28.11.05

Lembranças do México

Final de semana para fazer na-da. Preguiça total. Duas sessões de cinema, leituras e rápido preparo de guacamole, molho mexicano à base de abacate. Para comer com as fantásticas tortillas de maíz (milho), que a minha amiga V. gentilmente trouxe do México, na bagagem de mão, para mim. Além das tortillas, ela ainda me presenteou com salsa picante, jalapeños e salgadinhos de milho picante. Isso é que é cartaz. Ajudado pela pouca disposição de sair para almoçar fora no domingo, devorei as tortillas com guacamole.

Um dos meus restaurantes prediletos, o Aconchego da Zuzu, virou recanto célebre. Foi mostrado em um programa de viagens na MTV como opção barata e agradável, e, por conseqüência, foi virou matéria de uma TV local. Resultado: nenhuma mesa disponível. Na semana passada, domingão de feijoada, tivemos que esperar para que uma ficasse vazia. E isso quase às três da tarde. O restaurante atende em um esquema caseiro, não tem estrutura para muita gente. Tomara que a freqüência não aumente demais.

22.11.05

Seu desejo é uma ordem

Parece até que eu estava adivinhando. O circuito Sala de Arte atendeu aos meus pedidos, reclamados no post abaixo. Eu estava comprando a entrada para Manderlay, de Lars von Trier, em plena terça-feira, preço camarada, quando a bilheteira me ofereceu o seguinte: um cartão da casa, com direito a 20 convites, por 100 reais. Cada convite sai por 5 reais! E, caso esteja acompanhado, pode-se utilizar quantos quiser por sessão. O cartão tem validade indefinida.

Oba! Vou voltar ao cinema nos domingos. Sem contar que, no fim do mês, começa um festival de filmes franceses. Estarei lá.

21.11.05

Campanha pelo preço baixo no teatro e no cinema baiano

Não sou nenhum conhecedor dos cálculos das produções culturais, mas observo o que se passa nos teatros e salas de cinema de Salvador. Depois do aperto que a Prefeitura deu nas carteiras de estudante falsificadas, ficou visível a redução do público em alguns espaços.

O fato é que teatros e cinemas estão muito caros para o bolso médio do freqüentador. Tem produção local que chega a cobrar 30 reais a inteira no sábado. O resultado é menos da metade do teatro preenchido. E muitos convidados na platéia. As salas de cinema comercial não sofreram muito abalo, pois a maior parte do público é composto de estudantes. Principalmente nos “Domingos Selvagens”, a movimentação continua intensa. Aí não há nem como argumentar. As salas de cinema autoral é que parecem ter sofrido maior redução de público.

O teatro baiano, particularmente, anda caro. Depois que deixei de ser estudante, reduzi bastante as minhas idas. Procuro aproveitar as promoções e convites. Mas não tenho ido com a freqüência que desejaria.

Os espetáculos teatrais mais comerciais e os filmes de arte deveriam baixar de preço. Há pouco tempo, uma peça sobre Raul Seixas atraía uma horda de interessados, pela qualidade do espetáculo e pelo preço acessível. Teatro sempre lotado, difícil até conseguir ingressos. O Theatro XVIII, com seus ingressos a 4 reais, está sempre lotado. A peça 1,99, de Ricardo Castro, também. O Teatro Vila Velha tem espetáculos a preços bem camaradas.

Bem que poderia haver uma campanha de meia entrada para todos. Por exemplo, se a peça custa 30, a meia entrada (para todos os pagantes) ficaria em 15. Mais em conta, maior probabilidade de o público se aproximar.

No início deste ano, quando comecei a notar que as peças estavam mais caras, achei até interessante. Pensei que se tratava de uma “valorização” (monetária) do teatro baiano. Mas quando comparei, nas revistas especializadas, com os preços de espetáculos no Rio e São Paulo (descontando aqueles com atores globais), notei que alguns baianos estão mais caros do que lá!

Abaixem os preços já! Perde-se no valor do ingresso, mas se compensa no aumento dos pagantes. A conta parece valer a pena.

20.11.05

Gente

Tem gente nova aí ao lado. Gente que visito, com mais ou com menos frequência. Gente que chego na casa sem avisar. Há gente que conheço e que não conheço. Tem gente que estava aí e gente que chega agora. Há velhos e novos amigos. Há gente a quem, um dia, vou ser apresentado. Tem gente a quem, um dia, eu vou me apresentar. Tem gente que eu vou demorar de encontrar. Tem gente que vou ver daqui a pouco.

17.11.05

Twist again

O órfão Oliver Twist (Barney Clark) é vendido para o dono de uma funerária, mas, por conta dos maus tratos, resolve fugir para Londres. Lá ele conhece e recebe ajuda do grotesco Fagin (Ben Kingsley, de Gandhi), que lidera um grupo de pequenos marginais e de prostitutas.

O livro do inglês Charles Dickens, lançado em 1838, já teve várias adaptações para o cinema. A nova versão de Oliver Twist (Inglaterra, República Tcheca, 2005) é dirigida por Roman Polanski (de O Pianista), com boa reconstituição da época vitoriana na Inglaterra, marcada por pobreza e doenças.

Histórias de crianças órfãs tendem a atrair o sentimentalismo, mas Polanski evita e direciona para as desventuras do garoto na cidade grande. Funciona até a primeira metade do filme, mas, daí até o final, o resultado é monótono. Vinte minutos a menos de projeção fariam diferença.

Pagode no teatro


Fazer um curso de teatro está sendo muito interessante para mim. Apesar de ser um tanto circunspecto, tenho deixado aflorar um lado brincalhão e até inventivo, que antes só revelava para as pessoas mais próximas. Outro dia fizemos na aula uma atividade na qual os alunos ficavam deitados no chão e tinham que cantar algumas músicas. Cada pessoa teria a sua vez de cantar as variedades escolhidas.

A primeira teria que ser uma música nacional. Cantei um pedaço de Açaí, de Djavan. Não sei por que, pois nem gosto muito dele. A segunda teria que ser uma música em inglês. Quem não soubesse a língua, poderia cantar de qualquer jeito. Foi engraçado ouvir gente cantando Nanana nanaananan, enrolando a língua, cantando como se ouve sem conhecer a letra.

Puxei das catacumbas a letra de Material Girl, de Madonna. Foi a única que consegui lembrar um pedaço em inglês. Acho que fiquei uma coisa fora de série cantando “I’m a material girl”. Hehehe. A sorte é que estávamos deitados e eu não via a cara das outras pessoas. Acho que a intenção de cantar deitado era justamente não encarar os outros.

A letra da terceira música teria que ser inventada na hora. Humm. Na Bahia, achei que deveria privilegiar a cultura popular e inventei um pagode. O Pagode da Periguete. Quer ouvir?

(Gritando) Quebra ordinária

Fui no pagode
Encontrei a periquete
Eu disse fala periguete
A periguete me pediu um chiclete
Eu disse: ô periguete, só se você me pagar um...
Um o quê?
Ô periguete
Ô periguete


Que obra-prima! Olha que pérola da MPB.
Teve gente que deu muita risada.

15.11.05

Glauber mais uma vez

Depois de mais ou menos um ano, fui ver novamente Esse Glauber , no Theatro XVIII, que eu tinha visto logo depois da estréia. Desta vez, achei que os desempenhos dos atores quando cantam está bem melhor, com mais segurança e leveza.

Na atuação, R. Assemany, como sempre, brilhando, emocionando e arrasando no papel da cordeira (aquela que segura a corda do bloco de Carnaval) Todo Mundo. D. Lopes conduz o papel do cordeiro Qualquer Um com muito talento, cheio do molejo de um baiano “típico”. O texto é primoroso, a peça merece ser vista mais de uma vez, para permitir a absorção de mais informações. A crítica é pesada à indústria baiana do entretenimento carnavalesco.

Esse Glauber é um espetáculo para quem quer conhecer mais da Bahia que fica ofuscada pelas luzes das festa do Carnaval e para saber mais da população de cedeu espaço nas ruas aos camarotes. A praça, antes palco de festas animadas, já não é mais do povo.

A Bahia que, em Estados como São Paulo, virou sinônimo de preguiça e burrice, mas que serve de balneário concorridíssimo entre os mesmos paulistas. A Bahia que paradoxalmente é objeto de escárnio e de desejo. “Quem desdenha, quer comprar”, dizia o meu pai.

As músicas e as epístolas a Glauber Rocha são um capítulo à parte. Os atores se despem momentaneamente dos personagens e se tornam cantores e oradores vigorosos. A direção musical de Jarbas Bittencout é responsável por grandes momentos. Aplaudi o espetáculo, novamente, de pé e com vontade.

Uma provinha de A. Franco:

Canção da Vida de Camarote

"Quando eu morrer
Eu não quero ir pro céu
Quero ir prum camarote (...)
(balançar o meu chicote)

Vivo eu não entro
eu não tô no poder
Não sou gostoso
nem ganho pra ver,
Não sou modelo
Nem ator de TV
Como é que eu entro?
Só se eu morrer
(...)

Num camarote
Não existe "pobrema"
A vida lá é melhor que cinema
tudo de grátis com vista pro mar
é só morrendo que eu vou frequentar."

12.11.05

Receita

Especial para os famintos leitores. Tá com fome? Abriu a geladeira e não tem nada para comer? Os enlatados acabaram e sua fome continua? Seus problemas terminaram. Abra a gaveta de temperos e experimente este molho com uma boa massa. A receita é para 2 pessoas.

4 dentes de alho cortados ao comprido
1 cebola cortada em rodelas finas
5 tomates bem vermelhos
1 colher de sopa de alcaparras
8 azeitonas pretas sem caroço e picadas

Refogue o alho em um um pouco de azeite de oliva sem deixar dourar. Adicione a cebola. Cozinhe mais um pouco adicione os tomates em pedaços não muito pequenos. Deve-se tirar a pele as sementes. Se estiver com preguiça, pode colocar tudo junto, fica um pouco mais ácido, mas não se perde o sabor. Adicione as alcaparras. Cozinhe mais um pouco e por último as azeitonas. Não precisa nem colocar água. O molho é cozido no próprio suco do tomate. Adicione sal a gosto e um pouco mais de azeite. Fica uma coi-sa. E ainda passa por prato elaborado.

Este molho é uma variação do tradicional italiano “alla putanesca”. Na versão original leva anchovas, que não fazem falta. Vá por mim e experimente. A receita é de uma prima paulistana, descendente de italianos. Buono apetito.

10.11.05

Consequências da violência

Para evitar um assalto ao seu restaurante, em uma pequena e tranquila cidade no interior dos Estados Unidos, o pacato Tom Stall (Viggo Mortensen, de O Senhor dos Anéis) mata, em legítima defesa, dois criminosos. Aclamado como héroi, é transformado em celebridade pelos meios de comunicação. A fama atrai a atenção de outros criminosos, que passam a procurá-lo, o que irá abalar suas relações familiares.

Marcas da Violência (A History of Violence, EUA, 2005) é o novo trabalho do diretor David Cronenberg (de A Mosca). Inspirado em uma revista em quadrinhos, poderia passar por mais um filme policial cheio de tiros e lutas, mas segue outro caminho. O drama familiar mantém o realismo psicológico. Fica evidente o questionamento se a violência é inata do indivíduo e se o preço da paz é a própria violência.

O elenco conta com as presenças de Ed Harris e William Hurt e vem conseguindo boa bilheteria nos Estados Unidos.

Pausa

Se as palavras não conseguem mover as árvores, é preciso esperar que os bons ventos façam as folhas farfalhar.

6.11.05

O retorno de Crowe

Depois de causar um prejuízo de quase um bilhão de dólares para a sua empresa, Drew (Orlando Bloom, de Cruzada) está à beira do suicídio. É quando recebe um telefonema informando a morte do seu pai. Ele então volta para a cidade natal da família paterna para o funeral. No meio do caminho, ele conhece a aeromoça Claire (Kirsten Dunst) e passa a ter um novo propósito na vida.

A sinopse do filme parece de um drama óbvio ou de uma comédia romântica. O diretor Cameron Crowe escolheu a segunda opção em Tudo Acontece em Elizabethtown (Elizabethtown, EUA, 2005), adicionando algumas pitadas de humor negro, sem descambar para a baixa qualidade. O resultado é um filme divertido, com bons diálogos e destaque para a ótima seleção musical, que mistura rock e blues.

Apesar da presença de um bom elenco, que inclui a atriz Susan Sarandon, e do reconhecimento do diretor por Quase Famosos, seu trabalho anterior, a crítica americana não teve boa receptividade com o filme. Parece que os americanos têm dificuldade em admitir derrotas, seja na guerra, nos negócios ou na carreira profissional.

2.11.05

Cidade da Bahia

As águas, os barcos, as luzes, as ladeiras e as baixadas. O jeito próprio de falar, com suas palavras que não chegam às últimas letras. O vocabulário pincelado de palavrões. Os poros, o suor, os olhares cheios de expressões. Está tudo lá, sob a visão de uma câmera que avança e se aproxima de malandros, barqueiros, marinheiros, prostitutas, travestis. Um microcosmo onde nada é completamente errado e nada é totalmente certo.

Os personagens estão expostos até as entranhas em Cidade Baixa, de Sérgio Farias, com os excepcionais Lázaro Ramos, Wagner Moura e Alice Braga. O jeito baiano atual de falar está na tela, como nunca mostrado antes. Algo somente possível pelo fato de ter os dois atores baianos como protagonistas.

É a Bahia refletida nas águas da Baía de Todos os Santos, talvez o seu maior espelho. Imagens próximas e queridas de quem é da terra. A Cidade Baixa com suas casas decadentes e cheias do limo que escurecem as paredes. Os prostíbulos, os botecos sujos e as prostitutas-dançarinas. Pobreza e falta de ocupação. Música tecno e axé-music. Personagens atualizados de Jorge Amado, que dançam sob um som possível em qualquer lugar do mundo. Uma moralidade diferente, mais próxima e menos perceptível do que a classe média-burguesa imagina.

Cidade Baixa é um filme tenso e pesado, com inserções constantes de violência, mas também com muita emoção e delicadeza, em desempenhos fascinantes dos atores, o que compensa o roteiro que precisaria de uma narrativa com mais a dizer. O que está por trás da concorrência dos dois amigos de infância pela prostituta-dançarina? Uma disputa de um homem pelo outro, em uma tensão sexual que só consegue fluir pela violência? O final aberto do filme deixa ao espectador a elaboração das respostas.

Incorretíssima

“Expresso sola de sapato – é o vale-transporte de pobre”
“Pobre só vai para a frente quando a polícia vem atrás”

Marinete, em A Diarista