30.4.04

Talento oriental
Tem gente que nasce com uma estrela, ou se torna uma. Com muito talento ou com a bunda virada para a lua, a atriz americana Lucy Liu é uma delas. Descendente de orientais, a atriz é baixinha e vesga. Nem de longe passa pelo padrão de beleza que imperam na cultura ocidental. Ainda assim, ela conseguiu se estabelecer em Hollywood. Além do sucesso de As Panteras, a participação em Kill Bill vol. 1 provavelmente a eleva à categoria de estrela cultuada de cinema. Tarantino explora bem a vesguice da atriz.

Quantas modelos de feições germânicas sonham com o estrelato? É aí que entra o talento. Mas o que é isso? Talvez uma mistura de persistência, coragem, um pouco de sorte, disposição, auto-confiança, inteligência e um grande desejo de realização - ou ambição.

Uma pista do sucesso absoluto de Lucy Liu foi quando ela apareceu em Sex and the City, fazendo o papel de uma famosa atriz - ela mesma. No episódio, ela contrata os serviços de Samantha. E elas acabam se desentendendo, pois a RP utilizou a fama alheia para conseguir um objeto, uma bolsa de griffe, que tinha longa lista de espera na loja.

29.4.04

Comédia havaiana
Como se fosse a primeira vez (50 First Dates, EUA, 2004), de Peter Segal, é estrelado por Adam Sandler (Tratamento de Choque, Garota Veneno) e Drew Barrymore (As Panteras, Os Garotos da Minha Vida). Sandler é Henry, um veterinário solteiro e boa vida que conhece e se apaixona por Lucy (Drew Barrymore). Só que ela tem um pequeno problema: por conta de um acidente de carro, adquire uma doença que lhe causa a perda de memória todos os dias, após todas as noites de sono. Henry então tem que reconquistar Lucy a cada novo dia.

A história se passa no Havaí, com belas paisagens. No parque aquático em que o veterinário trabalha, há golfinhos e leões marinhos, com cenas interessantes dos animais adestrados. O filme é uma comédia romântica que tem a vantagem de não partir para o grotesco ou a baixaria a fim de provocar o humor. É para quem quer diversão leve. As piadas têm até certa inocência, mas com inteligência. O mérito, além do roteiro, é de Adam Sandler, ótimo comediante.

Destaque para a trilha sonora, com novas versões de músicas consagradas nos anos 80 e 90, dos grupos Cars e The Cure, entre outros. Esta é a segunda vez em que os atores Adam Sandler e Drew Barrymore atuam juntos. A anterior foi em Afinados no Amor, filme de 1998.

28.4.04

Muito sono
A gripe tenta me atacar. Ácido acetilsalicílico para dentro e onze horas - seguidas - de sono para recompor a saúde. Ao contrário do que muita gente faz atualmente, gosto de dormir muito. No mínimo sete horas de sono por noite, mais algum cochilo de final de semana. Para mim, o sono é imprescindível para a saúde e para a tranquilidade da mente.

Muita gente não gosta de dormir. E esses notívagos andam sempre irritadiços, pois a falta de sono causa mal-estar e stress. O sono é uma entrega, um abandono. Um luxo. É tornar-se indefeso por algumas horas e permitir-se não fazer nada.

Quanto mais a mente estiver tranquila, melhor será a qualidade do sono. Os seguidores de algumas filosofias orientais recomendam atenção no período que o antecede. Há a sugestão da meditação. Alguns falam que até as leituras na cama podem perturbá-lo. Quem nunca sonhou com livro que estava lendo?

Uma vez, ao ler Inferno, de Patrícia Melo, que retrata a violência do tráfico de drogas no Rio, vi o filme todo em minha mente, durante o sono. Aliás, foi a partir daí que ela me conquistou, enquanto escritora.

26.4.04

A Fábula dos Monstros

Figuras conhecidas nacionalmente resolvem encenar espetáculo em praia da Bahia.
Direção de arte: Bruno Sá, da DBC. Que não é parente da monstra.
Rá rá rá rá rá rá rá rá

25.4.04

A "meiga" surpreende
O filme Em Carne Viva (In the Cut, 2003, EUA) da diretora neozelandesa Jane Campion (O Piano, Fogo Sagrado) é mais um exemplo de como a indústria americana consegue achatar os trabalhos cinematográficos de diretores com talento ao patamar do crime-sangue-violência-vingança. Desta vez, o lançamento vem envolvido em uma aura de escândalo, com as cenas de sexo da americana Meg Ryan (foto), mais conhecida pelas comédias românticas que protagoniza. É a própria namoradinha da América.

Com mais publicidade do que cenas quentes, o filme traz bastante tensão e suspense, na história da professora e escritora (Ryan) que se envolve com o policial (Mark Ruffalo), investigador de um assassinato. Vários crimes começam a ocorrer, o que torna todos virtualmente suspeitos. Tomadas interessantes, personagens carregados de tons psicóticos, inclusive a professora.

As cenas de sangue e violência têm ocupado grande parte da produção americana atual. A diretora ainda teve o espírito de retirar a cor de algumas passagens, para diminuir o impacto. Parece que os americanos estão, cada vez mais, aficionados das sequências violentas e cruas. Os filmes policiais sempre existiram e não era necessário mostrar tanto sangue.

24.4.04

Uma bateria nova para o seu celular antigo, R$60,00. Um celular novo, R$ 150,00. Na troca por um aparelho da mesma companhia, um bônus de R$ 100,00 em ligações, durante 30 dias. Promoção do Dia das Mães: R$ 600,00 em bônus, durante 60 dias. As companhias enlouqueceram? Ou querem nos enlouquecer?

23.4.04

Dança de risos
A peça teatral A Novela do Murro, encenada pelo grupo Dimenti, me causou uma boa surpresa. Eu procurava um espetáculo para assistir depois do trabalho na sexta. Achei simpática a foto em A Tarde e fui conferir, fiando-me na informação que A Novela do Murro recebeu vários prêmios, inclusive de Melhor Espetáculo do Júri Oficial, no II Fenateg, na Paraíba. Bom, nunca ouvi falar nesse festival, não parece ser de grande porte. Mas, de qualquer modo, era um bom indício.

O espetáculo é divertidíssimo. Adaptação livre de Dom Casmurro, de Machado de Assis, transporta a história de Bento e Capitu para uma novela de televisão, estrelada pela "mais bela atriz do momento", que também faz comerciais para a televisão. Soa familiar?

O cenário é colorido e tem um ar moderno, com instalações de tubos de PVC. Os figurinos remetem à construção civil. O grupo Dimenti é formado por atores-bailarinos-musicos-cantores oriundos de faculdades de Dança, Teatro e Música de Salvador. Uma mistura que dá certo, compondo um ritmo ágil, irreverente e cômico ao espetáculo.

As apresentações de A Novela do Murro - encenada em Salvador inicialmente em 2001 - fazem parte da Campanha Teatro Solidário, no Teatro Sesc/Senac Pelourinho. Ingressos a R$ 5,00 mais um quilo de alimento não perecível. Só sexta (já foi!) e amanhã, sábado, 24. Dias 30 de abril e 1º de maio é a vez de Antônio, Meu Santo. Dias 7 e 8 de maio, Caboré, a Ópera da Moça Feia.

22.4.04

Neste blog, o internauta pode ler a cobertura do evento abaixo antes da publicação nos jornais de Salvador. Do mesmo modo que algumas resenhas de filmes.
Prêmio Braskem de Teatro
Lembrando dos 40 anos do golpe de 64, o Prêmio Braskem de Teatro, edição 2004, trouxe à tona as lembranças do teatro engajado e resistente da década de 60. Para anunciar os vencedores de cada categoria, entre os 63 espetáculos de 2003, atores com longa história no teatro baiano: Nilda Spencer, Lia Robatto, Carlos Petrovich, Wilson Mello, Frieda Guttman, Mário Gadelha, Manoel Lopes Pontes, Haydil Linhares. Todos com pelo menos 40 anos de teatro. Isto é, desde 1964 eles continuam em ação.

O melhor espetáculo foi Comédia do Fim, texto de Samuel Beckett, traduzido por Cleise Mendes e dirigido por Luiz Marfuz. De certo modo, é estranha a prêmiação de um texto não original, de um autor praticamente clássico de teatro. Paulo Cunha levou o troféu de melhor diretor, por O Beijo no Asfalto.

Mais do que justificadas as premiações do espetáculo Deus Danado. A diretora Alda Valéria levou o prêmio de Revelação, enquanto Psit Mota (foto) ficou com o de Melhor Ator. Ele é quase iniciante, o primeiro trabalho foi em Capitães de Areia. O texto de Deus Danado é muito bom, assim como a direção. Na temática da seca nordestina, Psit dá um show como o jovem sertanejo que descobre o seu papel enquanto homem adulto e a sua sexualidade.

Rita Assemany ficou com o prêmio de Melhor Atriz pelo trabalho em A Casa de Minha Alma. O dramaturgo cearense, radicado na Bahia, Marcos Barbosa, autor de Lampião e Maria Bonita, não compareceu para receber o prêmio. A pessoa que recebeu alegou problema de saúde do ganhador.

O espetáculo de apresentação do Prêmio Braskem teve texto muito bom de Cleise Mendes, relembrando as agruras da ditadura. A direção foi de Luiz Marfuz. Junto com os falatórios do agradecimentos dos premiados e a apresentação de Harildo Deda, Vladimir Brichta e Hilton Cobra, demorou mais de duas horas e meia. Por mais que estivesse interessante, acabou por se tornar cansativo.

Depois da premiação, um coquetel bem farto. Uísque escocês, vinho e cerveja à vontade. Salgados quentinhos saindo toda hora. Serviço simples e eficaz. Viva o teatro baiano e as empresas que investem no marketing cultural!. Investimento simples e muita repercussão.

21.4.04

Kung Fu Pop-fashion
Kill Bill vol.1 (EUA, 2003) é o quarto filme do diretor Quentin Tarantino, de Cães de Aluguel e Pulp Fiction . Desta vez, a atriz Uma Thurman (Ligações Perigosas, Pulp Fiction) é "A Noiva", uma assassina que desperta de um coma de cinco anos, querendo vigança. Ela foi vítima de uma chacina em plena igreja, pelas mãos e armas de Bill, o ex-noivo e suas comparsas, as vilãs do Esquadrão de Assassinato das Víboras Mortais, grupo em que todos participavam.

Tarantino faz muitas referências à cultura pop, que incluem filmes de lutas marciais de Hong Kong, Charlie Chan, Bruce Lee, faroestes, desenhos animados na estética japonesa (os animes) e seriados da televisão dos anos 70 e 80. É interessante ficar tentando descobrir a origem das músicas da trilha sonora, já que tudo parece meio familiar.

A Noiva faz a lista dos seus desafetos e sai em busca deles. Na maior parte de Kill Bill vol. 1 ela está caçando O-Ren Ishi (Lucy Liu, de As Panteras), que agora comanda uma rede de crime organizado no Japão.

As cenas violentas que perpassam o filme vão perdendo o peso, à medida que aumenta a comicidade das cenas, nos vôos durante as lutas e nos esguichos de sangue em longa distância. A Noiva se transforma em uma espécie de Bruce Lee ocidental, "fashion" em seu traje esportivo amarelo, uma esguia top model a lutar com espadas.

A cultura japonesa parece estar definitivamente se estabelecendo - e criando regras - no cenário pop mundial. Ao lado das tradições dos samurais e das gueixas, convive a produção cultural do Japão urbano, que inclue moda, desenhos animados, música. Tudo com um toque de anacronismo e um outro tanto de modernidade tecnológica em cores forte. É o pano de fundo para Tarantino contar a história.

A crítica de cinema da revista Veja, Isabela Boscov, respeitabilíssima em seu tom sempre ponderado, diz que Kill Bill vol. 1 é "um filme feito para uma confraria. Para quem faz parte dela, chega ao fabuloso. Para quem está de fora, só resta desejar boa sorte", por conta da grande quantidade de referências do filme.

Parece que a sra. Boscov passou todo o filme tentando identificar a origem das músicas e dos figurinos, com a impressão que algo lhe escapou. Sim, porque as referências de Tarantino não estão só no cinema. Estão nas histórias em quadrinhos, na televisão, na música.

A luta entre A Noiva e O-Ren Ishii, ao som genial de "Don?t let me be misunderstood", por exemplo, torna-se partir de agora mais uma referência no cinema. É deixar o espectador reviver sons e imagens que fazem parte da sua bagagem cultural, sem a obrigação fazer todos os links de identificação.


19.4.04

Dança social
José ULISSES da Silva é o espetáculo do grupo Viladança, que retorna em temporada até o dia 25 no Teatro Vila Velha. Desta vez sem a grandiosidade espacial de CO2 e de Sagração da Vida Toda, mas fazendo crítica social, com simulação de estranhamento e violência, por dançarinos vestidos em trajes civis e roupas maltrapilhas.

A iluminação, sempre ponto forte nas produções do Viladança, incide sobre um grande tapete circular e monocromárico, feito de retalhos, sobre o qual os bailarinos executam os movimentos. Luzes e imagens projetadas sobre a base circular dão a impressão de uma grande lente de aumento a ampliar a visão sobre os destinos dos personagens encenados.

A utilização de calças, bermudas, paletos e sobretudos por vezes dão peso e engessam alguns movimentos, mas são necessários para o compor o quadro de desigualdade social e da agressividade urbana. Em Ulisses, os movimentos não são da ginástica de CO2, nem do equilibrio dos bailarinos em pernas de pau de Sagração da Vida Toda, que compõem grande beleza cênica. Mas há a perspectiva de engendrar uma mensagem de denúncia social por meio de sequência de movimentos. Esse é um desafio e mérito da dança: para contar uma história, ela se vale de segmentos, de pequenas visões de aspectos que se quer ressaltar.

A primeira parte do espetáculo é tensa e nervosa. Bem amparada pela trilha sonora metálica, eletrônica e seca. Do meio para o final, a música torna-se alegre e doce, com sons que remetem à música popular e animam as danças de salão. A apresentação torna-se um show, como se consagrasse a vocação brasileira de transcender as dificuldades, transformando-as em música e dança.

18.4.04

Cultura das celebridades
Na edição de abril da Cult, revista sobre literatura e cultura, há uma entrevista com o antropólogo Hermano Vianna (foto), 43, autor de O mundo funk carioca e O mistério do samba (Ed. Jorge Zahar). Ele também é um dos criadores do projeto Brasil Total, na Rede Globo. Pelo sobrenome e pela semelhança física - que inclui a careca - dá pra perceber que o entrevistado é irmão de Herbert Vianna, dos Paralamas do Sucesso.

A revista afirma que o antropólogo é cotado extra-oficialmente para ocupar o cargo de assessor especial do ministro da Cultura Gilberto Gil. Durante a entrevista, Vianna diz que o jornalismo brasileiro e setores dominantes da sociedade são irresponsáveis. E também defende a cultura das celebridades como fator de união nacional. Para ele, o caso Luma de Oliveira, além de ser "um bom exemplo da simbiose entre informação e divertimento", é "uma alegre comoção nacional envolvendo escola de samba, alta sociedade, símbolos sexuais, fidelidade, ciúme, partilha de bens e por aí vai, por aí todos vamos".

"Parece uma partida de futebol de final de campeonato, quando o país inteiro comenta o mesmo assunto - e por isso mesmo se sente mais 'nação'". Segundo Vianna, alguns estudiosos acham que as pessoas vêem TV aberta mais para conversarem depois sobre o que viram, para ter assuntos comuns com as outras pessoas com quem convivem, do que por realmente gostarem do que a TV oferece. "É a experiência mais próxima de um ritual coletivo, criando os laços de pertencimento a uma mesma comunidade, que as nossas sociedades complexas e gigantescas podem produzir. Por isso precisamos falar sobre a Luma, mesmo sem nenhum interesse real pelo seu 'caso'. Isso não quer dizer que as pessoas sejam ingênuas ou que sejam manipuláveis pela mídia de massa".

Hermano Vianna diz que lê a revista Caras "como quem lê as páginas de finanças dos jornais". "Nunca vi uma mistura tão séria de divertimento e informação. Parece uma bolsa de valores do mundo do entretenimento nacional e do patrocínio para o entretenimento nacional. Está todo mundo ali vendendo alguma coisa. O público não é bobo e se diverte com isso, vendo como seus ídolos são espertos ou trouxas".

Segundo ele, quase todo o jornalismo cultural brasileiro virou um negócio, em que assessores de imprensa e departamentos de marketing de gravadoras, editoras, televisões, etc. têm muitas vezes mais poderes que os editores. "Não tenho certeza sobre as razões que levaram os cadernos culturais dos jornais e a imprensa brasileira em geral a ficarem assim. Penso que tem a ver com a dura crise que assola a mídia brasileira. Mas também tem a ver com certa irresponsabilidade geral que tomou conta de boa parte dos setores dominantes da nossa sociedade".

Por análises desse tipo é que considero que estão entre os antropólogos algumas das melhores cabeças da cultura nacional. Eles quase sempre têm opiniões mais embasadas, mais isentas e com menos preconceitos que os jornalistas.

17.4.04

Sexo, mentiras e moralismo
O site NoMinimo publicou um artigo muito interessante sobre o final do seriado Sex and the City, considerado um espelho da condição da mulher dos tempos modernos. Escrito pela colunista Carla Rodrigues, o texto traz uma análise de boa qualidade e muito pertinente sobre as protagonistas Carrie, Miranda, Samantha e Charlotte. Só não leia quem quer esperar para saber pela TV os destinos das personagens.

Durante a Semana Santa, assisti o seriado na TV a cabo. Foi uma decepção. Com uma duração de 30 minutos cada episódio, o ritmo é bem mais corrido que no DVD, em que a duração é de 40 a 50 minutos. Só no DVD é possível assistir com calma, para perceber as nuances. O sorriso irônico de Samantha. Os questionamentos de Carrie. As neuroses de Charlotte. Os altos e baixos de Miranda. A vida doce-amarga da urbanidade em Nova York.

16.4.04

Nossa Billie Holiday
Mares Profundos é o título do novo Cd da cantora baiana Virgínia Rodrigues, que traz faixas inspiradas na mitologia africana do Candomblé, em composições de Vinícius de Morais, Baden Powell e Paulo Cesar Pinheiro. A direção artística é de Caetano Veloso, que também participa cantando em uma das faixas. Virgínia Rodrigues tem uma voz divina de cantora lírica. Parece um pássaro de canto delicado, ao chegar nas notas agudas e melodiosas.

O trabalho é notadamente voltado ao mercado internacional. O texto de apresentação está em inglês, escrito por um editor do London Times. E não há tradução. Na língua natal da cantora, só os títulos e as letras das músicas. "Canto de Iemanjá" é para causar arrepios e entrar em delírio. Vale a pena comprar o CD também por conta do encarte, com belas fotos de Mário Cravo Neto.

Virgínia Rodrigues faz um trabalho autoral, de muito bom gosto, mas com pouca possibilidade de se tornar sucesso comercial. É música para ouvir no sossego, sorvendo cada palavra e cada nota musical. A negra corpulenta, natural de Salvador, tem voz comparável às grandes divas da música negra americana. Ela é a nossa Billie Holiday.

15.4.04

Comida sertaneja
No sábado de Aleluia, durante a Semana Santa em Ilhéus, provei pela segunda vez um prato muito interessante: sarapatel de carneiro. O sarapatel tem origem antiga. Veio para o Brasil trazido pelos portugueses, ainda com o nome de sarrabulho, feito com sangue coagulado, carne, fígado e banha de porco. Além do sangue, o sarapatel é feito com fígado, rim, bofe e tripas de certos animais, especialmente porco e carneiro.

O prato feito com porco é bem comum na Bahia. A versão feita com carneiro eu já havia provado uma vez no sertão bravio, na região de Euclides da Cunha. As duas receitas são semelhantes, bastante condimentadas. A de carneiro parece ser um pouco mais leve, com menos gordura.

No preparo, as vísceras têm que ser bem limpas. Depois entra o vinagre e os temperos: cebola, alho, tomate, folha de louro e hortelã - nas versões fina e grossa. A hortelã é indispensável ao preparo do carneiro, carne de uso consagrado nas cozinhas árabe e mediterrânea, mas que não tem tanta penetração no Brasil, a não ser no Rio Grande do Sul e no sertão nordestino, lugares onde o carneiro e o bode têm o destaque que merecem. Na França, os queijos feitos com leite de cabra são muito valorizados.

Um criador de caprinos e ovinos, também gastrônomo com livros publicados, conta que recebeu certa vez a visita de alguns técnicos franceses, que vieram ao Brasil em busca de exemplares de carneiros e ovelhas - se a memória não falha - da raça santa inês, que não possuem lã, têm o couro liso. Eles queriam conhecer mais sobre uma raça que rende bastante carne. A justificativa é que, com o advento dos tecidos sintéticos, o preço da lã no mercado internacional está em baixa.

O gastrônomo então preparou "aquela" refeição sertaneja para os franceses: queijo coalho, melaço de cana, beijús, pratos com aipim, carne de carneiro, de bode e outras delícias. Os técnicos ficaram enlouquecidos. Quase esqueceram que tinham vindo procurar os animais - ainda vivos.

13.4.04

O Retorno do Talentoso Mr. Ripley



Os livros policiais da escritora americana Patrícia Highsmith continuam a inspirar os cineastas. Agora é a vez de O Retorno do Talentoso Mr. Ripley (Ripley's Game, EUA - Itália, 2002), da diretora Liliana Cavani, que estréia na próxima sexta em todo o país.



Baseado no livro Ripley's Game, o filme traz John Malkovitch (Ligações Perigosas, Quero ser John Malkovitch) no papel de Tom Ripley, criminoso refinado e amoral, agora em fase madura. É uma espécie de continuação de O Talentoso Ripley, estrelado por Matt Damon. Que por sua vez é a refilmagem de O Sol por Testemunha, com Alain Delon.



Tom Ripley, agora rico e bem assentado em um palacete na Itália, por conta de vingança indica a um antigo comparsa o nome de um inocente, que sofre de doença incurável, para cometer um assassinato. O som do músico italiano Ennio Morricone é ponto forte do filme. Há previsão de lançamento de mais um título com Tom Ripley ainda este ano.

10.4.04

Ilhéus
fica no litoral sul da Bahia, a 460 quilômetros de Salvador. Belas praias, rios e até uma lagoa, a Encantada. Ilhéus fica próxima de Itabuna, a uns 28 quilômetros. As duas cidades encabeçam a região cacaueira da Bahia.

Depois de uma grave crise econômica, por conta de pragas agrícolas e quedas de preço no mercado internacional, que praticamente aniquilaram a cultura do cacau, as duas cidades vivem um momento de reestruturação econômica. Itabuna parece assumir a liderança, centralizando o papel de entreposto comercial das cidades vizinhas. Ilhéus, por sua vez, tenta se solidificar como pólo turístico. Para isso, não faltam belezas naturais.

Depois de um bom período nos anos 90, o turismo na cidade parece estar entrando em retração. O fluxo de visitantes dá sinais de movimentar-se em direção a outros locais próximos - e igualmente belos -, como Itacaré e Barra Grande.

Entre as causas que contribuem para esse cenário, é senso comum que uma das principais é a falta de uma classe política com força no Estado. Também falta mão-de-obra qualificada nos serviços ligados ao turismo. Não há vida noturna decente, seja para turistas ou moradores. A população local não é afeita a grandes festas e badalações. A cidade é pacata demais para o seu tamanho: 200.000 habitantes. E fica bem atrás da movimentação noturna de Porto Seguro e até da pequena Morro de São Paulo. Por mais que o turista vá em busca de praias, a programação da noite é fundamental. Depois de sol, mar e um pouco de descanso, ninguém quer ficar dormindo em quarto de hotel.

9.4.04

Sexta-feira Santa em Ilhéus. Almoço em família, em uma casa bem em frente ao mar, numa região distante do centro da cidade, a Praia do Norte. Neste dia, é tradição que as pessoas só comam peixes e frutos do mar, já que a carne está restringida, por conta da abstinência. O que ocorre é que, na Bahia, a data se torna um dos dias do ano em que mais se come. Vatapá, caruru, moqueca de peixe, frigideira de marisco, bacalhau com batatas, feijão de leite. Um banquete.

Um prato tradicional na Bahia, apesar de pouco divulgado, é o feijão de leite. Trata-se de um angu de feijão batido, em que é adicionado leite de coco e temperos. E um pouco de açúcar. Como? Açúcar? Parece intragável. E é. Eu considerava o prato quase uma aberração da natureza. Até que o provei feito sem a adição de açúcar. E ele se revelou muito atraente e saboroso, que cai muito bem acompanhando outro prato salgado, a exemplo da moqueca de bacalhau.

O vatapá estava divino, um manjar para deuses e inocentes. Depois do banquete, mais do que nunca, dá para ter a explicação para a tendência dos ilheenses a acumular peso extra: aqui, nesta terra, se come muitíssimo bem.
Postando de uma lan house em Ilhéus, onde vim passar a Semana Santa.

7.4.04

Pelo Dia do Jornalista
O jornal Província da Bahia (confira o site) chega à 34ª edição. Desde 1997, o impresso circula em Salvador, distribuído gratuitamente nos locais mais bacanas. O Província é editado por Fernando Conceição, jornalista e professor da UFBA. Algumas pessoas amam o jornal, outras odeiam com todas as forças.

Antes de entrar na Faculdade de Comunicação, eu já lia o Província. Achava o máximo aquele jornal inteligente e irônico. Durante o curso de Comunicação tive a satisfação de vez algumas matérias minhas publicadas. O Província tem esse grande mérito de estimular estudantes a publicar seus trabalhos. As reuniões de pauta são engraçadíssimas.

O Província circula a duras penas. Quase sempre o editor tem que pôr dinheiro do próprio bolso para pagar a impressão de algo que será distribuído gratuitamente. Como explicar tamanho empenho em uma atividade?

Penso que é um prazer imenso, quase carnal, para um jornalista, ver a sua matéria ou artigo publicado e impresso. Por mais que haja grande número de acessos na leitura das páginas on-line, a satisfação de vez o leitor com o jornal nas mãos não tem comparação. Ainda que na versão da internet haja a possibilidade da publicação sem custo (no caso dos blogs) e o alcance a leitores de vários outros locais, do Brasil e do mundo. Tarefa impossível para um pequeno jornal.

Talvez daqui a um tempo, caso deixe de circular, o Província da Bahia será lembrado como um dos jornais independentes e inteligentes que tiveram vida mais longa na Bahia. E também pelos seus comentários sarcásticos e ferinos. Boca do Inferno da Soterópolis moderna.


6.4.04

O Muro é a nova produção do Bando de Teatro Olodum, grupo que há mais de uma década vem realizando trabalhos de qualidade, reconhecidos nacionalmente. A direção é de Márcio Meireles e o texto é de Cacilda Póvoas. O Bando revelou talentos do quilate de Lázaro Ramos, de Madame Satã e O Homem que Copiava.

Desta vez, o grupo traz vários jovens atores, provenientes das oficinas realizadas. A peça gira em torno de uma escola pública em que alguns estudantes estão jogando a merenda, obtida gratuitamente, para seus familiares carentes, do outro lado do muro. A solução encontrada pela direção da escola é aumentar o muro. A situação absurda é o mote para questionar as soluções que a sociedade encontra para lidar com a pobreza. O texto foi inspirado em um caso real.

Os papéis dos estudantes são adequados à faixa etária, ou pelo menos ao físico dos atores. Mas, por conta da pouca experiência, é preciso dar um desconto para a exigência de um melhor trabalho de voz e presença cênica. O texto é bem pensado, mas é curto e não chega a seduzir. O espetáculo dura uma hora exata.
Mar no deserto
A beleza das locações no Oriente Médio volta com força total em Mar em Chamas (Hidalgo, 2004), que estréia na próxima sexta em Salvador. Baseado em uma história real, o filme traz no elenco Viggo Mortensen e Omar Shariff, este último afastado das telas há algum tempo.

O caubói americano Frank Hopkins (Viggo Mortensen), que cavalga em um cavalo mustangue, considerada raça de menor qualidade, vai para a Arábia tentar ganhar o prêmio de uma corrida de resistência no deserto e provar o valor do cavalo americano.

Aventura épica com lutas de espada, belos cenários, resgate da filha do sheik (Omar Shariff), comparação da cultura indígena americana com os beduínos árabes e humor leve garantem o programa de sair de casa e ir ao cinema. Mar de Fogo toca levemente na discussão de alguns preceiros do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos.

4.4.04

Peixe - Goca Moreno
Peixe a escabeche
O local é um tanto difícil de achar. Fica no fim de linha do Garcia, não tem placa de indicação. Há três caminhos para chegar: atravessando todo o Garcia, subindo pela rótula da Avenida Garibaldi ou pela Vasco da Gama. O endereço é Rua Quintino Bocaiúva, 18, Fazenda Garcia. Fica próximo ao centro de saúde Úrsula Catarino.

Estou falando do Restaurante Aconchego da Zuzu. Um local simples e agradável, mantido por uma família cuja matriarca tem 96 anos. Em uma área sombreada por uma imensa mangueira são colocadas as mesas. É lá que se encontra um dos melhores exemplares de peixe a escabeche da Bahia. O pescado é servido em panela de barro, com batatas, azeitonas e ervilhas, e chega fumegando à mesa. Para acompanhar, pirão e arroz branco.

Na literatura gastronômica, o escabeche é o prato feito com peixe marinado em temperos, formando uma espécie de conserva. O prato tem origem européia. Aqui na Bahia, em muitos locais, o escabeche é o peixe empanado e frito, depois levado para cozinhar com vários temperos, incluindo bastante tomate e um pouco de leite de coco. Uma delícia. Lá no Aconchego da Zuzu também tem uma feijoada concorrida no domingo. Feijão mulatinho, com pouca gordura. As carnes vêm separadas e o preço é convidativo.

O melhor do restaurante é que, além de barato, é bem tranquilo. Nada daquela muvuca que povoa os restaurantes de Salvador nos finais de semana. Há mais movimentação quando tem alguém comemorando aniversário. Pelo menos umas duas vezes por mês, nos sábados ou domingos, passo lá para almoçar. Hoje foi o dia de feijoada e sarapatel, que também merecem dedicação. Mas o favorito dos favoritos é o peixe a escabeche. Para quem duvida da dica, é só conferir o Guia Veja Salvador 2003/ 2004, na seção Baianos.

3.4.04

Serviço além das fronteiras
O serviço voluntário e as organizações não governamentais parecem ocupar, a partir da segunda metade do século passado, um certo espaço que foi preenchido no passado pelos exércitos, pelos aventureiros e desbravadores. Só que agora o objetivo é mais nobre, vai além da exploração comercial e das riquezas naturais. A meta - a princípio - é tentar minimizar o sofrimento humano em locais pobres e de conflito.

O filme Amor sem Fronteiras (Beyond Borders, EUA, 2003), de Martin Campbell, traz Angelina Jolie como Sarah Jordan, uma americana que mora em Londres, casada com um inglês cuja família desenvolve trabalhos assistenciais. Ela se interessa pelo serviço realizado pelo médico Nick Callahan (Clive Owen) na Somália aterrorizada pela seca. A americana viaja então para a África, no intuito de fazer uma grande doação de gêneros alimentícios. Do interesse em comum pelo trabalho assistencial, passa a haver a atração entre os dois.

O filme claramente buscou inspiração na organização não-governamental Médicos sem Fronteiras. Há também uma cena inspirada naquela célebre fotografia do garoto negro e esquelético, frente a frente com um abutre, prestes atacá-lo. Uma metáfora da miséria humana, que transforma seres humanos em simples pedaços de carne. É claro que a personagem de Angelina Jolie irá resgatar e salvar o garoto.

Mas Amor sem Fronteira não é puro elogio àqueles que se debandam pelo mundo, com as melhores intenções, querendo salvá-lo. Mostra que provavelmente ocorrerá o envolvimento político, em qualquer lugar, com pendência para alguma das correntes. E como o envolvimento em causas pode se tornar uma crença quase cega. O filme tem o mérito de enfocar um assunto pouco presente no cinema atual, a ação voluntária. Graças a seu papel em Amor sem Fronteiras, Angelina foi indicada ao prêmio anti-Oscar "Framboesa de Ouro" de pior atriz do ano - mas não ganhou.

2.4.04

Literal
O gato mia, o gato pula. Ô gato indócil. Gato safado, gato descarado. Gato louco sofredor, gato carente de ardor. Gato dengoso e manhoso. Gato que geme, que chora e quer brincar. O gato está prestes a ser capado. O gato será inocentado de todas as culpas do mundo. O gato que gosta de ouvir histórias de gato. O gato que se espreguiça e eriça os pelos. O gato que arranha o sofá e as pontas da casa. O gato quer companhia. O gato quer pular da varanda. O gato quer lamber o chão do box do chuveiro. Gato que come a mesma comida todo dia, sem reclamar. Gato vegetariano que gosta de frutas picadas. Gato carnívoro tarado por fígado e peixe. Gato danado. Gato amoroso e perigoso. Segurem o gato.

Gato que se lambe, engole fiapos e mia. Gato que acorda de noite e dorme de dia. Gato notívago e caçador, que vive à espreita de algum movimento em falso. Cuidado com o gato. Gato muito vadio. Gato que tem pelo quente e nariz frio. Gato de longas antenas-bigodes, táteis e sensitivas. O gato que busca prazeres mundanos.

Gato inteligente que quase assovia, que percebe o que se fala. "Eu sei que você está me entendendo", diz alguém, dedo em riste, ao gato travesso. O gato responde com um lamento, com a boca torta. O gato luta com forças invisíveis e nódulos de energia. Gato que deixa pelos em todo lugar. Gato educado, tem banheiro particular. Gato que se refestela na terra. Gato com andar de modelo na passarela. O gato é o dono do lar. O gato demarca o seu território com linhas interrompidas.

Gato que desdenha de todos. Gato irônico e sarcático. O gato quer aventura, quer se atirar de pára-quedas. Mas tem medo. Gato que gosta de ficar em casa, olhando pela janela o movimento da rua. Gato que entabula diálogos filosóficos intermináveis e não gosta de interrupção. Gato das causas perdidas. Gato que passeia entre os livros. Gato que entende os segredos da alma e do universo.

1.4.04

Trauma
Sobre Meninos e Lobos (Mystic River, EUA, 2003), de Clint Eastwood, é um thriller bem feito. Baseado no livro de Dennis Lehane, o filme tem um ritmo correto, sem cortes abruptos. A atuação de Sean Penn justifica o ganho do Oscar de melhor ator. Tim Robbins levou a estatueta de melhor coadjuvante. Acima do suspense da narrativa, o filme mostra como as marcas de tragédias psicológicas abalam pessoas, bloqueando a capacidade de comunicação e causando uma série de mal-entendidos.

Três amigos de infância, agora quase na meia-idade, Jimmy (Sean Penn), Sean (Kevin Bacon) e Dave (Tim Robbins). A boa caracterização e maquiagem traz Sean Penn e Kevin Bacon cheios de rugas, acima do esperado para a idade real dos atores, caracterizando personagens como se a passagem dos anos fosse um fardo pesado demais para carregar.

Na infância, Dave é sequestrado por dois homens, na vista dos dois amigos. Passa alguns dias em cativeiro e consegue fugir. A experiência é marcante para toda a vida. Quando a filha de Sean é assassinada, as relações entre os amigos são postas à prova. É interessante ver Kevin Bacon envelhecido. O astro quase-adolescente de Footloose, lá dos idos dos anos 80, faz o papel de um policial um tanto quanto amargurado e conivente com o crime.

Sala lotada, cadeiras extras colocadas para acomodar toda a audiência no Cinema do Museu, na Vitória. Depois que os bons filmes saem do circuito "Plex", a população do lado de cá da cidade (Centro, Graça e Barra) aproveita para assistí-los sem ter que enfrentar as filas dominicais, barulhentas e adolescentes dos cinemas de shopping centers.