13.12.12

Sem sofá nem tamborete


Em torno de um ano e meio antes da Copa do Mundo, o aeroporto de São Paulo não me mostrou ampliação ou melhoria importante, desde a última vez em que estive lá, no ano passado. Na época, vi tapumes e isolamentos de obras. Neste ano, eles não estavam mais lá, me levando a crer, inocentemente, que os trabalhos foram concluídos. 

Há poucos dias, o que vi de mais marcante foram pessoas sentadas em volta de algumas colunas do saguão, buscando avidamente por recarga elétrica para seus laptops, iPhones, iPads. Pessoas plugadas nas tomadas que talvez originalmente tenham sido criados para os serviços de limpeza. Pesssoas sentadas no chão, esparramadas em torno de colunas do aeroporto, sem direito a qualquer tipo de assento.

 O mundo se moderniza, as pessoas se atualizam, mas as estruturas demoram a mudar. Ou dependem da licitação. Ou estão presas na burocracia. Ou estão emperrados na disputa entre as empreiteiras. O Brasil é assim. Mas o brasileiro é adaptável, diria-se quase um gênio para achar uma solução para todos os entraves.

Hoje uma garota aqui em Salvador  me deu uma prova disso. Eu estava em um café quando ela chegou. Ela tinha o cabelo quase totalmente raspado e descolorido. O que restava de fios longos eram dois dread locks compridos, louros e  finos. Dois daqueles cachos de cabelos grudados, que os rastafáris e seus fãs usam, pendentes do lado direito do crânio. Junto com os piercings no nariz e nos lábios e a mochila cheia de manchas de tintas, não tive dúvida, tasquei o rótulo : estudante ou profissional de artes plásticas.

A garota-artista-punk levara o seu notebook para o café com certeza para aproveitar do sinal gratuito de internet. Eu estava sentado perto de onde ela chegou e se sentou. Estava do mesmo lado, o que me dava vista privilegiada do que ela fazia, sem muito esforço. Quando ela abriu o laptop, eu vi que o papel de parede era a foto de uma pintura bem sugestiva, que possivelmente revelava ainda mais das suas inclinações profissionais e sexuais.  Mas que não cabe aqui relatar do que se tratava a imagem.

Percebendo que a única e disputada tomada elétrica estava ocupada, ela não se incomodou. Conversou com a pessoa que estava usando e, com um sorriso, tirou da mochila a solução de todos os problemas : um tê, um benjamim, ou como quer que se chame aquela peça que transforma uma tomada elétrica em duas, três, quatro ou mais.  A peça da garota transformava a saída elétrica em três.  Ela conectou o tê na parede, colocou de volta o fio que estava antes conectado, enfiou o dela e alegremente ligou o seu laptop, resolvendo o impasse.

O aeroporto de São Paulo, a porta de entrada mais importante do país,  bem que poderia achar uma solução parecida, já que a reforma definitiva parece que vai deeeeemooooorar de chegar. Seria distribuir peças como aquela da garota em torno das colunas do aeroporto. Uma solução rápida e barata para o congestionamento na Copa do Mundo! 

Imagine só o amontoado de gente em torno das colunas, sem direito a sofá ou tamborete. Seria perfeito para mostrar aos turistas estrangeiros como os brasileiros não têm receio de se aproximar uns dos outros. Ou talvez servisse como uma instalação artística, uma obra de arte meio experimental, coisa de sair bem na foto, todos juntos e conectados, sabe? 

12.12.12

De volta à cidade

O chegada de avião em Salvador, vindo pelo sul, em dia de céu claro, é fantástica. A aeronave vira ligeiramente e entra na cidade pelo mar, sobrevoando o Farol da Barra. Os prédios parecem feitos de papel, em modelos de maquete. Está tudo ali, nada foi retirado. O estádio da Fonte Nova está novamente de pé, quase pronto para a Copa. Do alto dá para ver que, em pleno miolo da cidade, no caminho até o aeroporto, ainda existem regiões de área verde e exuberante, resquícios da Mata Atlântica em plena cidade, seja nos parques ou em áreas ainda não construídas.

É quase um susto sair da fria Toronto, cinzenta e silenciosa de outono e chegar na ensolarada, brilhante, caótica e barulhenta Salvador. Onde estão os sinais e as faixas de pedestres? Existem compensações: acarajé e abará com vatapá e camarão, cerveja Skol bebida na rua, gente que começa a conversar sem motivo ou objetivo, requeijão cremoso, pão francês, mamão papaia, queijo coalho, queijo Minas, pão de queijo, café espresso e outras delícias que a gente dá por certas, mas que somem nas mudanças da vida.


10.12.12

Viajando

Habituado à calmaria do outono canadense, trago o e-reader para tentar ler algumas linhas e passar o tempo. Esperando o vôo para São Paulo, brasileiros desconhecidos, voltando ou indo a passeio para a terra natal, batem papo contando a vida. A leitura foi para o beleléu. As histórias reais são mais interessantes. — at Toronto Pearson International Airport.

9.12.12

Toronto rocks!

Toronto tem umas coisas fantásticas. Você vai para a festa de um amigo brasileiro e lá você conhece gente da Itália, da França e de outras províncias do Canadá. Aí se começa a falar em francês e discutir a literatura francesa moderna, gente como: Virginie Despentes, Michel Houellebecq, Marc Lévy, Guillaume Musso, Tatiana de Rosnay. Você fica sabendo que houve suspeita de apologia à pedofilia em um dos livros que foi lido, que o verlan (ex: femme=meuf, arabe=beur), que alguns autores utilizam, não é usado na linguagem familiar, mas nas ruas. Você fica contente em exprimir sua opinião, uma descoberta pessoal, do motivo pelo qual um autor como Paulo Coelho é tão querido na França: os franceses a-do-ram temas espiritualistas, que este tema está presente na maior parte dos best-sellers franceses. Que muitos habitantes da França nunca ouviram falar do francês Alain Kardec, que criou as bases do espiritismo, uma crença (filosofia, religião, não sei dizer) tão popular no Brasil, que atrai tantos adeptos. Que toda hora hora chegam europeus e latino-americanos na cidade, dispostos a aprender inglês, a mudar de país, a se aventurar em um novo continente. Isso em uma vista genial da cidade, a quase quarenta andares de altura, intermediada apenas por paredes de vidro, como se fizessem os convidados flutuarem sobre prédios, pistas de alta velocidade e a calmaria e o poder do grande lago. Toronto é realmente uma cidade muito interessante de se viver.

2.12.12

Falando português

O dia começou cinzento e com o termômetro apontando para cima de zero. A neve da véspera, no último dia de novembro, que chegara como uma prévia do inverno, já tinha sido derretida pelos cristais de sal espalhados nas ruas pelos caminhões da Prefeitura. Ainda restavam pequenas pedras de sal que estalavam sob os pneus da bicicleta.

Consegui vencer o receio de pedalar no tempo frio e tomo como limite a sensação térmica de -5 graus para enfrentar as ruas durante outono e inverno. Olhei no site de previsão do tempo e gostei do que vi. Temperaturas em torno de 5 graus e nenhuma precipitação. Neve caindo incomoda menos do que o terror do corpo úmido e resfriado pela chuva em baixas temperaturas.

Peguei a bicicleta e parti rumo à região portuguesa. Objetivo: Meetup de Português. Encontro para praticar português, conversar, socializar, tomar café e apreciar acepipes da cozinha lusitana e brasileira.

Cheguei antes do horário e me acomodei com calma em uma das mesas da aconchegante padaria portuguesa que mais parece uma casa de chá ou de café. Pedi água e um caffè lungo, que lá é chamado de café americano, tirado na hora, na máquina, forte e encorpado. Pedi um pouco de leite que, em vez das costumeiros mini copos lacrados de plástico, me foi servido em uma minúscula leiteira de aço inox, que me chamou atenção e me fez sentir a diferença e o charme de estar em um ambiente de cultura europeia.

É um tipo de serviço inimaginável nas grandes e práticas redes de café norte-americanas, nas quais o leite, o creme e o açúcar ficam disponíveis em um balcão e quem quiser que se sirva.

Peguei o café e mais água para me recuperar dos cinco quilômetros de percurso, vencidos com a proteção de touca de lã, luvas, casaco, calça e long john esportivo. Esqueci o capacete em casa.

Duas da tarde e ninguém à vista. Pouco depois vi que uma senhora loura chegou e se sentou em uma mesa próxima e ficou folheando uma revista, enquanto eu também olhava um jornal português editado em Toronto. Em formato tablóide, o jornal era colorido e cheio de fotos. Fiquei pensando no custo da produção e impressão.

Vida pessoal de dirigentes de futebol português, incentivos ao turismo na Ilha da Madeira, o lauto jantar comunitário em Toronto da festa da Matança do Porco, a aquisição de um caro apartamento em São Paulo, no Brasil, pelo jogador lusitano Cristiano Ronaldo. Os emigrantes saem do país, mas a cabeça lá permanece.


Dei uma olhada para a senhora na mesa ao lado. No site em que o encontro é combinado, nem todas as pessoas colocam foto, fica difícil reconhecer alguém. Ela me olhou de volta e eu perguntei se tinha vindo para o evento de português. Ela confirmou e se mudou para minha mesa, que era maior.

Começamos a conversar e ela me contou que nasceu em Portugal e se mudou criança para o Brasil, para o Rio de Janeiro, onde cresceu e estudou. O seu sotaque de português não tinha nada, era bem brasileiro e, de vez em quando, mostrava os erres e esses cariocas. Ela me disse que estava esperando mais uma amiga, que não tinha se inscrito no evento, mas estaria vindo mesmo assim.

Logo depois chegou uma garota morena-clara, de cabelo bem liso, tipo índio, parecia brasileira. Era canadense, filha de pais do Sri Lanka. Daí aparência indiana  Ele já esteve no Brasil duas ou três vezes, em Salvador(!), onde foi estudar e praticar português.

As pessoas começaram a chegar. A amiga da loura chegou e ela tinha uma história bem semelhante. Nasceu em Portugal, viveu no Brasil durante a juventude e mora no Canadá há bastante tempo.

Um canadense careca se aproximou meio sem jeito e se apresentou. Ele é professor de inglês, morou no México por dois anos, fala espanhol melhor do que o francês aprendido no Canadá e se vira bem em português. Depois é a vez de um outro brasileiro chegar. Ele que foi um dos organizadores do encontro.  Um senhor de Sao Paulo que mora em Toronto há pouco tempo. Ele vivia antes em Windsor, cidade mais ao sul da província, perto da fronteira com os Estados Unidos.

Delicias
A essa altura, as duas mesas iniciais não eram mais suficientes,  Mudamos a posição, para poder juntar mais mesas e cadeiras.

Assim a lista foi aumentando até completar umas treze ou catorze pessoas. Perdi a conta de quantos vieram, pois contei até doze, mas sei que chegaram mais uma ou duas pessoas bem mais tarde. O papo ficou rolando, eu mudei de lugar na grande mesa para conhecer mais gente.

Lá pelas quatro da tarde os primeiros a chegar começaram a ir embora. Pedi mais um café, um pastel de natas e um rissole de camarão. Não tinha mais coxinha de galinha, uma pena.

Pão português em Toronto
Fiquei mais um pouco conversando com uma canadense filha de portugueses. Ela falava muito bem a língua dos antepassados, algo que nem sempre acontece com os filhos de imigrantes lusitanos. Ela me disse que aprendeu e praticou muito com a avó portuguesa, que não falava inglês.

Umas cinco da tarde, depois de muita conversa, dia curto de outono já escurecendo, alcancei o meu casaco e mochila, vesti toda a parafernália para o frio, peguei a bicicleta e parti para casa com o vento gelado batendo sem piedade no rosto.

22.11.12

Se essa rua

Minha rua começa em um bairro rico. Cheio de casas grandes e confortáveis. Separadas por um viaduto que cobre um imenso vale, que isola endinheirados do resto da cidade.

Minha rua continua  a voar, o  viaduto pousa sobre uma via importante, caminho de belezas e luxos. Aquela que o metrô segue verde, oculto nas profundezas, sem escolhas, sem desvios.

Minha rua corta e contorna um encontro das Naçõoes Unidas, um emaranhado de prédios, casas de gente do mundo inteiro.

Minha rua prossegue, mostra sua história real, as casas antigas, os abrigos dos perdidos, dos problemáticos, dos que vivem em extremos, em paradas frequentes, carros e sirenes barulhentos, médicos e  policiais.

Minha rua é conciliadora e passa por templos de deuses que vivem sem conflitos. Mas quem causa conflitos não são os deuses, ora pois. São os que buscam nos deuses, pobres desculpas, apoio para prepotências.

Minha rua não para, segue o fluxo e se transforma de novo, são lojas de móveis e decorações, margeando o centro do dinheiro, das gravatas e dos passos rápidos.

Minha rua vai até o grande mercado, agora das carnes, dos peixes e dos verdes. Da comida feita para encantar. Logo, logo, chegam prédios vermelhos, varandas, calmas, e praças.

Minha rua vai trocando de roupa no caminho, vai ganhando máquinas e desvios, marcas de índios, enquanto perde buracos. Ela não está pronta,  está atrasada, quando bicicletas e volantes têm pressa.

Minha rua não é minha, é bom deixar claro. É da cidade, é de todo mundo, é de quem chegar, de quem quiser e souber usar, como qualquer outro lugar.

Minha rua vai descendo, vai parando na beira do lago, um descanso da cidade. Mas não é ali que ela termina. É ali que ela começa. Ou é assim que os homens quiseram e disseram.

Para lembrá-la que é na água que tudo inicia e não onde acaba.

21.11.12

Aprendendo línguas

Há algum tempo venho percebendo que em países de grande extensão territorial, que possuem apenas uma língua oficial, como é o caso do Brasil, Estados Unidos e Russia, os seus habitantes têm alguma dificuldade, talvez por poucas oportunidades de contatos com estrangeiros, para aprender e dominar um segundo idioma. Então não se faz muito esforço para aprender vocabulário estrangeiro. É como se houvesse a sensação de auto-suficiência na própria língua.

Americanos são conhecidos pela incapacidade de comunicação em uma segunda língua. Os russos têm problema semelhante. Entre os brasileiros, que costumam jogar sempre a culpa no sistema de educação,  isso também acontece. Mas efetivamente é caro estudar línguas estrangeiras no Brasil e mais caro ainda sair do país para praticá-las.
 
O gosto por línguas estrangeiras foi um dos motivos da minha mudança de país. Estava cansado de estudar, estudar, estudar gramática e sempre com dificuldade para compreender o que era falado. A fluência em uma segunda língua exige vivência, mesmo que eventual. Talvez por isso os europeus tenham mais sorte: a proximidade entre os países permite uma troca mais intensa. É mais fácil e barato sair para estudar e praticar. No meu caso, ocorre um fato inusitado: tenho mais oportunidade de praticar espanhol aqui em Toronto do que em Salvador. Pelo grande número de hispânicos que existe na cidade.

A internet chegou trazendo mudanças nesse cenário de aprendizagem de línguas. Se o inglês passou a ser uma língua quase universal, existem inúmeros recursos. Há cursos e mais cursos online, páginas de testes gramaticais, jornais gratuitos. As redes sociais possbilitam informações diárias e atualizadas na língua que se quer aprender. Basta usar. E ter tempo e energia disponíveis.

Alófonos

Ótima crônica de Chantal Hébert, uma das melhores jornalistas do Canadá. Ela é perfeitamente bilíngue e escreve em inglês (no Toronto Star) e em francês (Le Devoir, L'Actualité) e participa de programas jornalísticos na TV - nas duas línguas!

Segundo as últimas pesquisas, o número de pessoas no Canadá cuja primeira língua é estrangeira, os alófonos (20.6%), é praticamente igual ao número de francófonos (21%), cuja língua materna é o francês. Mas, de modo diferente do que ocorre nos EUA com o espanhol, no Canadá várias línguas formam o total de estrangeiras.

O mais interessante é que se o francês perde peso no total da população, o interesse nessa língua só faz aumentar. O número de escolas de língua francesa e de alunos tem aumentado bastante em várias províncias do Canadá.
 


14.11.12

Dos discos da infância

Eu ouvia Ivete Sangalo e Maria Betânia cantando uma música de Carlinhos Brown, chamada Muito obrigado axé, uma celebraçao do sincretismo religioso da Bahia. É também uma homenagem ao orixá Ogum, que Brown venera, e que, me disseram uma vez, também me guia.

Gosto de Maria Betânia desde a infância. Aprendi a gostar com o meu pai. Em minha casa tinha um disco dela, Álibi, que eu ouvia sem parar. Músicas hoje clássicas da MPB, como Negue, Cálice e Explode Coração. Também tinha outro disco, Mel, que eu só faltava furar de tanto ouvir.

Meu pai gostava muito de música. A lenda conta que ele, antes de casar, tinha uma coleção enorme de discos brasileiros e estrangeiros. A história continua e diz que boa parte dos discos foi roubada por alguém (pintor, pedreiro?) que foi fazer um trabalho e levou boa parte dos discos embora, música de qualidade, para ouvir calmamente em casa. O restante foi doado, pois não havia espaço na moradia dos recém-casados.

Não sei se a lenda diz a verdade. O que sei é que, pelas fotografias em preto-e-branco, ficou registrado apenas um antigo toca-discos. Era um móvel de madeira, roído nas quinas. Comigo, criança sorridente e matreira, posando ao lado. Mas o toca-discos não era roído por cupins nem ratos. Vá saber o que se passa na cabeça de uma criança traquina. Ou que gosto tem um móvel de madeira. Era roído por mim.

Meu pai era uma pessoa marcante. O famoso seu Jurinha (originalmente Jurandyr). Expansivo, comunicativo, simpático, alegre, festeiro. Ele e minha mãe, como todo casal com vida social ativa, gostavam de receber de vez em quando casais amigos em casa. Ele providenciava bebidas e ingredientes, enquanto minha mãe, Dona Hermosa, sempre perfeccionista, se virava aflita para organizar tudo.

Uma vez eles receberam dois casais para almoço, durante um dos verões à beira-mar de Ilhéus. Um dos casais vinha de fora da cidade. Provavelmente o homem era colega de trabalho da empresa. Gentilmente, em retribuição pelo convite, o casal de fora levou um presente. Um disco. Um LP (long-play), um bolachão preto de vinil.

O belo disco Minha Voz, de Gal Costa. Cantora que meu pai detestava.

Ele recebeu o presente com um largo sorriso. Não é tudo mundo que faz uma gentileza daquelas, de levar um presente em retribuição a um convite de almoço. Ele rasgou o papel da embalagem para ver do que se tratava. Ao perceber que era um disco de Gal Costa, o sorriso morreu no rosto. Rápida e sorrateiramente, ele passou o pacote para mim, que estava ao seu lado. Como que para se livrar do traste.

O disco da discórdia
Eu levei o disco e o coloquei ao lado dos outros da casa, que ficavam armazenados no meu quarto, enquanto seu Jurinha levava os convidados para os tira-gostos, cervejas e drinques na bela varanda debruçada sobre a vista do mar de Ilhéus, um dos orgulhos da casa.

O papo continuou animado até que caiu em um tema às vezes polêmico: gostos musicais. Com a franqueza que lhe era característica e sem auto-restrições, agora liberadas pelos efeitos etílicos, seu Jurinha solta a frase-bomba:

"Eu detesto Gal Costa!"

O casal se entreolhou, o marido levantou os ombros como se dissesse para a mulher: "Pelo menos a gente tentou agradar!".

Percebendo o mal-estar, minha mãe, que não tinha tido oportunidade de ver o tal disco da discórdia nem de que artista se tratava, bradou: "Ah, pois eu adoro Gal Costa!". Mesmo sem realmente gostar muito.

O almoço prosseguiu e foi um sucesso, a comida sempre elogiada.

No dia seguinte, recuperado dos efeitos devastadores da sinceridade da cerveja, seu Jurinha ainda tentou se desculpar com o casal. Não sei se teve grande sucesso. A verdade tinha sido dita.

Quem curtiu mesmo o disco de Gal Costa fui eu. Para mim, um dos melhores discos dela. Havia músicas inesquecíveis como Festa do Interior e Açaí, de Djavan.

Açaí me traz uma outra lembrança muito gostosa. Eu devia ter uns 14 ou 15 anos. Eu lembro da minha prima Raquel, com uns 3 ou 4. Sempre linda, bochechuda, alegre e sorridente. Raquel adorava a música Açaí, um grande sucesso na época, e de vez em quando a cantava.

Agora imagine o que é uma criança nessa idade cantando versos complexos como:
"Açaí guardiã, zum de besouro, um ímã. Branca é tez da manhã."

Raquel cantava a música, toda animada, sorridente, batendo palmas. Eu ficava olhando, admirado, tentando entender as palavras que ela estava dizendo.

7.11.12

Frida & Diego

A exposiçào Frida & Diego: Passion, Politics and Painting, na Ontario Art Gallery, traz inúmeras obras do famoso casal de pintores mexicanos, junto com várias fotografias, principalmente de Frida.

A pintura de Frida Kahlo é mais arrebatadora, mais emocional e dramática. O trabalho de Diego é bem interessante, mas não seduz tanto quanto o de sua mulher.

Foi bom ver a exposição depois de ter visto o filme. Assim dá para entender melhor as histórias que os quadros de Frida contam.

Durante a vida em comum, Diego Rivera era mais famoso. Era conhecido como o maior pintor de murais do México, especializado em retratar cenas com temas sociais. Frida se dedicava aos seus autorretratos. Depois da morte dos dois, ela foi reconhecida como a artista mais icônica do modernismo. As suas pinturas mostram a dor física depois do acidente de ônibus, quando ela tinha 18 anos, e a angústia causada pelas infidelidades de Diego e pela impossibilidade de ter filhos.






Além de quadros, fotos e vídeos, havia um colete de gesso que Frida usara para se recuperar depois de uma das suas inúmeras cirurgias.

4.11.12

O humor pirracento de brasileiros e argentinos

Antes de começar a estudar espanhol, no Brasil, há vários anos, alguns fatores influíram na minha escolha pela língua de Cervantes. O Mercosul estava muito em destaque, a língua espanhola começava ser ensinada nas escolas brasileiras, havia a proximidade com o português e a possibilidade de adquirir fluência em pouco tempo, uma vez que o aprendizado de uma língua muito diferente da sua língua materna é mais longo. E nada assegura que um dia você terá capacidade de se comunicar com facilidade nela. Além tudo disso, havia a possibilidade de praticar viajando dentro da própria América do Sul ou conversando com turistas no Brasil.

Os estudos de espanhol foram muito agradáveis. Optei pelo curso de extensão no Instituto de Letras da UFBA. Mais barato que nas escolas especializadas e de ótima qualidade. A primeira professora que tive foi uma espanhola da Cataluña. A proximidade entre português e espanhol possibilita um fato espantoso. Já no primeiro semestre, a professora falava inteiramente em espanhol. E a turma entendia tudo.

Ela não precisava passar para o português para dar explicações nem fazer malabarismos com as mãos para se fazer compreender.

No semestre seguinte, com o início dos estudos na Faculdade de Comunicação, passei para as aulas aos sábados, apenas uma vez por semana. Apesar de parecer pouco tempo, o conteúdo era bem rico. Eu fazia contorcionismos para conjugar trabalho, estudos acadêmicos, espanhol, análise e vida social. A turma era ótima e nós permanecemos juntos até o final do curso.

Tive mais três professores durante os seis semestres: uma brasileira (casada com um argentino, ela foi a mais fraca de todos), um peruano (um senhor gordo, com cara de índio, muito divertido) e outro brasileiro da Bahia. Este baiano talvez tenha sido o melhor professor. Ele fazia carreira acadêmica na área de linguística da UFBA e era apaixonando pelo espanhol. Passava longas temporadas no México, estudando teoria e, claro, praticando a língua com nativos.

Por conta de tantos professores com sotaques diferentes, não sei com qual vertente o meu espanhol com sotaque brasileiro se parece mais.

Lembrei de toda essa história depois que fui participar de um encontro linguístico (mais um!) de gente se revezando entre francês e espanhol. E fico surpreso como o espanhol chega fácil na ponta da língua. Se os brasileiros compreendem com certa facilidade o espanhol, não se pode dizer que a reciproca seja verdadeira. O português não é imediato para hispanos.

Uma professora de linguística me falou rapidamente que isso se deve a alguns sons extras que usamos no português, mas que não existem no espanhol. Daí a cara de espanto deles quando usamos palavras que parecem tão comuns aos dois idiomas, mas que, para eles, é algo irreconhecível.

Havia venezuelanos, colombianos, argentinos, canadenses e gente de outras partes do mundo. Conversar com os latinos não é nada difícil. Assim como os brasileiros, são falantes e têm aquela empatia rápida e forte que nos caracteriza.

Depois de quatro anos no Canadá e conhecendo um número cada dia maior de sul-americanos, como nunca aconteceu no Brasil, eu começo a perceber características que se repetem. Peruanos e venezuelanos são muitíssimo simpáticos. Os venezuelanos um pouco mais exuberantes, os peruanos mais tímidos. Colombianos são levemente esnobes, orgulhosos, medem bastante as pessoas. Mas, passado estranhamento inicial, são comunicativos e gentis. Colombianos e venezuelanos têm uma rixa histórica, coisa de vizinhos, mas não chegam a ser hostis entre si.

Brasileiros e argentinos têm em comum aquele irritante senso de humor piadístico-sarcástico. Aquela velha história de perder o amigo mas não perder a piada. Apesar de toda a pirraça, principalmente sobre futebol, brasileiros e argentinos não são inimigos. São países suficientemente inteligentes para ter noção da força um do outro.

Exemplo de "gracinha" feita por um site brasileiro
Existiram algumas guerras entre Brasil e Argentina, por influência e disputa de terras. Mas os dois foram aliados, ainda com o apoio do Uruguai, contra o pobre do Paraguai, em uma guerra bem sangrenta, a Guerra do Paraguai. Essa aliança parece não ter mais terminado.

Em uma prova bem recente, o trio ternura Brasil-Argentina-Uruguai aproveitou a suspensão do Paraguai, por causa da deposição do presidente, para incluir a Venezuela no Mercosul. O Paraguai era contra a inclusão.

Argentinos sonham com as praias brasileiras e os brasileiros adoram passar alguns dias de sonhos europeus, tomando vinho e café acompanhado de água com gás. Comendo carnes e massas em Buenos Aires. Sem esquecer de alfajores e empanadas.

O sotaque espanhol dos sul-americanos para mim é mais fácil de ser compreendido do que o sotaque mexicano e da Espanha. Tenho a impressão de que há ritmo e entonação semelhantes. Talvez, em terras europeias, portugueses e espanhóis compartilhem a mesma impressão quando conversam entre si. Coisa de hemisfério.

Uma coisa interessante que vim perceber ao mudar para o Canadá é a questão da imagem entre os vizinhos. Dentro do Brasil, a gente sempre acha que foi ou é vítima dos outros países, que fomos explorados por europeus e sofremos intimidações constantes da América do Norte.

Entre os vizinhos do Sul, pelo contrário, o Brasil chega a ter uma imagem de imperialista. Como uma amiga argentina uma vez reclamou: "Os brasileiros querem tudo!", falando das constantes disputas comerciais do seu país com o Brasil.

E se a gente for olhar na história, realmente o Brasil tem um lado forte de dominação e luta pelo território. Basta olhar a aquisição do Acre. Eram terras que pertenciam à Bolívia, mas que estavam cedidas aos Estados Unidos e ocupadas por fazendeiros brasileiros. Frente aos conflitos, o governo brasileiro acabou por adquirir a área e incorporá-la ao mapa do Brasil.

Não é preciso ir muito longe para ver atualmente uma situação semelhante. Produtores brasileiros dominando o cultivo de soja no Paraguai. Os famosos brasilguaios. Porém, na atualidade diplomática, as encrencas são resolvidas sem maiores danos, salvo um ou outro tiroteio por aquelas bandas.

29.10.12

Em tempo de chuva

Ontem estava na academia e pensava na vida. Sim, isso existe. É possivel pensar enquanto se exercita. Dizem mesmo que o exercício com pesos ajuda na concentração, mais do que as atividades aeróbicas como corrida ou natação.

Eu pensava em como a época cinzenta e chuvosa é chata, que quase faz esquecer como a época de sol e calor é boa neste país. Impossibilitadas as atividades ao ar livre, restam os bares, casas noturnas, bibliotecas, clubes e casas dos amigos. Ou viagens para lugares tropicais, para quem está com tempo e dinheiro disponível.

A pouca luminosidade afeta o humor. As pessoas ficam menos alegres e lutam para manter a disposição física e o bem-estar. As roupas voltam aos tons escuros. No princípio do outono, as folhas vão mudando de cor e proporcionam um belo espetáculo, mas que é levado pelo vento em poucos dias e massacrado pelo cinza do céu. Resta esperar que a neve traga o manto branco e luminoso.

Neste ano a mãe Natureza foi bem generosa. O inverno foi brando, terminou mais cedo, o verão foi longo e mesmo agora no outono, há alguns dias, o clima estava quente e ensolarado. Os esportistas ficam atentos. Na semana passada, quando a temperatura chegou aos 18 graus, ruas e parques ficaram cheios de gente correndo e pedalando. Gente até de bermuda. Bares abriram as varandas e retomaram ares de verão. Mas durou pouco.

Os dias chuvosos são ótimos para ficar quieto em casa, ler, escrever, cozinhar, ouvir música, ver tv, pintar quadros, fazer artesanato, lavar roupa, passar aspirador na casa e tudo mais de bom e de chato que se possa fazer dentro do lar.  Escrever este post, mais um exemplo.

 

22.10.12

Snake bite

Um pneu de bicicleta furado no parque a quase dez quilômetros de casa. Em um belo dia de sol e 17 graus. Volta a pé, com intervalos pedalando apoiado sobre os pedais, jogando o peso do corpo no pneu da frente, que estava inteiro. Com cuidado para nao rasgar a borracha do de trás, o vazio. Bicicleta de pneu fino é mais leve, mas é mais frágil. Uma simples vala aberta (e nao vista) em uma obra no asfalto, um baque enorme. Pelo menos nao caí nem me machuquei.

Liçao do dia: manter a pressao das câmaras de ar sempre atualizada. Segundo o cara da oficina, uma porrada em pneu com baixa calibragem causa um "snake bite", mordida de cobra. Traduçao: vários furos na mesma parte da câmara.

A solidariedade dos ciclistas canadenses é impressionante. No meio do caminho, vendo que eu empurrava a bike, um cara me ofereceu uma câmara sobressalente, que ele levava na pequena bolsa debaixo do selim. Agradeci e recusei. Eu nao tinha ferramentas e nem sei como fazer tal o serviço.

21.10.12

Amaluna

Amaluna é o mais recente espetáculo do Cirque du Soleil. Depois de quatro anos no Canadá, é a primeira vez que vou a espetáculo da famosa companhia do Québec, conhecida no mundo inteiro. Desde que estive em Montréal pela primeira vez e vi o toldo azul e amarelo ser montado na beira do rio Saint Laurent, fiquei louco para ver a apresentaçao.

O Cirque du Soleil é algo para ser assistido pelo menos uma vez na vida. É deslumbrante. Luzes, cores, movimentos, contorçoes, figurinos elaborados, música envolvente tocada ao vivo. Tudo contribui para uma atmosfera mágica.


Valeu cada centavo pago.

Um dos números mais interessantes foi o da montagem e equilíbrio de uma pilha de gravetos. Os gravetos eram talos secos de folhas de palmeiras, talvez coqueiros. O público quase nao respirava enquanto a performer ia fazendo a montagem.




 


28.9.12

O brasileiro é um sedutor

O brasileiro é conhecido pela simpatia. Em geral é comunicativo, alegre, gosta de fazer amigos, quer agradar, foge do isolamento. Os brasileiros têm uma boa imagem entre os demais povos do mundo. Principalmente porque o país não costuma entrar em guerras.

O sonho de muitos franceses é passar o verão no Rio de Janeiro. Portugueses, espanhóis, italianos e alemães veem o Brasil ainda como uma terra de oportunidades. Mesmo que a "oportunidade" seja a de ter uma casa de praia a preço acessível. Russos, indianos, chineses e iranianos têm despertado, principalmente nos últimos anos, para um curioso país que vem enriquecendo, é um bom parceiro comercial e tem uma gente simples e receptiva, sem preconceitos típicos de outras civilizações mais antigas. Turistas israelenses veem o Brasil como um lugal tranquilo e sem maiores conflitos para as férias. Canadenses admiram o clima, a natureza, as festas e o notam como concorrente em importância na América. Os americanos continuam a fingir que nada veem.

Às vezes penso que há algum excesso em tudo isso.

O brasileiro é mais do que simpático. O brasileiro é um sedutor.

O verbo seduzir tem vários significados, positivos e alguns negativos. No lado positivo, seduzir significa causar admiração ou atração. Encantar, fascinar.

Essa sedução começa dentro do país. No Brasil há um culto sem fim à beleza. Os especialistas da cirurgia estética são conhecidos mundialmente. Modelos brasileiros, mulheres e homens, são exportados em containers de navios, partindo principalmente da região Sul. Mas também tem gente que sai do Nordeste e vai brilhar no planeta, como aquela baianíssima morena de olhos verdes que ilumina as publicidades da Victoria's Secret.

Os espetáculos de Carnaval mostram pessoas seminuas, homens e mulheres, sambando na tela da tv, cobertas por minúsculos fios de tecido, seduzindo o país e o mundo. Mas a nudez parcial ou total em uma praia urbana pode incitar ao apedrejamento pelo júri popular. Uma revelação das contradiçoes de um povo que não se livra do estigma de ser índio e de ter que cobrir a sua nudez tropical, tão pacífica e natural.

O mestre da sedução
Pelo lado negativo, sedução, no âmbito jurídico, é  "crime que consiste em iludir jovens, acima de 14 e abaixo de 18 anos, valendo-se da sua falta de experiência ou da sua confiança para manter com ele/ela conjunção carnal". Talvez, por esse sentido, o termo sedutor seja pouco utilizado para descrever pessoas.

Mas seduzir também significa ter grande influência sobre alguém. O sedutor, na realidade, não quer apenas agradar. Ele quer ter poder e influência sobre aquele a quem tenta ser agradável. Não necessariamente quer conseguir vantagens imediatas, mas não quer perder alguma possibilidade. Seja financeira, amorosa ou de status social. Quer tornar a sua vida melhor, de algum modo. Seja pelo lado material ou pela harmonia nas relações ou construção de uma rede de relacionamentos (a tal da network), que talvez lhe seja útil para conseguir um emprego mais tarde. Ser considerado  "gente boa" é talvez a consagraçao pelo esforço de agradar.

E para isso vale tudo. Até a utilização do seu "capital erótico", como um livro recentemente lançado definiu. É quando beleza e charme de homens e mulheres funciona como moeda de troca em ambientes profissionais.

Neste mundo de população gigantesca e de batalha difícil pelo sucesso, vale tudo. Manter o corpo atraente, a pele bem cuidada, o cabelo caprichado, vestir-se com elegância. Ser simpático e agradável.

As brasileiras são mestras nos aspectos da vaidade e no mundo só acham rivais entre as russas e ucranianas, depois de desbancar, e isso faz muito tempo, as elegantes francesas. As brazucas são ases na difícil ciência de andar de saltos altos. Uma incógnita que deixa várias canadenses, chinesas e muitas europeias sem entender a arte do equilíbrio daqueles movimentos suaves, quase circenses, sobre apoio de superfícies de um simples centímetro quadrado. Do salto do sapato, quis dizer, não do trapézio ou do fio de aço esticado lá no alto.

Já muitos brasileiros cultuam em demasia a boa forma dos corpos. Seja o alheio ou o seu próprio. Além do jeito expansivo que caracteriza o "gente boa". Quando quer agradar, veja bem.

O lado duro é que o excesso de preocupação pode revelar baixa auto-estima e falta de confiança em si próprio. Há mesmo tanta necessidade de beleza e de agradar? Para os italianos, a beleza, em todos os aspectos, é uma questão de vida. É como se não houvesse confiança em mais nada, na justiça, nas instituições, nas relações humanas e restasse apenas a estética. A beleza sagrada das obras de arte, da comida elaborada, do design dos móveis, roupas e objetos, além dos rostos e corpos.

Continuo achando que há um excesso em tudo isso. Em minha reles opinião, aquilo que se realiza pelo outro, o modo gentil de tratamento e a empatia são bem mais marcantes do que o "impacto" causado pela atratividade que a beleza traz.

22.9.12

Vida digital

Blog, Twitter, Facebook, Google+, Couchsurfing, Meetup, Email, MSN, Skype e outros não citáveis. A vida intermediada, ampliada ou reduzida pelas redes sociais..

20.9.12

Livros a mancheias

Desde que decidi trocar de país, mudei de casa seis vezes durante cinco anos. A quase totalidade dos meus livros ficou em local seguro, em recinto familiar, com hospedagem gratuita. Com tanta mudança na vida, o espaço habitável disponível vale como pedra preciosa. Livro ocupa muito espaço e é pesado na hora da mudança. Então prometi a mim mesmo evitar comprá-los.

Nos últimos tempos uma boa opção é ler no e-reader. Lá cabem centenas de livros sem ocupar volume algum e com peso zero. E posso transportar o apetrecho facilmente para qualquer lugar. Às vezes sinto falta de rabiscar no livro, de anotar a tradução de alguma palavra. Para isso, só o de papel ou e-ereaders mais avançados. O meu não tem esse recurso.

Também pego muita coisa na biblioteca pública. Além de ser gratuito e não ocupar espaço, o prazo de devolução serve como um incentivo para não ficar enrolando e terminar logo a leitura.

A oferta de livros em Toronto é muito grande. Adquiro, vou confessar, alguns por preços simbólicos em feiras beneficentes e em lojas de artigos usados. Encontro livros deixados para doação em caixas nas calçadas e até na lavanderia do prédio, onde os moradores deixam exemplares para que outras pessoas levem para casa.

Como se nao bastasse toda essa facilidade, de vez em quando as livrarias fazem promoções fantásticas. E quando se dá sorte de achar o que se quer, é uma maravilha. Há alguns meses entrei na loja de uma grande rede para comprar um livro no formato de arquivo eletrônico. Havia uma surpreendente promoção dos livros reais, não digitais. Até 80%(!) de desconto. Achei um romance de um dos meus autores favoritos, o irlandês Colm Toíbin. De 30 por 7 dólares. Não tive escolha, apesar da promessa que fiz, carreguei o luxuoso exemplar de capa dura e sobrecapa para casa. 

15.9.12

Mar de água doce

Nada comparável a algumas cidades européias, onde a cultura do ciclismo é mais antiga e mais forte, Toronto oferece várias vias que permitem passeios bem interessantes de bicicleta. Atualmente um dos meus trajetos preferidos é a ciclovia que vai até o Tommy Thompson Park, uma península que segue lago adentro.

Pássaros fingindo que são folhas (clique para ampliar)
Saindo do centro da cidade, o caminho passa por Cherry Beach e vai margeando o lago Ontario. Ciclistas, corredores e patinadores dividem a pista de multiuso. Há uma curta interrupção, pega-se o acostamento da pista de carros e retoma-se a via asfaltada do parque Tommy Thompson, com uma bela vista de Toronto.

Apesar de toda a beleza, o parque não foi criado pela natureza. Inicialmente era um cais para acostamento de grandes navios. Com a desistência do projeto, virou depósito de entulho de construções. A natureza fez então a sua parte. Os pássaros tomaram conta do local, que estava abandonado. A vegetação se espalhou e se desenvolveu. Com o apoio e proteção de grupos ecologistas, o monte de pedra e entulho virou um bosque no meio das águas, bem perto do centro da cidade. 

Lá não é permitida a circulação de veículos. A pista asfaltada é tomada por esportistas e gente passeando a pé. Existe também um clube náutico, mas só para barcos pequenos.  Há uma parte que virou habitação dos pássaros e o acesso não é permitido, nem para pedestes. Os pássaros não gostam de barulho. Os corvos-do-mar voam em fileiras, formando cordões no céu e indo pousar nas árvores como se fossem folhas.

Pego a minha bicicleta mais nova e mais leve, de quadro de alumínio e chego com menos esforço e em menos tempo, uns 40 minutos. A minha mais antiga, cheia de suspensões e amortecedores é incrivelmente mais pesada. Ela tem, no entanto, a vantagens de ser mais confortável para as imperfeições das pistas da cidade. Com ela subo e desço até degraus, mas na hora da distância longa, o esforço é muito maior. 

Na pista do parque vou me deparando com ciclistas que, solitários ou em grupos, pedalam com seus trajes esportivos. Capacetes, óculos protetores, luvas, tênis sem cadarço, bermudas e camisas de tecido sintético e coladas no corpo, para diminuir o atrito do vento. As bermudas são acolchoadas internamente e as camisas têm bolsos nas costas.

Fui dar uma olhada nos preços dos equipamentos. Tem bicicleta de aço carbono que chega ao preço de um carro novo. A grande vantagem dessas bicicletas é o peso reduzido, que permite vencer distâncias com maior velocidade, menos esforço e menos tempo. Mas algumas são caras demais. Tem gente que prefere então comprar um bom exemplar usado e reserva uma parte do orçamento para manutenção.

Os acessorios não são menos caros. Uma simples bermuda de ciclista, com tecido antimicrobiano, em loja especializada, pode custar o preço de uma bicicleta simples, em uma grande loja de departamentos. Uma simples bermuda de tecido sintético e colante, com reforço de acolchoamento nos fundilhos. Para não machucar os... fundilhos.

No final da pista do parque há um farol com mais um belo panorama da cidade. No lado oposto, a imensidão das águas: o lago Ontario. Quase um oceano, que faz a vista se perder. Onde tudo que vê é o horizonte infinito, caminho para se chegar a um outro pais. É um mar tranquilo, sem ondas, de águas doces. Um dos Grandes Lagos, um dos maiores tesouros norte-americanos.

13.9.12

Encontrando Monsieur Lazhar

Pessoas que chegam de todos os cantos e de origens as mais diversas se encontram no French Meetup de Toronto. É como se fosse um pequeno retrato do que é a cidade. Com um drinque, água ou chá na mão, seja para desinibir ou para molhar a garganta, os participantes deixam a língua solta.

O último encontro foi bem rico. A primeira pessoa de quem me aproximei foi uma senhora com cara de francesa. Cabelos claros e curtos, um grande nariz aquilino, ela segurava um copo de chá quente fumegante. Não era francesa, era canadense. E o seu francês não era grande coisa, às vezes eu tinha dificuldade de entender ou escutar, pois ela falava baixo. O seu nariz, tão marcante, me pareceu uma herança árabe ou espanhola. Não quis perguntar, fiquei com medo de parecer indiscreto.

Acabei descobrindo que ela trabalha por conta própria operando com açoes na bolsa. Conversamos sobre aplicaçoes financeiras no Canadá e no Brasil e ela me convenceu que os títulos da Petrobras, atualmente em baixa, vão subir em pouco tempo, assim como os de outras petrolíferas, por causa das confusões no Oriente Médio e no Norte da África.

Logo a seguir conheci um franco-canadense originário de Winnipeg, capital da província de Manitoba, vizinha de Ontario. Eu sabia que existem comunidades francófonas em Manitoba e foi muito bom saber mais sobre o assunto. Uma das grandes escritoras do Canadá chama-se Gabrielle Roy, é originária de Manitoba e escreveu sua obra em francês.

O rapaz aparentava ser bem jovem, mora e trabalha em Hamilton, uma cidade que fica a uns 70 quilômetros de Toronto. Cabelo preto, pele clara, óculos redondos, não parecia descendente de ingleses ou irlandeses. Para chegar no French Meetup ele pega o carro e dirige uns 40 minutos. O sotaque dele era um pouco mais brando, menos nasal, do que o dos québecois. Ele me falou que considera o francês a sua língua materna. pois estudara em escola  francófona, apesar de ter feito universidade em inglês.

Perguntei por que optar por se alfabetizar em francês. Ele me falou que é a língua da sua família.Que a população da cidade de onde ele veio, na região metropolitana de Winnipeg, que não lembro o nome, também fala francês. Ele ainda me disse que algumas cidades francófonas de Manitoba têm nomes de santos. Religião Católica e língua francesa são inseparáveis.

Comentei que eu acho enriquecedor uma criança estudar em francês no Canadá. Pois vai aprender inglês de qualquer modo, pela televisão, computador, videogame ou nas ruas. Ele fez uma observação interessante, que, além disso, o inglês ensinado na escola francesa é de boa qualidade, o que facilita tudo.

A situação inversa não costuma acontecer com crianças e jovens que estudam em inglês. Os canadenses que moram fora do Québec aprendem francês na escola como segunda língua, mas quase não têm oportunidade de praticá-la e acabam esquecendo. Do mesmo modo como ninguém aprende a falar inglês no Brasil só estudando na escola.

Depois foi a vez de bater papo com um senhor da Argélia. Gorducho, pele morena, cabelos grisalhoso cacheados. Vi de cara que era árabe. Ele mora e trabalha em Brampton, na região metropolitana de Toronto, e ensina matemática e ciências em uma escola francesa. Lembrei imediatamente de Monsieur Lazhar, o filme do Québec que concorrreu ao Oscar de filme estrangeiro neste ano e que ganhou o prêmio de melhor filme canadense no Festival de Toronto 2011.

O filme conta a história de um professor argelino que vai ensinar francês em uma escola de Montréal. Na sala de aula ele se depara com diferenças culturais, com o novo método de ensino e com a carga emocional causada pelo suicídio da professora anterior. Ele me falou, entre risadas, que quando foi ver o filme, também se reconheceu na tela. A arte copia a vida, não é? Conversamos mais um pouco sobre assuntos polêmicos do Oriente Médio, mas o tema é bem espinhoso, melhor seria não provocar mais.

O professor foi embora e eu fiquei decidindo se tomaria mais uma cerveja. Sim, decidi ficar mais um pouco.

Ao lado estava um grupo conversando animadamente. Achei o sotaque diferente e perguntei se eles estavam falando francês com sotaque italiano. Um rapaz mais comunicativo, de olhos claros e cabelo curto e espetado deu risada e disse que não. Disse que era russo, que morava há muito tempo em Toronto, que tinha chegado aos dez anos de idade no Canadá. Falou que tinha aprendido francês enquanto estava estudando na Espanha. Ou seja, era daqueles que falam uma quantidade de línguas que podem superar o números de dedos de uma mão.

Ele era bem jovem, não aparentava nem 25 anos e falava francês com ótimo vocabulário. Em minha experiência aqui neste país, tenho visto que alguns russos têm uma capacidade inacreditável de aprender novas línguas. Eu tenho a impressão de que, como a língua deles é muito complexa, cheia de variaçoes, e o alfabeto cirílico mais extenso, com sons que nem todas as línguas possuem, os russos devem achar o resto fácil de aprender.

Os últimos personagens da noite não foram menos interessantes. Eu tinha reparando antes, um cara completamente careca, pele morena, óculos modernos de aros grossos e uma "mosquinha" branca logo abaixo do lábio. Quando eu falei que era brasileiro, ele falou em francês que também falava português. Achei que mais alguém capaz de falar algumas frases de português misturado com espanhol. Mas ele revelou logo a seguir que era angolano.

Ele falava um francês excelente. Perguntei onde tinha aprendido e ele me disse que havia morado durante oito anos na França. Comentou que havia uma brasileira no evento. Ela chegou logo depois. Olhos amendoados, cabelo bem preto, liso e comprido. Feições orientais. Descendente de japoneses, de São Paulo, pensei e acertei no alvo. O primeiro brasileiro que encontrei no evento que frequento há alguns meses.

Muito simpática, ela tinha ido apenas acompanhando o angolano, pois não falava nada de francês. Eles trabalham juntos no mercado imobiliário em Toronto e estão tentando convencer canadenses a comprar imóveis no Brasil. Conversamos um bocado - em português. O sotaque do angolano não era difícil de compreender. Falei da grande quantidade de imóveis no litoral  do nordeste brasileiro adquiridos por europeus, que os possuem como casas de veraneio. Desejei boa sorte à dupla na empreitada, mesmo sabendo que canadenses e americanos não costumam ir além do Caribe e da América Central.

4.9.12

Festa brasileira em Toronto

Ontem foi o Brazilian Day Canada 2012, uma festa da cultura brasileira que ocorre em algumas cidades do mundo: Nova York, Toronto, Tóquio, Londres, Los Angeles e Luanda (Angola). O evento ocorreu em uma das praças mais centrais e movimentadas de Toronto, a Dundas Square. Há um grande palco montado para os shows e várias barracas de comidas, vendas de produtos, publicidade. É um bom cartão de visita para dar visibilidade à cultura brasileira. A imigração brasileira acaba de completar 25 anos em Toronto. É uma das comunidades mais novas no Canadá.

A atração principal deste ano, a dupla Jorge e Mateus, parece estar fazendo muito sucesso no Brasil, ao misturar música sertaneja romântica, forró e batidas de axé music. Mas não me disse muita coisa. Preferi o show de Ivete Sangalo, há dois anos. De qualquer modo, foi bom ouvir a música hit, sucesso mundial, "Ai se eu te pego" cantada e tocada ao vivo, por um grupo brasileiro, pela primeira vez!

Foi ótimo encontrar uma turma de novos amigos, alguns brasileiros, os demais de outras nacionalidades. Os amigos brasileiros que conheço aqui, já moram há bastante tempo e não têm mais disposição para este tipo de evento. Havia muita gente com camisas amarelas da seleção brasileira, bastante gente jovem, mas poucas famílias. Tive a impressão, posso estar enganado, que a maior porção dos participantes era de estudantes brasileiros em Toronto.

Eu me recusei a ir atrás da coxinha de galinha. Os expositores aproveitam este tipo de evento para vender a comida quase pelo triplo do preço normal. Prefiro ir comer nas padarias e bares do bairro português, que têm boa oferta dos salgados brasileiros. Optei por comida tailandesa (!) no Eaton Centre. Os pratos de feijão-com-arroz, disponíveis na festa, sempre preparo em casa, então não sinto falta. Brigadeiro, da mesma forma. Queria mesmo era acarajé e abará, com muito vatapá e molho de camarão seco e defumado. Mas aí só em um "Bahia Fest Canada". Quem sabe um dia.

31.8.12

Novo morador

Tenho um novo roommate. Ele ainda não decidiu se vai ficar para morar, está achando o aluguel caro. Mas ele é corajoso, sobe onze andares pelas paredes do prédio em busca de um amendoim perdido ou de alguma maçã em cima da mesa. Ele é boa vida, trabalha divertindo turistas nos parques, só para ter o que comer. Acho que ele quer mesmo é ser pet e ganhar casa e comida de graça. 
Spider, o esquilo-aranha
 

27.8.12

Destrua o vestido de noiva

Durante os passeios de bicicleta pela cidade, principalmente nos sábados à tarde, vejo uma cena que se repete com frequência. Um casal de noivos, ela de vestido branco de casamento e ele de terno, fraque, ou qualquer outro traje apropriado, quase sempre com buquê de flores nas mãos, acompanhados por um fotógrafo, perambulando pela cidade em busca de boa locação para fotos do álbum.

A cena é mais comum na beira do lago ou nos parques, obviamente, pela beleza. Mas eu já vi trio fotógrafo-noivo-noiva andando pelo viaduto Broadview. Onde, acredito, a atratividade do local consiste de carros passando em alta velocidade.

Canadenses não se importam em usar trajes diferentes. Seja para atrair a atenção ou para testar se a política da indiferença com a vida alheia, tão querida e apregoada por este povo, continua firme. Então de vez em quando passa alguém fantasiado de Batman pela rua. Não importa se é época de Halloween ou não. Não importa se a pessoa está chegando ou saindo de alguma atuação teatral. Não importa se está indo para alguma festa a fantasia. O importante é ser criativo. 

Fotógrafos e noivos parecem levar a criatividade aos últimos consequências. Para quem é estrangeiro, é estranho, mas acaba sendo divertido. Na praia da beira do lago, vi que um grupo de espanhóis beberrões ficou olhando para os noivos com ar de espanto e comédia. Um deles não aguentou e foi tirar foto, com seu proprio iPhone, com o casal, que meio sem jeito, o acolheu no meio. A foto deve ter ficado com cara de ménage à trois.

No Brasil o trabalho do fotógrafo seria impossível. Haveria fila de pessoas querendo tirar fotos com o casal, assovios para a noiva, piadinhas sobre a vida sexual, pedidos de convite para a festa do casamento. Só alguns exemplos da interação que os brasileiros gostam de fazer com aquilo que lhes parece exótico, divertido, estranho , atraente ou exibicionista.

Mas a onda das fotos criativas do casamento norte-americano vai além. Existe um modismo de poses depois da festa. É o “Trash the Dress”. É a destruição do vestido, o vestido vai para o lixo. Então tem noiva que, passados casamento, festa, lua-de-mel, viagem e entrando na monotonia do cotidiano, resolve se vingar.

Sob os olhares atentos e os cliques rápidos do fotográfo, ela posa para fotos depois de rolar na lama, de queimar partes do vestido, de encharcá-lo na água, ou depois de qualquer outro método de destruição escolhido.

Parece estranho, quando se poderia simplesmente doar o vestido, já que não se quer mais guardá-lo ou não se tem mais espaço para armazenar o trambolho. E, efetivamente, pode haver acidentes, como o que ocorreu no Québec.

Primeiro pensei que se tratava de uma notícia falsa, pelo tom quase inacreditável. Mas foi verdade. A noiva entrou no rio para encharcar o vestido. O vestido ficou pesado demais e a correnteza a arrastou. O fotógrafo não conseguiu resgatá-la e ela morreu afogada. Uma bela mulher de 30 anos. Adeus vestido, adeus casamento, adeus noiva.

Confira aqui:
http://www.ctvnews.ca/canada/caution-urged-after-bride-s-photo-shoot-death-1.930467

23.8.12

Sobre comida e troca de ideias

Querida amiga,

Estou lendo um livro cuja primeira - e acho que única - indicação para mim foi sua: Afrodita, Cuentos, Recetas y Otros Afrodisíacos, de Isabel Allende. Eu estava na época do trabalho de conclusão de Jornalismo, que tratava da comida da nossa região, e você viajava comigo. Sei que o tema também lhe é muito querido. Então a gente conversava muito nos intervalos de trabalho e você sempre me trazia ideias e sugestões de temas, detalhes, personagens. Nós viajávamos juntos.

Eu creio que, naquela época, o livro da escritora chilena servia de inspiração para a sua criatividade culinária e talvez amorosa, provavelmente. Sei que, naquele tempo, você não era muito próxima das panelas, mas adorava o assunto e adorava viver rodeada de bons resultados no fogão, seja lá de quem viessem. Livros e panelas (ou, melhor, o produto delas) sempre nos atraíram.

Outro dia li um comentário seu sobre o reencontro com amigos de longa data. Sobre o carinho existente, sobre como é bom não precisar medir as palavras, para não correr o risco de ser mal interpretado. Os velhos amigos cumprem bem esse papel, tenho certeza.  

Aqui neste país de línguas estranhas eu vivo uma realidade que adoro. Comidas do mundo inteiro ao alcance fácil das mãos - e do bolso. Livros que nunca imaginei poder ler. E, o que é melhor, em suas línguas originais. O sistema de bibliotecas da cidade me dá acesso a livros em um número inacreditável de títulos em inglês, francês, espanhol e português.

Depois de quatro anos aqui e de bastante esforço - uma tarefa agradável, no entanto -, aprendi a ler sem muita dificuldade em francês e inglês. Com o aumento do vocabulário, entranhamente, até o espanhol ficou mais fácil. Por isso preferi ler Afrodita na versão original, sem recorrer a traduções.

Mas, sabe, acho que o que mais me motivou a escrever esta missiva foi saudade da nossa troca de informações. Algo muito presente entre mim e os meus amigos, algo que sempre tive ao meu alcance. Lembro que você sempre chegava com uma novidade, um detalhe inesperado, um filme inédito, uma peça de teatro estreando, um plano de viagem, fosse ela mental ou a um local distante.

Graças ao céus, aqui também conheço pessoas bacanas e generosas, capazes de grandes gestos de ajuda e companheirismo. Aqui também tenho pessoas instruídas e cultas ao meu redor. Seres de culturas, de origens e línguas diferentes. Mas falta um pouco da viagem. Não aquela aos locais distantes, um gosto compartilhado por todos. Mas a viagem das ideias.

A sobrevivência em um mundo estrangeiro induz ao pragmatismo. E a um certo consumismo, infelizmente. Trava-se uma busca incessante por segurança, pelo aluguel do próximo mês, por realização profissional. Totalmente compreensível. Aqui não se conta com a rede familiar. Aqui parte-se do zero para a construção de uma nova vida. O que é muito bom, mas também tira muito da energia para fruição, do prazer de aproveitar e debater pequenos e grandes detalhes da cultura e dos hábitos em que fomos criados e nutridos. Ou do local em que estamos inseridos e que é a nossa casa atual.

Querida amiga, esta carta é algo de crônica de uma bela lembrança. De um pequeno desabafo, talvez. Somos felizes por poder transformar em letras os pensamentos e sentimentos. E de poder ter com quem compartilhar. 

Se isso for apenas mais uma incumbência para transportar, nessa frágil existência humana, que o fardo seja leve, alegre e traga boas palavras ao mundo.

Um beijo. 

6.8.12

Hamburguer de qualidade

Para quem vive fora da America do Norte, hamburguer eh praticamente sinonimo de McDonald's. Isto significa sanduiche sem graca, gorduroso, com um sabor que beira algo entre plastico e borracha. Quando se conhece mais profundamente o que eh um verdadeiro hamburguer, o gosto muda e a experiencia se intensifica. 

Aqui no Canada existem restaurantes especializados na iguaria, nos quais fica dificil ateh escolher os ingredientes, entre os diversos tipo de carne, queijos e molhos sem fim. Ateh o simples hamburguer que se compra congelado para preparar em casa tem algo de excepcional, como o que acabo de devorar agora, com carne defumada, estilo barbecue feito com lenha de hickory. Para acompanhar, nada mais do que o pao, queijo Cheddar, catchup de boa qualidade e mostarda Dijon. E basta, eh alegria geral.

30.7.12

Comida estrangeira

Um amigo baiano que mora em São Paulo me conta que foi almoçar com a família de uma amiga baiana, comum a nós dois, que mora também em São Paulo. Ele ficou surpreso e contente. A mãe dela havia trazido acarajés da Bahia, que foram prontamente devorados. Que luxo, acarajés vindos de Ilhéus! Os baianos adoram os bolinhos dourados. Eles são parte dos nossos recantos do sabor e da lembrança. Conheço gente que mora no Rio, em Brasília e, cada vez que volta da Bahia, leva acarajé e  abará, fresquinhos do dia, no avião. Conheço gente da Bahia que mora aqui em Toronto e que traz na mala, tudo congelado!


Abarás cozidos na folha de bananeira
Quase todas as iguarias da cozinha baiana são possíveis de reprodução em outros locais, em maiores ou menores distâncias da origem, mas o acarajé é o mais difícil, pela quantidade de dendê usada na fritura. 

Enquanto o acarajé é frito, o abará é cozido no vapor d'água. Os dois tem a mesma massa, mas um pouco de dendê é adicionado ao abará, que precisa ser engenhosamente enrolado em folha de bananeira para o cozimento. A folha de bananeira serve para dar o formato, mas também para dar sabor.

Há algum tempo, para matar a minha vontade de comer os bolinhos baianos, bolei um modo diferente na hora de fazê-los. Preparei a massa no modo convencional, ela é simples, apenas feijão-fradinho e cebola, batida no liquidificador. Coloquei um pouco de dendê, que trouxe na mala, na última vez que fui ao Brasil, para dar cor e sabor, e levei ao forno, na assadeira de bolinhos, aquela para o preparo de cupcakes. 


Para preparar o abará já pensei em usar folha de lótus, encontrada nos mercados chineses, com a qual eles preparam uns bolinhos cozinhos de arroz com recheio, que são bem bons. Os pacotes de arroz chineses ficam com um aspecto bem parecido com os abarás. Não imagino como ficaria o sabor.

Então a minha criação ficou assim meio abarajé assado, nem uma coisa nem outra, nem tico nem taco, mas até que ficou gostoso. O pessoal aqui devorou. Nham nham.

28.7.12

O polêmico logo de London 2012

O logo das Olimpíadas de Londres está cheio de polêmicas desde o lançamento. A ideia parecia ser simples e efetiva: é a representação do número 2012 com os anéis olímpicos dentro do zero. Pela primeira vez o desenho básico será usado tanto nas Olímpiadas quanto nos Jogos Paraolímpicos.


O logo é flexível e pode mudar de cor de acordo com a situação. As cores básicas são verde, azul, laranja e magenta (algo entre rosa e violeta), mas pode incorporar as cores da bandeira da Inglaterra ou de qualquer empresa patrocinadora. Tudo muito bem pensado e articulado, não é mesmo?

Mas o povo não gostou. Em uma sondagem no site da BBC, 80% dos internautas detestaram o símbolo. Vários jornais fizeram concursos próprios para sugestões do logo. Entre os selecionados pelo The Sun havia um pintado por um macaco! Houve também várias reclamações sobre a leve semelhança com uma cruz suástica, o símbolo do nazismo.  

O que achei mais polêmico efetivamente foi a reclamação do Irã, que ameaçou boicotar os jogos. Os números guardam bastante coincidência com as letras z, i, o, n. Letras que formam a palavra Zion (ou Sion, em português), um sinônimo de Jerusalém. Sionismo é o movimento político iniciado em 1892 que defende o povo judeu e a existência de um Estado judaico independente, do modo como existe atualmente.

O Irã levou as reclamaçoes ao Comitê Olímpico Internacional, acusando o logo de racista e pedindo explicaçoes aos criadores. O Comitê não aceitou a solicitação. O Irã está participando das Olimpíadas.

Eu gosto do logo. Acho criativo, flexível, moderno e bonito. Mas eu sei que em comunicação visual nada é por acaso. O que faz aquele ponto entre os números 1 e 2? Por que ele estaria ali? Somente para preencher um espaço vago ou para formar a letra i?

Alguém fez a rearrumação do símbolo e publicou na internet.
 
E então, o que você acha? Foi uma simples coincidência ou foi proposital?

21.7.12

Amigos para siempre

Tenho um dicionário de francês-português que me acompanha há uns 18 anos. E que continuo utilizando com frequência. Eu comprei esse dicionário quando não tinha a menor ideia de que um dia moraria em um país de língua francesa. Na época eu morava em uma cidade com poucas opções de cultura e diversão, que não tinha nem livraria. Pedi o dicionário via encomenda postal, para me auxiliar nas aulas de francês que tinha resolvido tomar com uma professora particular.

Tive dúvida se a Ediouro, a editora do dicionário, ainda existe. Busquei no São Google, ela está aí, presente no ciberespaço. Esse dicionário tem uma característica interessante, algo impensável atualmente: a pronúncia das palavras não é escrita na linguagem universal dos sons, mas em português. Por exemplo a pronúncia da palavra manteau (casaco) é escrita mantô.  Isso não existe mais em nenhum dicionário bilíngue, mas era algo que achava bem prático enquanto eu aprendia francês.

Os professores de línguas sempre me falaram que os dicionários bilíngues (por exemplo inglês/português, português/inglês) servem somente para o início da aprendizagem. Que a partir de um certo tempo é preciso partir para um dicionário da própria língua, que explique o significado das palavras e não faça somente a simples tradução.

Concordo, mas mesmo sabendo disso o meu velho dicionário Ediouro é companhia constante quando leio algum livro em francês, como faço agora, lendo dois ao mesmo tempo, uma coisa meio maluca. La Meilleure Part des Hommes, de Tristan Garcia, e L'appartement Témoin, de Tatiana de Rosnay.  Nem sempre acho lá tudo o que procuro, mas sempre acho que é mais fácil procurar nele, que tem menos páginas para revirar do que o Micro Robert, por exemplo.

Mas revirar páginas de dicionário está virando coisa do passado. O São Google está cada dia mais poderoso, eficiente e o seu tradutor economiza um tempo enorme de busca. E, o que é melhor, ajuda nas expressões idiomáticas, já que o site faz a tradução completa do texto. O Google Tradução eliminou o meu desejo de comprar um tradutor eletrônico, uma maquininha que vi há muitos anos nas mãos de estudantes japoneses, na época em que tudo que era eletrônico e moderno era produzido no Japão, lá pelos anos 90.

O dicionário de papel serve romanticamente de partner para o livro em papel, como um casal unido e harmônico há muito tempo. Como goiabada com queijo. Como pão com manteiga. Como hambúrguer e batatas fritas.  

20.7.12

Barato e bom, do jeito que gosto

Sem querer ver a miséria de nenhum país, mas a crise econômica tem uma consequência bem saborosa: os vinhos europeus estão chegando no Canadá a um preço inacreditável. Eu tinha lido na coluna de vinhos do Toronto Star algumas recomendaçoes, um deles, um italiano, bem pontuado, com um preço tão baixo em relação aos outros, que cheguei a pensar que tinha sido erro de impressão do jornal. Quando cheguei na loja de vinhos, não encontrei mais o tal exemplar, provavelmente os leitores-bebedores deram cabo de todos. Mas havia muitos na mesma faixa de preço. Os vinhos italianos e alguns espanhois estao mais baratos que os argentinos e chilenos. Não achei o recomendado, mas trouxe para casa um Farnese 2011 Montepulciano D'Abruzzo, da mesma origem controlada, que estou provando agora e que está totalmente aprovado. Por meros CAN$7.50 a garrafa, com impostos incluidos.

12.7.12

Canadá, Nigéria, Benim e Bahia em francês.

Faz algum tempo que frequento o French Meetup de Toronto, um encontro mensal de pessoas que tem o francês como primeira língua ou que gostam de praticá-lo. A reunião acontece em um restaurante-bar na Bloor Street East perto da Yonge. Cada vez é uma experiência diferente. Cada vez tem gente diferente, com sua história de vida para contar.

Ontem conheci um holandês que veio criança para o Canadá. Os pais imigraram para Alberta e ele se mudou já adulto para Toronto, para trabalhar. A sua língua materna é o holandês, mas ele foi educado em inglês, no Canadá. Francês ele aprendeu na escola e em cursos. Apreciador de línguas, aprendeu espanhol, pois morou dois anos na Espanha, em Barcelona. Ele trabalha em um banco e já foi responsável pela área de negócios com a América Latina. Ele considera o espanhol a sua terceira língua.  Como se nao bastasse, foi casado com uma brasileira, então fala português também. Somando tudo, ele fala 5 línguas e me disse que compreende um pouco de alemao, que tem alguma semelhança com o holandês. Ufa!

 Revi uma conhecida (estou prestes a considerá-la uma amiga, pelas várias vezes que a encontro e é sempre muito agradável) nigeriana, com quem trabalhei durante um período curto, e que eu não sabia que falava francês. Depois de sermos apresentados no trabalho, acabei por reencontrá-la no French Meetup.

A língua oficial da Nigéria é o inglês, mas ela aprendeu francês durante os quatro anos que passou em Montréal estudando Contabilidade. Eu achava que ela era filha de imigrantes, que morava no Canadá há muito tempo, pelo menos desde criança. Mas ela revelou que chegou no Canadá aos 16 anos, que os pais ainda moram na Nigéria. E que ela viaja para lá todo ano. Fiquei surpreso porque ela faz um trabalho altamente qualificado, imaginei que tivesse sido totalmente educada no Canadá. Tudo bem, a universidade onde ela estudou é das melhores do país. Para mim, ela seria um caso de sucesso - existem vários - de estudos e trabalho de imigrantes no Canadá.

Quando converso com ela, a gente passa um bom tempo comparando as culturas da Bahia e da Nigéria. Ela fica surpresa com as coincidências. A cultura afro-baiana veio basicamente daquela região da África, principalemente dos povos Yorubá, Hauçá, Fon, Lgbo. Comida, hábitos, música, religião.  Ela me contou que os nomes de pessoas na Nigéria são com frequência os mesmos nomes das entidades do candomblé brasileiro . Ou seja, existem vários oshuns, shangos, ifás e oguns circulando pelas ruas da Nigéria. Quando a nigeriana chegou, eu estava, por coincidência, conversando com um canadense filho de nigeriano e de mãe do Québec. O francês dele nao era grande coisa, às vezes ficava difícil compreendê-lo, mas ele era simpático e comunicativo.

Um pouco mais tarde, talvez a personagem mais interessante da noite se aproximou. Ela tinha o rosto redondo e largo, cabelo bem preto e comprido, os olhos bem puxados, a pele clara, mais de 40 anos, provavelmente. Ela me fez lembrar os inuits (esquimós) do Canadá. Mas ela era francesa e bastante simpática. Nativa da cidade de Nice, no Sul da França. Filha de alemão com vietnamita. Life coach, psicóloga, trabalha com comunidades francófonas em Toronto. Também trabalha em inglês. Ela morou em vários locais e contou as maravilhas de Vancouver. Ela também já havia morado nos Estados Unidos durante bastante tempo. Fiquei curioso e perguntei a ela em que local ela tinha a maior sensação de pertencimento. Curiosamente, uma vez que os franceses não morrem de amores pelo Tio Sam, ela falou que era nos Estados Unidos. Mas ela diz adorar o Canadá.

Mais tarde um outro rapaz, este do Benim, chegou e começou a conversar com a nigeriana. Acho que  eles já se conheciam de outros encontros. O Benim é um país francófono e vizinho da Nigéria. A francesa foi embora e continuei o papo com os dois. O Benim tem a cultura bem parecida com a Nigéria e, por tabela, com as características afro-baianas. Acarajé, por exemplo, é conhecido como acará na África.

Lembrei que eu já havia experimentado comida do Benim em Salvador, no restaurante Casa do Benim, no Pelourinho. Também contei a ele a lenda que uma vez ouvi, talvez criada pelos próprios donos do restaurante, para aumentar a mística do local. A história dizia que, se as terras da África e a América se juntassem novamente - se é que isso aconteceu alguma vez -, Salvador iria coincidir com o Benim. 

Comentando sobre questões da língua portuguesa, falei sobre a influência dos teleromances (novelas) brasileiros no modo de falar da própria comunidade de países lusófonos. Foi com surpresa que ele falou o nome em português "novela". E revelou que as novelas brasileiras são uma febre naquele país africano - e provavelmente em outros da região também. Depois lembrei que uma amiga minha do Québec, que havia passado um tempo fazendo trabalho humanitário no Benim, já tinha me falado disso. As famílias param na frente da televisão, no maior silêncio, quase hipnotizadas, para acompanhar a trama. Nada muito diferente das famílias brasileiras. O beninense (ou beninês) também conhecia a música de Carlinhos Brown.



14.6.12

Meus parabéns

Que coisa mais bacana as redes sociais na internet proporcionam: ao fazer aniversário, receber parabéns de pessoas queridas espalhadas por vários cantos do mundo. A gente vai caminhando, passando por vários locais, fazendo amigos. De algum modo teme nao ter mais oportunidade de vê-los. Mas a internet consegue reunir todo mundo. Recebi parabéns vindos de Ilhéus, de Salvador, de Barreiras, de Feira de Santana, de Vitória, do Rio de Janeiro, de Sao Paulo, de Brasília, de Montréal, de Sherbrooke, da Florida, de Toronto. Vieram parabéns até de Dubai, nos Emirados Árabes! Obrigado a todos, é um prazer enorme e um privilégio conhecer vocês.

31.5.12

Leitura leve

Estou descobrindo (ou reconhecendo) uma das melhores vantagens de um eReader, o leitor eletrônico: a leveza. Estou lendo um livro de 600 páginas, The Son of the Circus, do americano John Irving. Leitura, na maior parte das vezes, feita na cama, antes de dormir. Então fico olhando para o meu pequeno leitor eletrônico, levinho de 180 gramas e imaginando o peso e o volume que estaria carregando se estivesse com um exemplar impresso de 600 páginas nas mãos. Os braços agradecem.

27.5.12

Tem quibe no tabuleiro

Não faz pouco tempo que conheço comida árabe. Desde criança fui acostumado a saborear quibes - nas versões frita, assada e crua! -, esfirras, homus tahine, tabule, mejandra, charutinhos. A culinária árabe, especificamente síria e libanesa, chegou ao Sul da Bahia na bagagem dos imigrantes em busca de riquezas. Jorge Amado fez a parte dele, colocando personagens libaneses, sírios e turcos marcantes em seus livros. Especialmente no ótimo "A Descoberta da América pelos Turcos".

O meu pai gostava muito de comida árabe e minha mãe procurava aprender novos pratos. Em alguns finais de semana, a gente frequentava o restaurante de um árabe (sírio, acredito) que ficava em uma belíssima localização, de frente para o mar de Ilhéus e servia pratos bem feitos. Onde houvesse comida árabe de boa qualidade na cidade, lá íamos nós experimentar. A cozinha do Oriente Médio é rica e delicada. Os sírios e libaneses costumam servir pequenas porções de uma infinidade de pratos deliciosos.

Swarma Wrap
A força comunidade de origem árabe possibilitava encontrar nos mercados da cidade produtos como o tahine, a pasta feita de gergelim, que dá o sabor levemente tostado ao homus, que é feito de grão-de-bico cozido e moído, alho e limão, basicamente.

Aqui no Canadá me deparei com uma quantidade enorme de restaurantes árabes fast-food. Eles são diferentes da rede brasileira Habib's, que basicamente vende lanches árabes prontos e sanduíches. Os restaurantes fast-food daqui sempre têm um buffet de saladas, molhos, carnes e acompanhamentos. Que podem ser servidos com arroz ou enrolados em pão árabe, bem fino, para montar um wrap (sanduíche enrolado) bem saboroso. O sanduiche fica nutritivo, pois tem bastante salada, pequenos pedaços de frango ou carne grelhada, homus tahine e molho de alho. Quibe é que, infelizmente, nunca encontrei por aqui, embora tenha ouvido falar que existe em alguns resturantes.

O frango e a carne são preparados na grelha giratória, do tipo que no Brasil se conhece por "churrasco grego". Onde as carnes são amontoadas e vão grelhando aos poucos. Para a minha insatisfação, toda vez que peço um wrap, a quantidade de homus colocada é bem pequena. Acho que eles ficam economizando. Compenso a vontade de comer a tal pasta preparando grandes quantidades dela em casa.


Churrasco "grego"
As famílias árabes do Sul da Bahia deixavam as famílias baianas com água na boca e ávidas por conhecer as receitas. Todos queriam aprender a cozinhar o que os Midlej, Ganem, Rabat, Maron, Medauar, Hage, Chaui, Challoub faziam em casa. Minha mae aprendeu a fazer homus tahine, eu copiei a receita e eu não vivo sem isso. Faço a pasta com frequência, e em quantidade enorme, regada com azeite extra-virgem. Devoro com pão, substituindo o queijo e presunto, reduzindo a consumo de gorduras animais. E, sem querer me gabar, e já me gabando, o homus que preparo é bom-bom. Quem provou disse que é tão bom ou melhor que o dos restaurantes. Também preparo saladas de trigo, inspiradas no tabule, variando os ingredientes, passando pela ricota, cenoura ralada, pepino, ervilha e até pelo tofu grelhado com alho. Quando encontro hortelã no mercado, é uma festa, a salada fica genial. Quando nao acho, o coentro quebra o galho.

A cozinha do Oriente Médio caiu nas graças dos canadenses - e do mundo - pelo sabor delicado e pelos ingredientes leves. O homus é adorado por carnívoros e herbívoros. Aqui acha-se ele pronto, com diversos sabores adicionados: alho grelhado, pimentões, cebolas grelhadas, azeitonas, etc.

Quando comecei a pesquisar sobre cozinha baiana, na época da Faculdade de Comunicação, conversei longamente com senhoras de algumas dessas famílias vindas do outro lado do mundo. Fiquei impressionado com a paixão pela culinária, com as lembranças que as comidas traziam, com os procedimentos de preparo. Com a emoção de falar das melhores recordações que a comida traz. Quase que eu mudo o foco do meu trabalho. Quase que paro de falar do dendê e do acarajé e vou falar da cozinha árabe do Sul da Bahia. Da presença do quibe no tabuleiro da baiana.