16.5.05

O frio em uma terra quente

As freqüentes variações de temperatura em Salvador têm causado estragos na saúde dos habitantes da cidade. Muita gente reclamando de dores e se ausentando do trabalho. Eu sinto uma sensação às vezes estranha, às vezes agradável: ritmo mais lento, o corpo só faz pedir repouso, parece estar querendo se poupar. Aproveito para ler. Terminei Apontamentos de História Sobrenatural, de Mário Quintana. Estou iniciando A Paixão Segundo GH, de Clarice Lispector.

O sol de quase-inverno brilhou no domingo. Sem muito calor, um dia de muita luminosidade. Às portas da estação mais fria do ano, as pessoas ficaram curtindo na praia. A cidade é tão quente que o frio máximo acontece sob o ar-condicionado das salas de cinema. É a oportunidade que as pessoas têm de tirar jaquetas e agasalhos do armário. Nesta terra, fica-se feliz por um dia com um pouco mais de frio, quando se pode vestir alguma roupa diferente. Isso pela manhã ou pela noite, pois ao meio-dia o calor não dá trégua, seja verão ou inverno.

Uma provinha de Quintana, com a cara da preguiça de acordar no inverno:

O Tempo

O despertador é um objeto abjeto.
Nele mora o Tempo. O Tempo não pode viver sem nós, para não parar.
E todas as manhãs nos chama freneticamente como
um velho paralítico a tocar a campainha atroz.
Nós
é que vamos empurrando, dia a dia, sua cadeira de rodas.
Nós, os seus escravos.
Só os poetas
os amantes
os bêbados
podem fugir
por instantes
ao Velho... Mas que raiva impotente dá no Velho
quando encontra crianças a brincar de roda
e não há outro jeito senão desviar delas a sua
cadeira de rodas!
Porque elas, simplesmente, o ignoram...

1 comment:

MARY said...

AMEI, GOSTARIA DE CONHECER O NOME DO AUTOR