até outro país, de língua rápida e estranha, que ela não conseguia entender o que era falado, mesmo que algumas palavras lhe parecessem familiares. A lona se contentava com os gritos e os sorrisos estampados nas crianças.

Havia um palhaço envelhecido e triste, que buscava o riso em suas memórias enevoadas. O palhaço era o mais mau-humorado da trupe, mas mudava de rumo ao entrar no picadeiro, ao vestir a fantasia do patético. O palhaço contava piadas sujas, sem um pingo de ingenuidade, de fazer corar os adultos e fazer rir as crianças espertas. Piadas de situações grotescas. O repertório do palhaço era um show de horrores.

O domador fazia o leão cansado se esforçar a subir por banquetas desgastadas. O felino merecia a aposentadoria que o circo não lhe concedia. Urrava balançando as carnes flácidas e a juba cada dia mais rala. Dava a impressão de não conseguir se levantar nem atender aos estalidos do chicote.

Nos espetáculos da tarde e da noite, o público aplaudia cada movimento dos artistas. Na pequena cidade, de praça e uma rua só, a novidade se incorporava aos dias sonolentos. Ele então aplaudia o maior espetáculo daquela terra esquecida. Para o garoto pobre, o circo era promessa de um mundo de diversões e ilusões. Uma passagem de ida para a alegria sem fim.




Comida do sertão
No sábado, dei um pulo em Feira de Santana, a "Princesa do Sertão", onde vai começando a região seca do Estado. Chegando lá fui experimentar uma propalada carne de bode assada, servida em um restaurante simples, próximo à universidade. O prato estava bem saboroso, acompanhado de arroz e feijão tropeiro. Provei também fígado de bode assado e costelinha de porco.

Não chega ser um restaurante, é uma barraca arrumada, com uma cobertura sob a qual cabem várias mesas. Fica em um bairro residencial e o local é bastante frequentado pelos estudantes. A relação preço e qualidade dos pratos é ótima. Comi bastante e ainda encomendei para levar para casa. Fiquei pensado como tudo em Salvador é caro, principalmente no quesito comida.

Quando estive em Brasíia, há duas semanas, uma cidade que prima pela fama de custo de vida alto, tive a surpresa de ver alguns preços abaixo dos praticados em Salvador. Quer exemplos? Cinemas, estacionamentos e até alguns restaurantes. E olha que o nível dos salários em Brasília é mais alto que na Bahia. De quem é a culpa? Do turismo, é claro. Quem mora na cidade é que sofre com a concorrência dos visitantes endinheirados e dispostos a gastar. É uma das desvantagens de se morar no litoral.

3.9.04

Duplicidade
A programação cultural de Salvador, diga-se cinema e teatro, anda tão intensa e não tenho tido tempo de ir ver tudo que gostaria. Aliado a isso, há o fato de estar mais ocupado do que desejaria.

Quando estou com menos compromissos, fico ansioso porque acho que estou sem grana, que as coisas não estão acontecendo. Quando estou mais ocupado, fico achando que não tenho tempo para refletir sobre as coisas, para ler e para escrever. Cada lado tem as suas verdades. Vá entender esses geminianos!
Chico no Aeroclube
Ontem fui à estréia do show musical "Uma Noite com Chico Buarque", com o cantor e ator Gustavo Grangeiro, que ocorre todas as quintas de setembro, às 20h30, na Praça de Alimentação do Aeroclube.

Várias pessoas de teatro estavam por lá. Gustavo é ator formado pela UFBA e tem várias peças em seu currículo. No show, ele canta e utiliza humor entre as músicas. É bem legal.

1.9.04

A Vila
No final do século XIX, os habitantes de um vilarejo norte-americano vivem pacatamente distantes da cidade. A paz é ameaçada pelo terror que vem do bosque vizinho, onde vivem criaturas misteriosas, chamadas pelos moradores de "Aquelas de Quem Não Falamos".

Em A Vila (EUA, 2004), o diretor indiano radicado nos Estados Unidos M. Night Shyamalan, também roteirista e produtor, tenta reproduzir o sucesso da trama intrincada e de final surpreendente de Sexto Sentido, que o consagrou no mundo inteiro. Só que, desta vez, sem muito êxito.

No vilarejo, apesar dos avisos de Edward Walker (William Hurt), o líder local, e de sua mãe (Sigourney Weaver), o jovem Lucius Hunt (Joaquin Phoenix) deseja ultrapassar os limites do local rumo ao desconhecido, enfrentando as criaturas do bosque. Lucius é apaixonado por Ivy Walker (Bryce Dallas Howard, estreante, em ótima atuação), uma jovem cega que também atrai a atenção do desequilibrado Noah Percy (Adrien Brody).

O filme passa longe de cativar o público. A narrativa é arrastada e as surpresas parecem artificiais. Em algumas cenas, o terror é risível. Nem o elenco de estrelas consegue segurar a trama. Um dos pontos positivos é a bela fotografia.