Para quem vive fora da America do Norte, hamburguer eh praticamente sinonimo de McDonald's. Isto significa sanduiche sem graca, gorduroso, com um sabor que beira algo entre plastico e borracha. Quando se conhece mais profundamente o que eh um verdadeiro hamburguer, o gosto muda e a experiencia se intensifica.
Aqui no Canada existem restaurantes especializados na iguaria, nos quais fica dificil ateh escolher os ingredientes, entre os diversos tipo de carne, queijos e molhos sem fim. Ateh o simples hamburguer que se compra congelado para preparar em casa tem algo de excepcional, como o que acabo de devorar agora, com carne defumada, estilo barbecue feito com lenha de hickory. Para acompanhar, nada mais do que o pao, queijo Cheddar, catchup de boa qualidade e mostarda Dijon. E basta, eh alegria geral.
Crônicas e comentários de Danilo Menezes. Jornalista brasileiro da Bahia, atualmente morando em Toronto, Ontario, Canada.
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6.8.12
21.7.12
Amigos para siempre
Tenho um dicionário de francês-português que me acompanha há uns 18 anos. E que continuo utilizando com frequência. Eu comprei esse dicionário quando não tinha a menor ideia de que um dia moraria em um país de língua francesa. Na época eu morava em uma cidade com poucas opções de cultura e diversão, que não tinha nem livraria. Pedi o dicionário via encomenda postal, para me auxiliar nas aulas de francês que tinha resolvido tomar com uma professora particular.
Tive dúvida se a Ediouro, a editora do dicionário, ainda existe. Busquei no São Google, ela está aí, presente no ciberespaço. Esse dicionário tem uma característica interessante, algo impensável atualmente: a pronúncia das palavras não é escrita na linguagem universal dos sons, mas em português. Por exemplo a pronúncia da palavra manteau (casaco) é escrita mantô. Isso não existe mais em nenhum dicionário bilíngue, mas era algo que achava bem prático enquanto eu aprendia francês.
Os professores de línguas sempre me falaram que os dicionários bilíngues (por exemplo inglês/português, português/inglês) servem somente para o início da aprendizagem. Que a partir de um certo tempo é preciso partir para um dicionário da própria língua, que explique o significado das palavras e não faça somente a simples tradução.
Concordo, mas mesmo sabendo disso o meu velho dicionário Ediouro é companhia constante quando leio algum livro em francês, como faço agora, lendo dois ao mesmo tempo, uma coisa meio maluca. La Meilleure Part des Hommes, de Tristan Garcia, e L'appartement Témoin, de Tatiana de Rosnay. Nem sempre acho lá tudo o que procuro, mas sempre acho que é mais fácil procurar nele, que tem menos páginas para revirar do que o Micro Robert, por exemplo.
Mas revirar páginas de dicionário está virando coisa do passado. O São Google está cada dia mais poderoso, eficiente e o seu tradutor economiza um tempo enorme de busca. E, o que é melhor, ajuda nas expressões idiomáticas, já que o site faz a tradução completa do texto. O Google Tradução eliminou o meu desejo de comprar um tradutor eletrônico, uma maquininha que vi há muitos anos nas mãos de estudantes japoneses, na época em que tudo que era eletrônico e moderno era produzido no Japão, lá pelos anos 90.
O dicionário de papel serve romanticamente de partner para o livro em papel, como um casal unido e harmônico há muito tempo. Como goiabada com queijo. Como pão com manteiga. Como hambúrguer e batatas fritas.
Tive dúvida se a Ediouro, a editora do dicionário, ainda existe. Busquei no São Google, ela está aí, presente no ciberespaço. Esse dicionário tem uma característica interessante, algo impensável atualmente: a pronúncia das palavras não é escrita na linguagem universal dos sons, mas em português. Por exemplo a pronúncia da palavra manteau (casaco) é escrita mantô. Isso não existe mais em nenhum dicionário bilíngue, mas era algo que achava bem prático enquanto eu aprendia francês.Os professores de línguas sempre me falaram que os dicionários bilíngues (por exemplo inglês/português, português/inglês) servem somente para o início da aprendizagem. Que a partir de um certo tempo é preciso partir para um dicionário da própria língua, que explique o significado das palavras e não faça somente a simples tradução.
Concordo, mas mesmo sabendo disso o meu velho dicionário Ediouro é companhia constante quando leio algum livro em francês, como faço agora, lendo dois ao mesmo tempo, uma coisa meio maluca. La Meilleure Part des Hommes, de Tristan Garcia, e L'appartement Témoin, de Tatiana de Rosnay. Nem sempre acho lá tudo o que procuro, mas sempre acho que é mais fácil procurar nele, que tem menos páginas para revirar do que o Micro Robert, por exemplo.
Mas revirar páginas de dicionário está virando coisa do passado. O São Google está cada dia mais poderoso, eficiente e o seu tradutor economiza um tempo enorme de busca. E, o que é melhor, ajuda nas expressões idiomáticas, já que o site faz a tradução completa do texto. O Google Tradução eliminou o meu desejo de comprar um tradutor eletrônico, uma maquininha que vi há muitos anos nas mãos de estudantes japoneses, na época em que tudo que era eletrônico e moderno era produzido no Japão, lá pelos anos 90.
O dicionário de papel serve romanticamente de partner para o livro em papel, como um casal unido e harmônico há muito tempo. Como goiabada com queijo. Como pão com manteiga. Como hambúrguer e batatas fritas.
12.7.12
Canadá, Nigéria, Benim e Bahia em francês.
Faz algum tempo que frequento o French Meetup de Toronto, um encontro mensal de pessoas que tem o francês como primeira língua ou que gostam de praticá-lo. A reunião acontece em um restaurante-bar na Bloor Street East perto da Yonge. Cada vez é uma experiência diferente. Cada vez tem gente diferente, com sua história de vida para contar.
Ontem conheci um holandês que veio criança para o Canadá. Os pais imigraram para Alberta e ele se mudou já adulto para Toronto, para trabalhar. A sua língua materna é o holandês, mas ele foi educado em inglês, no Canadá. Francês ele aprendeu na escola e em cursos. Apreciador de línguas, aprendeu espanhol, pois morou dois anos na Espanha, em Barcelona. Ele trabalha em um banco e já foi responsável pela área de negócios com a América Latina. Ele considera o espanhol a sua terceira língua. Como se nao bastasse, foi casado com uma brasileira, então fala português também. Somando tudo, ele fala 5 línguas e me disse que compreende um pouco de alemao, que tem alguma semelhança com o holandês. Ufa!
Revi uma conhecida (estou prestes a considerá-la uma amiga, pelas várias vezes que a encontro e é sempre muito agradável) nigeriana, com quem trabalhei durante um período curto, e que eu não sabia que falava francês. Depois de sermos apresentados no trabalho, acabei por reencontrá-la no French Meetup.
A língua oficial da Nigéria é o inglês, mas ela aprendeu francês durante os quatro anos que passou em Montréal estudando Contabilidade. Eu achava que ela era filha de imigrantes, que morava no Canadá há muito tempo, pelo menos desde criança. Mas ela revelou que chegou no Canadá aos 16 anos, que os pais ainda moram na Nigéria. E que ela viaja para lá todo ano. Fiquei surpreso porque ela faz um trabalho altamente qualificado, imaginei que tivesse sido totalmente educada no Canadá. Tudo bem, a universidade onde ela estudou é das melhores do país. Para mim, ela seria um caso de sucesso - existem vários - de estudos e trabalho de imigrantes no Canadá.
Quando converso com ela, a gente passa um bom tempo comparando as culturas da Bahia e da Nigéria. Ela fica surpresa com as coincidências. A cultura afro-baiana veio basicamente daquela região da África, principalemente dos povos Yorubá, Hauçá, Fon, Lgbo. Comida, hábitos, música, religião. Ela me contou que os nomes de pessoas na Nigéria são com frequência os mesmos nomes das entidades do candomblé brasileiro . Ou seja, existem vários oshuns, shangos, ifás e oguns circulando pelas ruas da Nigéria. Quando a nigeriana chegou, eu estava, por coincidência, conversando com um canadense filho de nigeriano e de mãe do Québec. O francês dele nao era grande coisa, às vezes ficava difícil compreendê-lo, mas ele era simpático e comunicativo.
Um pouco mais tarde, talvez a personagem mais interessante da noite se aproximou. Ela tinha o rosto redondo e largo, cabelo bem preto e comprido, os olhos bem puxados, a pele clara, mais de 40 anos, provavelmente. Ela me fez lembrar os inuits (esquimós) do Canadá. Mas ela era francesa e bastante simpática. Nativa da cidade de Nice, no Sul da França. Filha de alemão com vietnamita. Life coach, psicóloga, trabalha com comunidades francófonas em Toronto. Também trabalha em inglês. Ela morou em vários locais e contou as maravilhas de Vancouver. Ela também já havia morado nos Estados Unidos durante bastante tempo. Fiquei curioso e perguntei a ela em que local ela tinha a maior sensação de pertencimento. Curiosamente, uma vez que os franceses não morrem de amores pelo Tio Sam, ela falou que era nos Estados Unidos. Mas ela diz adorar o Canadá.
Mais tarde um outro rapaz, este do Benim, chegou e começou a conversar com a nigeriana. Acho que eles já se conheciam de outros encontros. O Benim é um país francófono e vizinho da Nigéria. A francesa foi embora e continuei o papo com os dois. O Benim tem a cultura bem parecida com a Nigéria e, por tabela, com as características afro-baianas. Acarajé, por exemplo, é conhecido como acará na África.
Lembrei que eu já havia experimentado comida do Benim em Salvador, no restaurante Casa do Benim, no Pelourinho. Também contei a ele a lenda que uma vez ouvi, talvez criada pelos próprios donos do restaurante, para aumentar a mística do local. A história dizia que, se as terras da África e a América se juntassem novamente - se é que isso aconteceu alguma vez -, Salvador iria coincidir com o Benim.
Comentando sobre questões da língua portuguesa, falei sobre a influência dos teleromances (novelas) brasileiros no modo de falar da própria comunidade de países lusófonos. Foi com surpresa que ele falou o nome em português "novela". E revelou que as novelas brasileiras são uma febre naquele país africano - e provavelmente em outros da região também. Depois lembrei que uma amiga minha do Québec, que havia passado um tempo fazendo trabalho humanitário no Benim, já tinha me falado disso. As famílias param na frente da televisão, no maior silêncio, quase hipnotizadas, para acompanhar a trama. Nada muito diferente das famílias brasileiras. O beninense (ou beninês) também conhecia a música de Carlinhos Brown.
Ontem conheci um holandês que veio criança para o Canadá. Os pais imigraram para Alberta e ele se mudou já adulto para Toronto, para trabalhar. A sua língua materna é o holandês, mas ele foi educado em inglês, no Canadá. Francês ele aprendeu na escola e em cursos. Apreciador de línguas, aprendeu espanhol, pois morou dois anos na Espanha, em Barcelona. Ele trabalha em um banco e já foi responsável pela área de negócios com a América Latina. Ele considera o espanhol a sua terceira língua. Como se nao bastasse, foi casado com uma brasileira, então fala português também. Somando tudo, ele fala 5 línguas e me disse que compreende um pouco de alemao, que tem alguma semelhança com o holandês. Ufa!
Revi uma conhecida (estou prestes a considerá-la uma amiga, pelas várias vezes que a encontro e é sempre muito agradável) nigeriana, com quem trabalhei durante um período curto, e que eu não sabia que falava francês. Depois de sermos apresentados no trabalho, acabei por reencontrá-la no French Meetup.
A língua oficial da Nigéria é o inglês, mas ela aprendeu francês durante os quatro anos que passou em Montréal estudando Contabilidade. Eu achava que ela era filha de imigrantes, que morava no Canadá há muito tempo, pelo menos desde criança. Mas ela revelou que chegou no Canadá aos 16 anos, que os pais ainda moram na Nigéria. E que ela viaja para lá todo ano. Fiquei surpreso porque ela faz um trabalho altamente qualificado, imaginei que tivesse sido totalmente educada no Canadá. Tudo bem, a universidade onde ela estudou é das melhores do país. Para mim, ela seria um caso de sucesso - existem vários - de estudos e trabalho de imigrantes no Canadá.
Quando converso com ela, a gente passa um bom tempo comparando as culturas da Bahia e da Nigéria. Ela fica surpresa com as coincidências. A cultura afro-baiana veio basicamente daquela região da África, principalemente dos povos Yorubá, Hauçá, Fon, Lgbo. Comida, hábitos, música, religião. Ela me contou que os nomes de pessoas na Nigéria são com frequência os mesmos nomes das entidades do candomblé brasileiro . Ou seja, existem vários oshuns, shangos, ifás e oguns circulando pelas ruas da Nigéria. Quando a nigeriana chegou, eu estava, por coincidência, conversando com um canadense filho de nigeriano e de mãe do Québec. O francês dele nao era grande coisa, às vezes ficava difícil compreendê-lo, mas ele era simpático e comunicativo.
Um pouco mais tarde, talvez a personagem mais interessante da noite se aproximou. Ela tinha o rosto redondo e largo, cabelo bem preto e comprido, os olhos bem puxados, a pele clara, mais de 40 anos, provavelmente. Ela me fez lembrar os inuits (esquimós) do Canadá. Mas ela era francesa e bastante simpática. Nativa da cidade de Nice, no Sul da França. Filha de alemão com vietnamita. Life coach, psicóloga, trabalha com comunidades francófonas em Toronto. Também trabalha em inglês. Ela morou em vários locais e contou as maravilhas de Vancouver. Ela também já havia morado nos Estados Unidos durante bastante tempo. Fiquei curioso e perguntei a ela em que local ela tinha a maior sensação de pertencimento. Curiosamente, uma vez que os franceses não morrem de amores pelo Tio Sam, ela falou que era nos Estados Unidos. Mas ela diz adorar o Canadá.
Mais tarde um outro rapaz, este do Benim, chegou e começou a conversar com a nigeriana. Acho que eles já se conheciam de outros encontros. O Benim é um país francófono e vizinho da Nigéria. A francesa foi embora e continuei o papo com os dois. O Benim tem a cultura bem parecida com a Nigéria e, por tabela, com as características afro-baianas. Acarajé, por exemplo, é conhecido como acará na África.Lembrei que eu já havia experimentado comida do Benim em Salvador, no restaurante Casa do Benim, no Pelourinho. Também contei a ele a lenda que uma vez ouvi, talvez criada pelos próprios donos do restaurante, para aumentar a mística do local. A história dizia que, se as terras da África e a América se juntassem novamente - se é que isso aconteceu alguma vez -, Salvador iria coincidir com o Benim.
Comentando sobre questões da língua portuguesa, falei sobre a influência dos teleromances (novelas) brasileiros no modo de falar da própria comunidade de países lusófonos. Foi com surpresa que ele falou o nome em português "novela". E revelou que as novelas brasileiras são uma febre naquele país africano - e provavelmente em outros da região também. Depois lembrei que uma amiga minha do Québec, que havia passado um tempo fazendo trabalho humanitário no Benim, já tinha me falado disso. As famílias param na frente da televisão, no maior silêncio, quase hipnotizadas, para acompanhar a trama. Nada muito diferente das famílias brasileiras. O beninense (ou beninês) também conhecia a música de Carlinhos Brown.
31.5.12
Leitura leve
Estou descobrindo (ou reconhecendo) uma das melhores vantagens de um eReader, o leitor eletrônico: a leveza. Estou lendo um livro de 600 páginas, The Son of the Circus, do americano John Irving. Leitura, na maior parte das vezes, feita na cama, antes de dormir. Então fico olhando para o meu pequeno leitor eletrônico, levinho de 180 gramas e imaginando o peso e o volume que estaria carregando se estivesse com um exemplar impresso de 600 páginas nas mãos. Os braços agradecem.
27.5.12
Tem quibe no tabuleiro
Não faz pouco tempo que conheço comida árabe. Desde criança fui acostumado a saborear quibes - nas versões frita, assada e crua! -, esfirras, homus tahine, tabule, mejandra, charutinhos. A culinária árabe, especificamente síria e libanesa, chegou ao Sul da Bahia na bagagem dos imigrantes em busca de riquezas. Jorge Amado fez a parte dele, colocando personagens libaneses, sírios e
turcos marcantes em seus livros. Especialmente no ótimo "A Descoberta da América
pelos Turcos".
O meu pai gostava muito de comida árabe e minha mãe procurava aprender novos pratos. Em alguns finais de semana, a gente frequentava o restaurante de um árabe (sírio, acredito) que ficava em uma belíssima localização, de frente para o mar de Ilhéus e servia pratos bem feitos. Onde houvesse comida árabe de boa qualidade na cidade, lá íamos nós experimentar. A cozinha do Oriente Médio é rica e delicada. Os sírios e libaneses costumam servir pequenas porções de uma infinidade de pratos deliciosos.
A força comunidade de origem árabe possibilitava encontrar nos mercados da cidade produtos como o tahine, a pasta feita de gergelim, que dá o sabor levemente tostado ao homus, que é feito de grão-de-bico cozido e moído, alho e limão, basicamente.
Aqui no Canadá me deparei com uma quantidade enorme de restaurantes árabes fast-food. Eles são diferentes da rede brasileira Habib's, que basicamente vende lanches árabes prontos e sanduíches. Os restaurantes fast-food daqui sempre têm um buffet de saladas, molhos, carnes e acompanhamentos. Que podem ser servidos com arroz ou enrolados em pão árabe, bem fino, para montar um wrap (sanduíche enrolado) bem saboroso. O sanduiche fica nutritivo, pois tem bastante salada, pequenos pedaços de frango ou carne grelhada, homus tahine e molho de alho. Quibe é que, infelizmente, nunca encontrei por aqui, embora tenha ouvido falar que existe em alguns resturantes.
O frango e a carne são preparados na grelha giratória, do tipo que no Brasil se conhece por "churrasco grego". Onde as carnes são amontoadas e vão grelhando aos poucos. Para a minha insatisfação, toda vez que peço um wrap, a quantidade de homus colocada é bem pequena. Acho que eles ficam economizando. Compenso a vontade de comer a tal pasta preparando grandes quantidades dela em casa.
As famílias árabes do Sul da Bahia deixavam as famílias baianas com água na boca e ávidas por conhecer as receitas. Todos queriam aprender a cozinhar o que os Midlej, Ganem, Rabat, Maron, Medauar, Hage, Chaui, Challoub faziam em casa. Minha mae aprendeu a fazer homus tahine, eu copiei a receita e eu não vivo sem isso. Faço a pasta com frequência, e em quantidade enorme, regada com azeite extra-virgem. Devoro com pão, substituindo o queijo e presunto, reduzindo a consumo de gorduras animais. E, sem querer me gabar, e já me gabando, o homus que preparo é bom-bom. Quem provou disse que é tão bom ou melhor que o dos restaurantes. Também preparo saladas de trigo, inspiradas no tabule, variando os ingredientes, passando pela ricota, cenoura ralada, pepino, ervilha e até pelo tofu grelhado com alho. Quando encontro hortelã no mercado, é uma festa, a salada fica genial. Quando nao acho, o coentro quebra o galho.
A cozinha do Oriente Médio caiu nas graças dos canadenses - e do mundo - pelo sabor delicado e pelos ingredientes leves. O homus é adorado por carnívoros e herbívoros. Aqui acha-se ele pronto, com diversos sabores adicionados: alho grelhado, pimentões, cebolas grelhadas, azeitonas, etc.
Quando comecei a pesquisar sobre cozinha baiana, na época da Faculdade de Comunicação, conversei longamente com senhoras de algumas dessas famílias vindas do outro lado do mundo. Fiquei impressionado com a paixão pela culinária, com as lembranças que as comidas traziam, com os procedimentos de preparo. Com a emoção de falar das melhores recordações que a comida traz. Quase que eu mudo o foco do meu trabalho. Quase que paro de falar do dendê e do acarajé e vou falar da cozinha árabe do Sul da Bahia. Da presença do quibe no tabuleiro da baiana.
O meu pai gostava muito de comida árabe e minha mãe procurava aprender novos pratos. Em alguns finais de semana, a gente frequentava o restaurante de um árabe (sírio, acredito) que ficava em uma belíssima localização, de frente para o mar de Ilhéus e servia pratos bem feitos. Onde houvesse comida árabe de boa qualidade na cidade, lá íamos nós experimentar. A cozinha do Oriente Médio é rica e delicada. Os sírios e libaneses costumam servir pequenas porções de uma infinidade de pratos deliciosos.
| Swarma Wrap |
Aqui no Canadá me deparei com uma quantidade enorme de restaurantes árabes fast-food. Eles são diferentes da rede brasileira Habib's, que basicamente vende lanches árabes prontos e sanduíches. Os restaurantes fast-food daqui sempre têm um buffet de saladas, molhos, carnes e acompanhamentos. Que podem ser servidos com arroz ou enrolados em pão árabe, bem fino, para montar um wrap (sanduíche enrolado) bem saboroso. O sanduiche fica nutritivo, pois tem bastante salada, pequenos pedaços de frango ou carne grelhada, homus tahine e molho de alho. Quibe é que, infelizmente, nunca encontrei por aqui, embora tenha ouvido falar que existe em alguns resturantes.
O frango e a carne são preparados na grelha giratória, do tipo que no Brasil se conhece por "churrasco grego". Onde as carnes são amontoadas e vão grelhando aos poucos. Para a minha insatisfação, toda vez que peço um wrap, a quantidade de homus colocada é bem pequena. Acho que eles ficam economizando. Compenso a vontade de comer a tal pasta preparando grandes quantidades dela em casa.
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| Churrasco "grego" |
A cozinha do Oriente Médio caiu nas graças dos canadenses - e do mundo - pelo sabor delicado e pelos ingredientes leves. O homus é adorado por carnívoros e herbívoros. Aqui acha-se ele pronto, com diversos sabores adicionados: alho grelhado, pimentões, cebolas grelhadas, azeitonas, etc.
Quando comecei a pesquisar sobre cozinha baiana, na época da Faculdade de Comunicação, conversei longamente com senhoras de algumas dessas famílias vindas do outro lado do mundo. Fiquei impressionado com a paixão pela culinária, com as lembranças que as comidas traziam, com os procedimentos de preparo. Com a emoção de falar das melhores recordações que a comida traz. Quase que eu mudo o foco do meu trabalho. Quase que paro de falar do dendê e do acarajé e vou falar da cozinha árabe do Sul da Bahia. Da presença do quibe no tabuleiro da baiana.
19.5.12
Atores da vida urbana
Os dois seres subiram no ônibus em um intervalo rápido. O primeiro era um rapaz com várias tatuagens, inclusive no rosto. Ele usava um casacão vermelho e preto que mais parecia uma grande capa. Ele tinha a pele morena, mas os olhos claros, verdes. Quando ele abaixou o capuz, pude ver o cabelo crespo e curto, quase carapinha, tingido de vermelho. Ele tinha minúsculas tatuagens verticais nas maças do rosto, que lhe davam um ar triste, quase de choro, como se fossem lágrimas saindo dos olhos. O cabelo crespo e os olhos claros revelavam a mistura de raças que resultou naquele personagem sentado quase de frente para mim nos últimos bancos do onibus.
As tatuagems nos dedos e todos os outros apetrechos completavam o visual de rapper, com influências de punk: grandes anéis, colar de elos grossos, o cabelo descolorido e tingido. Parecia que a qualquer momento ele poderia pular do banco e comecar a cantar alguma coisa em um tom agressivo. O seu visual para mim queria dizer violência urbana e revolta. Desencaixe e incertezas. Talvez criatividade, com um pouco de sorte.

Ele só não era mais estranho do que a jovem que entrou logo a seguir. Pele bem branca, cabelo bem preto, unhas pintadas de preto. Ela entrou como um raio e se sentou no banco junto de um rapaz louro, que usava casaco de lã e boina e que continuou impassivelmente a escutar as suas musicas preferidas com os fones dentro do ouvido, sem dar a minima atenção a quem se sentava ao seu lado.
A garota parecia estar sob efeito de alguma substância alucinógena. Ela se contorcia, olhava para todos os lados, tremia as maos. O pescoço virava quase em 360 graus, ela olhava para todas as direçoes. O rapaz ao seu lado saiu do transe musical e passou a olhar desconfiado para o que estava acontecendo ao seu redor. Acho que ele comecou a ficar receoso de qualquer reaçao extremada da mulher transtornada que nao conseguia ficar quieta. Ou ficou com medo de tomar alguma cacetada. Mas a polidez canadense o impedia de qualquer reclamaçao pelo incômodo.
O ônibus continuava seu percurso na rua Sherbourne. Mais algumas paradas, a garota deu um salto do banco onde estava sentada, abriu a porta do veículo e ganhou a rua, correndo para encontrar um homem que estava sentado nas escadarias de um pequeno prédio logo ali perto do ponto de ônibus. Ela rapidamente chegou até ele e se sentou ao seu lado, calmamente iniciando uma conversa indecifrável para quem passase por perto. Um conversa de loucos.
O rapaz de cabelos vermelhos continuou o seu percurso. Possivelmente iria descer no ponto da estaçao do metrô. Talvez estivesse indo encontrar o seu grupo grupo musical. Ou sua gang. Nao pude conferir, nao poderia, mesmo se quisesse. Desci antes.
As tatuagems nos dedos e todos os outros apetrechos completavam o visual de rapper, com influências de punk: grandes anéis, colar de elos grossos, o cabelo descolorido e tingido. Parecia que a qualquer momento ele poderia pular do banco e comecar a cantar alguma coisa em um tom agressivo. O seu visual para mim queria dizer violência urbana e revolta. Desencaixe e incertezas. Talvez criatividade, com um pouco de sorte.

Ele só não era mais estranho do que a jovem que entrou logo a seguir. Pele bem branca, cabelo bem preto, unhas pintadas de preto. Ela entrou como um raio e se sentou no banco junto de um rapaz louro, que usava casaco de lã e boina e que continuou impassivelmente a escutar as suas musicas preferidas com os fones dentro do ouvido, sem dar a minima atenção a quem se sentava ao seu lado.
A garota parecia estar sob efeito de alguma substância alucinógena. Ela se contorcia, olhava para todos os lados, tremia as maos. O pescoço virava quase em 360 graus, ela olhava para todas as direçoes. O rapaz ao seu lado saiu do transe musical e passou a olhar desconfiado para o que estava acontecendo ao seu redor. Acho que ele comecou a ficar receoso de qualquer reaçao extremada da mulher transtornada que nao conseguia ficar quieta. Ou ficou com medo de tomar alguma cacetada. Mas a polidez canadense o impedia de qualquer reclamaçao pelo incômodo.
O ônibus continuava seu percurso na rua Sherbourne. Mais algumas paradas, a garota deu um salto do banco onde estava sentada, abriu a porta do veículo e ganhou a rua, correndo para encontrar um homem que estava sentado nas escadarias de um pequeno prédio logo ali perto do ponto de ônibus. Ela rapidamente chegou até ele e se sentou ao seu lado, calmamente iniciando uma conversa indecifrável para quem passase por perto. Um conversa de loucos.
O rapaz de cabelos vermelhos continuou o seu percurso. Possivelmente iria descer no ponto da estaçao do metrô. Talvez estivesse indo encontrar o seu grupo grupo musical. Ou sua gang. Nao pude conferir, nao poderia, mesmo se quisesse. Desci antes.
12.5.12
O cheiro e o mau cheiro
Não lembro se foi alguém que comentou comigo, ou se li em algum lugar. Cada estação do ano tem um cheiro diferente. Eu nunca tinha percebido isso, até que essa impressão me veio forte nos últimos dias, ao caminhar pela cidade e sentir um aroma diferente.
Não sei dizer se era bom ou ruim. Acho que o cheiro vinha do pólen recém-nascido nas árvores e flores. Ou talvez seja o cheiro dos brotos de alguma árvore em particular, que me fazia lembrar vagamente o aroma de palha molhada. Então isso pode ser agradável ou não, a depender de cada nariz. O cheiro invadia as ruas e era como se estivesse marcando a instalação da primavera e afirmando que o verde chegou definivamente para ficar. Pelo menos pelos próximos sete meses.
Em outro local, em uma das ruas na rua por onde caminho para chegar em casa, neste época em que a temperatura começa a subir, sempre há um cheiro adocicado e agradável que todo ano chega junto com a primavera. Lembra o cheiro de lírio, mas é mais forte. Parece ocupar a rua inteira. Olho para as árvores, suspeito que seja uma variedade com pequenas flores brancas. Naquela rua estreita e residencial há varios exemplares dessa espécie, então é bem provavel que seja ela a reponsável pelo cheiro.
Se a primavera é a estacão das flores, para mim tambem é a estação dos perfumes. Flores e cheiros estão intimamente ligados, não é nenhuma novidade. Mas não conseguiria dizer se as demais estações teriam cheiros, como ouvi alguém afirmar, ou li em algum canto. Não consigo sentir cheiro da neve. No entanto, percebo o cheiro marcante da chuva na terra seca e quente, por exemplo. O mais marcante da neve é o barulho que faz quando se anda sobre ela. Para quem nunca teve a experiência, é semelhante ao som de pisar na areia fofa da praia.
Neste país de clima frio, as sensações térmicas na pele falam mais forte que os aromas, principalmente quando se está ao ar livre. A sensação de umidade do outono e a secura dos ambientes fechados no inverno são muito marcantes. A secura é provocada pelos aquecedores e pelo vento frio que resseca e parte os lábios,
E, para piorar a época fria, com a pequena circulação de ar, em ambientes fechados e com pouca ventilação, qualquer cheirinho vira uma explosão. Os canadenses são bem tolerantes a tudo mas detestam cheiros fortes. Em muitos locais de trabalho, como hospitais, por exemplo, os perfumes são proibidos. Até o cheiro da comida é criticado. Os indianos, pobres coitados, com seus condimentos e aromas fortes, que invadem os ambientes e mudam o cheiro da pele, vivem sob o exame cuidadoso e detalhado dos chatos de plantão.
Então todo mundo toma - ou deveria tomar - muito cuidado com os cheiros corporais. E com os incidentes. Qualquer pum vira um torpedo nuclear de grandes proporções na nação canadense.
Não sei dizer se era bom ou ruim. Acho que o cheiro vinha do pólen recém-nascido nas árvores e flores. Ou talvez seja o cheiro dos brotos de alguma árvore em particular, que me fazia lembrar vagamente o aroma de palha molhada. Então isso pode ser agradável ou não, a depender de cada nariz. O cheiro invadia as ruas e era como se estivesse marcando a instalação da primavera e afirmando que o verde chegou definivamente para ficar. Pelo menos pelos próximos sete meses.
Em outro local, em uma das ruas na rua por onde caminho para chegar em casa, neste época em que a temperatura começa a subir, sempre há um cheiro adocicado e agradável que todo ano chega junto com a primavera. Lembra o cheiro de lírio, mas é mais forte. Parece ocupar a rua inteira. Olho para as árvores, suspeito que seja uma variedade com pequenas flores brancas. Naquela rua estreita e residencial há varios exemplares dessa espécie, então é bem provavel que seja ela a reponsável pelo cheiro.
Se a primavera é a estacão das flores, para mim tambem é a estação dos perfumes. Flores e cheiros estão intimamente ligados, não é nenhuma novidade. Mas não conseguiria dizer se as demais estações teriam cheiros, como ouvi alguém afirmar, ou li em algum canto. Não consigo sentir cheiro da neve. No entanto, percebo o cheiro marcante da chuva na terra seca e quente, por exemplo. O mais marcante da neve é o barulho que faz quando se anda sobre ela. Para quem nunca teve a experiência, é semelhante ao som de pisar na areia fofa da praia.
Neste país de clima frio, as sensações térmicas na pele falam mais forte que os aromas, principalmente quando se está ao ar livre. A sensação de umidade do outono e a secura dos ambientes fechados no inverno são muito marcantes. A secura é provocada pelos aquecedores e pelo vento frio que resseca e parte os lábios,
E, para piorar a época fria, com a pequena circulação de ar, em ambientes fechados e com pouca ventilação, qualquer cheirinho vira uma explosão. Os canadenses são bem tolerantes a tudo mas detestam cheiros fortes. Em muitos locais de trabalho, como hospitais, por exemplo, os perfumes são proibidos. Até o cheiro da comida é criticado. Os indianos, pobres coitados, com seus condimentos e aromas fortes, que invadem os ambientes e mudam o cheiro da pele, vivem sob o exame cuidadoso e detalhado dos chatos de plantão.
Então todo mundo toma - ou deveria tomar - muito cuidado com os cheiros corporais. E com os incidentes. Qualquer pum vira um torpedo nuclear de grandes proporções na nação canadense.
12.4.12
Multilinguismo
Há alguns dias recebi um e-mail do grupo Toronto Babel falando que uma rede de tv de Toronto procurava uma pessoa "hiperpoliglota", que falasse seis ou mais línguas, para uma matéria. O Toronto Babel é um evento que ocorre toda semana, às terças-feiras, há mais de um ano, em um bar da cidade. As pessoas que vão a esse encontro buscam praticar línguas estrangeiras, não importa qual seja. Ou inglês, no caso de visitantes ou estudantes no Canadá. Ou mesmo moradores recém-chegados. Então fica gente praticando inglês, francês, mandarim, espanhol, português, russo, italiano e o que mais se imaginar.
O evento é informal, regado a cerveja, vinho e muito bate-papo, terminando sempre no onipresente inglês. Ou no português, como no meu caso, uma vez que os conversadores brasileiros não conseguem deixar de lado a língua pátria quando estão juntos.
A organizadora do evento Toronto Babel, uma estudante de doutorado em Linguística, já virou referência na cidade quando se fala em articulação de pessoas em práticas de linguagem. Por isso os meios de comunicaçao correm para ela quando precisam de fontes.
Falar seis linguas parece algo de seres extraterrestes, mas é possivel em Toronto. Tem gente que vem para o Canadá vindo de pais onde se fala mais de uma língua. Chega aqui e aprende inglês e francês. Adquirido o vício da mala sempre pronta, sai viajando pelo mundo, em estadias mais ou menos longas, vendo novas paisagens, conhecendo gente nova, saboreando pratos desconhecidos e aprendendo novas palavras.
Em outro encontro que às vezes frequento, o de francês, conheci um indiano que me garantiu que falava mais de seis línguas. Ele trabalhava em hotelaria no seu pais de origem e sabia, além de inglês, francês e árabe, as linguas da India: hindi, urdu, bengali, punjabi e outras mais. Além das línguas nacionais, que são o inglês e o hindi, a India tem mais 20 línguas usadas regionalmente. E cada uma delas falada por milhões de pessoas. Como se não bastasse, ainda tem o português que ficou perdido na região de Goa e que ninguém mais fala. Só vi o tal indiano uma vez e não teria como testar se ele falava mesmo a quantidade de línguas que ele prometia. E nem queria essa atribuição para mim. Isso seria trabalho para a rede de tv.
Tenho um outro amigo que com certeza sei que fala cinco línguas: russo, ucraniano - do seu país de origem-, mais inglês, francês e até português, aprendido durante um ano morando no Brasil e que ele fala quase sem sotaque, de uma maneira inacreditável para tão pouco tempo de estadia em terras lusófonas. Sim, este nome pomposo é aplicável a todas as pessoas que falam e aos locais onde se fala português. Ou seja, todo brasileiro é lusófono, queira ou não.
Com certeza a rede de tv deve ter encontrado o seu personagem para fazer a matéria. Os hiperpoliglotas não são seres alienígenas. Com algum esforço eles podem ser encontrados nas grandes cidades do Canadá.
Fiquei pensando se a língua do P poderia entrar na conta das línguas dos hiperpoliglotas.
O evento é informal, regado a cerveja, vinho e muito bate-papo, terminando sempre no onipresente inglês. Ou no português, como no meu caso, uma vez que os conversadores brasileiros não conseguem deixar de lado a língua pátria quando estão juntos.
A organizadora do evento Toronto Babel, uma estudante de doutorado em Linguística, já virou referência na cidade quando se fala em articulação de pessoas em práticas de linguagem. Por isso os meios de comunicaçao correm para ela quando precisam de fontes.
Falar seis linguas parece algo de seres extraterrestes, mas é possivel em Toronto. Tem gente que vem para o Canadá vindo de pais onde se fala mais de uma língua. Chega aqui e aprende inglês e francês. Adquirido o vício da mala sempre pronta, sai viajando pelo mundo, em estadias mais ou menos longas, vendo novas paisagens, conhecendo gente nova, saboreando pratos desconhecidos e aprendendo novas palavras.
Em outro encontro que às vezes frequento, o de francês, conheci um indiano que me garantiu que falava mais de seis línguas. Ele trabalhava em hotelaria no seu pais de origem e sabia, além de inglês, francês e árabe, as linguas da India: hindi, urdu, bengali, punjabi e outras mais. Além das línguas nacionais, que são o inglês e o hindi, a India tem mais 20 línguas usadas regionalmente. E cada uma delas falada por milhões de pessoas. Como se não bastasse, ainda tem o português que ficou perdido na região de Goa e que ninguém mais fala. Só vi o tal indiano uma vez e não teria como testar se ele falava mesmo a quantidade de línguas que ele prometia. E nem queria essa atribuição para mim. Isso seria trabalho para a rede de tv.
Tenho um outro amigo que com certeza sei que fala cinco línguas: russo, ucraniano - do seu país de origem-, mais inglês, francês e até português, aprendido durante um ano morando no Brasil e que ele fala quase sem sotaque, de uma maneira inacreditável para tão pouco tempo de estadia em terras lusófonas. Sim, este nome pomposo é aplicável a todas as pessoas que falam e aos locais onde se fala português. Ou seja, todo brasileiro é lusófono, queira ou não.
Com certeza a rede de tv deve ter encontrado o seu personagem para fazer a matéria. Os hiperpoliglotas não são seres alienígenas. Com algum esforço eles podem ser encontrados nas grandes cidades do Canadá.
Fiquei pensando se a língua do P poderia entrar na conta das línguas dos hiperpoliglotas.
12.3.12
Sabores que rodam o mundo
Ainda não foi por agora que a famosa comida da Etiópia passou a fazer parte do rol das minhas experiências gastronômicas. Mais uma vez o tal restaurante estava fechado. Para as férias de março. Eu nunca ouvi falar nessas férias.
Os donos do restaurante não devem ser bons administradores, de acordo com o que li em comentários na internet. Em um deles, a pessoa anotava que o atendimento não era bom, apesar da cozinha "de diamante". Ele dizia ainda que se o restaurante se preparasse para vender comida para levar para casa, como é bem comum por aqui, poderia ganhar uma fortuna. Mas talvez isso faça a diferença do local. O modo slow food. Comida lenta e bem feita.
Já que a comida etíope estava de férias, talvez tenha ido passear nas suas origens africanas, fiquei em dúvida entre os galetos assados portugueses - e seus pratos gigantescos - ou a "cozinha caribenha de Pam", que eu já havia provado e aprovado. Fui visitar a simpática madame Pam, originária da Guiana, que se apoderou da cultura do Caribe para ganhar os seus trocados. Tudo bem, a Guiana está ali na beira do Mar do Caribe, faz parte da liga dos países da região, mas será que o Brasil também não poderia requisitar do mercado turístico a sua porção caribenha?
O pouco lembrado Amapá está ao lado da Guiana francesa, tem um litoral gigantesco, mas, pelo que pude pesquisar, já que nunca andei por aquelas terras, o Estado não incorpora elementos da cultura do Caribe. O prato mais forte é o tacacá, típico da regiao norte. Dominante como a cultura brasileira é, a feijoada e o churrasco devem ser mais comum por lá do que o "jerk chicken" caribenho. O Estado brasileiro que parece mais dialogar com o Caribe é o Maranhão, com a intensa paixão popular pelo reggae jamaicano.
Na cozinha de Pam provei o prato principal da casa: o roti. Uma espécie de crepe recheado com opçoes de carne, frango, camarão ou legumes, com batatas, grão-de-bico e bastante temperado. O sabor do cominho (ou seria curry?) é bem intenso. Pedi a versao jerk chicken e, como da vez anterior, aquele molho escuro do frango estava delicioso. O "envelope" de roti é muito bem feito, o molho não encharca o invólucro nem vaza.
Fui buscar mais informaçoes sobre o roti. Na verdade é um pão sem fermento, de origem indiana, que recobre o que achei com cara de crepe. As Guianas, tanto inglesa, como holandesa e francesa - isso é algo novo para mim -, receberam muitos imigrantes chineses e indianos. Os sabores indianos passaram a fazer parte da cultura da América do Sul. Então ficou explicado o sabor apimentado e marcante de curry que havia no prato.
Barriga cheia, mas sempre existe espaço para o café e o doce. E, em plena região portuguesa, nada mais imediato do que pensar em pastel de nata, acompanhado pelo café expresso da padaria. Voltei para casa carregando um daqueles sacos de papel marrom cheio de pães portugueses, crocantes por fora e macios por dentro, como os das melhores padarias brasileiras. Mas com um sabor de qualidade portuguesa dificil de copiar.
Os donos do restaurante não devem ser bons administradores, de acordo com o que li em comentários na internet. Em um deles, a pessoa anotava que o atendimento não era bom, apesar da cozinha "de diamante". Ele dizia ainda que se o restaurante se preparasse para vender comida para levar para casa, como é bem comum por aqui, poderia ganhar uma fortuna. Mas talvez isso faça a diferença do local. O modo slow food. Comida lenta e bem feita.
Já que a comida etíope estava de férias, talvez tenha ido passear nas suas origens africanas, fiquei em dúvida entre os galetos assados portugueses - e seus pratos gigantescos - ou a "cozinha caribenha de Pam", que eu já havia provado e aprovado. Fui visitar a simpática madame Pam, originária da Guiana, que se apoderou da cultura do Caribe para ganhar os seus trocados. Tudo bem, a Guiana está ali na beira do Mar do Caribe, faz parte da liga dos países da região, mas será que o Brasil também não poderia requisitar do mercado turístico a sua porção caribenha?
O pouco lembrado Amapá está ao lado da Guiana francesa, tem um litoral gigantesco, mas, pelo que pude pesquisar, já que nunca andei por aquelas terras, o Estado não incorpora elementos da cultura do Caribe. O prato mais forte é o tacacá, típico da regiao norte. Dominante como a cultura brasileira é, a feijoada e o churrasco devem ser mais comum por lá do que o "jerk chicken" caribenho. O Estado brasileiro que parece mais dialogar com o Caribe é o Maranhão, com a intensa paixão popular pelo reggae jamaicano.
Na cozinha de Pam provei o prato principal da casa: o roti. Uma espécie de crepe recheado com opçoes de carne, frango, camarão ou legumes, com batatas, grão-de-bico e bastante temperado. O sabor do cominho (ou seria curry?) é bem intenso. Pedi a versao jerk chicken e, como da vez anterior, aquele molho escuro do frango estava delicioso. O "envelope" de roti é muito bem feito, o molho não encharca o invólucro nem vaza.
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| Era a cara desse da foto. Bom, né? |
Barriga cheia, mas sempre existe espaço para o café e o doce. E, em plena região portuguesa, nada mais imediato do que pensar em pastel de nata, acompanhado pelo café expresso da padaria. Voltei para casa carregando um daqueles sacos de papel marrom cheio de pães portugueses, crocantes por fora e macios por dentro, como os das melhores padarias brasileiras. Mas com um sabor de qualidade portuguesa dificil de copiar.
3.2.12
Receita de família
Delícia das delícias! Receita
de família, típica da região cacaueira, herança da terra, modo de
preparo com a "tecnologia" dos índios, misturada com o dendê afro-baiano,
folha de bananeira embalando o pescado do rio Cachoeira. Prato cantado em
prosa por Jorge Amado, receita resgatada por sua filha Paloma, passada
de geração em geração, alegria de domingos, de família reunida, imagem
de um tempo que a memória não deixa ir embora. Prato de resistência dos
Cardoso. Recordação de vários daqueles que já se foram, que tanto nos
amaram e que tanto amamos. Para quem não conhece, a famosa, a inesquecível, a sublime Moqueca de peixe na folha, que merece letra maiúscula.
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| Foto: Veronica Barreto |
19.11.11
A terra entre as raízes
Termino dois dos melhores livros que já li: The Story of the Night, do irlandês Colm Toíbín, e Mi País Inventado, da chilena Isabel Allende. Nos dois casos, aconteceu algo que raramente faço. Volto a reler algumas partes, pelas quais passei muito rápido, na ânsia pelo desfecho.
Ambos são uma lição de que, para fazer um bom livro, não é preciso vocabulário complicado. O irlandês é reconhecido internacionalmente, recebeu vários prêmios. Escreve em um inglês leve, emotivo e cativante. E não me obriga a ir toda hora ao dicionário. Já Allende é a autora do famoso Casa dos Espíritos e de vários outros títulos que venderam milhões.
Mr. Toíbín me deixou com vontade de conhecer a Irlanda desde quando li outro livro dele, The Empty Family. Mesmo que o retrato traçado por ele do país não seja tão bonito assim.
Mi País Inventado, por sua vez, é um livro que gostaria de ter lido no final da adolescência ou início da fase adulta. Talvez tivesse tomado decisões mais rápidas sobre alguns caminhos a tomar. Ou, melhor, não. Talvez o melhor momento tenha sido agora, quando vivo na condição de imigrante. De qualquer modo, ler o livro naquela época seria impossível, pois ele foi publicado em 2003.
Por coincidência, os dois têm um largo foco nas ditaduras latino-americanas. The Story of the Night, na Argentina, enquanto Mi País Inventado, no Chile.
Isabel Allende faz uma espécie de autobiografia poética, colocando o Chile como pano de fundo. Ela descreve com leveza e humor as relações familiares, o gosto pela escrita, as caracteristicas do povo chileno, as reviravoltas da vida política no Chile, a condição de exilada na Venezuela, por causa da ditadura, e depois como imigrante nos Estados Unidos, após o casamento com um americano.
Impossível para mim não ter identificação com obra e vida de Allende. O gosto pela escrita, a nostalgia do país de origem, o olhar para a terra natal a partir de um local distante, como se fosse um estrangeiro. Talvez tenha sido melhor mesmo ter lido Allende já morando em outro país. Se não estaria sonhando em ser um exilado político para sair do Brasil.
Ela, filha de diplomatas, teve essa oportunidade desde cedo. Já eu lutei por isso. Quando eu era adolescente, via com olhos de desejo aqueles privilegiados que conseguiam sair do país, via turismo ou estudos. Meus primeiros salários foram economizados para uma viagem ao exterior para estudar inglês. A língua inglesa sempre me atraiu, mas o estudo foi mais desculpa para uma longa viagem. Na volta, fiquei bastante entristecido, pois as minhas condições profissionais (e financeiras) haviam mudado e ficou difícil empreender uma outra aventura como aquela.
Os anos se passaram, outras pessoas chegaram e saíram da minha vida. Um amigo foi morar no Canadá e a minha vontade de viajar aumentou e persistiu. Mas, por que mudar, se existia o conforto de morar bem, carro, amigos, emprego estável? Vontade de jogar tudo para cima e recomeçar a vida. Aventura. Aprender outras línguas. Conhecer novas pessoas. Histórias para contar.
Considero um privilégio poder mudar de vida quase aos quarenta anos. Recomeçar tudo: nova língua, estudos, trabalho. Grandes desafios. Mas, como Isabel Allende anota no livro, o século XX foi marcado por migrações e exílios nunca vistos. E, pelo jeito, as coisas continuam fortes até hoje. Faço parte de um fluxo, não estou só.
Até um passado recente, o Brasil sempre esteve isolado, como se fosse uma ilha-continente na América do Sul. Havia poucos intercâmbios com os países vizinhos. Raras pessoas viajavam à Colômbia e Venezuela, por exemplo. Quando eu era adolescente, eu tinha impressão de que tudo que falava e lembrava o espanhol da América do Sul parecia extremamente cafona. Antiquado, perdido no tempo. Um pouco dessa atmosfera ainda não se perdeu, eu pude notar em Montevidéo, no Uruguai, quando estive lá há uns seis anos. A minha impressão na adolescência não era totalmente errada.
Mais tarde, durante a minha época de universidade, Peru e Bolívia me pareciam destinos de aventureiros, alternativos e hippies tardios. Hoje, Chile e Argentina fazem parte de pacotes turísticos da classe média brasileira. O intercâmbio cultural é bem maior. Aprende-se espanhol nas escolas do Brasil e é um idioma que cresce em importância no mundo.
Então ler as imagens poéticas de Allende me traz conforto. Como se me fizesse lembrar da emotividade latina. Ajuda a saber que estar distante das origens não é perder as suas caracteristicas. É como transportar uma árvore de um local para outro. Aquela terrinha que permanece entre as raizes é o que se leva e o que permite à árvore se readaptar. Essa terra está contida nas lembranças e na imaginação.
Ambos são uma lição de que, para fazer um bom livro, não é preciso vocabulário complicado. O irlandês é reconhecido internacionalmente, recebeu vários prêmios. Escreve em um inglês leve, emotivo e cativante. E não me obriga a ir toda hora ao dicionário. Já Allende é a autora do famoso Casa dos Espíritos e de vários outros títulos que venderam milhões.
Mr. Toíbín me deixou com vontade de conhecer a Irlanda desde quando li outro livro dele, The Empty Family. Mesmo que o retrato traçado por ele do país não seja tão bonito assim. Mi País Inventado, por sua vez, é um livro que gostaria de ter lido no final da adolescência ou início da fase adulta. Talvez tivesse tomado decisões mais rápidas sobre alguns caminhos a tomar. Ou, melhor, não. Talvez o melhor momento tenha sido agora, quando vivo na condição de imigrante. De qualquer modo, ler o livro naquela época seria impossível, pois ele foi publicado em 2003.
Por coincidência, os dois têm um largo foco nas ditaduras latino-americanas. The Story of the Night, na Argentina, enquanto Mi País Inventado, no Chile.
Isabel Allende faz uma espécie de autobiografia poética, colocando o Chile como pano de fundo. Ela descreve com leveza e humor as relações familiares, o gosto pela escrita, as caracteristicas do povo chileno, as reviravoltas da vida política no Chile, a condição de exilada na Venezuela, por causa da ditadura, e depois como imigrante nos Estados Unidos, após o casamento com um americano.
Impossível para mim não ter identificação com obra e vida de Allende. O gosto pela escrita, a nostalgia do país de origem, o olhar para a terra natal a partir de um local distante, como se fosse um estrangeiro. Talvez tenha sido melhor mesmo ter lido Allende já morando em outro país. Se não estaria sonhando em ser um exilado político para sair do Brasil.
Ela, filha de diplomatas, teve essa oportunidade desde cedo. Já eu lutei por isso. Quando eu era adolescente, via com olhos de desejo aqueles privilegiados que conseguiam sair do país, via turismo ou estudos. Meus primeiros salários foram economizados para uma viagem ao exterior para estudar inglês. A língua inglesa sempre me atraiu, mas o estudo foi mais desculpa para uma longa viagem. Na volta, fiquei bastante entristecido, pois as minhas condições profissionais (e financeiras) haviam mudado e ficou difícil empreender uma outra aventura como aquela.
Os anos se passaram, outras pessoas chegaram e saíram da minha vida. Um amigo foi morar no Canadá e a minha vontade de viajar aumentou e persistiu. Mas, por que mudar, se existia o conforto de morar bem, carro, amigos, emprego estável? Vontade de jogar tudo para cima e recomeçar a vida. Aventura. Aprender outras línguas. Conhecer novas pessoas. Histórias para contar.
Considero um privilégio poder mudar de vida quase aos quarenta anos. Recomeçar tudo: nova língua, estudos, trabalho. Grandes desafios. Mas, como Isabel Allende anota no livro, o século XX foi marcado por migrações e exílios nunca vistos. E, pelo jeito, as coisas continuam fortes até hoje. Faço parte de um fluxo, não estou só.
Até um passado recente, o Brasil sempre esteve isolado, como se fosse uma ilha-continente na América do Sul. Havia poucos intercâmbios com os países vizinhos. Raras pessoas viajavam à Colômbia e Venezuela, por exemplo. Quando eu era adolescente, eu tinha impressão de que tudo que falava e lembrava o espanhol da América do Sul parecia extremamente cafona. Antiquado, perdido no tempo. Um pouco dessa atmosfera ainda não se perdeu, eu pude notar em Montevidéo, no Uruguai, quando estive lá há uns seis anos. A minha impressão na adolescência não era totalmente errada.
Mais tarde, durante a minha época de universidade, Peru e Bolívia me pareciam destinos de aventureiros, alternativos e hippies tardios. Hoje, Chile e Argentina fazem parte de pacotes turísticos da classe média brasileira. O intercâmbio cultural é bem maior. Aprende-se espanhol nas escolas do Brasil e é um idioma que cresce em importância no mundo.
Então ler as imagens poéticas de Allende me traz conforto. Como se me fizesse lembrar da emotividade latina. Ajuda a saber que estar distante das origens não é perder as suas caracteristicas. É como transportar uma árvore de um local para outro. Aquela terrinha que permanece entre as raizes é o que se leva e o que permite à árvore se readaptar. Essa terra está contida nas lembranças e na imaginação.
11.11.11
De graça, para você
Imagine um estabelecimento com os produtos dispostos em estantes. Eles têm diversas cores e estampas bem convidativas. Você vai passeando, procurando o que quer, manuseando, experimentando algumas partes. Os formatos são semelhantes. Os produtos vêm de diversas regiões do mundo, conheceram os mais diferentes cenários, se poderia dizer que falam diferentes línguas. Os produtos estão ali, à sua disposiçao, ao alcance da sua mão, para que você possa levar para casa e aproveitá-los durante algum tempo. Gratuitamente. Depois disso, se você pedir com interesse e vontade, os produtos podem ficam mais alguns dias com você. Depois eles voltam para o local de onde vieram, para que, em tempos de consciência ecológica, possam ser reaproveitados por outras pessoas, indefinidamente. Falo dos livros e do sistema de bibliotecas públicas do Canadá.
É realmente um sistema que funciona. Pelo site, é possível fazer a consulta do que interessa. E saber se estão na estante ou emprestados, quando serão retornados. Pesquisa-se por autor, por título, por tema, por local, por língua, por tipo de publicação.
Há uma grande biblioteca central, que fica no coração de Toronto. Há várias outras nos bairros, que procuram se adequar ao local onde estão instaladas. Em região onde a comunidade chinesa é muito presente, provavelmente haverá uma grande seção de livros em mandarim ou cantonês. Na biblioteca do bairro português há a presença de muitos autores brasileiros, portugueses e outros lusófonos. Em alguns casos, os livros em francês, uma das línguas oficiais do Canadá, estão em menor quantidade do que livros estrangeiros.
Na biblioteca St-James, a mais próxima de minha casa, depois das publicações em inglês, a maior quantidade é de livros em mandarim e tâmil (a língua do Sri Lanka). A seguir em russo, tagalog (a língua das Filipinas) e espanhol. Já vi que há alguns da chilena Isabel Allende, trouxe Mi País Inventado para casa . A quantidade é menor em francês, coreano e urdu (do Paquistao e partes da India).
Há terminais de pesquisa na internet, sala de estudos, jornais e revistas. Há também muitos CDs, DVDs, AudioBooks e E-books, que você pode baixar direto no seu computador, sem precisar nem mesmo ir na biblioteca. E, o melhor, você tem acesso a tudo isso, sem gastar nada.
É realmente um sistema que funciona. Pelo site, é possível fazer a consulta do que interessa. E saber se estão na estante ou emprestados, quando serão retornados. Pesquisa-se por autor, por título, por tema, por local, por língua, por tipo de publicação.
Há uma grande biblioteca central, que fica no coração de Toronto. Há várias outras nos bairros, que procuram se adequar ao local onde estão instaladas. Em região onde a comunidade chinesa é muito presente, provavelmente haverá uma grande seção de livros em mandarim ou cantonês. Na biblioteca do bairro português há a presença de muitos autores brasileiros, portugueses e outros lusófonos. Em alguns casos, os livros em francês, uma das línguas oficiais do Canadá, estão em menor quantidade do que livros estrangeiros.
Na biblioteca St-James, a mais próxima de minha casa, depois das publicações em inglês, a maior quantidade é de livros em mandarim e tâmil (a língua do Sri Lanka). A seguir em russo, tagalog (a língua das Filipinas) e espanhol. Já vi que há alguns da chilena Isabel Allende, trouxe Mi País Inventado para casa . A quantidade é menor em francês, coreano e urdu (do Paquistao e partes da India).
Há terminais de pesquisa na internet, sala de estudos, jornais e revistas. Há também muitos CDs, DVDs, AudioBooks e E-books, que você pode baixar direto no seu computador, sem precisar nem mesmo ir na biblioteca. E, o melhor, você tem acesso a tudo isso, sem gastar nada.
28.9.11
Os santos gêmeos
As lembranças sao intimamente ligadas aos sentidos: aromas, sabores, imagens, sons, sensaçoes táteis. Talvez as recordaçoes que restem mais intensas sao ligadas a comida. Cozinhar, ou mesmo ofertar alimentos para outras pessoas, é um ato de bondade e generosidade. A mae passa amor e proteçao aos filhos quando oferece o que comer. E essa impressao parece ficar registrada no cérebro indefinidamente. Quem oferece um banquete, além de ampliaçao de relaçoes diplomáticas e celebraçao do prazer de festejar, está abrindo as portas da casa e também da alma.
A cozinha da Bahia e os seus pratos dourados pelo dendê vao além do simples prazer. A maior parte das receitas tem origem nas oferendas aos deuses do candomblé. Cada orixá tem as suas preferências e cabe aos devotos agradar da melhor maneira possível. O sincretismo religioso expandiu a cultura do paladar. As promessas feitas aos santos católicos sao pagas com comidas aos seus respectivos orixás, os deuses das religioes que vieram da Àfrica.
O caruru completo dedicado a Sao Cosme e Sao Damiao vira um banquete: vatapá, caruru, xinxim de galinha, arroz branco, farofa de dendê, feijao fradinho, cocadas, acarajé, abará. A lista é grande e pode aumentar, de acordo com o gosto e a disposiçao de quem o oferta. A culinária do dendê, apesar de restrita à Bahia, tem ares de prato típico nacional. Popular entre todas as camadas sociais da naçao baiana, é uma cozinha refinada e específica. Como um simples exemplo, um dos temperos utilizados é o camarao seco e defumado, transformado em pó.
Apesar de parecer ser uma cultura dominante, os pratos feitos com dendê nao sao unanimidade em toda a Bahia. Ao viajar para o interior do Estado, além do clima mais seco do sertao, a culinária também vai mudando e os hábitos alimentares ficam mais parecidos com o nordeste brasileiro: carnes, queijos e manteiga entram no cardápio.
Na época de Sao Cosme e Sao Damiao online, fica mais difícil esquecer da data e da comida especial. Um vídeo de Maria Betânia cantando e declamando a bela oraçao dos santos gêmeos virou sucesso na internet e suas redes sociais. Baianos exilados prolongam as lamúrias da saudade de casa.
Mas tem gente que nao se rende e continua cozinhando para relembrar e celebrar suas origens, as pessoas queridas e os sabores inesquecíveis. Para felicidade geral da naçao baiana em Toronto, um amigo meu tem preparado - já é o segundo ano da tradiçao - um caruru completo para Sao Cosme e Sao Damiao. Com azeite de dendê e camaroes secos trazidos da Bahia, o que é mais incrível. Aos baianos juntam-se outros brasileiros que nunca haviam provados pratos de dendê. Até canadenses se rendem àqueles pratos amarelos.
Que alegria poder desfrutar,a tantos quilômetros de distância da terra natal, os sabores deliciosos, que trazem tantas lembranças, que acariciam o coraçao e que fortalecem as relaçoes sociais e de amizade.
A cozinha da Bahia e os seus pratos dourados pelo dendê vao além do simples prazer. A maior parte das receitas tem origem nas oferendas aos deuses do candomblé. Cada orixá tem as suas preferências e cabe aos devotos agradar da melhor maneira possível. O sincretismo religioso expandiu a cultura do paladar. As promessas feitas aos santos católicos sao pagas com comidas aos seus respectivos orixás, os deuses das religioes que vieram da Àfrica.
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| Sao Cosme e Sao Damiao |
Apesar de parecer ser uma cultura dominante, os pratos feitos com dendê nao sao unanimidade em toda a Bahia. Ao viajar para o interior do Estado, além do clima mais seco do sertao, a culinária também vai mudando e os hábitos alimentares ficam mais parecidos com o nordeste brasileiro: carnes, queijos e manteiga entram no cardápio.
Na época de Sao Cosme e Sao Damiao online, fica mais difícil esquecer da data e da comida especial. Um vídeo de Maria Betânia cantando e declamando a bela oraçao dos santos gêmeos virou sucesso na internet e suas redes sociais. Baianos exilados prolongam as lamúrias da saudade de casa.
Mas tem gente que nao se rende e continua cozinhando para relembrar e celebrar suas origens, as pessoas queridas e os sabores inesquecíveis. Para felicidade geral da naçao baiana em Toronto, um amigo meu tem preparado - já é o segundo ano da tradiçao - um caruru completo para Sao Cosme e Sao Damiao. Com azeite de dendê e camaroes secos trazidos da Bahia, o que é mais incrível. Aos baianos juntam-se outros brasileiros que nunca haviam provados pratos de dendê. Até canadenses se rendem àqueles pratos amarelos.
Que alegria poder desfrutar,a tantos quilômetros de distância da terra natal, os sabores deliciosos, que trazem tantas lembranças, que acariciam o coraçao e que fortalecem as relaçoes sociais e de amizade.
17.9.11
Personagens de Toronto
Personagens da vida de Toronto. A garota nos seus 15 ou 16 anos chega na sala de musculaçao com a bola de basquete debaixo do braço. Coloca a bola em um canto da sala e começa a se exercitar, sem se importar com a maioria da populaçao masculina ao redor. Ela tem a pele morena-escura, veste bermudao, camiseta de malha, tênis. Um grande lenço cobre cabelos, orelhas e pescoço. Muçulmana.
Comentário:
Há algumas coisas que me chamam a atençao na "cena" da garota muçulmana na musculaçao. A integraçao aos hábitos da sociedade ocidental (os esportes e as roupas esportivas, neste caso) de uma provável segunda segunda geraçao de imigrantes. A manutençao do vínculo com a cultura original - o veu. Será que ela usa só porque o pai obriga? Será que só por ela, ela continuaria usando? Será que ela acha que praticar esportes sem o véu nao seria mais confortável? E, a maior contradiçao que acho, o véu e as roupas longas serveriam para "proteger" a mulher dos olhares e da atraçao masculina, essa é a grande finalidade entre os muçulmanos. Na cena da garota, o véu é mantido, mas as roupas sao encurtadas, algo necessário para a prática dos esportes.
Comentário:
Há algumas coisas que me chamam a atençao na "cena" da garota muçulmana na musculaçao. A integraçao aos hábitos da sociedade ocidental (os esportes e as roupas esportivas, neste caso) de uma provável segunda segunda geraçao de imigrantes. A manutençao do vínculo com a cultura original - o veu. Será que ela usa só porque o pai obriga? Será que só por ela, ela continuaria usando? Será que ela acha que praticar esportes sem o véu nao seria mais confortável? E, a maior contradiçao que acho, o véu e as roupas longas serveriam para "proteger" a mulher dos olhares e da atraçao masculina, essa é a grande finalidade entre os muçulmanos. Na cena da garota, o véu é mantido, mas as roupas sao encurtadas, algo necessário para a prática dos esportes.
10.9.11
The Couchsurfing Experience: da gafieira aos sinos
Couchsurfing, que literalmente significa "surfar no sofá", quer dizer conseguir hospedagem gratuita, para passar uma noite ou alguns dias, em qualquer canto da casa de alguma alma bondosa que abra as portas do seu lar doce lar. Seja para dormir em cama, sofá, colchão ou qualquer outro local com mínimo de conforto.
Essa idéia inicial, gerada a partir de um site internet (www.couchsurfing.org), ganhou o mundo e se tornou um sucesso. O site tem mais de 3 milhões de participantes.
Em um universo de pessoas cada vez mais egocêntricas e fechadas, que vivem focadas em seus computadores, seus interesses e suas redes sociais, é esperançoso ver que existe tanta gente generosa e de cabeça aberta, que abre as trancas e cadeados de suas casas aos viajantes desconhecidos, com o simples intuito de fazer o bem, conhecer pessoas, conversar e intensificar o intercâmbio cultural, seja nacional ou internacionalmente.
Se não quiser hospedar ou conseguir hospedagem, o participante do Couchsurfing pode se disponibilizar apenas para sair para tomar um café ou um drink com o visitante. E, a partir daí, trocar informações sobre a cultura local, ir mostrar a cidade, ou apenas conversar. Ainda que não haja impedimento para isso acontecer, a princípio o Couchsurfing não é um site de paquera.
Existem tambem os grupos das cidades e de temas específicos. Participar em um desses grupos é uma ótima fonte de informações do que está acontecendo. Eventos, descontos, convites, etc. As pessoas combinam as mais diversas programações. Intercambios linguisticos, pique-niques, festas, cafés. Visitantes convidam os nativos para tomar uma cerveja ou um café. Pedem indicações de bons restaurantes, atrações turísticas, bares e casas noturnas. Os moradores da cidade combinam entre si jantares e passeios e aproveitam para ciceronear os visitantes.
A minha aventura Couchsurfing comecou ainda no Brasil, em 2007. Eu me cadastrei no intuito de praticar francês e inglês, durante a minha estadia em Ilhéus, enquanto aguardava o visto canadense. Cheguei a fazer alguns contatos, mas não aconteceu de sair para café, drinque e mostrar a cidade para ninguém.
Chegando no Canadá, a participação tomou corpo. O norte-americano é tido como frio e distante, muito focado em suas ações, mas adora se reunir em grupos, em torno de um objetivo em comum, seja atividade filantrópica ou diversão. Então algum tipo de objetivo é necessário para que os encontros sociais se realizem e as pessoas se aproximem.
Existe um outro site, chamado Meet-up (www.meetup.com), que também é bastante utilizado para organizar reuniões. E, olhe, tem gente se reunindo para tudo, desde caminhar no parque até aprender japonês.
Em Montréal, a partir de um convite para um evento linguístico francês-português do CS, eu, outros brasileiros e mais um grupo de québécois interessados em português e na cultura brasileira, começamos a frequentar um bar e casa de shows chamada Les Bobards, onde aos domingos sempre rola música do Brasil para dançar. A gente ficava tomando cerveja, enrolando a língua, ensinando um pouco da sua linguagem nativa e aprimorando a estrangeira.
Conheci pessoas muito interessantes, com as quais mantenho contato até hoje. Depois da sessão de trocas linguísticas era a hora de música e dança. Havia um outro grupo que aprendia e praticava gafieira, ao som de música mecânica ou do grupo que se apresentava. E que nos dava dicas de como dançar o samba em dupla. Depois de praticar português e francês, era hora de mexer o esqueleto.
Em Montréal, tambem tomei muitos cafes servindo de pretexto para praticar frances e ensinar portugues.
Em Toronto, com menos tempo disponível, a minha participação no Couchsurfing ficou reservada ao Toronto Babel Language, um evento que ocorre semanalmente em um bar e onde as pessoas sao convidadas ao intercâmbio linguístico. Neste evento, um retrato do que é Toronto, é possível conhecer gente do mundo todo e praticar línguas inimagináveis. Até inglês.
No último final de semana participei de um jantar organizado por um participante do Couchsurfing. Ele preparou o jantar, cobrou uma taxa mínima e cada um levou sua bebida. O risotto de parmesão estava uma delícia. Conheci gente bem interessante. Da China, da França, da Tunísia. Até do Canadá! Depois fomos para a despedida de um rapaz italiano que, depois de alguns meses em Toronto e muitos eventos Couchsurfing, estava voltando para o seu país.
Um dos canadenses que estava no jantar faz um trabalho genial. É professor de música e toca carrilhao (o conjunto de sinos) em uma grande igreja de Toronto. Ele promove, gratuitamente, um passeio pela igreja onde trabalha e uma apresentação musical naquele que é um dos 11 carrilhoes do Canadá. Para ser considerado um carrilhao, sao necessários pelo menos 50 sinos.
Por dentro da Metropolitan United Church
Entao na mesma semana, fui ver o pequeno show e conhecer a igreja, que fica em um ponto bem central da cidade. Para conferir a apresentaçao musical as pessoas sobem um monte de degraus em uma escada estreita e em caracol. Em outra etapa, o grupo sobe mais escadas e chega até o teto da Igreja, de onde se tem uma bela vista de Toronto. Depois o grupo saiu para jantar em um restaurante bem canadense. Como sempre, nessas ocasioes, peço a especialidade da casa. Hambúrguer de carne Angus com batatas fritas e salada. Simples e bom.
Vista da outra capela, a partir do teto
Os sinos
O aparelho que faz os sinos soarem
Crédito da foto da dança: Dioni Pereira.
Essa idéia inicial, gerada a partir de um site internet (www.couchsurfing.org), ganhou o mundo e se tornou um sucesso. O site tem mais de 3 milhões de participantes.
Em um universo de pessoas cada vez mais egocêntricas e fechadas, que vivem focadas em seus computadores, seus interesses e suas redes sociais, é esperançoso ver que existe tanta gente generosa e de cabeça aberta, que abre as trancas e cadeados de suas casas aos viajantes desconhecidos, com o simples intuito de fazer o bem, conhecer pessoas, conversar e intensificar o intercâmbio cultural, seja nacional ou internacionalmente.
Se não quiser hospedar ou conseguir hospedagem, o participante do Couchsurfing pode se disponibilizar apenas para sair para tomar um café ou um drink com o visitante. E, a partir daí, trocar informações sobre a cultura local, ir mostrar a cidade, ou apenas conversar. Ainda que não haja impedimento para isso acontecer, a princípio o Couchsurfing não é um site de paquera.
Existem tambem os grupos das cidades e de temas específicos. Participar em um desses grupos é uma ótima fonte de informações do que está acontecendo. Eventos, descontos, convites, etc. As pessoas combinam as mais diversas programações. Intercambios linguisticos, pique-niques, festas, cafés. Visitantes convidam os nativos para tomar uma cerveja ou um café. Pedem indicações de bons restaurantes, atrações turísticas, bares e casas noturnas. Os moradores da cidade combinam entre si jantares e passeios e aproveitam para ciceronear os visitantes.
A minha aventura Couchsurfing comecou ainda no Brasil, em 2007. Eu me cadastrei no intuito de praticar francês e inglês, durante a minha estadia em Ilhéus, enquanto aguardava o visto canadense. Cheguei a fazer alguns contatos, mas não aconteceu de sair para café, drinque e mostrar a cidade para ninguém.
Chegando no Canadá, a participação tomou corpo. O norte-americano é tido como frio e distante, muito focado em suas ações, mas adora se reunir em grupos, em torno de um objetivo em comum, seja atividade filantrópica ou diversão. Então algum tipo de objetivo é necessário para que os encontros sociais se realizem e as pessoas se aproximem.
Existe um outro site, chamado Meet-up (www.meetup.com), que também é bastante utilizado para organizar reuniões. E, olhe, tem gente se reunindo para tudo, desde caminhar no parque até aprender japonês.
Em Montréal, a partir de um convite para um evento linguístico francês-português do CS, eu, outros brasileiros e mais um grupo de québécois interessados em português e na cultura brasileira, começamos a frequentar um bar e casa de shows chamada Les Bobards, onde aos domingos sempre rola música do Brasil para dançar. A gente ficava tomando cerveja, enrolando a língua, ensinando um pouco da sua linguagem nativa e aprimorando a estrangeira.
Conheci pessoas muito interessantes, com as quais mantenho contato até hoje. Depois da sessão de trocas linguísticas era a hora de música e dança. Havia um outro grupo que aprendia e praticava gafieira, ao som de música mecânica ou do grupo que se apresentava. E que nos dava dicas de como dançar o samba em dupla. Depois de praticar português e francês, era hora de mexer o esqueleto.
Em Montréal, tambem tomei muitos cafes servindo de pretexto para praticar frances e ensinar portugues.
Em Toronto, com menos tempo disponível, a minha participação no Couchsurfing ficou reservada ao Toronto Babel Language, um evento que ocorre semanalmente em um bar e onde as pessoas sao convidadas ao intercâmbio linguístico. Neste evento, um retrato do que é Toronto, é possível conhecer gente do mundo todo e praticar línguas inimagináveis. Até inglês.
No último final de semana participei de um jantar organizado por um participante do Couchsurfing. Ele preparou o jantar, cobrou uma taxa mínima e cada um levou sua bebida. O risotto de parmesão estava uma delícia. Conheci gente bem interessante. Da China, da França, da Tunísia. Até do Canadá! Depois fomos para a despedida de um rapaz italiano que, depois de alguns meses em Toronto e muitos eventos Couchsurfing, estava voltando para o seu país.
Um dos canadenses que estava no jantar faz um trabalho genial. É professor de música e toca carrilhao (o conjunto de sinos) em uma grande igreja de Toronto. Ele promove, gratuitamente, um passeio pela igreja onde trabalha e uma apresentação musical naquele que é um dos 11 carrilhoes do Canadá. Para ser considerado um carrilhao, sao necessários pelo menos 50 sinos.
Por dentro da Metropolitan United Church
Entao na mesma semana, fui ver o pequeno show e conhecer a igreja, que fica em um ponto bem central da cidade. Para conferir a apresentaçao musical as pessoas sobem um monte de degraus em uma escada estreita e em caracol. Em outra etapa, o grupo sobe mais escadas e chega até o teto da Igreja, de onde se tem uma bela vista de Toronto. Depois o grupo saiu para jantar em um restaurante bem canadense. Como sempre, nessas ocasioes, peço a especialidade da casa. Hambúrguer de carne Angus com batatas fritas e salada. Simples e bom.
Vista da outra capela, a partir do teto
Os sinos
O aparelho que faz os sinos soarem
Crédito da foto da dança: Dioni Pereira.
3.9.11
Mercúrio e Urano em sintonia
No dia em que eu me deparei com a internet, ou em que me dei conta do seu poder, eu dei graças a Deus por ter nascido nesta época, para poder presenciá-la e por ter acesso a ela. Para quem está na faixa dos trinta, vinte anos, ou menos, a internet faz parte da rotina desde a infância. É algo dado por certo. Para quem veio ao mundo antes disso, nao era bem assim.
Os discos americanos e europeus demoravam a chegar no Brasil e eram caros. As letras das músicas só existiam nos encartes que vinham com eles. Nos dias atuais, os sons, as imagens e textos estao à distância de um curto clique. Pelo You Tube acontece a mágica de poder ver os videos de músicas que fizeram parte da minha história, infância e adolescência, e que só agora consigo vê-los. Na época, os videoclips eram exibidos muito esporadicamente na tv. A chegada da MTV ajudou bastante, mas o que veio antes dela ficou praticamente esquecido. O You Tube resgatou tudo. O You Tube resgatou a memória auditiva e visual da humanidade.
Um fato marcante para mim do poder da internet, ainda com poucos recursos, foi quando viajei pela primeira vez para fora do Brasil, em 1997. Antes de viajar, acessei o site da charmosa cidade de Brighton (www.brighton.co.uk), no Reino Unido, onde iria estudar inglês. Assim tomei conhecimento das várias opçoes de lazer da cidade e do que me esperava por lá. Saí do Brasil com lista cheia de endereços e dicas.
Eu já tinha e-mail! Enquanto vários colegas europeus da escola nao sabiam do que isso se tratava.
Ao voltar, depois de aproveitar quarenta dias de viagem entre França e Inglaterra, uma grande alegria foi ouvir "You got to show me love", que estava bombando em Londres, tocando no aeroporto de Salvador. E olhe que ainda nao havia ainda MP3, mas o intervalo de tempo para chegada das novidades era bem mais curto do que na década anterior.
Com o auxílio da internet e da comunicacao que ela proporciona, a nova geraçao é bem mais preparada. E, acredito também, mais inteligente, pela exposiçao ao grande volume de informaçoes. A garotada aprende inglês jogando videogames e vendo vídeos no Youtube. Falar mais de uma língua, que em um passado distante era privilégio de intelectuais e acadêmicos, hoje é comum. As pessoas (ao menos os nao-anglófonos) que gostam de aprender, ou que mudam de país, falam duas, três ou quatro línguas diferentes. Quanto aos anglófonos, coitados, permanecem no seu berço esplêndido limitado e nao fazem muito esforço para aprender outras línguas. Para que? A música, o cinema, a internet, as redes sociais, a comunicaçao internacional, tudo isso nao é em inglês? Entao por quê gastar energia e tempo aprendendo outra língua? Coitados.
A internet nao cansa de surpreender. Quando se acha que nao há nada mais para acontecer, surgem compartilhamento de arquivos, programas de bate-papo, os blogs, os livros eletrônicos, culminando com as redes sociais. E muita coisa ainda vem, pode crer. O Facebook, mais que o Orkut, me reaproximou de bons amigos com os quais tinha pouco contato. E me permite, a milhares de léguas de distância, em outra roça, ter notícia do que acontece, participar e me comunicar com pessoas queridas.
Os astros me proporcionaram um aspecto harmônico de Mercúrio(a comunicaçao) em Gêmeos com Urano (a inovacao tecnológica) em Libra. Acho que por isso gosto tanto desse assunto.
Os discos americanos e europeus demoravam a chegar no Brasil e eram caros. As letras das músicas só existiam nos encartes que vinham com eles. Nos dias atuais, os sons, as imagens e textos estao à distância de um curto clique. Pelo You Tube acontece a mágica de poder ver os videos de músicas que fizeram parte da minha história, infância e adolescência, e que só agora consigo vê-los. Na época, os videoclips eram exibidos muito esporadicamente na tv. A chegada da MTV ajudou bastante, mas o que veio antes dela ficou praticamente esquecido. O You Tube resgatou tudo. O You Tube resgatou a memória auditiva e visual da humanidade.
Um fato marcante para mim do poder da internet, ainda com poucos recursos, foi quando viajei pela primeira vez para fora do Brasil, em 1997. Antes de viajar, acessei o site da charmosa cidade de Brighton (www.brighton.co.uk), no Reino Unido, onde iria estudar inglês. Assim tomei conhecimento das várias opçoes de lazer da cidade e do que me esperava por lá. Saí do Brasil com lista cheia de endereços e dicas.
Eu já tinha e-mail! Enquanto vários colegas europeus da escola nao sabiam do que isso se tratava.
Ao voltar, depois de aproveitar quarenta dias de viagem entre França e Inglaterra, uma grande alegria foi ouvir "You got to show me love", que estava bombando em Londres, tocando no aeroporto de Salvador. E olhe que ainda nao havia ainda MP3, mas o intervalo de tempo para chegada das novidades era bem mais curto do que na década anterior.
Com o auxílio da internet e da comunicacao que ela proporciona, a nova geraçao é bem mais preparada. E, acredito também, mais inteligente, pela exposiçao ao grande volume de informaçoes. A garotada aprende inglês jogando videogames e vendo vídeos no Youtube. Falar mais de uma língua, que em um passado distante era privilégio de intelectuais e acadêmicos, hoje é comum. As pessoas (ao menos os nao-anglófonos) que gostam de aprender, ou que mudam de país, falam duas, três ou quatro línguas diferentes. Quanto aos anglófonos, coitados, permanecem no seu berço esplêndido limitado e nao fazem muito esforço para aprender outras línguas. Para que? A música, o cinema, a internet, as redes sociais, a comunicaçao internacional, tudo isso nao é em inglês? Entao por quê gastar energia e tempo aprendendo outra língua? Coitados.
A internet nao cansa de surpreender. Quando se acha que nao há nada mais para acontecer, surgem compartilhamento de arquivos, programas de bate-papo, os blogs, os livros eletrônicos, culminando com as redes sociais. E muita coisa ainda vem, pode crer. O Facebook, mais que o Orkut, me reaproximou de bons amigos com os quais tinha pouco contato. E me permite, a milhares de léguas de distância, em outra roça, ter notícia do que acontece, participar e me comunicar com pessoas queridas.
Os astros me proporcionaram um aspecto harmônico de Mercúrio(a comunicaçao) em Gêmeos com Urano (a inovacao tecnológica) em Libra. Acho que por isso gosto tanto desse assunto.
22.8.11
A bicicleta e a carroça
O movimento de incentivo ao uso de bicicleta nas grandes cidades me traz um gosto de passado. Passado porque é um retorno à época em que o automóvel não existia ou era algo a que a população ainda não tinha acesso. Quem poderia imaginar que após décadas sonhando em ter um veículo motorizado, as pessoas voltariam a desejar poder passear ou se locomover de bicicleta pelas ruas da cidade?
Os benefícios todo mundo já sabe, e os governos, pelo menos os mais esclarecidos, têm incentivado e criado condições, leia-se ciclovias, "bike lanes" ou "pistes ciclables" para o uso das magrelas. Em Toronto e Montréal há inclusive biclicletas públicas, alugáveis por qualquer pessoa. Os resultados são: melhoria das condiçoes de saúde da população, com a consequente economia de recursos da saúde pública, diminuição da poluição e dos engarrafamentos, socialização, economia doméstica do valor pago ao transporte ou ao combustível.
O passe mensal de metrô e ônibus em Toronto custa 121 dólares. Com esse valor compra-se uma bike usada ou nova em promoção na loja. Se a distância entre casa e trabalho permite o deslocamento via duas rodas, em um mês a bike já se pagou. Além de tudo isso, ainda há a diminuição do stress do trânsito para quem dirige.
Circular de bicicleta faz parte da minha história. Desde a pré-adolescência, quando o "camelo" ficava hospedado na casa dos meus avós, porque a minha casa era localizada em um morro com uma ladeira enorme, impossível de ser vencida com a força do pedal. Depois, com a ida para Salvador, outra terra de imensas ladeiras, onde o uso da bike só é possível na parte atlântica, as duas rodas viraram parte do passado.
Quando morei em Barreiras, no Oeste da Bahia, onde trabalhei por quatro anos e meio, retornei ao prazer de pedalar e passei muito tempo me deslocando de bicicleta. Nada se comparava ao sabor do vento, à sensação de liberdade e de relaxamento que o ciclismo trazia. A cidade é plana e eu vivia rodando para cima e para baixo. Pegava estradas vicinais e ia fazer trilhas em busca dos inúmeros rios de água cristalina que se espalham pela região.
Mas nem sempre as pessoas entendem os gostos pessoais, preferindo os gostos médios ditados pela sociedade de consumo. Em Barreiras, eu tinha um amigo de El Salvador (ou seria Nicarágua, nao lembro mais), um agrônomo e professor universitário, que se locomovia, inclusive para ir às aulas, em uma bike bem velhinha. Dessas que hoje faria o maior sucesso entre os hipsters. Veja aqui o que é isso.
A tal bicicleta não era bem vista pelos alunos. Era quase detestada.
Eles, principalmente as garotas, achavam que o mestre deveria ter um carro, algo mais compatível com o seu status de professor universitário. E de solteiro, diga-se de passagem. Mas ele nem ligava, gostava mesmo era de pedalar. Ou de economizar dinheiro e, de quebra, ter mais saúde e boa forma física.
Naquela cidade, eu usava a bicicleta para ir a todos os locais, mas nem precisava para ir ao trabalho. Eu morava perto, então ia andando. Tambem não saía à noite de bike para festas, como já vi várias pessoas fazendo em Montréal e Toronto, quando o clima e a temperatura permitem.
Sempre que eu saía para algum bar ou festa, voltava de carona, ou mesmo a pé. Cidade pequena, tudo perto. Eu até gostava, pois acabava fazendo novas amizades com quem me dava carona. Só uma vez, eu me lembro, o transporte foi bem diferente.
A festa tinha acabado, o dia já estava claro. Em Barreiras, a rodovia federal corta a cidade pelo meio. Eu e mais duas amigas estávamos na beira dessa estrada, sem transporte público ou carona disponível. Então nós pedimos ajuda a um carroceiro que ia passando.
Ele foi gentil e nos permitiu o acesso ao seu veículo movido a suor animal, de potência 1 HP. Lá fomos nós, voltando para o centro da cidade em cima da carroça, rebocada por um cavalo. Cavalo não, certamente um burro ou jegue. E a gente se divertindo um bocado, dando risada da cena, com o teor alcoólico talvez ainda alto, achando tudo engraçado. Rindo até das mercadorias, das frutas e verduras que dividiam o espaço conosco, e que nos olhavam desconfiadas. O carroceiro provavelmente estava indo para a feira.
Os benefícios todo mundo já sabe, e os governos, pelo menos os mais esclarecidos, têm incentivado e criado condições, leia-se ciclovias, "bike lanes" ou "pistes ciclables" para o uso das magrelas. Em Toronto e Montréal há inclusive biclicletas públicas, alugáveis por qualquer pessoa. Os resultados são: melhoria das condiçoes de saúde da população, com a consequente economia de recursos da saúde pública, diminuição da poluição e dos engarrafamentos, socialização, economia doméstica do valor pago ao transporte ou ao combustível.
O passe mensal de metrô e ônibus em Toronto custa 121 dólares. Com esse valor compra-se uma bike usada ou nova em promoção na loja. Se a distância entre casa e trabalho permite o deslocamento via duas rodas, em um mês a bike já se pagou. Além de tudo isso, ainda há a diminuição do stress do trânsito para quem dirige.
Quando morei em Barreiras, no Oeste da Bahia, onde trabalhei por quatro anos e meio, retornei ao prazer de pedalar e passei muito tempo me deslocando de bicicleta. Nada se comparava ao sabor do vento, à sensação de liberdade e de relaxamento que o ciclismo trazia. A cidade é plana e eu vivia rodando para cima e para baixo. Pegava estradas vicinais e ia fazer trilhas em busca dos inúmeros rios de água cristalina que se espalham pela região.
Mas nem sempre as pessoas entendem os gostos pessoais, preferindo os gostos médios ditados pela sociedade de consumo. Em Barreiras, eu tinha um amigo de El Salvador (ou seria Nicarágua, nao lembro mais), um agrônomo e professor universitário, que se locomovia, inclusive para ir às aulas, em uma bike bem velhinha. Dessas que hoje faria o maior sucesso entre os hipsters. Veja aqui o que é isso.
A tal bicicleta não era bem vista pelos alunos. Era quase detestada.
Eles, principalmente as garotas, achavam que o mestre deveria ter um carro, algo mais compatível com o seu status de professor universitário. E de solteiro, diga-se de passagem. Mas ele nem ligava, gostava mesmo era de pedalar. Ou de economizar dinheiro e, de quebra, ter mais saúde e boa forma física.
Naquela cidade, eu usava a bicicleta para ir a todos os locais, mas nem precisava para ir ao trabalho. Eu morava perto, então ia andando. Tambem não saía à noite de bike para festas, como já vi várias pessoas fazendo em Montréal e Toronto, quando o clima e a temperatura permitem.
Sempre que eu saía para algum bar ou festa, voltava de carona, ou mesmo a pé. Cidade pequena, tudo perto. Eu até gostava, pois acabava fazendo novas amizades com quem me dava carona. Só uma vez, eu me lembro, o transporte foi bem diferente.
A festa tinha acabado, o dia já estava claro. Em Barreiras, a rodovia federal corta a cidade pelo meio. Eu e mais duas amigas estávamos na beira dessa estrada, sem transporte público ou carona disponível. Então nós pedimos ajuda a um carroceiro que ia passando.
Ele foi gentil e nos permitiu o acesso ao seu veículo movido a suor animal, de potência 1 HP. Lá fomos nós, voltando para o centro da cidade em cima da carroça, rebocada por um cavalo. Cavalo não, certamente um burro ou jegue. E a gente se divertindo um bocado, dando risada da cena, com o teor alcoólico talvez ainda alto, achando tudo engraçado. Rindo até das mercadorias, das frutas e verduras que dividiam o espaço conosco, e que nos olhavam desconfiadas. O carroceiro provavelmente estava indo para a feira.
15.8.11
Gourmet ou gourmand?
Comentario na publicacao do Facebook de AF sobre a manicoba de Cachoeira.
Soh para esclarecer (ou aumentar rss) a discussao sobre os termos gourmet/gourmand, eterna duvida que tambem me acompanha desde a Faculdade de comunicacao. Segundo a Wikipedia (em ingles, curiosamente nao ha verbete em frances), o termo gourmet estaria relacionado aa pessoa com gosto refinado ou que tem bastante conhecimento sobre alimentos e sua preparacao. Ja gourmand significa aquele que gosta de comida em grande quantidade, ou seja, o glutao. Gourmand vem de gourmandise, isto eh, glutonaria, gula. Quando se trata da deliciosa manicoba, acho que nao tem gourmet ou gourmand que resista. Para mim, os dois termos se aplicam.
Soh para esclarecer (ou aumentar rss) a discussao sobre os termos gourmet/gourmand, eterna duvida que tambem me acompanha desde a Faculdade de comunicacao. Segundo a Wikipedia (em ingles, curiosamente nao ha verbete em frances), o termo gourmet estaria relacionado aa pessoa com gosto refinado ou que tem bastante conhecimento sobre alimentos e sua preparacao. Ja gourmand significa aquele que gosta de comida em grande quantidade, ou seja, o glutao. Gourmand vem de gourmandise, isto eh, glutonaria, gula. Quando se trata da deliciosa manicoba, acho que nao tem gourmet ou gourmand que resista. Para mim, os dois termos se aplicam.
7.8.11
Línguas que seduzem
Ainda há muita estrada à minha frente quando se trata de inglês. Apesar de ter estudado e experimentado mais a língua inglesa do que a francesa durante a vida escolar e profissional, o mergulho no francês foi mais profundo. Vários cursos intensivos, sessoes sobre a cultura do Québec, treinamento de francês escrito, um ano de curso técnico com sete horas por dia de convívio na língua de Molière. Várias leituras de autores franceses e quebequenses durante invernos cinzentos em Montreal.
A decisao de vir para Toronto foi rápida e nao sobrou muito tempo para a dedicaçao ao inglês. O convívio em português também nao ajuda muito. Estudo de inglês no Canadá, em sala, foram apenas os quatro meses de aulas diárias em Montreal.
Com a leitura de jornais e livros, o meu vocabulário vem aumentando consideravelmente. Já consigo ler sem precisar ir toda hora ao dicionário. Às vezes um adjetivo ou advérbio fica incompreendido, mas dá para pegar o sentido geral. À medida que a lista de livros aumenta, o entendimento fica mais firme.
Mas é questao de tempo para acostumar o ouvido. Tem uma hora em que nao adianta estudar mais, pois a língua que as pessoas falam nas ruas é muito mais rápida do que a do professor na sala de aula. Entao o tempo, a convivência com os falantes e a exposicao à uma língua serao os grandes professores. Ouvir rádio e tv ajudam muito também.
Em um mundo altamente conectado, a vontade de aprender mais uma língua sempre fica martelando. Seja pela vontade de fazer uma viagem, seja pela influência de um amigo vindo de outro país, seja pela culinária, seja por uma música, seja por uma atraçao qualquer.
Quando eu morava no Brasil uma das minhas grandes vontades era poder praticar outras línguas, poder entender, falar e ler fluentemente. Esse sonho se realiza duplamente no Canadá, em inglês e francês. E, para mim, essa é uma das grandes riquezas deste país, uma das coisas que mais adoro aqui.
Mas o comichao da superficialidade está sempre à espreita. Entao, pensar em estudar mais uma língua? Calma, nada de longos estudos, pois a prioridade agora é o inglês. Mas no futuro poderá ser italiano. Ou alemao. Ou russo. Cada uma dessas línguas tem os seus atrativos e as suas dificuldades. Vejamos.
Italiano. A proximidade com o português é um grande facilitador. Há o fascínio pela culinária do país, a beleza das cidades e do seu povo. A vontade de rodar toda a bota. Como ponto negativo, a restriçao a um único país. Como uma língua tao bonita nao se expandiu mais pelo mundo?
Alemao. A língua mais falada da Europa, mas que também se restringe à Alemanha e Áustria. Ouço falar que o alemao da Suiça é quase outra língua, os suiços dizem que se chama "suiço-alemao". Tenho muita vontade de conhecer o país, mas tenho a impressao de que os alemaes mais articulados e interessantes sabem falar inglês e vao querer praticá-lo, principalmente com uma pessoa vinda do Canadá (olha eu aí me achando...). Além disso, a língua nao é fácil, tem várias declinaçoes (masculino, feminino, neutro).
Russo. O alfabeto cirílico é lindo, parece um código secreto em um filme de aventura. Está aí um grande desafio: aprender um outro alfabeto. Além disso, há várias declinacoes, conjugaçoes verbais e pouca coisa do francês ou do inglês que possa ajudar na aprendizagem do novo vocabulário. Vantagens: os russos, pelo menos os do Canadá, sao pessoas bem legais, simpáticas, gostam de conversar. Vários países do leste europeu e da Ásia falam a língua russa. Muita vontade de viajar pela Rússia, conhecer Moscou e Sao Petersburgo. E também conhecer a Ucrânia.
Entao, o que decidir? Bom, é coisa para o futuro, para daqui a alguns anos.
A decisao de vir para Toronto foi rápida e nao sobrou muito tempo para a dedicaçao ao inglês. O convívio em português também nao ajuda muito. Estudo de inglês no Canadá, em sala, foram apenas os quatro meses de aulas diárias em Montreal.
Com a leitura de jornais e livros, o meu vocabulário vem aumentando consideravelmente. Já consigo ler sem precisar ir toda hora ao dicionário. Às vezes um adjetivo ou advérbio fica incompreendido, mas dá para pegar o sentido geral. À medida que a lista de livros aumenta, o entendimento fica mais firme.
Mas é questao de tempo para acostumar o ouvido. Tem uma hora em que nao adianta estudar mais, pois a língua que as pessoas falam nas ruas é muito mais rápida do que a do professor na sala de aula. Entao o tempo, a convivência com os falantes e a exposicao à uma língua serao os grandes professores. Ouvir rádio e tv ajudam muito também.
Em um mundo altamente conectado, a vontade de aprender mais uma língua sempre fica martelando. Seja pela vontade de fazer uma viagem, seja pela influência de um amigo vindo de outro país, seja pela culinária, seja por uma música, seja por uma atraçao qualquer.
Quando eu morava no Brasil uma das minhas grandes vontades era poder praticar outras línguas, poder entender, falar e ler fluentemente. Esse sonho se realiza duplamente no Canadá, em inglês e francês. E, para mim, essa é uma das grandes riquezas deste país, uma das coisas que mais adoro aqui.
Mas o comichao da superficialidade está sempre à espreita. Entao, pensar em estudar mais uma língua? Calma, nada de longos estudos, pois a prioridade agora é o inglês. Mas no futuro poderá ser italiano. Ou alemao. Ou russo. Cada uma dessas línguas tem os seus atrativos e as suas dificuldades. Vejamos.
Italiano. A proximidade com o português é um grande facilitador. Há o fascínio pela culinária do país, a beleza das cidades e do seu povo. A vontade de rodar toda a bota. Como ponto negativo, a restriçao a um único país. Como uma língua tao bonita nao se expandiu mais pelo mundo?
Alemao. A língua mais falada da Europa, mas que também se restringe à Alemanha e Áustria. Ouço falar que o alemao da Suiça é quase outra língua, os suiços dizem que se chama "suiço-alemao". Tenho muita vontade de conhecer o país, mas tenho a impressao de que os alemaes mais articulados e interessantes sabem falar inglês e vao querer praticá-lo, principalmente com uma pessoa vinda do Canadá (olha eu aí me achando...). Além disso, a língua nao é fácil, tem várias declinaçoes (masculino, feminino, neutro).
Russo. O alfabeto cirílico é lindo, parece um código secreto em um filme de aventura. Está aí um grande desafio: aprender um outro alfabeto. Além disso, há várias declinacoes, conjugaçoes verbais e pouca coisa do francês ou do inglês que possa ajudar na aprendizagem do novo vocabulário. Vantagens: os russos, pelo menos os do Canadá, sao pessoas bem legais, simpáticas, gostam de conversar. Vários países do leste europeu e da Ásia falam a língua russa. Muita vontade de viajar pela Rússia, conhecer Moscou e Sao Petersburgo. E também conhecer a Ucrânia.
Entao, o que decidir? Bom, é coisa para o futuro, para daqui a alguns anos.
15.5.11
Faux European manners
Por ter morado dois anos em Montréal e prestes a completar um ano em Toronto, tive e tenho a oportunidade de conhecer as culturas de origem francesa e inglesa que formam o Canadá. Tive o privilégio, assim considero, de vivenciar as duas culturas na pele de um observador estrangeiro.
Os modos franceses indiscutivelmente se parecem mais com os brasileiros. Português e francês sao línguas provenientes do latim e compartilham muitas palavras e entonaçoes. Alguns hábitos também se assemelham. Como, por exemplo, beijar no rosto ao cumprimentar alguém.
O beijo no rosto, na forma de cumprimento, parece ser algo que fascina e aterroriza ingleses, americanos e canadenses, seres de fala e de cultura anglo-saxônica. Mais de uma vez já li sobre o ato de beijar no rosto como se fosse uma prova de emotividade exacerbada. Uma vez foi em um jornal em Montréal, escrito por uma cronista/jornalista de um periódico em inglês. Outra vez foi no livro que estou lendo agora, One Fifth Avenue, da americana Candace Bushnell, conhecida por ser a autora do livro Sex and the City, que deu origem à famosa série de TV.
Madame Bushnell diz em uma breve passagem que beijar no rosto é uma "faux European manner", ou seja, diz que quando um americano beija no rosto, é uma maneira falsa e afetada de mostrar comportamento europeu. Breve tentativa de provar falso refinamento. Como se beijar no rosto fosse privilégio dos europeus.
Na cultura latina brasileira, beijam-se mulheres entre mulheres, homens com mulheres e homens com homens caso haja um grande vínculo familiar ou de amizade. Entre espécies de outras culturas, como árabes, iranianos e indianos, o beijo no rosto entre os homens faz parte da rotina e dos maneirismos sociais.
Mudar de país e de cultura implica em adaptaçao. Entao, nada de grandes manifestaçoes de afeto no Canadá inglês. Se é que o fato de cumprimentar com beijo no rosto pode ser considerado como grande demonstraçao de afeto. Entre os seres canadenses ingleses, o ápice da simpatia consiste na frase "How are you doing?", ou seja, "Como vai você?". Dita de modo enfático, com uma cara simpática. E só. Quem mergulha nessa cultura acaba mudando a maneira de agir e interagir. Quem era acostumado a distribuir beijocas, termina por esquecer (ou negar)o beijo no rosto, que dali para a frente fica lhe parecendo aberraçao.
No caminho da adaptaçao dentro de uma cultura, as pessoas se esquecem que o mundo é mais amplo que parece. Que os beijos no rosto como cumprimentos sao mais disseminados pelo planeta do que a pobre cultura norte-americana e inglesa é levada a crer. O próprio Canadá francês está aí para provar.
Os modos franceses indiscutivelmente se parecem mais com os brasileiros. Português e francês sao línguas provenientes do latim e compartilham muitas palavras e entonaçoes. Alguns hábitos também se assemelham. Como, por exemplo, beijar no rosto ao cumprimentar alguém.
O beijo no rosto, na forma de cumprimento, parece ser algo que fascina e aterroriza ingleses, americanos e canadenses, seres de fala e de cultura anglo-saxônica. Mais de uma vez já li sobre o ato de beijar no rosto como se fosse uma prova de emotividade exacerbada. Uma vez foi em um jornal em Montréal, escrito por uma cronista/jornalista de um periódico em inglês. Outra vez foi no livro que estou lendo agora, One Fifth Avenue, da americana Candace Bushnell, conhecida por ser a autora do livro Sex and the City, que deu origem à famosa série de TV. Madame Bushnell diz em uma breve passagem que beijar no rosto é uma "faux European manner", ou seja, diz que quando um americano beija no rosto, é uma maneira falsa e afetada de mostrar comportamento europeu. Breve tentativa de provar falso refinamento. Como se beijar no rosto fosse privilégio dos europeus.
Na cultura latina brasileira, beijam-se mulheres entre mulheres, homens com mulheres e homens com homens caso haja um grande vínculo familiar ou de amizade. Entre espécies de outras culturas, como árabes, iranianos e indianos, o beijo no rosto entre os homens faz parte da rotina e dos maneirismos sociais.
Mudar de país e de cultura implica em adaptaçao. Entao, nada de grandes manifestaçoes de afeto no Canadá inglês. Se é que o fato de cumprimentar com beijo no rosto pode ser considerado como grande demonstraçao de afeto. Entre os seres canadenses ingleses, o ápice da simpatia consiste na frase "How are you doing?", ou seja, "Como vai você?". Dita de modo enfático, com uma cara simpática. E só. Quem mergulha nessa cultura acaba mudando a maneira de agir e interagir. Quem era acostumado a distribuir beijocas, termina por esquecer (ou negar)o beijo no rosto, que dali para a frente fica lhe parecendo aberraçao.
No caminho da adaptaçao dentro de uma cultura, as pessoas se esquecem que o mundo é mais amplo que parece. Que os beijos no rosto como cumprimentos sao mais disseminados pelo planeta do que a pobre cultura norte-americana e inglesa é levada a crer. O próprio Canadá francês está aí para provar.










