Festa dos Sentidos
Crônicas e comentários de Danilo Menezes. Jornalista brasileiro da Bahia, atualmente morando em Toronto, Ontario, Canada.
31.5.12
Leitura leve
Estou descobrindo (ou reconhecendo) uma das melhores vantagens de um eReader, o leitor eletrônico: a leveza. Estou lendo um livro de 600 páginas, The Son of the Circus, do americano John Irving. Leitura, na maior parte das vezes, feita na cama, antes de dormir. Então fico olhando para o meu pequeno leitor eletrônico, levinho de 180 gramas e imaginando o peso e o volume que estaria carregando se estivesse com um exemplar impresso de 600 páginas nas mãos. Os braços agradecem.
27.5.12
Tem quibe no tabuleiro
Não faz pouco tempo que conheço comida árabe. Desde criança fui acostumado a saborear quibes - nas versões frita, assada e crua! -, esfirras, homus tahine, tabule, mejandra, charutinhos. A culinária árabe, especificamente síria e libanesa, chegou ao Sul da Bahia na bagagem dos imigrantes em busca de riquezas. Jorge Amado fez a parte dele, colocando personagens libaneses, sírios e
turcos marcantes em seus livros. Especialmente no ótimo "A Descoberta da América
pelos Turcos".
O meu pai gostava muito de comida árabe e minha mãe procurava aprender novos pratos. Em alguns finais de semana, a gente frequentava o restaurante de um árabe (sírio, acredito) que ficava em uma belíssima localização, de frente para o mar de Ilhéus e servia pratos bem feitos. Onde houvesse comida árabe de boa qualidade na cidade, lá íamos nós experimentar. A cozinha do Oriente Médio é rica e delicada. Os sírios e libaneses costumam servir pequenas porções de uma infinidade de pratos deliciosos.
A força comunidade de origem árabe possibilitava encontrar nos mercados da cidade produtos como o tahine, a pasta feita de gergelim, que dá o sabor levemente tostado ao homus, que é feito de grão-de-bico cozido e moído, alho e limão, basicamente.
Aqui no Canadá me deparei com uma quantidade enorme de restaurantes árabes fast-food. Eles são diferentes da rede brasileira Habib's, que basicamente vende lanches árabes prontos e sanduíches. Os restaurantes fast-food daqui sempre têm um buffet de saladas, molhos, carnes e acompanhamentos. Que podem ser servidos com arroz ou enrolados em pão árabe, bem fino, para montar um wrap (sanduíche enrolado) bem saboroso. O sanduiche fica nutritivo, pois tem bastante salada, pequenos pedaços de frango ou carne grelhada, homus tahine e molho de alho. Quibe é que, infelizmente, nunca encontrei por aqui, embora tenha ouvido falar que existe em alguns resturantes.
O frango e a carne são preparados na grelha giratória, do tipo que no Brasil se conhece por "churrasco grego". Onde as carnes são amontoadas e vão grelhando aos poucos. Para a minha insatisfação, toda vez que peço um wrap, a quantidade de homus colocada é bem pequena. Acho que eles ficam economizando. Compenso a vontade de comer a tal pasta preparando grandes quantidades dela em casa.
As famílias árabes do Sul da Bahia deixavam as famílias baianas com água na boca e ávidas por conhecer as receitas. Todos queriam aprender a cozinhar o que os Midlej, Ganem, Rabat, Maron, Medauar, Hage, Chaui, Challoub faziam em casa. Minha mae aprendeu a fazer homus tahine, eu copiei a receita e eu não vivo sem isso. Faço a pasta com frequência, e em quantidade enorme, regada com azeite extra-virgem. Devoro com pão, substituindo o queijo e presunto, reduzindo a consumo de gorduras animais. E, sem querer me gabar, e já me gabando, o homus que preparo é bom-bom. Quem provou disse que é tão bom ou melhor que o dos restaurantes. Também preparo saladas de trigo, inspiradas no tabule, variando os ingredientes, passando pela ricota, cenoura ralada, pepino, ervilha e até pelo tofu grelhado com alho. Quando encontro hortelã no mercado, é uma festa, a salada fica genial. Quando nao acho, o coentro quebra o galho.
A cozinha do Oriente Médio caiu nas graças dos canadenses - e do mundo - pelo sabor delicado e pelos ingredientes leves. O homus é adorado por carnívoros e herbívoros. Aqui acha-se ele pronto, com diversos sabores adicionados: alho grelhado, pimentões, cebolas grelhadas, azeitonas, etc.
Quando comecei a pesquisar sobre cozinha baiana, na época da Faculdade de Comunicação, conversei longamente com senhoras de algumas dessas famílias vindas do outro lado do mundo. Fiquei impressionado com a paixão pela culinária, com as lembranças que as comidas traziam, com os procedimentos de preparo. Com a emoção de falar das melhores recordações que a comida traz. Quase que eu mudo o foco do meu trabalho. Quase que paro de falar do dendê e do acarajé e vou falar da cozinha árabe do Sul da Bahia. Da presença do quibe no tabuleiro da baiana.
O meu pai gostava muito de comida árabe e minha mãe procurava aprender novos pratos. Em alguns finais de semana, a gente frequentava o restaurante de um árabe (sírio, acredito) que ficava em uma belíssima localização, de frente para o mar de Ilhéus e servia pratos bem feitos. Onde houvesse comida árabe de boa qualidade na cidade, lá íamos nós experimentar. A cozinha do Oriente Médio é rica e delicada. Os sírios e libaneses costumam servir pequenas porções de uma infinidade de pratos deliciosos.
| Swarma Wrap |
Aqui no Canadá me deparei com uma quantidade enorme de restaurantes árabes fast-food. Eles são diferentes da rede brasileira Habib's, que basicamente vende lanches árabes prontos e sanduíches. Os restaurantes fast-food daqui sempre têm um buffet de saladas, molhos, carnes e acompanhamentos. Que podem ser servidos com arroz ou enrolados em pão árabe, bem fino, para montar um wrap (sanduíche enrolado) bem saboroso. O sanduiche fica nutritivo, pois tem bastante salada, pequenos pedaços de frango ou carne grelhada, homus tahine e molho de alho. Quibe é que, infelizmente, nunca encontrei por aqui, embora tenha ouvido falar que existe em alguns resturantes.
O frango e a carne são preparados na grelha giratória, do tipo que no Brasil se conhece por "churrasco grego". Onde as carnes são amontoadas e vão grelhando aos poucos. Para a minha insatisfação, toda vez que peço um wrap, a quantidade de homus colocada é bem pequena. Acho que eles ficam economizando. Compenso a vontade de comer a tal pasta preparando grandes quantidades dela em casa.
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| Churrasco "grego" |
A cozinha do Oriente Médio caiu nas graças dos canadenses - e do mundo - pelo sabor delicado e pelos ingredientes leves. O homus é adorado por carnívoros e herbívoros. Aqui acha-se ele pronto, com diversos sabores adicionados: alho grelhado, pimentões, cebolas grelhadas, azeitonas, etc.
Quando comecei a pesquisar sobre cozinha baiana, na época da Faculdade de Comunicação, conversei longamente com senhoras de algumas dessas famílias vindas do outro lado do mundo. Fiquei impressionado com a paixão pela culinária, com as lembranças que as comidas traziam, com os procedimentos de preparo. Com a emoção de falar das melhores recordações que a comida traz. Quase que eu mudo o foco do meu trabalho. Quase que paro de falar do dendê e do acarajé e vou falar da cozinha árabe do Sul da Bahia. Da presença do quibe no tabuleiro da baiana.
19.5.12
Atores da vida urbana
Os dois seres subiram no ônibus em um intervalo rápido. O primeiro era um rapaz com várias tatuagens, inclusive no rosto. Ele usava um casacão vermelho e preto que mais parecia uma grande capa. Ele tinha a pele morena, mas os olhos claros, verdes. Quando ele abaixou o capuz, pude ver o cabelo crespo e curto, quase carapinha, tingido de vermelho. Ele tinha minúsculas tatuagens verticais nas maças do rosto, que lhe davam um ar triste, quase de choro, como se fossem lágrimas saindo dos olhos. O cabelo crespo e os olhos claros revelavam a mistura de raças que resultou naquele personagem sentado quase de frente para mim nos últimos bancos do onibus.
As tatuagems nos dedos e todos os outros apetrechos completavam o visual de rapper, com influências de punk: grandes anéis, colar de elos grossos, o cabelo descolorido e tingido. Parecia que a qualquer momento ele poderia pular do banco e comecar a cantar alguma coisa em um tom agressivo. O seu visual para mim queria dizer violência urbana e revolta. Desencaixe e incertezas. Talvez criatividade, com um pouco de sorte.

Ele só não era mais estranho do que a jovem que entrou logo a seguir. Pele bem branca, cabelo bem preto, unhas pintadas de preto. Ela entrou como um raio e se sentou no banco junto de um rapaz louro, que usava casaco de lã e boina e que continuou impassivelmente a escutar as suas musicas preferidas com os fones dentro do ouvido, sem dar a minima atenção a quem se sentava ao seu lado.
A garota parecia estar sob efeito de alguma substância alucinógena. Ela se contorcia, olhava para todos os lados, tremia as maos. O pescoço virava quase em 360 graus, ela olhava para todas as direçoes. O rapaz ao seu lado saiu do transe musical e passou a olhar desconfiado para o que estava acontecendo ao seu redor. Acho que ele comecou a ficar receoso de qualquer reaçao extremada da mulher transtornada que nao conseguia ficar quieta. Ou ficou com medo de tomar alguma cacetada. Mas a polidez canadense o impedia de qualquer reclamaçao pelo incômodo.
O ônibus continuava seu percurso na rua Sherbourne. Mais algumas paradas, a garota deu um salto do banco onde estava sentada, abriu a porta do veículo e ganhou a rua, correndo para encontrar um homem que estava sentado nas escadarias de um pequeno prédio logo ali perto do ponto de ônibus. Ela rapidamente chegou até ele e se sentou ao seu lado, calmamente iniciando uma conversa indecifrável para quem passase por perto. Um conversa de loucos.
O rapaz de cabelos vermelhos continuou o seu percurso. Possivelmente iria descer no ponto da estaçao do metrô. Talvez estivesse indo encontrar o seu grupo grupo musical. Ou sua gang. Nao pude conferir, nao poderia, mesmo se quisesse. Desci antes.
As tatuagems nos dedos e todos os outros apetrechos completavam o visual de rapper, com influências de punk: grandes anéis, colar de elos grossos, o cabelo descolorido e tingido. Parecia que a qualquer momento ele poderia pular do banco e comecar a cantar alguma coisa em um tom agressivo. O seu visual para mim queria dizer violência urbana e revolta. Desencaixe e incertezas. Talvez criatividade, com um pouco de sorte.

Ele só não era mais estranho do que a jovem que entrou logo a seguir. Pele bem branca, cabelo bem preto, unhas pintadas de preto. Ela entrou como um raio e se sentou no banco junto de um rapaz louro, que usava casaco de lã e boina e que continuou impassivelmente a escutar as suas musicas preferidas com os fones dentro do ouvido, sem dar a minima atenção a quem se sentava ao seu lado.
A garota parecia estar sob efeito de alguma substância alucinógena. Ela se contorcia, olhava para todos os lados, tremia as maos. O pescoço virava quase em 360 graus, ela olhava para todas as direçoes. O rapaz ao seu lado saiu do transe musical e passou a olhar desconfiado para o que estava acontecendo ao seu redor. Acho que ele comecou a ficar receoso de qualquer reaçao extremada da mulher transtornada que nao conseguia ficar quieta. Ou ficou com medo de tomar alguma cacetada. Mas a polidez canadense o impedia de qualquer reclamaçao pelo incômodo.
O ônibus continuava seu percurso na rua Sherbourne. Mais algumas paradas, a garota deu um salto do banco onde estava sentada, abriu a porta do veículo e ganhou a rua, correndo para encontrar um homem que estava sentado nas escadarias de um pequeno prédio logo ali perto do ponto de ônibus. Ela rapidamente chegou até ele e se sentou ao seu lado, calmamente iniciando uma conversa indecifrável para quem passase por perto. Um conversa de loucos.
O rapaz de cabelos vermelhos continuou o seu percurso. Possivelmente iria descer no ponto da estaçao do metrô. Talvez estivesse indo encontrar o seu grupo grupo musical. Ou sua gang. Nao pude conferir, nao poderia, mesmo se quisesse. Desci antes.
12.5.12
O cheiro e o mau cheiro
Não lembro se foi alguém que comentou comigo, ou se li em algum lugar. Cada estação do ano tem um cheiro diferente. Eu nunca tinha percebido isso, até que essa impressão me veio forte nos últimos dias, ao caminhar pela cidade e sentir um aroma diferente.
Não sei dizer se era bom ou ruim. Acho que o cheiro vinha do pólen recém-nascido nas árvores e flores. Ou talvez seja o cheiro dos brotos de alguma árvore em particular, que me fazia lembrar vagamente o aroma de palha molhada. Então isso pode ser agradável ou não, a depender de cada nariz. O cheiro invadia as ruas e era como se estivesse marcando a instalação da primavera e afirmando que o verde chegou definivamente para ficar. Pelo menos pelos próximos sete meses.
Em outro local, em uma das ruas na rua por onde caminho para chegar em casa, neste época em que a temperatura começa a subir, sempre há um cheiro adocicado e agradável que todo ano chega junto com a primavera. Lembra o cheiro de lírio, mas é mais forte. Parece ocupar a rua inteira. Olho para as árvores, suspeito que seja uma variedade com pequenas flores brancas. Naquela rua estreita e residencial há varios exemplares dessa espécie, então é bem provavel que seja ela a reponsável pelo cheiro.
Se a primavera é a estacão das flores, para mim tambem é a estação dos perfumes. Flores e cheiros estão intimamente ligados, não é nenhuma novidade. Mas não conseguiria dizer se as demais estações teriam cheiros, como ouvi alguém afirmar, ou li em algum canto. Não consigo sentir cheiro da neve. No entanto, percebo o cheiro marcante da chuva na terra seca e quente, por exemplo. O mais marcante da neve é o barulho que faz quando se anda sobre ela. Para quem nunca teve a experiência, é semelhante ao som de pisar na areia fofa da praia.
Neste país de clima frio, as sensações térmicas na pele falam mais forte que os aromas, principalmente quando se está ao ar livre. A sensação de umidade do outono e a secura dos ambientes fechados no inverno são muito marcantes. A secura é provocada pelos aquecedores e pelo vento frio que resseca e parte os lábios,
E, para piorar a época fria, com a pequena circulação de ar, em ambientes fechados e com pouca ventilação, qualquer cheirinho vira uma explosão. Os canadenses são bem tolerantes a tudo mas detestam cheiros fortes. Em muitos locais de trabalho, como hospitais, por exemplo, os perfumes são proibidos. Até o cheiro da comida é criticado. Os indianos, pobres coitados, com seus condimentos e aromas fortes, que invadem os ambientes e mudam o cheiro da pele, vivem sob o exame cuidadoso e detalhado dos chatos de plantão.
Então todo mundo toma - ou deveria tomar - muito cuidado com os cheiros corporais. E com os incidentes. Qualquer pum vira um torpedo nuclear de grandes proporções na nação canadense.
Não sei dizer se era bom ou ruim. Acho que o cheiro vinha do pólen recém-nascido nas árvores e flores. Ou talvez seja o cheiro dos brotos de alguma árvore em particular, que me fazia lembrar vagamente o aroma de palha molhada. Então isso pode ser agradável ou não, a depender de cada nariz. O cheiro invadia as ruas e era como se estivesse marcando a instalação da primavera e afirmando que o verde chegou definivamente para ficar. Pelo menos pelos próximos sete meses.
Em outro local, em uma das ruas na rua por onde caminho para chegar em casa, neste época em que a temperatura começa a subir, sempre há um cheiro adocicado e agradável que todo ano chega junto com a primavera. Lembra o cheiro de lírio, mas é mais forte. Parece ocupar a rua inteira. Olho para as árvores, suspeito que seja uma variedade com pequenas flores brancas. Naquela rua estreita e residencial há varios exemplares dessa espécie, então é bem provavel que seja ela a reponsável pelo cheiro.
Se a primavera é a estacão das flores, para mim tambem é a estação dos perfumes. Flores e cheiros estão intimamente ligados, não é nenhuma novidade. Mas não conseguiria dizer se as demais estações teriam cheiros, como ouvi alguém afirmar, ou li em algum canto. Não consigo sentir cheiro da neve. No entanto, percebo o cheiro marcante da chuva na terra seca e quente, por exemplo. O mais marcante da neve é o barulho que faz quando se anda sobre ela. Para quem nunca teve a experiência, é semelhante ao som de pisar na areia fofa da praia.
Neste país de clima frio, as sensações térmicas na pele falam mais forte que os aromas, principalmente quando se está ao ar livre. A sensação de umidade do outono e a secura dos ambientes fechados no inverno são muito marcantes. A secura é provocada pelos aquecedores e pelo vento frio que resseca e parte os lábios,
E, para piorar a época fria, com a pequena circulação de ar, em ambientes fechados e com pouca ventilação, qualquer cheirinho vira uma explosão. Os canadenses são bem tolerantes a tudo mas detestam cheiros fortes. Em muitos locais de trabalho, como hospitais, por exemplo, os perfumes são proibidos. Até o cheiro da comida é criticado. Os indianos, pobres coitados, com seus condimentos e aromas fortes, que invadem os ambientes e mudam o cheiro da pele, vivem sob o exame cuidadoso e detalhado dos chatos de plantão.
Então todo mundo toma - ou deveria tomar - muito cuidado com os cheiros corporais. E com os incidentes. Qualquer pum vira um torpedo nuclear de grandes proporções na nação canadense.
4.5.12
Um taxi, a noite
Tomei um táxi que me levou até o monte das realezas. O táxi chegou no fim da noite, quando o transporte público ficou inacessível. Quando a espera era impossível do lado de fora, pelo frio. Quando as bicicletas dormiam sob a capa branca. O veículo me conduzia pela cidade com luzes cortando a noite, que seguia pela cidade que não queria dormir, para não esquecer as suas últimas alegrias. Havia uma impressão de conforto nunca experimentada nos trópicos. A introspecção do frio e os novos personagens da noite. O táxi, grande e confortável, aquecido, de estofamento macio, como um último afago da noite no corpo.
A noitada vinha se encerrando aos poucos no trajeto para casa, entre palavras emboladas e a beleza de apreciar o que estava calado pelas horas. Havia luzes de todas as cores, clareando os ultimos bêbados, os boêmios resistentes, os vendedores de o que quer que seja, os personagens malditos, as roupas colantes,os saltos mal equilibrados, o resto de perfume aprisionado, os gritos da histeria. Havia nomes sagrados despejados no vento sob forma de insultos. Havia o frio que envolvia todos os notívagos. Havia a neve que retinha o ar de pureza, mas que machucava os ossos. Havia o aquecimento do carro para compensar, ainda bem. A cidade dava os ultimos passos, em pernas trôpegas, antes dormir.
O transporte público, por sua vez, estava cheio de últimas chances, de tentativas frustradas, de derradeiras alegrias, da chamada final antes de o bar fechar. Antes que o frio congelasse totalmente os espíritos notívagos, os últimos estertores da juventude, os suspiros de alegria que fugiam com o tempo. A alegria que eles queriam reter a qualquer custo, os melhores momentos que não ficam quietos. Aqueles instantes tão intensos, tão rápidos, tão transcendentes, que não se perdem na brisa gelada, que parecem não existir, que eram praticamente sonhos experimentados, que davam uma vontade intensa e quase incontrolável de parar o tempo, como em uma festa inacabada. Um iceberg gigantesco a esmagar o passado.
Eram novidades que pareciam eternas, disfarçadas de aprendizagem, de pessoas de fala estranha e de novas informações. Um aprendizado contínuo e sem fim, cheio de possibilidades e de quebras no tempo. Seriam caminhos que levariam a estradas lindas e cheias de sabedoria, que passariam pela beleza que não entraria no fogo do desejo nem poderia ser tocada.
O veículo cruzava ruas com nomes de santos e pecadores, em avenidas largas limitadas por calçadas e vitrines, onde o poder do dinheiro e da beleza se encontravam. Eu via bebidas ocultas em sacos de papel pardo, sob casacos escuros e pesados, via bolsos cheios de continuações. De alegria, de energia, de prazer, de ilusões, de perdas. Via novas portas que se abriam para a diversão enquanto outras iam se fechando. A noite continuava para alguns, começava para outros e terminava para uma grande parte. O táxi completa o caminho, para na esquina de nome elegante e segue em frente.
A noitada vinha se encerrando aos poucos no trajeto para casa, entre palavras emboladas e a beleza de apreciar o que estava calado pelas horas. Havia luzes de todas as cores, clareando os ultimos bêbados, os boêmios resistentes, os vendedores de o que quer que seja, os personagens malditos, as roupas colantes,os saltos mal equilibrados, o resto de perfume aprisionado, os gritos da histeria. Havia nomes sagrados despejados no vento sob forma de insultos. Havia o frio que envolvia todos os notívagos. Havia a neve que retinha o ar de pureza, mas que machucava os ossos. Havia o aquecimento do carro para compensar, ainda bem. A cidade dava os ultimos passos, em pernas trôpegas, antes dormir.
O transporte público, por sua vez, estava cheio de últimas chances, de tentativas frustradas, de derradeiras alegrias, da chamada final antes de o bar fechar. Antes que o frio congelasse totalmente os espíritos notívagos, os últimos estertores da juventude, os suspiros de alegria que fugiam com o tempo. A alegria que eles queriam reter a qualquer custo, os melhores momentos que não ficam quietos. Aqueles instantes tão intensos, tão rápidos, tão transcendentes, que não se perdem na brisa gelada, que parecem não existir, que eram praticamente sonhos experimentados, que davam uma vontade intensa e quase incontrolável de parar o tempo, como em uma festa inacabada. Um iceberg gigantesco a esmagar o passado.
Eram novidades que pareciam eternas, disfarçadas de aprendizagem, de pessoas de fala estranha e de novas informações. Um aprendizado contínuo e sem fim, cheio de possibilidades e de quebras no tempo. Seriam caminhos que levariam a estradas lindas e cheias de sabedoria, que passariam pela beleza que não entraria no fogo do desejo nem poderia ser tocada.
O veículo cruzava ruas com nomes de santos e pecadores, em avenidas largas limitadas por calçadas e vitrines, onde o poder do dinheiro e da beleza se encontravam. Eu via bebidas ocultas em sacos de papel pardo, sob casacos escuros e pesados, via bolsos cheios de continuações. De alegria, de energia, de prazer, de ilusões, de perdas. Via novas portas que se abriam para a diversão enquanto outras iam se fechando. A noite continuava para alguns, começava para outros e terminava para uma grande parte. O táxi completa o caminho, para na esquina de nome elegante e segue em frente.
18.4.12
Metablogagem
Conheci o mundo dos blogs na época da Faculdade de Comunicação. Depois do e-mail, o blog foi o instrumento de comunicação que veio a seguir. O professor de cibercultura usava um blog para fazer os alunos escreverem um resumo da aula anterior. Ao ver aquele instrumento de publicação tão acessível, gratuito, sem limites, eu fiquei muito interessado e cadastrei logo um para mim. Este aqui.
Mas foi depois da conclusão do curso que tive mais tempo e passei a (tentar, pelo menos) escrever com regularidade. Descobri então uma das melhores características de um blog: a resposta imediata do leitor, com a possibilidade de interação pela seção de comentários. Isso fazia diminuir a sensação de estar enviando palavras ao vento ou guardando papéis para o mofo das gavetas. O leitor agora tinha nome ou pseudônimo e estava ao alcance de um clique.
Lendo e publicando online, comecei a participar da blogosfera e conheci vários blogueiros, de Salvador e de outras cidades. A rede social dos blogs unia aqueles que gostavam de escrever e trocar ideias. Acompanhávamos as histórias de vida, os amores, as viagens, os filmes, as peças de teatro, os shows, as mudancas de comportamento, os problemas pessoais, os fatos políticos. Tudo pelos olhos e ouvidos dos blogueiros, agora transformados em relatos. Era como se transferíssemos e expandíssemos os nossos sentidos, dando poderes a outras pessoas com as quais tivéssemos afinidade. E muitas vezes nem conhecíamos ao vivo essas pessoas, tão interessantes e com tanto a dizer. Mas conhecíamos as suas trilhas na vida - e os seus olhares e percepções.
Lembro de uma ciber-amiga que escrevia um blog muito legal. Ela se mantinha anônima e se permitia extravasar emoções, alegrias e as angústias nos seus escritos, sem a imposição de qualquer auto-censura. Ela atualmente se dedica aos estudos de doutoramento, talvez até ja tenha terminado, não sei, e à sua rede de comunicação no Twitter. Nunca tive o desprendimento e a audácia que ela tinha ao se expor tanto publicamente - protegida pelo anonimato, é claro. Procuro evitar temas íntimos ou muito espinhosos. Coisa de jornalista, possivelmente.
Se as novas redes sociais Orkut, Facebook e Twitter intensificaram a resposta imediata do leitor, elas no entanto espalharam as letras. A velocidade das redes tira parte da energia útil para escrever textos mais longos e um pouco mais profundos do que os 140 caracteres do Twitter ou cinco linhas de uma postagem no mural do Facebook. Mas nada se perde, nada se cria, tudo se transforma, já dizia a velha lei da ciência aprendida na escola. O que tem acontecido, pelo menos comigo, é que os temas e comentários lançados no Facebook acabam me inspirando, rendendo pequenos posts como este.
O tempo passa rápido, os blogs mais antigos comemoram em torno dos 10 anos de existência. Poucos ainda estão funcionando com regularidade, salvo os ligados aos grandes meios de comunicação. As redes sociais continuam a ocupar o maior tempo dos internautas. A diferença é que agora são milhoes de pessoas no mundo publicando ou republicando diariamente.
De vez em quando volto aos meus arquivos do blog e relembro o passado recente. Leio sobre as mudanças que ocorreram, sobre o que foi marcante. Leio tambem o que não foi dito, o que não foi escrito. Isso talvez seja até mais importante para mim.
Mas foi depois da conclusão do curso que tive mais tempo e passei a (tentar, pelo menos) escrever com regularidade. Descobri então uma das melhores características de um blog: a resposta imediata do leitor, com a possibilidade de interação pela seção de comentários. Isso fazia diminuir a sensação de estar enviando palavras ao vento ou guardando papéis para o mofo das gavetas. O leitor agora tinha nome ou pseudônimo e estava ao alcance de um clique.
Lendo e publicando online, comecei a participar da blogosfera e conheci vários blogueiros, de Salvador e de outras cidades. A rede social dos blogs unia aqueles que gostavam de escrever e trocar ideias. Acompanhávamos as histórias de vida, os amores, as viagens, os filmes, as peças de teatro, os shows, as mudancas de comportamento, os problemas pessoais, os fatos políticos. Tudo pelos olhos e ouvidos dos blogueiros, agora transformados em relatos. Era como se transferíssemos e expandíssemos os nossos sentidos, dando poderes a outras pessoas com as quais tivéssemos afinidade. E muitas vezes nem conhecíamos ao vivo essas pessoas, tão interessantes e com tanto a dizer. Mas conhecíamos as suas trilhas na vida - e os seus olhares e percepções.
Lembro de uma ciber-amiga que escrevia um blog muito legal. Ela se mantinha anônima e se permitia extravasar emoções, alegrias e as angústias nos seus escritos, sem a imposição de qualquer auto-censura. Ela atualmente se dedica aos estudos de doutoramento, talvez até ja tenha terminado, não sei, e à sua rede de comunicação no Twitter. Nunca tive o desprendimento e a audácia que ela tinha ao se expor tanto publicamente - protegida pelo anonimato, é claro. Procuro evitar temas íntimos ou muito espinhosos. Coisa de jornalista, possivelmente.Se as novas redes sociais Orkut, Facebook e Twitter intensificaram a resposta imediata do leitor, elas no entanto espalharam as letras. A velocidade das redes tira parte da energia útil para escrever textos mais longos e um pouco mais profundos do que os 140 caracteres do Twitter ou cinco linhas de uma postagem no mural do Facebook. Mas nada se perde, nada se cria, tudo se transforma, já dizia a velha lei da ciência aprendida na escola. O que tem acontecido, pelo menos comigo, é que os temas e comentários lançados no Facebook acabam me inspirando, rendendo pequenos posts como este.
O tempo passa rápido, os blogs mais antigos comemoram em torno dos 10 anos de existência. Poucos ainda estão funcionando com regularidade, salvo os ligados aos grandes meios de comunicação. As redes sociais continuam a ocupar o maior tempo dos internautas. A diferença é que agora são milhoes de pessoas no mundo publicando ou republicando diariamente.
De vez em quando volto aos meus arquivos do blog e relembro o passado recente. Leio sobre as mudanças que ocorreram, sobre o que foi marcante. Leio tambem o que não foi dito, o que não foi escrito. Isso talvez seja até mais importante para mim.
12.4.12
Multilinguismo
Há alguns dias recebi um e-mail do grupo Toronto Babel falando que uma rede de tv de Toronto procurava uma pessoa "hiperpoliglota", que falasse seis ou mais línguas, para uma matéria. O Toronto Babel é um evento que ocorre toda semana, às terças-feiras, há mais de um ano, em um bar da cidade. As pessoas que vão a esse encontro buscam praticar línguas estrangeiras, não importa qual seja. Ou inglês, no caso de visitantes ou estudantes no Canadá. Ou mesmo moradores recém-chegados. Então fica gente praticando inglês, francês, mandarim, espanhol, português, russo, italiano e o que mais se imaginar.
O evento é informal, regado a cerveja, vinho e muito bate-papo, terminando sempre no onipresente inglês. Ou no português, como no meu caso, uma vez que os conversadores brasileiros não conseguem deixar de lado a língua pátria quando estão juntos.
A organizadora do evento Toronto Babel, uma estudante de doutorado em Linguística, já virou referência na cidade quando se fala em articulação de pessoas em práticas de linguagem. Por isso os meios de comunicaçao correm para ela quando precisam de fontes.
Falar seis linguas parece algo de seres extraterrestes, mas é possivel em Toronto. Tem gente que vem para o Canadá vindo de pais onde se fala mais de uma língua. Chega aqui e aprende inglês e francês. Adquirido o vício da mala sempre pronta, sai viajando pelo mundo, em estadias mais ou menos longas, vendo novas paisagens, conhecendo gente nova, saboreando pratos desconhecidos e aprendendo novas palavras.
Em outro encontro que às vezes frequento, o de francês, conheci um indiano que me garantiu que falava mais de seis línguas. Ele trabalhava em hotelaria no seu pais de origem e sabia, além de inglês, francês e árabe, as linguas da India: hindi, urdu, bengali, punjabi e outras mais. Além das línguas nacionais, que são o inglês e o hindi, a India tem mais 20 línguas usadas regionalmente. E cada uma delas falada por milhões de pessoas. Como se não bastasse, ainda tem o português que ficou perdido na região de Goa e que ninguém mais fala. Só vi o tal indiano uma vez e não teria como testar se ele falava mesmo a quantidade de línguas que ele prometia. E nem queria essa atribuição para mim. Isso seria trabalho para a rede de tv.
Tenho um outro amigo que com certeza sei que fala cinco línguas: russo, ucraniano - do seu país de origem-, mais inglês, francês e até português, aprendido durante um ano morando no Brasil e que ele fala quase sem sotaque, de uma maneira inacreditável para tão pouco tempo de estadia em terras lusófonas. Sim, este nome pomposo é aplicável a todas as pessoas que falam e aos locais onde se fala português. Ou seja, todo brasileiro é lusófono, queira ou não.
Com certeza a rede de tv deve ter encontrado o seu personagem para fazer a matéria. Os hiperpoliglotas não são seres alienígenas. Com algum esforço eles podem ser encontrados nas grandes cidades do Canadá.
Fiquei pensando se a língua do P poderia entrar na conta das línguas dos hiperpoliglotas.
O evento é informal, regado a cerveja, vinho e muito bate-papo, terminando sempre no onipresente inglês. Ou no português, como no meu caso, uma vez que os conversadores brasileiros não conseguem deixar de lado a língua pátria quando estão juntos.
A organizadora do evento Toronto Babel, uma estudante de doutorado em Linguística, já virou referência na cidade quando se fala em articulação de pessoas em práticas de linguagem. Por isso os meios de comunicaçao correm para ela quando precisam de fontes.
Falar seis linguas parece algo de seres extraterrestes, mas é possivel em Toronto. Tem gente que vem para o Canadá vindo de pais onde se fala mais de uma língua. Chega aqui e aprende inglês e francês. Adquirido o vício da mala sempre pronta, sai viajando pelo mundo, em estadias mais ou menos longas, vendo novas paisagens, conhecendo gente nova, saboreando pratos desconhecidos e aprendendo novas palavras.
Em outro encontro que às vezes frequento, o de francês, conheci um indiano que me garantiu que falava mais de seis línguas. Ele trabalhava em hotelaria no seu pais de origem e sabia, além de inglês, francês e árabe, as linguas da India: hindi, urdu, bengali, punjabi e outras mais. Além das línguas nacionais, que são o inglês e o hindi, a India tem mais 20 línguas usadas regionalmente. E cada uma delas falada por milhões de pessoas. Como se não bastasse, ainda tem o português que ficou perdido na região de Goa e que ninguém mais fala. Só vi o tal indiano uma vez e não teria como testar se ele falava mesmo a quantidade de línguas que ele prometia. E nem queria essa atribuição para mim. Isso seria trabalho para a rede de tv.
Tenho um outro amigo que com certeza sei que fala cinco línguas: russo, ucraniano - do seu país de origem-, mais inglês, francês e até português, aprendido durante um ano morando no Brasil e que ele fala quase sem sotaque, de uma maneira inacreditável para tão pouco tempo de estadia em terras lusófonas. Sim, este nome pomposo é aplicável a todas as pessoas que falam e aos locais onde se fala português. Ou seja, todo brasileiro é lusófono, queira ou não.
Com certeza a rede de tv deve ter encontrado o seu personagem para fazer a matéria. Os hiperpoliglotas não são seres alienígenas. Com algum esforço eles podem ser encontrados nas grandes cidades do Canadá.
Fiquei pensando se a língua do P poderia entrar na conta das línguas dos hiperpoliglotas.
16.3.12
Tempo de sol e bicicleta
O tempo ficou louco no Canadá. Ainda em final de inverno, a temperatura está chegando aos 19 graus. Aproveito o dia bonito para ir de bicicleta para o trabalho. Quase me arrependo de ter comprado o passe mensal do transporte público, mas já o utilizei bastante e vou continuar usando nos dias de chuva. Os turistas já estão aproveitando a cidade, passeando naqueles ônibus de dois andares e sem cobertura, que possibilitam a vista para todos os lados.
Lembro que, na primeira vez em que cheguei a Toronto, era começo de abril, encontrei temperaturas negativas. Ainda no hotel, acordei durante a noite e levantei para ver a neve cair pela janela. Semanas depois, já em Montréal, peguei uma grande tempestade de neve. Estava na aula de francês e o professor, lembro bem, em tom levemente irônico, nos deu as boas-vindas ao clima de Montréal. Era final de abril, era para ser primavera. Portanto, é com alegria que vejo, no meado de março, pessoas nos parques de Toronto, caminhando pelas ruas, pedalando. Sorrindo, coisa difícil de ver no inverno. As mesas de bares e cafés estão espalhadas pela calçada, cheias de gente. Ainda há uma temperatura fria o suficiente para não provocar suor, mas com um belo sol. A primavera chegou mais cedo.
As bicicletas estão de volta, a todo vapor, isto é, a toda pedalada. Acabei de aquirir uma nova, de cor azul escuro metálico, com uma barra de suspensão branca. A minha antiga, branca e vermelha, com cara de bandeira canadense, foi roubada há alguns meses no estacionamento de bicicletas na entrada do prédio onde moro. Roubo de bicicleta é uma das ocorrências mais comuns no Canadá. Por aí dá para sentir o gosto dos canadenses pelas duas rodas.
Li uma frase interessante, em um jornal brasileiro, sobre o atual fenômeno das bicicletas, dizendo que se antes o cara moderno queria ter um carro, hoje ele quer se livrar dele. Achei genial, apesar de parecer oportunismo para construir uma imagem de juventude e modernidade em cima de um modismo talvez passageiro. A frase foi dita por um politico que vai trabalhar pedalando, talvez para angariar simpatia. Ele pessoalmente se beneficiou, perdendo quase 15 quilos.
Fiquei pensando se eu tambem não seria modismo que eu estaria seguindo. Mas, não, não mesmo. A bicicleta faz parte da minha história, não é de hoje. Tirando infância e adolescência sobre rodas, comuns a qualquer ser humano, eu ando de camelo desde a década de 90, já adulto e trabalhando. Eu morava em uma cidade pequena e plana, na qual as bicicletas faziam parte da paisagem. E só não ia pedalando ao trabalho por causa do clima quente demais, que me faria chegar transbordando de suor. E sem possibilidade de banho. Já que a bicicleta não era possível, foi para evitar o ônibus que comprei o meu primeiro carro.
O problema do calor e suor excessivo é menor aqui em Toronto. Mesmo durante o verão, salvo uma ou duas semanas de heat wave, canicule ou onda de calor, a temperatura é bem agradável para pedalar pela manhã, para quem mora a uma distância "pedalável" até o trabalho.
Lembro que, na primeira vez em que cheguei a Toronto, era começo de abril, encontrei temperaturas negativas. Ainda no hotel, acordei durante a noite e levantei para ver a neve cair pela janela. Semanas depois, já em Montréal, peguei uma grande tempestade de neve. Estava na aula de francês e o professor, lembro bem, em tom levemente irônico, nos deu as boas-vindas ao clima de Montréal. Era final de abril, era para ser primavera. Portanto, é com alegria que vejo, no meado de março, pessoas nos parques de Toronto, caminhando pelas ruas, pedalando. Sorrindo, coisa difícil de ver no inverno. As mesas de bares e cafés estão espalhadas pela calçada, cheias de gente. Ainda há uma temperatura fria o suficiente para não provocar suor, mas com um belo sol. A primavera chegou mais cedo.
| O sol vai abrindo espaço no céu da cidade |
Li uma frase interessante, em um jornal brasileiro, sobre o atual fenômeno das bicicletas, dizendo que se antes o cara moderno queria ter um carro, hoje ele quer se livrar dele. Achei genial, apesar de parecer oportunismo para construir uma imagem de juventude e modernidade em cima de um modismo talvez passageiro. A frase foi dita por um politico que vai trabalhar pedalando, talvez para angariar simpatia. Ele pessoalmente se beneficiou, perdendo quase 15 quilos.
Fiquei pensando se eu tambem não seria modismo que eu estaria seguindo. Mas, não, não mesmo. A bicicleta faz parte da minha história, não é de hoje. Tirando infância e adolescência sobre rodas, comuns a qualquer ser humano, eu ando de camelo desde a década de 90, já adulto e trabalhando. Eu morava em uma cidade pequena e plana, na qual as bicicletas faziam parte da paisagem. E só não ia pedalando ao trabalho por causa do clima quente demais, que me faria chegar transbordando de suor. E sem possibilidade de banho. Já que a bicicleta não era possível, foi para evitar o ônibus que comprei o meu primeiro carro.
O problema do calor e suor excessivo é menor aqui em Toronto. Mesmo durante o verão, salvo uma ou duas semanas de heat wave, canicule ou onda de calor, a temperatura é bem agradável para pedalar pela manhã, para quem mora a uma distância "pedalável" até o trabalho.
12.3.12
Sabores que rodam o mundo
Ainda não foi por agora que a famosa comida da Etiópia passou a fazer parte do rol das minhas experiências gastronômicas. Mais uma vez o tal restaurante estava fechado. Para as férias de março. Eu nunca ouvi falar nessas férias.
Os donos do restaurante não devem ser bons administradores, de acordo com o que li em comentários na internet. Em um deles, a pessoa anotava que o atendimento não era bom, apesar da cozinha "de diamante". Ele dizia ainda que se o restaurante se preparasse para vender comida para levar para casa, como é bem comum por aqui, poderia ganhar uma fortuna. Mas talvez isso faça a diferença do local. O modo slow food. Comida lenta e bem feita.
Já que a comida etíope estava de férias, talvez tenha ido passear nas suas origens africanas, fiquei em dúvida entre os galetos assados portugueses - e seus pratos gigantescos - ou a "cozinha caribenha de Pam", que eu já havia provado e aprovado. Fui visitar a simpática madame Pam, originária da Guiana, que se apoderou da cultura do Caribe para ganhar os seus trocados. Tudo bem, a Guiana está ali na beira do Mar do Caribe, faz parte da liga dos países da região, mas será que o Brasil também não poderia requisitar do mercado turístico a sua porção caribenha?
O pouco lembrado Amapá está ao lado da Guiana francesa, tem um litoral gigantesco, mas, pelo que pude pesquisar, já que nunca andei por aquelas terras, o Estado não incorpora elementos da cultura do Caribe. O prato mais forte é o tacacá, típico da regiao norte. Dominante como a cultura brasileira é, a feijoada e o churrasco devem ser mais comum por lá do que o "jerk chicken" caribenho. O Estado brasileiro que parece mais dialogar com o Caribe é o Maranhão, com a intensa paixão popular pelo reggae jamaicano.
Na cozinha de Pam provei o prato principal da casa: o roti. Uma espécie de crepe recheado com opçoes de carne, frango, camarão ou legumes, com batatas, grão-de-bico e bastante temperado. O sabor do cominho (ou seria curry?) é bem intenso. Pedi a versao jerk chicken e, como da vez anterior, aquele molho escuro do frango estava delicioso. O "envelope" de roti é muito bem feito, o molho não encharca o invólucro nem vaza.
Fui buscar mais informaçoes sobre o roti. Na verdade é um pão sem fermento, de origem indiana, que recobre o que achei com cara de crepe. As Guianas, tanto inglesa, como holandesa e francesa - isso é algo novo para mim -, receberam muitos imigrantes chineses e indianos. Os sabores indianos passaram a fazer parte da cultura da América do Sul. Então ficou explicado o sabor apimentado e marcante de curry que havia no prato.
Barriga cheia, mas sempre existe espaço para o café e o doce. E, em plena região portuguesa, nada mais imediato do que pensar em pastel de nata, acompanhado pelo café expresso da padaria. Voltei para casa carregando um daqueles sacos de papel marrom cheio de pães portugueses, crocantes por fora e macios por dentro, como os das melhores padarias brasileiras. Mas com um sabor de qualidade portuguesa dificil de copiar.
Os donos do restaurante não devem ser bons administradores, de acordo com o que li em comentários na internet. Em um deles, a pessoa anotava que o atendimento não era bom, apesar da cozinha "de diamante". Ele dizia ainda que se o restaurante se preparasse para vender comida para levar para casa, como é bem comum por aqui, poderia ganhar uma fortuna. Mas talvez isso faça a diferença do local. O modo slow food. Comida lenta e bem feita.
Já que a comida etíope estava de férias, talvez tenha ido passear nas suas origens africanas, fiquei em dúvida entre os galetos assados portugueses - e seus pratos gigantescos - ou a "cozinha caribenha de Pam", que eu já havia provado e aprovado. Fui visitar a simpática madame Pam, originária da Guiana, que se apoderou da cultura do Caribe para ganhar os seus trocados. Tudo bem, a Guiana está ali na beira do Mar do Caribe, faz parte da liga dos países da região, mas será que o Brasil também não poderia requisitar do mercado turístico a sua porção caribenha?
O pouco lembrado Amapá está ao lado da Guiana francesa, tem um litoral gigantesco, mas, pelo que pude pesquisar, já que nunca andei por aquelas terras, o Estado não incorpora elementos da cultura do Caribe. O prato mais forte é o tacacá, típico da regiao norte. Dominante como a cultura brasileira é, a feijoada e o churrasco devem ser mais comum por lá do que o "jerk chicken" caribenho. O Estado brasileiro que parece mais dialogar com o Caribe é o Maranhão, com a intensa paixão popular pelo reggae jamaicano.
Na cozinha de Pam provei o prato principal da casa: o roti. Uma espécie de crepe recheado com opçoes de carne, frango, camarão ou legumes, com batatas, grão-de-bico e bastante temperado. O sabor do cominho (ou seria curry?) é bem intenso. Pedi a versao jerk chicken e, como da vez anterior, aquele molho escuro do frango estava delicioso. O "envelope" de roti é muito bem feito, o molho não encharca o invólucro nem vaza.
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| Era a cara desse da foto. Bom, né? |
Barriga cheia, mas sempre existe espaço para o café e o doce. E, em plena região portuguesa, nada mais imediato do que pensar em pastel de nata, acompanhado pelo café expresso da padaria. Voltei para casa carregando um daqueles sacos de papel marrom cheio de pães portugueses, crocantes por fora e macios por dentro, como os das melhores padarias brasileiras. Mas com um sabor de qualidade portuguesa dificil de copiar.
3.2.12
Receita de família
Delícia das delícias! Receita
de família, típica da região cacaueira, herança da terra, modo de
preparo com a "tecnologia" dos índios, misturada com o dendê afro-baiano,
folha de bananeira embalando o pescado do rio Cachoeira. Prato cantado em
prosa por Jorge Amado, receita resgatada por sua filha Paloma, passada
de geração em geração, alegria de domingos, de família reunida, imagem
de um tempo que a memória não deixa ir embora. Prato de resistência dos
Cardoso. Recordação de vários daqueles que já se foram, que tanto nos
amaram e que tanto amamos. Para quem não conhece, a famosa, a inesquecível, a sublime Moqueca de peixe na folha, que merece letra maiúscula.
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| Foto: Veronica Barreto |
2.2.12
Festa no mar e Dia da Marmota
As atualizações no meu Facebook estão lotadas de fotos, vídeos, textos e orações em homenagem ao Dia de Iemanjá. É festa em Salvador, no Rio Vermelho. A melhor festa de largo da cidade, em minha opinião.
Mas, enquanto nos trópicos se celebra a deusa do mar, na América do Norte o personagem do dia é bem menos religioso ou profano. É a inocente marmota.
Dois de fevereiro é o dia em que o roedor sai da toca para checar o tempo. A marmota acorda, boceja, se espreguiça, estala as patas e termina a sua hibernação de seis (!) meses. Ô bicho preguiçoso!
A tradição conta que, se a marmota sai do seu abrigo e não vê a sua sombra, porque o tempo está nebuloso, o inverno terminará logo. Caso contrário, se o tempo estiver luminoso e claro, a marmota verá a sua sombra, ficará assustada e voltará para o seu buraco. Isso é sinal de que o inverno e as temperaturas baixas continuarão por pelo menos mais seis semanas.
Essa tradição, como qualquer evento norte-americano, tem as suas estrelas. Marmotas do Canadá e dos Estados Unidos recebem nomes, viram videntes-celebridades e têm as suas previsões ansiosamente aguardadas. Shubenacadie Sam, Punxsutawney Phil, Wiarton Willie, Balzac Billie são algumas das marmotas célebres de nomes bem exóticos.
Como tudo neste pais é levado muito a sério, existe até estudo para verificar a precisão das marmotas para o tempo (leia aqui). A explicação é que elas percebem alterações na luz e na temperatura porque passam muito tempo enterradas no buraco. Elas chegam a acertar em 37% das vezes. Ou seja, nem a metade. Mesmo assim, as pessoas fazem a festa, vão para os parques, algumas até fantasiadas de marmota, e ficam aguardando o bicho sair da toca.
Neste ano, as previsões estão confusas. As conjecturas se dividem. As marmotas canadenses Shubenacadie Sam e Wiarton Willie não viram as suas sombras e estão prevendo um inverno curto, para a felicidade geral da nação Canuck. Mas Punxsutawney Phil, a marmota-vidente americana, prevê que o tempo continuara frio.
Antes deste inverno começar, os meteorologistas previram temperaturas muito baixas. O resultado é que o clima está fora do esperado, com pouca neve e vários dias de temperatura acima de zero. Dá para ver nuvens de pássaros passeando pela cidade, algo raro nesta estação. Acho que o tempo está tão bom que eles desistiram de fazer a migração temporária em busca do clima quente.
Mas, enquanto nos trópicos se celebra a deusa do mar, na América do Norte o personagem do dia é bem menos religioso ou profano. É a inocente marmota.
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| Cadê a sombra para eu dormir mais? |
A tradição conta que, se a marmota sai do seu abrigo e não vê a sua sombra, porque o tempo está nebuloso, o inverno terminará logo. Caso contrário, se o tempo estiver luminoso e claro, a marmota verá a sua sombra, ficará assustada e voltará para o seu buraco. Isso é sinal de que o inverno e as temperaturas baixas continuarão por pelo menos mais seis semanas.
Essa tradição, como qualquer evento norte-americano, tem as suas estrelas. Marmotas do Canadá e dos Estados Unidos recebem nomes, viram videntes-celebridades e têm as suas previsões ansiosamente aguardadas. Shubenacadie Sam, Punxsutawney Phil, Wiarton Willie, Balzac Billie são algumas das marmotas célebres de nomes bem exóticos.
Como tudo neste pais é levado muito a sério, existe até estudo para verificar a precisão das marmotas para o tempo (leia aqui). A explicação é que elas percebem alterações na luz e na temperatura porque passam muito tempo enterradas no buraco. Elas chegam a acertar em 37% das vezes. Ou seja, nem a metade. Mesmo assim, as pessoas fazem a festa, vão para os parques, algumas até fantasiadas de marmota, e ficam aguardando o bicho sair da toca.
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| As sorridentes marmotas-gigantes, aposentadas da previsão do tempo |
Antes deste inverno começar, os meteorologistas previram temperaturas muito baixas. O resultado é que o clima está fora do esperado, com pouca neve e vários dias de temperatura acima de zero. Dá para ver nuvens de pássaros passeando pela cidade, algo raro nesta estação. Acho que o tempo está tão bom que eles desistiram de fazer a migração temporária em busca do clima quente.
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| O mapa das marmotas meteorologistas |
28.1.12
Diário offline
Eu já tinha visto o nome Moleskine em algum livro, mas não sabia bem o que era. Acho que foi em algum livro em francês. Como eu não tinha achado a tradução exata, fiquei pensando que era algum tipo de capa ou revestimento. Há alguns dias descobri que Moleskine é um caderno revestido de capa impermeável, com elástico fechando as páginas. Esse caderno, de origem italiana, ficou famoso por ser utilizado por escritores ilustres nos seus rascunhos.
O assunto chegou até mim via Facebook. Havia um artigo no qual o autor recomendava o uso do caderno Moleskine em lugar de ferramentas tecnológicas mirabolantes. A mensagem era exercitar a criatividade e reter as boas ideias, em vez de perder tempo com bobagens na internet ou com brinquedinhos futuristas, como tablets e smartphones.
Eu achei uma ótima sugestão, propor o Moleskine como ferramenta para exercitar a criatividade e estimular as ideias. Se bem que acho que, na falta de tal apetrecho, com certeza mais charmoso e caro, vale qualquer caderno de capa dura, caderneta portátil, bloco de notas, guardanapo de papel.
Mas eu sigo na outra direção. De tanto fazer rascunhos, rabiscos, deixar espalhados e não conseguir mais juntar, muito por falta de disciplina, prefiro manter as ideias online. A vantagem é encontrá-las mais facilmente e poder acessá-las de qualquer lugar. Isso para mim tem sido bem importante, pois tenho me mudado de casa e de cidade quase uma vez a cada ano, nos últimos cinco anos, carregando a mudança em malas. Este blog é o meu diário Moleskine há quase dez anos.
Além de poder acessar o blog de qualquer lugar, do computador mais lento ao mais avançado, do netbook pessoal ao smartphone emprestado, da lan house ao computador do trabalho, há possibilidade de correção e alteração. Em qualquer tempo, em qualquer momento.
Eu fiquei curioso com o tal caderno. Pode ser uma boa ideia voltar a rascunhar em papel novamente. Para variar um pouco, deixar o teclado de lado. Fui procurar na internet, existe uma rede de livrarias de Toronto que o vende. Nao é barato, mas quero conhecê-lo de perto.
Difícil vai ser inaugurá-lo. Eu me conheço. Vou ficar com pena enfeiá-lo, de riscar para alterar parágrafos, para reescrever frases. Nunca escrevo de primeira com letra bonita. Ninguém faz isso. Não vou poder arrancar páginas, o Moleskine não permite, as páginas são costuradas em formato brochura. Acho que vou arrumar um rascunho, depois passo a limpo no novo caderno. Depois digito no blog. Mas aí vai ser trabalho demais!
O assunto chegou até mim via Facebook. Havia um artigo no qual o autor recomendava o uso do caderno Moleskine em lugar de ferramentas tecnológicas mirabolantes. A mensagem era exercitar a criatividade e reter as boas ideias, em vez de perder tempo com bobagens na internet ou com brinquedinhos futuristas, como tablets e smartphones.
Eu achei uma ótima sugestão, propor o Moleskine como ferramenta para exercitar a criatividade e estimular as ideias. Se bem que acho que, na falta de tal apetrecho, com certeza mais charmoso e caro, vale qualquer caderno de capa dura, caderneta portátil, bloco de notas, guardanapo de papel.
Mas eu sigo na outra direção. De tanto fazer rascunhos, rabiscos, deixar espalhados e não conseguir mais juntar, muito por falta de disciplina, prefiro manter as ideias online. A vantagem é encontrá-las mais facilmente e poder acessá-las de qualquer lugar. Isso para mim tem sido bem importante, pois tenho me mudado de casa e de cidade quase uma vez a cada ano, nos últimos cinco anos, carregando a mudança em malas. Este blog é o meu diário Moleskine há quase dez anos.
Além de poder acessar o blog de qualquer lugar, do computador mais lento ao mais avançado, do netbook pessoal ao smartphone emprestado, da lan house ao computador do trabalho, há possibilidade de correção e alteração. Em qualquer tempo, em qualquer momento.
Eu fiquei curioso com o tal caderno. Pode ser uma boa ideia voltar a rascunhar em papel novamente. Para variar um pouco, deixar o teclado de lado. Fui procurar na internet, existe uma rede de livrarias de Toronto que o vende. Nao é barato, mas quero conhecê-lo de perto.
Difícil vai ser inaugurá-lo. Eu me conheço. Vou ficar com pena enfeiá-lo, de riscar para alterar parágrafos, para reescrever frases. Nunca escrevo de primeira com letra bonita. Ninguém faz isso. Não vou poder arrancar páginas, o Moleskine não permite, as páginas são costuradas em formato brochura. Acho que vou arrumar um rascunho, depois passo a limpo no novo caderno. Depois digito no blog. Mas aí vai ser trabalho demais!
17.1.12
Poeira gelada
A janela e a varanda estão esbranquiçadas. Uma imensa nuvem de poeira fria cobre a cidade, anunciando que o inverno chegou e vai ficar. A neve cai sem parar, o vento piora o frio, os casacos se enchem de flocos gelados, os carros ficam lentos, os tratores passam urrando, espalhando sal grosso, como se estivessem espantando maus-olhados. Mas estão só fazendo derreter a neve acumulada, que vai mudando de cor e passando do branco imaculado para o marrom sujo e conturbado.
A noite continua a chegar cedo, as luzes estão acesas, é mais fácil ver os bares, lojas e restaurantes por dentro. Existem muitas surpresas, locais antes não notados, aconchegos agora revelados. Cozinhas do mundo inteiro convidam a novas experiências. O ser humano é hospitaleiro, ainda que tente provar o contrário. Casa, comida e conforto estão na essência de todas as tribos, de todos os povos e de todas as religiões.
Sigo na Parliament Street em direção norte. Vejo restaurantes tailandeses, indianos, jamaicanos, chineses, portugueses, gregos. Alguns me convidam para levar a comida para casa. Outros me chamam para entrar, fugir do frio, sentar e aproveitar os sabores com calma. Todos tem direito a algum instante privilegiado na vida cotidiana, como atrações envolventes, seduzindo um turista em sua própria moradia, explorador de banalidades e de maravilhas, em intervalos mais rápidos ou mais longos.
Os que convidam para levar têm sempre alguma mesa ou balcão apertado para a refeição rápida. Os que convidam para ficar têm sempre algum garçon atencioso, ou nem tanto, que ficará feliz com o adicional que irei pagar. Em cada um deles terei um momento privilegiado, talvez inesquecível. Economizarei trabalho e dispensarei dividendos.
Fico contente com a profusão de escolhas à minha frente. Alguns cafés e seus balcões parecem mais atraentes do que nunca, eram vistos pela luz do dia, que ofuscava e escurecia os interiores. Dá vontade de parar, de interromper o passo, de sentir a atmosfera, de esquentar o corpo, de perceber o que é oferecido, de conversar, de ler o jornal, de deixar o tempo passar. Mas estou com pressa. O frio não deixa ninguém parar, o frio me dá energia, um café poderia reiniciar tudo. É a pausa, é o recomeço. Mas estou com pressa.
A noite continua a chegar cedo, as luzes estão acesas, é mais fácil ver os bares, lojas e restaurantes por dentro. Existem muitas surpresas, locais antes não notados, aconchegos agora revelados. Cozinhas do mundo inteiro convidam a novas experiências. O ser humano é hospitaleiro, ainda que tente provar o contrário. Casa, comida e conforto estão na essência de todas as tribos, de todos os povos e de todas as religiões.
Sigo na Parliament Street em direção norte. Vejo restaurantes tailandeses, indianos, jamaicanos, chineses, portugueses, gregos. Alguns me convidam para levar a comida para casa. Outros me chamam para entrar, fugir do frio, sentar e aproveitar os sabores com calma. Todos tem direito a algum instante privilegiado na vida cotidiana, como atrações envolventes, seduzindo um turista em sua própria moradia, explorador de banalidades e de maravilhas, em intervalos mais rápidos ou mais longos.
Os que convidam para levar têm sempre alguma mesa ou balcão apertado para a refeição rápida. Os que convidam para ficar têm sempre algum garçon atencioso, ou nem tanto, que ficará feliz com o adicional que irei pagar. Em cada um deles terei um momento privilegiado, talvez inesquecível. Economizarei trabalho e dispensarei dividendos.
Fico contente com a profusão de escolhas à minha frente. Alguns cafés e seus balcões parecem mais atraentes do que nunca, eram vistos pela luz do dia, que ofuscava e escurecia os interiores. Dá vontade de parar, de interromper o passo, de sentir a atmosfera, de esquentar o corpo, de perceber o que é oferecido, de conversar, de ler o jornal, de deixar o tempo passar. Mas estou com pressa. O frio não deixa ninguém parar, o frio me dá energia, um café poderia reiniciar tudo. É a pausa, é o recomeço. Mas estou com pressa.
11.1.12
Aquecimento
Na cidade ocorrem dias de primavera em pleno inverno. Estudantes caminham pelas ruas, sem neve, sem deslizes. Ciclistas enfrentam o vento e pistas úmidas. Até um lapso de verde aparece no parque, fingindo que é grama. A roda gira e as notícias correm. Onde fazia frio, agora tem seca. Onde fazia calor, agora chove sem parar. Onde havia a secura, agora existe a neve. Onde a água inundava, agora o chão estala. Em voltas a natureza reage. Em ciclos ela reclama. O calor faz a água subir e ela vem descendo em torrente, indefensável, derrubando encostas e sonhos. Enquanto alguns realizam seus desejos de pedra, outros perdem tudo que empilharam. Alguns suspiram de alívio, outros respiram com dificuldade. Alguns clamam aos deuses, outros esquecem de agradecer. Assim a vida vai andando, sem saber onde vai parar. Sem saber onde haverá limite. Sem saber quando se chegará a um acordo. Sem saber quando o futuro estará assegurado.
Mas futuro não se assegura. Futuro se deseja, se imagina, se cria em um canto da mente. No futuro se chega a crer. No futuro se chega sem perceber. Do desejo de futuro parte o impulso. Da vontade de criá-lo se chega ao oásis. Do entendimento e da boa vontade seguem as fluxos.
O futuro se assenta no presente criado a partir de um passado feito por acaso, diria aquele que não acredita. Sobre o passado que, não se sabe como, fez restar até hoje as idéias, as palavras impressas, as fotos e as cores. E os limites geográficos. Aos contornos imprecisos do futuro, prefere-se então o pretérito imperfeito embaçado pelas brumas da lembrança.
Mas futuro não se assegura. Futuro se deseja, se imagina, se cria em um canto da mente. No futuro se chega a crer. No futuro se chega sem perceber. Do desejo de futuro parte o impulso. Da vontade de criá-lo se chega ao oásis. Do entendimento e da boa vontade seguem as fluxos.
O futuro se assenta no presente criado a partir de um passado feito por acaso, diria aquele que não acredita. Sobre o passado que, não se sabe como, fez restar até hoje as idéias, as palavras impressas, as fotos e as cores. E os limites geográficos. Aos contornos imprecisos do futuro, prefere-se então o pretérito imperfeito embaçado pelas brumas da lembrança.
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| The Sun |
9.1.12
Cenário
Os astrólogos estão
antevendo: Netuno sai de Aquário, entra em Peixes e traz grandes
mudanças na cultura, mais uma vez. Isso acontece a partir de fevereiro de 2012. Ou seja, já. O culto à tecnologia e inovações
tresloucadas perde força e o romantismo volta mais forte que nunca.
A cantora Adele, com suas canções derramadas em lágrimas, parece ser uma amostra. Ela vem fazendo sucesso há alguns meses, não é de hoje. A configuração astrológica ainda não se estabeleceu, mas já vem alterando o cenário cultural. É apenas uma provinha. Será mesmo uma tendência para o futuro próximo? Será que essa corrente se confirmará? Vamos ver.
E aguentar.
7.1.12
Toronto ou Montréal?
Ao travar contato com canadenses de longa data, gente que nasceu ou que vive aqui há muito tempo, sempre sai uma questão, depois que falo que morei antes em Montréal. É certo, pode esperar, essa pergunta vai sair: "Você prefere Toronto ou Montréal?". Há uma rivalidade histórica entre as duas cidades. Então os canadenses ficam sondando as preferências.
Até os anos 70, Montréal era a cidade mais importante do Canadá em termos econômicos. Após a instituiçao do francês como língua única, muitas empresas saíram da província de Québec, onde Montréal está situada, e vieram para Toronto. A imigração maciça ajudou a capital da provícia de Ontario a tomar a dianteira em número de habitantes.
Na província de Québec conheci o Canadá propriamente dito. Um pouco do país original e as construções antigas. A fundação do Canadá, pelos colonizadores franceses, com seus costumes, comidas, lendas, músicas. Tive uma boa ideia do que se trata este país, que algumas vezes parece acolhedor, outras vezes parece inóspito.
Para quem vem das cidades caóticas brasileiras, as cidades canadenses parecem calmas demais, até entediantes, principalmente durante o inverno. Montréal é menor, mais tranquila, mais europeia. Às vezes parece perdida no tempo, com tantos prédios antigos. Toronto tem mais cara de metrópole, com edifícios gigantescos no centro da cidade, e com mais gente se esbarrando no metrô.
Montréal tem ótimos parques, bem no centro da cidade. Isso possibilita um hábito muito agradável durante a estação quente. As pessoas saem do trabalho ou dos estudos e vão ao Parc Lafontaine ou ao Parc Mont-Royal para encontrar com os amigos e bater papo. Levam lanches e bebidas. O que a princípio nao é permitido, mas todo mundo faz. Tudo em nome da tradição europeia de comer com o acompanhamento de vinho ou outra bebida alcoólica. Aproveitando uma brecha na lei que proíbe o consumo de álcool em locais públicos e abertos. Um simples pacote de batatas fritas serve como desculpa para a garrafa de vinho durante o piquenique no parque.
Em Toronto não existe esse hábito. Ou os parques no centro da cidade não são convidativos. Ou os habitantes desta cidade nao têm tempo ou costume de simplesmente relaxar. Ou não têm o "savoir vivre" dos québecois. Ou preferem bares e restaurantes caros no final do dia, já que têm salários maiores.
Em Montréal muitos restaurantes convidam a "apportez votre vin", para que você traga o seu próprio vinho. E as pessoas fazem isso frequentemente. Os garçons abrem as garrafas e servem o vinho com boa vontade. Já em Toronto, levar o vinho não é comum, mas, em compensação, aqui se come sushi de boa qualidade por um preço ridiculamente pequeno. A depender do local, comer sushi pode sair mais barato que comer pizza ou hamburguer.
Em ambas as cidades existem parques no meio das águas: no lago (em Toronto) ou no rio (em Montréal). Para chegar na Toronto Island, a ilha no meio do lago, é preciso pegar um ferry-boat, a viagem dura uns dez minutos. Em Montréal o metrô desce por baixo d'água e você chega seco no parque, como se nada tivesse acontecido, desde que você saiu do centro da cidade. Dos parques rodeados de água, a gente tem vista do skyline, o panorama urbano das duas cidades.
Toronto tem menos neve e faz menos frio que em Montréal. Apesar de menor população, Montréal tem a noite mais animada, com mais casas noturnas e bares que só param de vender álcool às três da madrugada. Em Toronto, é bom correr. Às duas horas não há mais possibilidade de comprar bebida alcoólica.
Em Toronto posso praticar francês e em Montréal posso praticar inglês, mesmo que não sejam as línguas dominantes.
Montréal é uma cidade mais sexy e mais romântica. É comum ver casais se beijando nas ruas, nos parques, no metrô. Às vezes indo além dos beijos. Em Toronto isso é mais raro do que neve no Brasil.
Em Toronto vive-se uma sociedade multicultural, respeitosa das diferenças. Como em uma reunião contínua da ONU nas ruas. É difícil se sentir estrangeiro nessa cidade, pois todo mundo tem cara de que veio de outro lugar - e bem distante.
Em Montréal e em todo o Québec, a luta pela preservação do francês gera um tom levemente refratário às culturas estrangeiras. Esse sentido é um pouco menor em Toronto, o que, para mim, acaba por se mostrar como um pouco mais de receptividade à imigração.
De Toronto parte um voo direto para o Brasil, o que é uma boa vantagem.
Em Toronto tenho mais amigos brasileiros que em Montréal, alguns que já conheço desde o Brasil, são praticamente os primos ou irmãos no Canadá. Em Montréal tenho mais amigos iranianos e francófonos que em Toronto.
Então, pesando tudo, o que prefiro, Toronto ou Montréal? Sabe que não sei?!
Até os anos 70, Montréal era a cidade mais importante do Canadá em termos econômicos. Após a instituiçao do francês como língua única, muitas empresas saíram da província de Québec, onde Montréal está situada, e vieram para Toronto. A imigração maciça ajudou a capital da provícia de Ontario a tomar a dianteira em número de habitantes.
Na província de Québec conheci o Canadá propriamente dito. Um pouco do país original e as construções antigas. A fundação do Canadá, pelos colonizadores franceses, com seus costumes, comidas, lendas, músicas. Tive uma boa ideia do que se trata este país, que algumas vezes parece acolhedor, outras vezes parece inóspito.
Para quem vem das cidades caóticas brasileiras, as cidades canadenses parecem calmas demais, até entediantes, principalmente durante o inverno. Montréal é menor, mais tranquila, mais europeia. Às vezes parece perdida no tempo, com tantos prédios antigos. Toronto tem mais cara de metrópole, com edifícios gigantescos no centro da cidade, e com mais gente se esbarrando no metrô.
| Centro de Montréal visto da Île de Sainte Helène (Parc Jean Drapeau) |
Montréal tem ótimos parques, bem no centro da cidade. Isso possibilita um hábito muito agradável durante a estação quente. As pessoas saem do trabalho ou dos estudos e vão ao Parc Lafontaine ou ao Parc Mont-Royal para encontrar com os amigos e bater papo. Levam lanches e bebidas. O que a princípio nao é permitido, mas todo mundo faz. Tudo em nome da tradição europeia de comer com o acompanhamento de vinho ou outra bebida alcoólica. Aproveitando uma brecha na lei que proíbe o consumo de álcool em locais públicos e abertos. Um simples pacote de batatas fritas serve como desculpa para a garrafa de vinho durante o piquenique no parque.
Em Toronto não existe esse hábito. Ou os parques no centro da cidade não são convidativos. Ou os habitantes desta cidade nao têm tempo ou costume de simplesmente relaxar. Ou não têm o "savoir vivre" dos québecois. Ou preferem bares e restaurantes caros no final do dia, já que têm salários maiores.
Em Montréal muitos restaurantes convidam a "apportez votre vin", para que você traga o seu próprio vinho. E as pessoas fazem isso frequentemente. Os garçons abrem as garrafas e servem o vinho com boa vontade. Já em Toronto, levar o vinho não é comum, mas, em compensação, aqui se come sushi de boa qualidade por um preço ridiculamente pequeno. A depender do local, comer sushi pode sair mais barato que comer pizza ou hamburguer.
Em ambas as cidades existem parques no meio das águas: no lago (em Toronto) ou no rio (em Montréal). Para chegar na Toronto Island, a ilha no meio do lago, é preciso pegar um ferry-boat, a viagem dura uns dez minutos. Em Montréal o metrô desce por baixo d'água e você chega seco no parque, como se nada tivesse acontecido, desde que você saiu do centro da cidade. Dos parques rodeados de água, a gente tem vista do skyline, o panorama urbano das duas cidades.
Toronto tem menos neve e faz menos frio que em Montréal. Apesar de menor população, Montréal tem a noite mais animada, com mais casas noturnas e bares que só param de vender álcool às três da madrugada. Em Toronto, é bom correr. Às duas horas não há mais possibilidade de comprar bebida alcoólica.
| Centro de Toronto visto da Toronto Island |
Montréal é uma cidade mais sexy e mais romântica. É comum ver casais se beijando nas ruas, nos parques, no metrô. Às vezes indo além dos beijos. Em Toronto isso é mais raro do que neve no Brasil.
Em Toronto vive-se uma sociedade multicultural, respeitosa das diferenças. Como em uma reunião contínua da ONU nas ruas. É difícil se sentir estrangeiro nessa cidade, pois todo mundo tem cara de que veio de outro lugar - e bem distante.
Em Montréal e em todo o Québec, a luta pela preservação do francês gera um tom levemente refratário às culturas estrangeiras. Esse sentido é um pouco menor em Toronto, o que, para mim, acaba por se mostrar como um pouco mais de receptividade à imigração.
De Toronto parte um voo direto para o Brasil, o que é uma boa vantagem.
Em Toronto tenho mais amigos brasileiros que em Montréal, alguns que já conheço desde o Brasil, são praticamente os primos ou irmãos no Canadá. Em Montréal tenho mais amigos iranianos e francófonos que em Toronto.
Então, pesando tudo, o que prefiro, Toronto ou Montréal? Sabe que não sei?!
30.12.11
Pelo mundo de Toronto
Andar pelas ruas de Toronto é dar uma volta ao mundo sem sair da cidade. Mesmo depois de um ano e meio morando aqui, ainda tem muita coisa para conhecer.
Peguei o metrô e fui na biblioteca do bairro português atrás de livros na língua de José Saramago e Jorge Amado. E minha também, claro. Trouxe para casa o brasileiro Bernado Carvalho, o angolano José Agualusa e o famoso português Gonçalo M. Tavares, que Saramago uma vez disse que merecia "apanhar" por escrever tão bem aos trinta e cinco anos.
A biblioteca Bloor/Gladstone, onde peguei os livros, é bem mais bonita do que a St. James Town, que fica a dois passos de minha casa. A biblioteca da região portuguesa deve ter sido reformada recentemente. Muito vidro e metal. Nem parece que foi fundada em 1914.
Com os livros na mochila segui pela Bloor West, em busca do Nazareth, um restaurante etíope recomendado por uma pessoa da Etiópia que conheci em um dos encontros linguísticos que frequento. O Nazareth é simples e bem cotado nas avaliações da cidade. Eu sabia que esse local só abre a partir da tarde, mas eu estava perto, resolvi arriscar. Era em torno das 14 horas e eu estava com fome. Dei de cara com as portas fechadas. Ainda não foi dessa vez provar a comida africana do leste. Continuei caminhando e fiquei surpreso com a presença de outros restaurantes etíopes na região, mas não quis arriscar.
Seguindo o caminho da fome (minha, não etíope), atravessei a rua para chegar em um restaurante caribenho. Há muitos deles em Toronto. Era um local bem pequeno, com cara simpática. Havia uma resenha de jornal afixada na vitrine. Os restaurantes aqui fazem isso. Mostram com orgulho, junto com o cardápio e preços, os comentários elogiosos publicados nos jornais. Para o cliente, serve como boa referência.
Foi assim, influenciado pelo artigo que dizia que lá serviam "not so fast food", que decidi entrar no Pam's Caribbean Kitchen, para experimentar o tal do famoso "Jerk Chicken with rice and peas".
Boa parte dos restaurantes da região central de Toronto tem um tamanho minúsculo. São locais onde a maior parte das vendas é feita "para levar", nas infames caixas térmicas descartáveis. Há somente poucas mesas. Algumas vezes a surpresa com a comida é boa. Come-se bem e barato. Algumas vezes.
O restaurante estava vazio. Não havia ninguém, nem clientes, nem atendente no balcão. No buffet não havia comida. Quase resolvendo ir embora, uma senhora apareceu da cozinha e perguntou o que eu queria. Escolhi o prato, sentei em uma mesa e fiquei aguardando.
O Jerk Chicken chegou no prato já montado. É um frango frito com um gostoso molho escuro picante. O frango tinha um sabor forte de cominho. O "rice and peas" é o conhecido feijao com arroz, mas sem o caldo. Apenas alguns poucos grãos de feijao espalhados no arroz. O caldo deve ter sido útil apenas para dar a cor levemente marrom ao arroz. Para completar, uma pequena porçao de "coleslaw", salada de repolho e cenoura picados com maionese.
O prato estava muito bom. A pimenta teve um efeito inesperado e benéfico. Limpou as minhas vias respiratórias, que andavam congestionadas.
Fiquei pensando por que motivo o Brasil não emplaca o bife-arroz-feijão-salada como prato típico nacional, em vez de ficar empurrando feijoada e churrasco rodízio nos turistas. Quando está bem feito, é saudável, bom e fácil de ser reproduzido. Acho que os empreendedores brasileiros preferem ir para África montar grandes negócios, em vez de abrir restaurantes em Toronto.
Pam, a dona do estabelecimento, e que me atendeu, vim saber depois, é proveniente da Guiana. Um país vizinho do Brasil, mas que a gente só sabe que existe pelos livros de geografia da escola, quando tem que decorar as capitais. Aliás, no Brasil nunca encontrei ninguém da Guiana. Aqui no Canadá encontrei alguns. Madame Pam é a mais recente.
Terminado o almoço, barriga cheia, continuo a caminhar, agora em busca de sobremesa: pastel de Belém e café na padaria portuguesa. Fui caminhando e passei por Koreatown, que nem sabia que existia. Vários restaurantes, lojas de produtos naturais, parque, mercearias, lojas de bonecas Hello Kitty e afins. Menos bagunçada que Chinatown, a região é simpática e ficou merecendo uma outra visita, desta vez de barriga vazia, para experimentar as iguarias.
Caminhei mais um bocado e notei que já estava muito longe do ponto de partida. Perguntei a uma ciclista - uma corajosa que pedalava em dia de neve e que estava parada no sinal -, onde ficava a região que eu procurava. Ela me disse que era perto da biblioteca onde eu estava antes e eu não percebera. O pastel de Belém ficou para outro dia. Cansado de andar, fui para casa.
Peguei o metrô e fui na biblioteca do bairro português atrás de livros na língua de José Saramago e Jorge Amado. E minha também, claro. Trouxe para casa o brasileiro Bernado Carvalho, o angolano José Agualusa e o famoso português Gonçalo M. Tavares, que Saramago uma vez disse que merecia "apanhar" por escrever tão bem aos trinta e cinco anos.
A biblioteca Bloor/Gladstone, onde peguei os livros, é bem mais bonita do que a St. James Town, que fica a dois passos de minha casa. A biblioteca da região portuguesa deve ter sido reformada recentemente. Muito vidro e metal. Nem parece que foi fundada em 1914.
![]() |
| Comida etíope: ficou para a próxima vez |
Seguindo o caminho da fome (minha, não etíope), atravessei a rua para chegar em um restaurante caribenho. Há muitos deles em Toronto. Era um local bem pequeno, com cara simpática. Havia uma resenha de jornal afixada na vitrine. Os restaurantes aqui fazem isso. Mostram com orgulho, junto com o cardápio e preços, os comentários elogiosos publicados nos jornais. Para o cliente, serve como boa referência.
Foi assim, influenciado pelo artigo que dizia que lá serviam "not so fast food", que decidi entrar no Pam's Caribbean Kitchen, para experimentar o tal do famoso "Jerk Chicken with rice and peas".
Boa parte dos restaurantes da região central de Toronto tem um tamanho minúsculo. São locais onde a maior parte das vendas é feita "para levar", nas infames caixas térmicas descartáveis. Há somente poucas mesas. Algumas vezes a surpresa com a comida é boa. Come-se bem e barato. Algumas vezes.
O restaurante estava vazio. Não havia ninguém, nem clientes, nem atendente no balcão. No buffet não havia comida. Quase resolvendo ir embora, uma senhora apareceu da cozinha e perguntou o que eu queria. Escolhi o prato, sentei em uma mesa e fiquei aguardando.
O Jerk Chicken chegou no prato já montado. É um frango frito com um gostoso molho escuro picante. O frango tinha um sabor forte de cominho. O "rice and peas" é o conhecido feijao com arroz, mas sem o caldo. Apenas alguns poucos grãos de feijao espalhados no arroz. O caldo deve ter sido útil apenas para dar a cor levemente marrom ao arroz. Para completar, uma pequena porçao de "coleslaw", salada de repolho e cenoura picados com maionese.
O prato estava muito bom. A pimenta teve um efeito inesperado e benéfico. Limpou as minhas vias respiratórias, que andavam congestionadas.
Fiquei pensando por que motivo o Brasil não emplaca o bife-arroz-feijão-salada como prato típico nacional, em vez de ficar empurrando feijoada e churrasco rodízio nos turistas. Quando está bem feito, é saudável, bom e fácil de ser reproduzido. Acho que os empreendedores brasileiros preferem ir para África montar grandes negócios, em vez de abrir restaurantes em Toronto.
Pam, a dona do estabelecimento, e que me atendeu, vim saber depois, é proveniente da Guiana. Um país vizinho do Brasil, mas que a gente só sabe que existe pelos livros de geografia da escola, quando tem que decorar as capitais. Aliás, no Brasil nunca encontrei ninguém da Guiana. Aqui no Canadá encontrei alguns. Madame Pam é a mais recente.
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| Esse tigrão iluminado fica em Koreatown |
Caminhei mais um bocado e notei que já estava muito longe do ponto de partida. Perguntei a uma ciclista - uma corajosa que pedalava em dia de neve e que estava parada no sinal -, onde ficava a região que eu procurava. Ela me disse que era perto da biblioteca onde eu estava antes e eu não percebera. O pastel de Belém ficou para outro dia. Cansado de andar, fui para casa.
Mídia meteorológica
Acabo de descobrir que o site em que vejo a previsão do tempo também traz informações do Brasil. Eu achava que havia só previsão para Canadá e EUA. Neste instante, Salvador faz sol de 31 graus. Com sensação térmica (fator umidade) de 44 graus! Em Toronto, -2 graus com nuvens dançando axé, descendo até o chão.
Não tá fácil pra ninguém.
28.12.11
Cantando na neve
O dia amanhece com sol discreto. Temperaturas baixas, uma onda de frio desce sobre o lado leste do país, atraindo temperaturas negativas, cancelando vôos e complicando a vida de quem dirige nas ruas e estradas. A chuva de ontem congela no chão e a neve vem caindo em flocos.
|
| Os loucos canadenses e suas bicicletas indomáveis |
As camadas de roupas protegem o corpo, não há desconforto ao andar na rua. A não ser que o vento traga o chicote do frio. Quando a neve cai é sinal de que a temperatura não está muito baixa. Nem alta, com certeza. Ela não molha como a chuva, não encharca as roupas, não aumenta o terror do frio umido. O rosto arde, as poucas partes que ficam descobertas queimam pela tempeatura. Mas a natureza é sábia. Ela pôs olhos de vidro nos homens. Olhos que não sentem frio e que conduzem os passos apressados.
As pessoas caminham de cabeça baixa, para proteger o pescoço e a respiração. Os movimentos do corpo ficam reduzidos. Toucas e capuzes protegem orelhas mas diminuem a visão lateral. O pedestre tem que contar com a paciência e a atenção redobrada dos motoristas. Estes estão em situaçao privilegiada, protegidos pelos seus aquecimentos móveis e ambulantes.
25.12.11
Merry Christmas
A comemoração de Natal na América do Norte é praticamente igual à do Brasil. Ou melhor, a comemoração brasileira é copiada da norte-americana. Na mesa, peru de Natal, presunto, pernil. Pinheiros como árvores de Natal, completando a decoração. Neve e Papai Noel. Consumismo exacerbado. No cardápio, a mudança é só do purê de batata para a farofa brasileira.
Alguém daqui me perguntou como é a comemoração do Natal no Brasil. Eu respondi: exatamente igual à do Canadá. Talvez no Brasil a gente não se dê conta de como a nossa alimentação é influenciada pelos hábitos norte-americanos. O querido brigadeiro foi inventado com o leite condensado do hemisfério norte. Aliás, colocar um pouco de leite condensado em um café encorpado fica sensacional.
O peru que preparei, mais uma vez, modéstias à parte, ficou muito bom, temperado com bastante alho, suco de laranja, páprica e tomilho. Aprendi a fazer gravy com o caldo da assadeira e não vivo mais sem isso. O gravy fica uma delícia sobre a carne branca do peru, sobre o purê de batata, sobre a farofa, arroz ou o que mais houver. O stuffing compro semi-pronto no mercado, basta jogar o conteúdo dos pacotes na água quente com um pouco de manteiga.
A saudade do Brasil bateu forte ao assistir ao video da apresentação de Caetano, Gil e Ivete no especial de Natal da tv Globo. Ivete deu um show de emoção ao cantar "Atrás da Porta", imortalizada por Elis Regina. Uma grande responsabilidade. Quando ela começou "Se eu não te amasse tanto assim", tive que sair da frente da tv. Meu coração pediu trégua. Como os cantores baianos conseguem essa magia, é difícil entender.
Senti vontade de estar perto da minha família, dos meus amigos brasileiros, do sol, da praia, do calor, dos encontros cheios de conversas animadas com pessoas queridas. Mas sei que, logo depois, todo mundo viaja e a vida volta à normalidade das férias de verão, pelo menos até o Carnaval. Para mim resta todo um longo inverno pela frente.
| Merry Christmas |
O peru que preparei, mais uma vez, modéstias à parte, ficou muito bom, temperado com bastante alho, suco de laranja, páprica e tomilho. Aprendi a fazer gravy com o caldo da assadeira e não vivo mais sem isso. O gravy fica uma delícia sobre a carne branca do peru, sobre o purê de batata, sobre a farofa, arroz ou o que mais houver. O stuffing compro semi-pronto no mercado, basta jogar o conteúdo dos pacotes na água quente com um pouco de manteiga.
A saudade do Brasil bateu forte ao assistir ao video da apresentação de Caetano, Gil e Ivete no especial de Natal da tv Globo. Ivete deu um show de emoção ao cantar "Atrás da Porta", imortalizada por Elis Regina. Uma grande responsabilidade. Quando ela começou "Se eu não te amasse tanto assim", tive que sair da frente da tv. Meu coração pediu trégua. Como os cantores baianos conseguem essa magia, é difícil entender.
Senti vontade de estar perto da minha família, dos meus amigos brasileiros, do sol, da praia, do calor, dos encontros cheios de conversas animadas com pessoas queridas. Mas sei que, logo depois, todo mundo viaja e a vida volta à normalidade das férias de verão, pelo menos até o Carnaval. Para mim resta todo um longo inverno pela frente.
10.12.11
Aposentadoria gorda
Nesta semana o jornal The Star noticiou que o famoso time de hóquei Maple Leafs trocou de donos. O fundo de pensão dos professores de Ontario, Ontario Teachers' Pension Plan, vendeu a sua parte, que correspondia a 79,5% das ações, para as empresas de telecomunicação Rogers e Bell. Pela operação, os professores vão embolsar a bagatela de 1,32 bilhão de dólares. Se a gente imaginar no Brasil, seria como se o fundo de previdência dos professores do Rio de Janeiro fosse dono do Flamengo e tivesse vendido o time para embolsar bilhões de reais.

Ontario é a província mais populosa do Canadá e onde Toronto está localizada. O fundo de pensão dos professores de Ontario foi criado em 1989. Tem, portanto, somente 22 anos e já é o maior fundo privado do Canadá.
Imagine como a carreira de professor deve ser disputada nesta província. Bom salário e a confiança que ele não sera reduzido na aposentadoria. Assim como em quase todos os países, desenvolvidos ou em desenvolvimento, no Canadá apenas algumas grandes empresas e associações de trabalhadores têm fundos privados de pensão. Esses fundos formam o capital por meio de contribuições mensais dos associados e evitam a perda financeira que o trabalhador sofreria se tivesse que contar apenas com a aposentadoria do governo. Os fundos pagam mensalmente a diferença do salário.
No Brasil, o maior fundo de pensao é a Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (PREVI), que também é o maior fundo da América Latina. A PREVI foi criada em 1904!
Imagine se no Brasil houvesse um fundo dessa envergadura também para os professores, para os policiais, para os bombeiros, para os funcionários públicos. Como o país teria melhores serviços, profissionais bem pagos e com aposentadorias gordas. E muito menos despesas para o governo e o contribuinte, ou seja, todos os brasileiros, que atualmente têm que arcar com a aposentadoria de todas esssas categorias de profissionais.
Mas nem sempre dá para contar com o apoio do governo, que é quem controla o fundo dos professores canadenses. Recentemente, na Argentina, durante a crise financeira, o governo federal meteu a mão em planos privados, para fazer caixa. É espantoso e animador ver que fundos como a PREVI, PETROS (Petrobrás) e FUNCEF (Caixa Econômica) venham durando tanto no Brasil, mesmo passando por tantos solavancos finaceiros e reviravoltas políticas.
Uma coisa é certa, o caminho da poupança, do desenvolvimento, da segurança e do bem-estar das famílias, no mundo todo, passa pelos fundos privados de pensão.

Ontario é a província mais populosa do Canadá e onde Toronto está localizada. O fundo de pensão dos professores de Ontario foi criado em 1989. Tem, portanto, somente 22 anos e já é o maior fundo privado do Canadá.
Imagine como a carreira de professor deve ser disputada nesta província. Bom salário e a confiança que ele não sera reduzido na aposentadoria. Assim como em quase todos os países, desenvolvidos ou em desenvolvimento, no Canadá apenas algumas grandes empresas e associações de trabalhadores têm fundos privados de pensão. Esses fundos formam o capital por meio de contribuições mensais dos associados e evitam a perda financeira que o trabalhador sofreria se tivesse que contar apenas com a aposentadoria do governo. Os fundos pagam mensalmente a diferença do salário.
No Brasil, o maior fundo de pensao é a Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (PREVI), que também é o maior fundo da América Latina. A PREVI foi criada em 1904!
Imagine se no Brasil houvesse um fundo dessa envergadura também para os professores, para os policiais, para os bombeiros, para os funcionários públicos. Como o país teria melhores serviços, profissionais bem pagos e com aposentadorias gordas. E muito menos despesas para o governo e o contribuinte, ou seja, todos os brasileiros, que atualmente têm que arcar com a aposentadoria de todas esssas categorias de profissionais.
Mas nem sempre dá para contar com o apoio do governo, que é quem controla o fundo dos professores canadenses. Recentemente, na Argentina, durante a crise financeira, o governo federal meteu a mão em planos privados, para fazer caixa. É espantoso e animador ver que fundos como a PREVI, PETROS (Petrobrás) e FUNCEF (Caixa Econômica) venham durando tanto no Brasil, mesmo passando por tantos solavancos finaceiros e reviravoltas políticas.
Uma coisa é certa, o caminho da poupança, do desenvolvimento, da segurança e do bem-estar das famílias, no mundo todo, passa pelos fundos privados de pensão.
5.12.11
Dos sentidos
Acho que estou dentro de uma festa em que cheguei atrasado. Mas não foi atraso de minutos e horas. Foram anos. Uma festa da qual perdi os melhores momentos. Ou não. Eu me recuso a aceitar. Procuro pensar que foi uma festa para a qual eu não tinha sido convidado, mas que, na última hora, os convites apareceram. Agradecendo à sorte, entrei com os portões quase fechando, o melhor show havia terminado, ainda achei música e bebida, mas gente menos animada. É uma festa na qual terei que ficar até o final, para ajudar a empilhar mesas e cadeiras e varrer o pátio. Mas haverá sol e piscina no dia seguinte, com tudo incluído: comida, bebida e uma bela vista do mar do Caribe.
2.12.11
Quase Natal
Eu
me sinto mais adaptado à vida canadense quando ando de bicicleta pela
cidade no outono quase inverno, em temperaturas quase negativas, com o
vento batendo no rosto semi-coberto, aumentando o frio, com sensação
térmica de estar abaixo do zero. É uma sensação de poder, que quer me
dizer que o frio não é impedimento para os esportes ao ar livre, que não
há a tristeza do confinamento em ambientes aquecidos
durante meses, que o inverno pode ser mais curto do que sempre ameaça. O
calor do movimento do corpo provoca suor e estimula o bem-estar.
Rodando pela cidade, vejo as pessoas circulando pelo centro comercial,
Yonge Street, turistas e nativos, impossível adivinhar, andando sob
pesados casacos, monotonamente de cor preta, salvo a madame da Bloor
Street, logo ali perto, entrando e saindo de lojas finas, em seu
glamouroso casaco de peles, que mais imitava um pássaro ancestral, de
penas brancas com reflexos de negro nas pontas. Estão todos alegres,
quase confiantes, ricos e pobres, cafonas e modernos, pelas luzes das
festas de fim de ano e pelos primeiros reflexos da neve.
29.11.11
As atualizações constantes
As redes sociais da internet me trazem frequentes alegrias. Poderia citar vários exemplos dos motivos. Acho fantástico poder saber das novidades de quem está longe. Para quem mora distante da terra natal, como no meu caso, é muito bom receber atualizaçoes de pessoas conhecidas. Tenho a impressão de que tenho mais interação com alguns amigos brasileiros do que quando morava no país.
Os familiares, amigos ou conhecidos que fazem algum tipo de trabalho criativo mostram as suas novidades. Além das viagens, as fotos e vídeos mostram criações culinárias, projetos arquitetônicos, peças publicitárias, cultivos de flores, pinturas, esculturas. Os textos estão nos blogs, acessíveis por links. As opiniões e discussões estão nos comentários. As festas são combinadas nos eventos.
O bom é que, ao encontrar ao vivo, quase sempre em rápidos momentos, há um sentimento de atualização, como se estivéssemos conversando em vários momentos durante o tempo que passou. Tive essa impressão da última vez que fui ao Brasil, ao reencontrar algumas pessoas.
Também há muitos ativismos e movimentações políticas, que são divulgados facilmente. Ecologia, causas étnicas, sexualidade e temas sociais entram nos assuntos do dia, dentro de casa, sem a necessidade de um apresentador de telejornal. As podridões e corrupções estao expostas como nunca, facilitando a vigilância e a cobrança de medidas. Algo que traz um sentimento de que poderá haver mais controle e que a direção correta e justa do país será mantida. Ou estou sendo ingênuo?
Os familiares, amigos ou conhecidos que fazem algum tipo de trabalho criativo mostram as suas novidades. Além das viagens, as fotos e vídeos mostram criações culinárias, projetos arquitetônicos, peças publicitárias, cultivos de flores, pinturas, esculturas. Os textos estão nos blogs, acessíveis por links. As opiniões e discussões estão nos comentários. As festas são combinadas nos eventos.
O bom é que, ao encontrar ao vivo, quase sempre em rápidos momentos, há um sentimento de atualização, como se estivéssemos conversando em vários momentos durante o tempo que passou. Tive essa impressão da última vez que fui ao Brasil, ao reencontrar algumas pessoas.
Também há muitos ativismos e movimentações políticas, que são divulgados facilmente. Ecologia, causas étnicas, sexualidade e temas sociais entram nos assuntos do dia, dentro de casa, sem a necessidade de um apresentador de telejornal. As podridões e corrupções estao expostas como nunca, facilitando a vigilância e a cobrança de medidas. Algo que traz um sentimento de que poderá haver mais controle e que a direção correta e justa do país será mantida. Ou estou sendo ingênuo?
25.11.11
Canadá francês-inglês
Chegando do French-English Language Exchange e sempre contente com o que viu ou com o que reencontrou. Brasileiros habitués dos encontros Toronto Babel, que não falam nada de francês e vão só pela farra. Canadenses anglófonos de várias feições (brancos, olhos puxados, negros) que não falam quase nada do francês que aprenderam na escola, mas persistem. Uma polonesa que conheço do French Meetup, que está há menos de três meses em Toronto e que fala um francês lindo, morou na França. Um francês que morou em Vancouver e acha Toronto mais multicultural, onde ele pode conversar na sua língua materna. Uma peruana muito bonita, de feições orientais, avós chineses, que chegou no Canadá aos dez anos de idade, tem uma irmã que nasceu no Brasil, e se comunica em inglês, espanhol, francês e arranha no português. Uma canadense de Alberta fala espanhol sem sotaque, aprendido em escola bilíngue, mas que capenga no francês. Que mais? Franceses negros, brancos e de origem árabe. A organizadora do evento, sempre simpática, estudante de doutorado em linguística, mas que parece mais contente em organizar eses eventos de intercâmbio linguístico. A galeria de personagens é grande. Da seção "coisas que adoro no Canadá".
22.11.11
Mudança de hábito
A chegada do outono, além das baixas temperaturas, da monotonia do cinza no céu e da menor quantidade de luz durante o dia, ainda diminui a chance de andar de bicicleta ao ar livre. Uma merda. Ou eu achava que era assim. Eu via aquelas pessoas meio estranhas, parecendo corajosas, circulando pela cidade, agasalhadas ao extremo em cima de uma bicicleta, parecendo lunáticos, usando luvas, casacos, cachecol, toucas ou protetores de pescoço. E o capacete, que nunca pode faltar. Eu achava algo diferente, coisa de canadense.
Eu achava que era impossível para mim, que, apesar de adorar circular de bike, não tolero frio demais. Até que, conversando com um amigo brasileiro, que também é ciclista e que mora há mais tempo nesta geladeira, fui convencido do contrário. Ele me disse que roda de bicicleta o ano todo, até no inverno. Basta estar bem protegido.
Então eu tomei coragem e resolvi encarar o frio sobre duas rodas e com vento na cara. Foi muito menos difícil do que eu pensava. Me senti muito confortável, sem sentir calor, andando de bicicleta pela cidade, em temperaturas que se aproximam do zero e com sensaçao térmica chegando aos graus negativos, por causa do vento.
Para pedalar com conforto, é muito importante usar luvas. As mãos vão na frente, no guidom, e recebem todo o frio. Precisam estar protegidas. As orelhas também. Uma touca de lã por baixo do capacete, não precisa nem ser muito grossa, resolve bem. Depois de alguns minutos pedalando, chega-se a suar por baixo de tanta proteção.
Se a gente pensar que o ski, que nunca fiz, é praticado em temperaturas bem mais baixas, em cima do gelo e com um vento bem mais intenso, andar de bicicleta no outono ou mesmo no inverno da cidade é fácil, fácil. Acredite.
Agora, com muita neve fica difícil. Em Montréal era cena comum bicicletas estacionadas nas ruas durante todo o inverno, sob uma grossa canada de gelo. Como aqui tem Toronto tem menos neve e a coleta parece ser mais efetiva, acho que vai dar para rodar, pelo menos nos dias menos frios. Vamos ver.
Eu achava que era impossível para mim, que, apesar de adorar circular de bike, não tolero frio demais. Até que, conversando com um amigo brasileiro, que também é ciclista e que mora há mais tempo nesta geladeira, fui convencido do contrário. Ele me disse que roda de bicicleta o ano todo, até no inverno. Basta estar bem protegido.
Então eu tomei coragem e resolvi encarar o frio sobre duas rodas e com vento na cara. Foi muito menos difícil do que eu pensava. Me senti muito confortável, sem sentir calor, andando de bicicleta pela cidade, em temperaturas que se aproximam do zero e com sensaçao térmica chegando aos graus negativos, por causa do vento.
Para pedalar com conforto, é muito importante usar luvas. As mãos vão na frente, no guidom, e recebem todo o frio. Precisam estar protegidas. As orelhas também. Uma touca de lã por baixo do capacete, não precisa nem ser muito grossa, resolve bem. Depois de alguns minutos pedalando, chega-se a suar por baixo de tanta proteção.
Se a gente pensar que o ski, que nunca fiz, é praticado em temperaturas bem mais baixas, em cima do gelo e com um vento bem mais intenso, andar de bicicleta no outono ou mesmo no inverno da cidade é fácil, fácil. Acredite.
Agora, com muita neve fica difícil. Em Montréal era cena comum bicicletas estacionadas nas ruas durante todo o inverno, sob uma grossa canada de gelo. Como aqui tem Toronto tem menos neve e a coleta parece ser mais efetiva, acho que vai dar para rodar, pelo menos nos dias menos frios. Vamos ver.
20.11.11
29 Ways to Stay Creative
1. Faça listas 2. Carregue
um caderno para todos os lugares 3. Tente escrever livremente 4. Saia do
computador 5.Pare de se reprimir 6. Dê pausas a você 7.Cante no
chuveiro 8. Tome café 9. Ouça novas músicas 10. Seja/esteja aberto 11.
Fique rodeado de pessoas criativas 12. Obtenha feedback 13. Colabore 14.
Nao desista 15. Pratique 16. Permita-se errar 17. Vá a algum lugar novo
18. Conte os seus pontos fortes (bençãos) 19. Descanse bastante 20.
Arrisque 21. Quebre regras 22. Não forçe 23. Leia uma página de
dicionário 24. Crie um espaço de trabalho (estrutura, moldura) 25. Pare
de tentar ser alguém perfeito 26. Teve uma idéia? Escreva 27. Limpe o
seu espaço de trabalho 28. Divirta-se 29. Termine algo.
19.11.11
A terra entre as raízes
Termino dois dos melhores livros que já li: The Story of the Night, do irlandês Colm Toíbín, e Mi País Inventado, da chilena Isabel Allende. Nos dois casos, aconteceu algo que raramente faço. Volto a reler algumas partes, pelas quais passei muito rápido, na ânsia pelo desfecho.
Ambos são uma lição de que, para fazer um bom livro, não é preciso vocabulário complicado. O irlandês é reconhecido internacionalmente, recebeu vários prêmios. Escreve em um inglês leve, emotivo e cativante. E não me obriga a ir toda hora ao dicionário. Já Allende é a autora do famoso Casa dos Espíritos e de vários outros títulos que venderam milhões.
Mr. Toíbín me deixou com vontade de conhecer a Irlanda desde quando li outro livro dele, The Empty Family. Mesmo que o retrato traçado por ele do país não seja tão bonito assim.
Mi País Inventado, por sua vez, é um livro que gostaria de ter lido no final da adolescência ou início da fase adulta. Talvez tivesse tomado decisões mais rápidas sobre alguns caminhos a tomar. Ou, melhor, não. Talvez o melhor momento tenha sido agora, quando vivo na condição de imigrante. De qualquer modo, ler o livro naquela época seria impossível, pois ele foi publicado em 2003.
Por coincidência, os dois têm um largo foco nas ditaduras latino-americanas. The Story of the Night, na Argentina, enquanto Mi País Inventado, no Chile.
Isabel Allende faz uma espécie de autobiografia poética, colocando o Chile como pano de fundo. Ela descreve com leveza e humor as relações familiares, o gosto pela escrita, as caracteristicas do povo chileno, as reviravoltas da vida política no Chile, a condição de exilada na Venezuela, por causa da ditadura, e depois como imigrante nos Estados Unidos, após o casamento com um americano.
Impossível para mim não ter identificação com obra e vida de Allende. O gosto pela escrita, a nostalgia do país de origem, o olhar para a terra natal a partir de um local distante, como se fosse um estrangeiro. Talvez tenha sido melhor mesmo ter lido Allende já morando em outro país. Se não estaria sonhando em ser um exilado político para sair do Brasil.
Ela, filha de diplomatas, teve essa oportunidade desde cedo. Já eu lutei por isso. Quando eu era adolescente, via com olhos de desejo aqueles privilegiados que conseguiam sair do país, via turismo ou estudos. Meus primeiros salários foram economizados para uma viagem ao exterior para estudar inglês. A língua inglesa sempre me atraiu, mas o estudo foi mais desculpa para uma longa viagem. Na volta, fiquei bastante entristecido, pois as minhas condições profissionais (e financeiras) haviam mudado e ficou difícil empreender uma outra aventura como aquela.
Os anos se passaram, outras pessoas chegaram e saíram da minha vida. Um amigo foi morar no Canadá e a minha vontade de viajar aumentou e persistiu. Mas, por que mudar, se existia o conforto de morar bem, carro, amigos, emprego estável? Vontade de jogar tudo para cima e recomeçar a vida. Aventura. Aprender outras línguas. Conhecer novas pessoas. Histórias para contar.
Considero um privilégio poder mudar de vida quase aos quarenta anos. Recomeçar tudo: nova língua, estudos, trabalho. Grandes desafios. Mas, como Isabel Allende anota no livro, o século XX foi marcado por migrações e exílios nunca vistos. E, pelo jeito, as coisas continuam fortes até hoje. Faço parte de um fluxo, não estou só.
Até um passado recente, o Brasil sempre esteve isolado, como se fosse uma ilha-continente na América do Sul. Havia poucos intercâmbios com os países vizinhos. Raras pessoas viajavam à Colômbia e Venezuela, por exemplo. Quando eu era adolescente, eu tinha impressão de que tudo que falava e lembrava o espanhol da América do Sul parecia extremamente cafona. Antiquado, perdido no tempo. Um pouco dessa atmosfera ainda não se perdeu, eu pude notar em Montevidéo, no Uruguai, quando estive lá há uns seis anos. A minha impressão na adolescência não era totalmente errada.
Mais tarde, durante a minha época de universidade, Peru e Bolívia me pareciam destinos de aventureiros, alternativos e hippies tardios. Hoje, Chile e Argentina fazem parte de pacotes turísticos da classe média brasileira. O intercâmbio cultural é bem maior. Aprende-se espanhol nas escolas do Brasil e é um idioma que cresce em importância no mundo.
Então ler as imagens poéticas de Allende me traz conforto. Como se me fizesse lembrar da emotividade latina. Ajuda a saber que estar distante das origens não é perder as suas caracteristicas. É como transportar uma árvore de um local para outro. Aquela terrinha que permanece entre as raizes é o que se leva e o que permite à árvore se readaptar. Essa terra está contida nas lembranças e na imaginação.
Ambos são uma lição de que, para fazer um bom livro, não é preciso vocabulário complicado. O irlandês é reconhecido internacionalmente, recebeu vários prêmios. Escreve em um inglês leve, emotivo e cativante. E não me obriga a ir toda hora ao dicionário. Já Allende é a autora do famoso Casa dos Espíritos e de vários outros títulos que venderam milhões.
Mr. Toíbín me deixou com vontade de conhecer a Irlanda desde quando li outro livro dele, The Empty Family. Mesmo que o retrato traçado por ele do país não seja tão bonito assim. Mi País Inventado, por sua vez, é um livro que gostaria de ter lido no final da adolescência ou início da fase adulta. Talvez tivesse tomado decisões mais rápidas sobre alguns caminhos a tomar. Ou, melhor, não. Talvez o melhor momento tenha sido agora, quando vivo na condição de imigrante. De qualquer modo, ler o livro naquela época seria impossível, pois ele foi publicado em 2003.
Por coincidência, os dois têm um largo foco nas ditaduras latino-americanas. The Story of the Night, na Argentina, enquanto Mi País Inventado, no Chile.
Isabel Allende faz uma espécie de autobiografia poética, colocando o Chile como pano de fundo. Ela descreve com leveza e humor as relações familiares, o gosto pela escrita, as caracteristicas do povo chileno, as reviravoltas da vida política no Chile, a condição de exilada na Venezuela, por causa da ditadura, e depois como imigrante nos Estados Unidos, após o casamento com um americano.
Impossível para mim não ter identificação com obra e vida de Allende. O gosto pela escrita, a nostalgia do país de origem, o olhar para a terra natal a partir de um local distante, como se fosse um estrangeiro. Talvez tenha sido melhor mesmo ter lido Allende já morando em outro país. Se não estaria sonhando em ser um exilado político para sair do Brasil.
Ela, filha de diplomatas, teve essa oportunidade desde cedo. Já eu lutei por isso. Quando eu era adolescente, via com olhos de desejo aqueles privilegiados que conseguiam sair do país, via turismo ou estudos. Meus primeiros salários foram economizados para uma viagem ao exterior para estudar inglês. A língua inglesa sempre me atraiu, mas o estudo foi mais desculpa para uma longa viagem. Na volta, fiquei bastante entristecido, pois as minhas condições profissionais (e financeiras) haviam mudado e ficou difícil empreender uma outra aventura como aquela.
Os anos se passaram, outras pessoas chegaram e saíram da minha vida. Um amigo foi morar no Canadá e a minha vontade de viajar aumentou e persistiu. Mas, por que mudar, se existia o conforto de morar bem, carro, amigos, emprego estável? Vontade de jogar tudo para cima e recomeçar a vida. Aventura. Aprender outras línguas. Conhecer novas pessoas. Histórias para contar.
Considero um privilégio poder mudar de vida quase aos quarenta anos. Recomeçar tudo: nova língua, estudos, trabalho. Grandes desafios. Mas, como Isabel Allende anota no livro, o século XX foi marcado por migrações e exílios nunca vistos. E, pelo jeito, as coisas continuam fortes até hoje. Faço parte de um fluxo, não estou só.
Até um passado recente, o Brasil sempre esteve isolado, como se fosse uma ilha-continente na América do Sul. Havia poucos intercâmbios com os países vizinhos. Raras pessoas viajavam à Colômbia e Venezuela, por exemplo. Quando eu era adolescente, eu tinha impressão de que tudo que falava e lembrava o espanhol da América do Sul parecia extremamente cafona. Antiquado, perdido no tempo. Um pouco dessa atmosfera ainda não se perdeu, eu pude notar em Montevidéo, no Uruguai, quando estive lá há uns seis anos. A minha impressão na adolescência não era totalmente errada.
Mais tarde, durante a minha época de universidade, Peru e Bolívia me pareciam destinos de aventureiros, alternativos e hippies tardios. Hoje, Chile e Argentina fazem parte de pacotes turísticos da classe média brasileira. O intercâmbio cultural é bem maior. Aprende-se espanhol nas escolas do Brasil e é um idioma que cresce em importância no mundo.
Então ler as imagens poéticas de Allende me traz conforto. Como se me fizesse lembrar da emotividade latina. Ajuda a saber que estar distante das origens não é perder as suas caracteristicas. É como transportar uma árvore de um local para outro. Aquela terrinha que permanece entre as raizes é o que se leva e o que permite à árvore se readaptar. Essa terra está contida nas lembranças e na imaginação.
17.11.11
O sorriso de boca fechada.
Brasil e Canadá têm inúmeras diferenças, todo mudo sabe: clima, línguas, colonização, etc, etc, etc. Ainda assim, são concorrentes em vários domínios econômicos: indústria de aviões, produção de petróleo, minerais, carne, produtos agrícolas. Mas, quando se trata de comunicação interpessoal, brasileiros e canadenses são quase opostos.
O brasileiro é muito falador, não dá para negar. Adora conversar, trocar idéias, opinar sobre o que sabe e o que não sabe. Ama fazer piadinhas, brincadeirinhas, quase sempre em uma tentativa de ser simpático. Ou como se não suportasse intervalos de silêncio nos diálogos. Algumas vezes exagera e cai na ironia e no "veneninho". O que era para ser uma gentileza, acaba sendo uma forma de humor mordaz e depreciativo.
A comunicação não fica só na conversa ao vivo. Em um exemplo bem atual, os brasileiros eram os mais presentes no Orkut. No Twitter, o Brasil consegue emplacar com frequência temas nacionais - às vezes bastante idiotas, como "Volte para cá, Justin Bieber" ou "Cala boca Galvao" - nos trending topics, os temas mais comentados mundialmente.
Já vi comentários de franceses no Twitter, com clara inveja, falando que "novamente, os brasileiros conseguem colocar os seus assuntos nos trending topics". E não existe a ajuda de portugueses, angolanos e moçambicanos, para ficar entre as nações mais populosas que falam português. Praticamente são só brasileiros soltando piados (twitters) na internet sobre temas nacionais. Para temas em inglês existem americanos, canadenses, australianos, ingleses e o escambau fazendo comentários sobre as celebridades, quase sempre americanas.
Quando eu morava no Brasil, achava que às vezes as pessoas falavam demais, até mesmo durante o trabalho. E que tinham dificuldade para parar e escutar. Muitas vezes, as frases não são ditas até o final, pois são cortadas pelo comentário da outra pessoa, que acha a sua posiçao mais interessante ou mais correta. O problema é quando todos pensam assim. Às vezes falam dois ao mesmo tempo em um pequeno grupo. Claro, os seus exemplos pessoais são a prova concreta da suas opiniões e generalizações. "Todo francês é metido. Minha prima é casada com um que é muito chato!"
Além disso, muitos brasileiros não tem a menor dificuldade para falar dos seus problemas pessoais na frente de estranhos. Claro, quer tema mais interessante do que este? Tipo assim, a caixa do supermercado em Salvador, conversando com alguém conhecido na fila, contando que só sairia às 10 da noite do trabalho e ainda teria que cozinhar e lavar roupa ao chegar em casa. Isso eu já vi.
Já o canadense tem um comportamento diferente. Os diálogos são bastante econômicos. Em algumas situações como ao entrar em um elevador, um "bom dia" ou "good morning" seria bem-vindo, mas nem isso acontece. O canadense tenta compensar com gentilezas ao abrir e segurar a porta do elevador, para que você possa entrar, principalmente se você estiver de mãos carregadas. E, em vez fazer algum comentário gentil, dará um sorriso de boca fechada. Como assim? Com os lábios arqueando para cima, como se escondesse os dentes.

O canadense parece que já nasceu politicamente correto, sem a fleuma dos ingleses e sem a impaciência, disfarçada de pragmatismo, dos americanos. Então nada de fazer piadinhas ou gozações, tão queridas aos brasileiros engraçadinhos. Se as pessoas não têm proximidade, não existe o tom de brincadeira ou ironia nas falas, tudo é levado ao pé da letra. Não poderia ser de outra forma, para acolher tantos imigrantes, de tantas culturas tão distintas. As coisas têm que ser ditas de modo direto, senão correm o risco de não serem entendidas.
No ambiente de trabalho, as diferenças na comunicação ficam bem claras. No Canadá há um silêncio nos escritórios que seria impossível no Brasil, com todo o blá-blá-blá durante o cafezinho. O silência reina e pode ser entediante. Já vi brasileiro reclamando do tédio no trabalho.
Mas tudo tem uma contrapartida e, se a rádio corredor parecia excessiva entre os brasileiros, ela faz falta por aqui. Às vezes, percebo que há pouca comunicaçao nas empresas. Temas simples, bobagens, muitas vezes são tratados a portas fechadas, como se fossem secretos e de extrema importância. Os canadenses tentam compensar a falta de informação com boa sinalização e instruções escritas de forma clara. Para tudo tem ordem impressa, nos quadros de aviso ou nas portas.
Lá na piscina do clube existe instrução até de como fazer ultrapassagem na raia, caso a pessoa na sua frente estiver nadando em uma velocidade menor do que a sua. E olhe que cada raia tem sua própria velocidade (alta, média ou baixa). Algo assim: "Toque o pé da pessoa à sua frente e espere ela reduzir o ritmo, só entao ultrapassse".
O brasileiro é muito falador, não dá para negar. Adora conversar, trocar idéias, opinar sobre o que sabe e o que não sabe. Ama fazer piadinhas, brincadeirinhas, quase sempre em uma tentativa de ser simpático. Ou como se não suportasse intervalos de silêncio nos diálogos. Algumas vezes exagera e cai na ironia e no "veneninho". O que era para ser uma gentileza, acaba sendo uma forma de humor mordaz e depreciativo.
A comunicação não fica só na conversa ao vivo. Em um exemplo bem atual, os brasileiros eram os mais presentes no Orkut. No Twitter, o Brasil consegue emplacar com frequência temas nacionais - às vezes bastante idiotas, como "Volte para cá, Justin Bieber" ou "Cala boca Galvao" - nos trending topics, os temas mais comentados mundialmente.
Já vi comentários de franceses no Twitter, com clara inveja, falando que "novamente, os brasileiros conseguem colocar os seus assuntos nos trending topics". E não existe a ajuda de portugueses, angolanos e moçambicanos, para ficar entre as nações mais populosas que falam português. Praticamente são só brasileiros soltando piados (twitters) na internet sobre temas nacionais. Para temas em inglês existem americanos, canadenses, australianos, ingleses e o escambau fazendo comentários sobre as celebridades, quase sempre americanas.Quando eu morava no Brasil, achava que às vezes as pessoas falavam demais, até mesmo durante o trabalho. E que tinham dificuldade para parar e escutar. Muitas vezes, as frases não são ditas até o final, pois são cortadas pelo comentário da outra pessoa, que acha a sua posiçao mais interessante ou mais correta. O problema é quando todos pensam assim. Às vezes falam dois ao mesmo tempo em um pequeno grupo. Claro, os seus exemplos pessoais são a prova concreta da suas opiniões e generalizações. "Todo francês é metido. Minha prima é casada com um que é muito chato!"
Além disso, muitos brasileiros não tem a menor dificuldade para falar dos seus problemas pessoais na frente de estranhos. Claro, quer tema mais interessante do que este? Tipo assim, a caixa do supermercado em Salvador, conversando com alguém conhecido na fila, contando que só sairia às 10 da noite do trabalho e ainda teria que cozinhar e lavar roupa ao chegar em casa. Isso eu já vi.
Já o canadense tem um comportamento diferente. Os diálogos são bastante econômicos. Em algumas situações como ao entrar em um elevador, um "bom dia" ou "good morning" seria bem-vindo, mas nem isso acontece. O canadense tenta compensar com gentilezas ao abrir e segurar a porta do elevador, para que você possa entrar, principalmente se você estiver de mãos carregadas. E, em vez fazer algum comentário gentil, dará um sorriso de boca fechada. Como assim? Com os lábios arqueando para cima, como se escondesse os dentes.

O canadense parece que já nasceu politicamente correto, sem a fleuma dos ingleses e sem a impaciência, disfarçada de pragmatismo, dos americanos. Então nada de fazer piadinhas ou gozações, tão queridas aos brasileiros engraçadinhos. Se as pessoas não têm proximidade, não existe o tom de brincadeira ou ironia nas falas, tudo é levado ao pé da letra. Não poderia ser de outra forma, para acolher tantos imigrantes, de tantas culturas tão distintas. As coisas têm que ser ditas de modo direto, senão correm o risco de não serem entendidas.
No ambiente de trabalho, as diferenças na comunicação ficam bem claras. No Canadá há um silêncio nos escritórios que seria impossível no Brasil, com todo o blá-blá-blá durante o cafezinho. O silência reina e pode ser entediante. Já vi brasileiro reclamando do tédio no trabalho.
Mas tudo tem uma contrapartida e, se a rádio corredor parecia excessiva entre os brasileiros, ela faz falta por aqui. Às vezes, percebo que há pouca comunicaçao nas empresas. Temas simples, bobagens, muitas vezes são tratados a portas fechadas, como se fossem secretos e de extrema importância. Os canadenses tentam compensar a falta de informação com boa sinalização e instruções escritas de forma clara. Para tudo tem ordem impressa, nos quadros de aviso ou nas portas.
Lá na piscina do clube existe instrução até de como fazer ultrapassagem na raia, caso a pessoa na sua frente estiver nadando em uma velocidade menor do que a sua. E olhe que cada raia tem sua própria velocidade (alta, média ou baixa). Algo assim: "Toque o pé da pessoa à sua frente e espere ela reduzir o ritmo, só entao ultrapassse".
14.11.11
Do tempo da sala de aula
Eu tenho sonhado com pessoas que fizeram parte do meu passado. Pessoas que fizeram parte da minha história, mas que não foram muito próximas de mim. Colegas de escola e colegas de Faculdade. Pessoas com quem conversava de vez em quando, mas que não posso dizer que fossem meus amigos. Gente que até já morreu. O que será que isso significa? Nostalgia do passado, provavelmente. Mas por que sonhar com pessoas com as quais não tinha muito vínculo? Não haveria gente mais interessante e atualizada para pensar? É como se o subconsciente me disesse: "Veja só, essa pessoa existiu, você conheceu, o que será que ela anda fazendo no mundo, como estará?"
Existem pessoas com as quais simpatizei, que me davam a impressao que poderiam ser mais próximas, mas que a amizade nunca ocorreu. Sei listar várias pessoas assim. Talvez um estilo de vida diferente, ou mesmo, no fundo, nem tanta afinidade assim, tenha sido o motivo da falta de aproximação. Vá entender.
Um fato curioso na minha história de estudos é que nunca as minhas turmas escolares e universitárias foram muito unidas. Vejo conhecidos organizando eventos de reencontro de seus grupos: churrascos, passeios, até viagens. Na minha turma de escola em Ilhéus as pessoas eram distantes e eu percebia muita concorrência. Primeiro, por causa do vestibular e pelas vagas em universidades. Depois profissionalmente. Muita comparação entre sucessos e aquisições. De chegar a ponto de piada, com impressão de que alguns comparam entre si a lista de bens da declaração de imposto de renda. Eu achava que só eu notava isso, até que uma antiga colega também comentou comigo, em tom de chacota, que percebia a mesma coisa. O resultado é que um grande reencontro teria pouca possibilidade de sucesso. Dá para imaginar o papo.
Já na minha primeira Faculdade, o clima bélico era bem mais visível. Existiam duas turmas simplesmente inimigas, de chegar às vias de fatos, às agressões físicas. Havia uma diferença de classe social, talvez. Ou mesmo de cor, na velha afro-Salvador. Os provenientes de classe média alta, apelidados de "branquinhos" pelo grupo oponente. Esses eram mais boas-vidas, mais vivedores, mais despreocupados com o futuro. Do outro lado, uma turma mais esforçada, mais preocupada, mais "moreninha", digamos assim, e sem tanto apoio familiar. Eu me sentia alheio a tudo, nem de um lado, nem de outro.
Na minha segunda Faculdade, a minha interação com os colegas foi menor. Eu trabalhava e quase não tinha tempo livre para interagir. E não era sem inveja que eu via os colegas, em tempo de aula vaga ou de greve, indo para algum boteco enquanto eu ia para o trabalho. Mesmo com o tempo restrito, guardei bons amigos, com os quais ainda mantenho contato.
Tenho um primo, hoje médico, proveniente também da minha cidade, que terminou a escola há mais de três décadas. E que se reúne com a sua turma quase todos os anos. Hoje na faixa dos 50 anos, os colegas ainda organizam jantares de reencontro e acho que ainda vão continuar organizando. Mas penso que é uma exceção.
Talvez as características da minha geração, a tal da X, a tornem mesmo uma incógnita. Cheia de yuppies com seus desejos e lutas sem fim por sucesso e riqueza, o que termina por afastar as pessoas. O que é uma pena.
Existem pessoas com as quais simpatizei, que me davam a impressao que poderiam ser mais próximas, mas que a amizade nunca ocorreu. Sei listar várias pessoas assim. Talvez um estilo de vida diferente, ou mesmo, no fundo, nem tanta afinidade assim, tenha sido o motivo da falta de aproximação. Vá entender.
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| Keith Haring |
Já na minha primeira Faculdade, o clima bélico era bem mais visível. Existiam duas turmas simplesmente inimigas, de chegar às vias de fatos, às agressões físicas. Havia uma diferença de classe social, talvez. Ou mesmo de cor, na velha afro-Salvador. Os provenientes de classe média alta, apelidados de "branquinhos" pelo grupo oponente. Esses eram mais boas-vidas, mais vivedores, mais despreocupados com o futuro. Do outro lado, uma turma mais esforçada, mais preocupada, mais "moreninha", digamos assim, e sem tanto apoio familiar. Eu me sentia alheio a tudo, nem de um lado, nem de outro.
Na minha segunda Faculdade, a minha interação com os colegas foi menor. Eu trabalhava e quase não tinha tempo livre para interagir. E não era sem inveja que eu via os colegas, em tempo de aula vaga ou de greve, indo para algum boteco enquanto eu ia para o trabalho. Mesmo com o tempo restrito, guardei bons amigos, com os quais ainda mantenho contato.
Tenho um primo, hoje médico, proveniente também da minha cidade, que terminou a escola há mais de três décadas. E que se reúne com a sua turma quase todos os anos. Hoje na faixa dos 50 anos, os colegas ainda organizam jantares de reencontro e acho que ainda vão continuar organizando. Mas penso que é uma exceção.
Talvez as características da minha geração, a tal da X, a tornem mesmo uma incógnita. Cheia de yuppies com seus desejos e lutas sem fim por sucesso e riqueza, o que termina por afastar as pessoas. O que é uma pena.

















