27.10.11

Amor sob repressão

Continuando a série "De volta ao cinema", fui ver o filme "Circumstance". Com legendas em inglês, no cinema Carlton.

O cinema Carlton passou recentemente por uma reforma, é um dos mais antigos de Toronto e, por mais de uma vez, esteve ameaçado de sumir, por causa da especulação imobiliária na cidade. O Carlton fica em região central e muito valorizada. As nove salas são pequenas mas as poltronas sao confortáveis. É um dos poucos endereços em que é possível ver filmes europeus em Toronto. O Carlton também exibe pequenas mostras de filmes estrangeiros.

Ao chegar no Canadá, fiquei surpreso com o pouco acesso aos filmes fora do circuito norte-americano. Em Salvador eu via com frequência filmes europeus, iranianos, chineses, coreanos, taiwaneses, japoneses. Em Montréal os filmes europeus estão mais presentes, principalmente os franceses, embora não nas grandes redes "plex". Em Toronto é preciso vasculhar ainda com mais calma para achá-los. E, entre os poucos locais que os exibem, estão as salas do cinema Carton.



O filme Circumstance é dirigido por uma americana-iraniana, rodado no Líbano, com recursos do Sundance Festival. Dinheiro americano, portanto. Duas adolescentes vivem uma paixão quente enquanto seguem a vida de baladas e conflitos familiares em Teerã. O filme tem cenas lindas, as duas garotas são de uma beleza inacreditável.

O Irã, como sempre, nos traz mais incógnitas do que respostas. Como uma população tao culta, tão avançada, independente, se deixou dominar, até hoje, por uma ditadura tão autoritária? Talvez o caráter teimoso do Irã esteja refletido no enfrentamento ao poder ocidental.

Os iranianos são libertários, são progressistas. As mulheres iranianas não usam o véu quando saem do país. Os seus maridos não exigem isso. As mulheres muçulmanas que só deixam os olhos à mostra, mesmo morando em países ocidentais, vêm de alguns países do Oriente Médio ou da África.

Durante todo o tempo que via o filme, eu ficava me lembrando dos meus amigos iranianos de Montréal. Sempre muito simpáticos, gentis, atenciosos, educados. Praticamente todos engenheiros, recrutados pelo governo do Québec, assim como eu. Para fazer a entrevista de imigração eles precisam sair do país. E o governo iraniano dificulta a aquisição dos documentos. Eu ficava comparando os traços físicos dos atores com os meus amigos. Muitos realmente se pareciam.

A influência americana é percebida no culto à música, shows e filmes vistos, normalmente às escondidas, sob forma de arquivos digitais e DVDs pirateados. Fiquei pensando na verba americana usada provavelmente para divulgar seus produtos culturais e conquistar a juventude de um país sob repressão.

Circumstance gerou controvésias, como seria esperado. Algumas críticas acusam o filme de ser pouco convincente, inclusive pelo sotaque das atrizes, que são de origem iraniana, mas criadas nos Estados Unidos. De outro modo a produção seria impossível, uma vez que o sexo é um dos maiores tabus do Irã e as relações homossexuais são punidas com morte. Mas, além da beleza plástica e do tema controverso, o filme é muito interessante por mostrar o estilo de vida underground de Teerã, nada muito diferente do mundo ocidental: festas, música eletrônica, sexo e drogas.

15.10.11

Um dia eu gostei de cinema

Descobri o cinema de autor na época de estudante universitário em Salvador. Eu tinha um amigo que era uns dois anos mais jovem, ainda estava na escola, mas já tinha o paladar cinematográfico apurado. Ele conhecia nomes que eu nunca tinha tinha ouvido falar: Fellini, Bergman, Antonioni, Kurosawa, Godard. Aos poucos os nomes começaram a ficar familiares e eu também fui aprendendo a gostar das obras cinematográficas de cada um deles. Era uma nova linguagem que se abria à minha frente. Em geral filmes de ritmo lento, diferentes das grandes produçoes americanas, e que me causaram inicialmente um certo estranhamento, mas que aprendi a apreciar.

La Dolce Vita de Fellini
Nessa época havia um cine-teatro no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, no Largo da Mariquita (adoro esse nome). Era o Maria Betânia, que depois fechou e virou bingo. Hoje, se nao me engano, tem um restaurante no lugar. O Maria Betânia exibia clássicos do cinema. Além dos diretores que já faziam parte da minha lista de "já vi" ou de "ouvi falar", conheci outros novos, principalmente franceses.


O cine-teatro Maria Betânia tinha um bar-café ao lado, onde os amigos se reuniam, depois do filme, para conversar sobre o que tinham visto, discutir temas profundos ou falar bobagens. Em geral, a gente ia aos domingos à noite. E ficava lá, proseando, bebendo, tentando esquecer o início de uma nova semana de trabalhos e estudos. Em um esforço inútil de empurrar a segunda-feira para longe.

Havia também ( acho que ainda há), uma pequena sala na Biblioteca Central de Salvador, a Sala Walter da Silveira, que eventualmente exibia algum clássico ou festival de cinema. Foi lá que vi Os amantes de Pont Neuf, Império dos Sentidos, A  Mulher do Atirador de Facas, o Festival Mix Brasil, entre tantos outros.


Saí de Salvador por quase 5 anos e a minha frequência ao cinema ficou limitada ao período de férias, em Sao Paulo, lá mesmo em Salvador ou outra capital. 

Para poder assistir a um filme, eu preciso da concentraçao em uma sala escura. Preciso do tempo de me organizar, de sair de casa, de desligar a internet, o telefone e me dedicar totalmente à projeçao. O filme tem que ser o evento de sair de casa. Ou do trabalho. Ou da escola. Pode ser o início da noite. Pode ser a continuaçao do café. Por isso o DVD caseiro nao funciona para mim. Eu simplesmente nao consigo ficar parado dentro de casa e me concentrar para ver um filme. 

Nisso eu sou muito diferente do que o meu pai era. Grande apreciador da sétima arte, acostumado a ir com frequência ao cinema na juventude, ele teve uma grande alegria ao adquirir um aparelho de video-cassete, dos primeiros modelos produzidos no Brasil, e poder ver um monte de filmes em casa. E ele via mesmo. Virava noites lhes assistindo. Chegava a alugar uns 10 filmes para ver durante o final de semana. Era uma época em que os cinemas nas pequenas cidades foram fechados e nao restava outra opçao que ver os filmes em casa.


Pois bem, quando voltei para Salvador, uns cinco anos depois, tive a boa surpresa de ver algums amigos envolvidos na administraçao de um cinema. Que nao era só um cinema. Também era café e galeria de arte. Quanta coisa vi ali. Almodovar, Woody Allen, diretores chineses, franceses, iranianos, argentinos, do mundo todo. Uma época de cinema globalizado estava se abrindo em frente aos meus olhos. O filme era o início da noitada. Começava com um café, depois a exibiçao, a seguir o bate-papo com os amigos em algum barzinho e talvez até alguma festa mais tarde.
 
Gabbeh, do iraniano Mohsen Makhmalbaf
Voltei a estudar e entrei na Faculdade de Comunicaçao. A minha curiosidade, senso analítico e o meu repertório de cinema aumentaram. Também aprendi a admirar pessoas que, além de apreciar em profundidade, possuem um conhecimento bem extenso sobre a arte cinematográfica. Era fascinante ver aquela de aula sala cheia de jovens (eu um pouco mais velho), normalmente inquietos, recém-saídos da adolescência, completamente calados, totalmente absorvidos pelas sequências lentas de um filme iraniano, saídas de uma televisao e de um velho video-cassete.

Após terminar a Faculdade, passei a frequentar as sessoes de pré-estréia para os jornalistas, que aconteciam normalmente às segundas-feiras à noite. Oba! O prazer do final de semana se extendia por mais um dia.

Hoje eu ando um pouco distante do cinema. Como disse antes, nao tenho muita calma para ver os filmes em casa. Entao, quando vou ao cinema, me deparo com uma nova realidade. Os filmes sem legenda.

Em Montréal, filmes franceses ou americanos dublados em francês. Em Toronto, os filmes originais em inglês. Que dificuldade, para quem, além de ter deficiência auditiva, ainda passou toda a vida lendo legendas. E, ainda por cima, ingressos caros. Que saudade dos convites "custo-zero" para jornalistas.

Talvez eu tenha ficado muito exigente comigo. E, por ainda nao compreender tudo que é falado, sobra uma ponta de angústica por perder alguma informaçao importante, por nao conseguir sentir totalmente, fruir, opinar, discutir. Acho que preciso voltar a apreciar sem nenhuma exigência, apenas sentindo. Ou, por enquanto, assistir a filmes estrangeiros, falados em outra língua. Com legenda em inglês.



28.9.11

Os santos gêmeos

As lembranças sao intimamente ligadas aos sentidos: aromas, sabores, imagens, sons, sensaçoes táteis. Talvez as recordaçoes que restem mais intensas sao ligadas a comida. Cozinhar, ou mesmo ofertar alimentos para outras pessoas, é um ato de bondade e generosidade. A mae passa amor e proteçao aos filhos quando oferece o que comer. E essa impressao parece ficar registrada no cérebro indefinidamente. Quem oferece um banquete, além de ampliaçao de relaçoes diplomáticas e celebraçao do prazer de festejar, está abrindo as portas da casa e também da alma.

A cozinha da Bahia e os seus pratos dourados pelo dendê vao além do simples prazer. A maior parte das receitas tem origem nas oferendas aos deuses do candomblé. Cada orixá tem as suas preferências e cabe aos devotos agradar da melhor maneira possível. O sincretismo religioso expandiu a cultura do paladar. As promessas feitas aos santos católicos sao pagas com comidas aos seus respectivos orixás, os deuses das religioes que vieram da Àfrica.

Sao Cosme e Sao Damiao
O caruru completo dedicado a Sao Cosme e Sao Damiao vira um banquete: vatapá, caruru, xinxim de galinha, arroz branco, farofa de dendê, feijao fradinho, cocadas, acarajé, abará. A lista é grande e pode aumentar, de acordo com o gosto e a disposiçao de quem o oferta. A culinária do dendê, apesar de restrita à Bahia, tem ares de prato típico nacional. Popular entre todas as camadas sociais da naçao baiana, é uma cozinha refinada e específica. Como um simples exemplo, um dos temperos utilizados é o camarao seco e defumado, transformado em pó.  

Apesar de  parecer ser uma cultura dominante, os pratos feitos com dendê nao sao unanimidade em toda a Bahia. Ao viajar para o interior do Estado, além do clima mais seco do sertao, a culinária também vai mudando e os hábitos alimentares ficam mais parecidos com o nordeste brasileiro: carnes, queijos e manteiga entram no cardápio.   

Na época de Sao Cosme e Sao Damiao online, fica mais difícil esquecer da data e da comida especial. Um vídeo de Maria Betânia cantando e declamando a bela oraçao dos santos gêmeos virou sucesso na internet e suas redes sociais. Baianos exilados prolongam as lamúrias da saudade de casa.

Mas tem gente que nao se rende e continua cozinhando para relembrar e celebrar suas origens, as pessoas queridas e os sabores inesquecíveis. Para felicidade geral da naçao baiana em Toronto, um amigo meu tem preparado - já é o segundo ano da tradiçao - um caruru completo para Sao Cosme e Sao Damiao. Com azeite de dendê e camaroes secos trazidos da Bahia, o que é mais incrível. Aos baianos juntam-se outros brasileiros que nunca haviam provados pratos de dendê. Até canadenses se rendem àqueles pratos amarelos.

Que alegria poder desfrutar,a tantos quilômetros de distância da terra natal, os sabores deliciosos, que trazem tantas lembranças, que acariciam o coraçao e que fortalecem as relaçoes sociais e de amizade.






17.9.11

Personagens de Toronto

Personagens da vida de Toronto. A garota nos seus 15 ou 16 anos chega na sala de musculaçao com a bola de basquete debaixo do braço. Coloca a bola em um canto da sala e começa a se exercitar, sem se importar com a maioria da populaçao masculina ao redor. Ela tem a pele morena-escura, veste bermudao, camiseta de malha, tênis. Um grande lenço cobre cabelos, orelhas e pescoço. Muçulmana.

Comentário:
Há algumas coisas que me chamam a atençao na "cena" da garota muçulmana na musculaçao. A integraçao aos hábitos da sociedade ocidental (os esportes e as roupas esportivas, neste caso) de uma provável segunda segunda geraçao de imigrantes. A manutençao do vínculo com a cultura original - o veu. Será que ela usa só porque o pai obriga? Será que só por ela, ela continuaria usando? Será que ela acha que praticar esportes sem o véu nao seria mais confortável? E, a maior contradiçao que acho, o véu e as roupas longas serveriam para "proteger" a mulher dos olhares e da atraçao masculina, essa é a grande finalidade entre os muçulmanos. Na cena da garota, o véu é mantido, mas as roupas sao encurtadas, algo necessário para a prática dos esportes.

14.9.11

Por aí

Vou caminhando, olhando para os vivos e conversando com os mortos. As pedras cinzentas surgem à frente, presas entre grades, como se as impedissem de voar. Tenho a impressao que vi tudo, que o filme se repete, que o novo acabou, que a roda gira e tem que girar. Que novas mordidas serao possiveis na maça universal. A paz, tao esperada, aos poucos se instala, entre desafios, angústias e alegria. Dentro do verde que ajuda a respirar, do verde que tranquiliza, do verde ao lado do cinza louco e das cores berrantes. Tudo será revivido, para o prazer ou para a insatisfaçao. É tempo de sentir as pontas perfurantes da angústia. É tempo de buscar a energia onde ela insiste em se mascarar. É tempo de simplicidade e dos poucos caprichos. É tempo de canalizar a alegria. É tempo de ousar e de recuar. É tempo de refletir, de rezar, de sonhar, de pedir, de olhar para dentro, de fazer planos. É tempo de resgatar e de querer. É tempo de descer as maos na terra e esperar para ver. É tempo de Júpiter em fim de ciclo astral.

10.9.11

The Couchsurfing Experience: da gafieira aos sinos

Couchsurfing, que literalmente significa "surfar no sofá", quer dizer conseguir hospedagem gratuita, para passar uma noite ou alguns dias, em qualquer canto da casa de alguma alma bondosa que abra as portas do seu lar doce lar. Seja para dormir em cama, sofá, colchão ou qualquer outro local com mínimo de conforto.

Essa idéia inicial, gerada a partir de um site internet (www.couchsurfing.org), ganhou o mundo e se tornou um sucesso. O site tem mais de 3 milhões de participantes.

Em um universo de pessoas cada vez mais egocêntricas e fechadas, que vivem focadas em seus computadores, seus interesses e suas redes sociais, é esperançoso ver que existe tanta gente generosa e de cabeça aberta, que abre as trancas e cadeados de suas casas aos viajantes desconhecidos, com o simples intuito de fazer o bem, conhecer pessoas, conversar e intensificar o intercâmbio cultural, seja nacional ou internacionalmente.

Se não quiser hospedar ou conseguir hospedagem, o participante do Couchsurfing pode se disponibilizar apenas para sair para tomar um café ou um drink com o visitante. E, a partir daí, trocar informações sobre a cultura local, ir mostrar a cidade, ou apenas conversar. Ainda que não haja impedimento para isso acontecer, a princípio o Couchsurfing não é um site de paquera.

Existem tambem os grupos das cidades e de temas específicos. Participar em um desses grupos é uma ótima fonte de informações do que está acontecendo. Eventos, descontos, convites, etc. As pessoas combinam as mais diversas programações. Intercambios linguisticos, pique-niques, festas, cafés. Visitantes convidam os nativos para tomar uma cerveja ou um café. Pedem indicações de bons restaurantes, atrações turísticas, bares e casas noturnas. Os moradores da cidade combinam entre si jantares e passeios e aproveitam para ciceronear os visitantes.

A minha aventura Couchsurfing comecou ainda no Brasil, em 2007. Eu me cadastrei no intuito de praticar francês e inglês, durante a minha estadia em Ilhéus, enquanto aguardava o visto canadense. Cheguei a fazer alguns contatos, mas não aconteceu de sair para café, drinque e mostrar a cidade para ninguém.

Chegando no Canadá, a participação tomou corpo. O norte-americano é tido como frio e distante, muito focado em suas ações, mas adora se reunir em grupos, em torno de um objetivo em comum, seja atividade filantrópica ou diversão. Então algum tipo de objetivo é necessário para que os encontros sociais se realizem e as pessoas se aproximem.

Existe um outro site, chamado Meet-up (www.meetup.com), que também é bastante utilizado para organizar reuniões. E, olhe, tem gente se reunindo para tudo, desde caminhar no parque até aprender japonês.

Em Montréal, a partir de um convite para um evento linguístico francês-português do CS, eu, outros brasileiros e mais um grupo de québécois interessados em português e na cultura brasileira, começamos a frequentar um bar e casa de shows chamada Les Bobards, onde aos domingos sempre rola música do Brasil para dançar. A gente ficava tomando cerveja, enrolando a língua, ensinando um pouco da sua linguagem nativa e aprimorando a estrangeira.

Conheci pessoas muito interessantes, com as quais mantenho contato até hoje. Depois da sessão de trocas linguísticas era a hora de música e dança. Havia um outro grupo que aprendia e praticava gafieira, ao som de música mecânica ou do grupo que se apresentava. E que nos dava dicas de como dançar o samba em dupla. Depois de praticar português e francês, era hora de mexer o esqueleto.

Em Montréal, tambem tomei muitos cafes servindo de pretexto para praticar frances e ensinar portugues.

Em Toronto, com menos tempo disponível, a minha participação no Couchsurfing ficou reservada ao Toronto Babel Language, um evento que ocorre semanalmente em um bar e onde as pessoas sao convidadas ao intercâmbio linguístico. Neste evento, um retrato do que é Toronto, é possível conhecer gente do mundo todo e praticar línguas inimagináveis. Até inglês.

No último final de semana participei de um jantar organizado por um participante do Couchsurfing. Ele preparou o jantar, cobrou uma taxa mínima e cada um levou sua bebida. O risotto de parmesão estava uma delícia. Conheci gente bem interessante. Da China, da França, da Tunísia. Até do Canadá! Depois fomos para a despedida de um rapaz italiano que, depois de alguns meses em Toronto e muitos eventos Couchsurfing, estava voltando para o seu país.

Um dos canadenses que estava no jantar faz um trabalho genial. É professor de música e toca carrilhao (o conjunto de sinos) em uma grande igreja de Toronto. Ele promove, gratuitamente, um passeio pela igreja onde trabalha e uma apresentação musical naquele que é um dos 11 carrilhoes do Canadá. Para ser considerado um carrilhao, sao necessários pelo menos 50 sinos.

Por dentro da Metropolitan United Church

Entao na mesma semana, fui ver o pequeno show e conhecer a igreja, que fica em um ponto bem central da cidade. Para conferir a apresentaçao musical as pessoas sobem um monte de degraus em uma escada estreita e em caracol. Em outra etapa, o grupo sobe mais escadas e chega até o teto da Igreja, de onde se tem uma bela vista de Toronto. Depois o grupo saiu para jantar em um restaurante bem canadense. Como sempre, nessas ocasioes, peço a especialidade da casa. Hambúrguer de carne Angus com batatas fritas e salada. Simples e bom.

Vista da outra capela, a partir do teto

Os sinos

O aparelho que faz os sinos soarem

Crédito da foto da dança: Dioni Pereira.

3.9.11

Mercúrio e Urano em sintonia

No dia em que eu me deparei com a internet, ou em que me dei conta do seu poder, eu dei graças a Deus por ter nascido nesta época, para poder presenciá-la e por ter acesso a ela. Para quem está na faixa dos trinta, vinte anos, ou menos, a internet faz parte da rotina desde a infância. É algo dado por certo. Para quem veio ao mundo antes disso, nao era bem assim.

Os discos americanos e europeus demoravam a chegar no Brasil e eram caros. As letras das músicas só existiam nos encartes que vinham com eles. Nos dias atuais, os sons, as imagens e textos estao à distância de um curto clique. Pelo You Tube acontece a mágica de poder ver os videos de músicas que fizeram parte da minha história, infância e adolescência, e que só agora consigo vê-los. Na época, os videoclips eram exibidos muito esporadicamente na tv. A chegada da MTV ajudou bastante, mas o que veio antes dela ficou praticamente esquecido. O You Tube resgatou tudo. O You Tube resgatou a memória auditiva e visual da humanidade.

Um fato marcante para mim do poder da internet, ainda com poucos recursos, foi quando viajei pela primeira vez para fora do Brasil, em 1997. Antes de viajar, acessei o site da charmosa cidade de Brighton (www.brighton.co.uk), no Reino Unido, onde iria estudar inglês. Assim tomei conhecimento das várias opçoes de lazer da cidade e do que me esperava por lá. Saí do Brasil com lista cheia de endereços e dicas.

Eu já tinha e-mail! Enquanto vários colegas europeus da escola nao sabiam do que isso se tratava.

Ao voltar, depois de aproveitar quarenta dias de viagem entre França e Inglaterra, uma grande alegria foi ouvir "You got to show me love", que estava bombando em Londres, tocando no aeroporto de Salvador. E olhe que ainda nao havia ainda MP3, mas o intervalo de tempo para chegada das novidades era bem mais curto do que na década anterior.

Com o auxílio da internet e da comunicacao que ela proporciona, a nova geraçao é bem mais preparada. E, acredito também, mais inteligente, pela exposiçao ao grande volume de informaçoes. A garotada aprende inglês jogando videogames e vendo vídeos no Youtube. Falar mais de uma língua, que em um passado distante era privilégio de intelectuais e acadêmicos, hoje é comum. As pessoas (ao menos os nao-anglófonos) que gostam de aprender, ou que mudam de país, falam duas, três ou quatro línguas diferentes. Quanto aos anglófonos, coitados, permanecem no seu berço esplêndido limitado e nao fazem muito esforço para aprender outras línguas. Para que? A música, o cinema, a internet, as redes sociais, a comunicaçao internacional, tudo isso nao é em inglês? Entao por quê gastar energia e tempo aprendendo outra língua? Coitados.

A internet nao cansa de surpreender. Quando se acha que nao há nada mais para acontecer, surgem compartilhamento de arquivos, programas de bate-papo, os blogs, os livros eletrônicos, culminando com as redes sociais. E muita coisa ainda vem, pode crer. O Facebook, mais que o Orkut, me reaproximou de bons amigos com os quais tinha pouco contato. E me permite, a milhares de léguas de distância, em outra roça, ter notícia do que acontece, participar e me comunicar com pessoas queridas.

Os astros me proporcionaram um aspecto harmônico de Mercúrio(a comunicaçao) em Gêmeos com Urano (a inovacao tecnológica) em Libra. Acho que por isso gosto tanto desse assunto.

29.8.11

Bichos urbanos

Para os turistas, especialmente os vindos de países de clima diferente, eles sao quase seres mágicos, saídos de algum desenho animado. A pelagem é bela, eles parecem dóceis. Principalmente quando querem um pedaco do seu lanche. Chegam a fazer cara de menor abandonado e carente, de maos unidas, como se implorassem a sua ajuda. Estao em praticamente todos os parques e arvores do Canadá, nas pequenas e grandes cidades. Estou falando dos esquilos.

Os esquilos de Montréal sao diferentes dos de Toronto. Os esquilos que falam francês sao mais peludos e de cor marrom em varias tonalidades. Os esquilos que falam inglês, pelo menos os do centro de Toronto, sao totalmente pretos. E bem mais ariscos. Assim como o homem-aranha, eles escalam prédios. A técnica é a seguinte: eles abrem as patas para aumentar a fixaçao no concreto e, com as garras afiadas, lá vao eles subindo as paredes parecendo aranhas, em uma velocidade impressionante.

Eu moro no decimo primeiro andar e de vez em quando ha um visitante dentuço e peludo na varanda. No princípio achei interessante, cheguei a espalhar uns amendoins para atrair os simpáticos invasores. Ate que vaso da mini-arvore, que fica junto da porta de vidro da varanda, começou a ter a terra toda revolvida.

Os esquilos passaram a achar que a minha mini-árvore é o seu habitat natural. Um dia um deles ainda me deixou um presente! Uma noz inteira em cima do sofá da sala. Primeiro achei que tinha sido o meu roomate (co-locatário) que havia esquecido a noz ali, mas ele negou de pés juntos. Ninguém nunca comprou uma noz inteira, com casca, desde que moro aqui nesta casa. Acho que o esquilo quis fazer uma gracinha como se fosse por aluguel do uso da mini-árvore. Engraçadinho.

O meu roomate, um dia vendo a tv, presenciou a explicaçao da terra revolvida. O esquilo sobe, apoia a noz na borda do vaso para tentar quebrá-la e em seguida devorar a amêndoa. Entao, desde que a finalidade da invasao foi descoberta, ou a porta de vidro ou a tela de proteçao sempre ficam fechadas, para impedir a entrada dos escaladores dentuços.

Hoje acordei e vi uma das minhas preciosas maças, salvaçao dos intervalos famintos de trabalho, que normalmente repousa no prato sobre a mesa da sala, toda roída no batente da varanda. A porta da varanda tinha ficado aberta durante a noite! Putz. O esquilo ainda deixou metade da casca de um amendoim e a terra do meu caqueiro revolvida e espalhada pelo chao ao redor. A mini-árvore, da qual orgulhosamente reconheci exemplares completos e adultos em ruas de Salvador, pelo menos continua intacta.

Uma professora de francês em Montréal, Mme. Laframboise, contou uma vez na sala que um esquilo a deixou em uma situacao, digamos, engraçada. Para nao dizer vexatória. A sua vizinha plantava cuidadosamente vários bulbos de papoula no jardim, esperando com ansiedade a primavera seguinte e o espetáculo das cores. Um esquilo vinha, cavava, retirava o bulbo e enterrava em outro local. Onde? No jardim da minha professora, que viu o seu jardim florescer sem nenhum trabalho. Difícil foi explicar para a vizinha que havia sido o esquilo-jardineiro o autor do projeto de paisagismo.

22.8.11

A bicicleta e a carroça

O movimento de incentivo ao uso de bicicleta nas grandes cidades me traz um gosto de passado. Passado porque é um retorno à época em que o automóvel não existia ou era algo a que a população ainda não tinha acesso. Quem poderia imaginar que após décadas sonhando em ter um veículo motorizado, as pessoas voltariam a desejar poder passear ou se locomover de bicicleta pelas ruas da cidade?

Os benefícios todo mundo já sabe, e os governos, pelo menos os mais esclarecidos, têm incentivado e criado condições, leia-se ciclovias, "bike lanes" ou "pistes ciclables" para o uso das magrelas. Em Toronto e Montréal há inclusive biclicletas públicas, alugáveis por qualquer pessoa. Os resultados são: melhoria das condiçoes de saúde da população, com a consequente economia de recursos da saúde pública, diminuição da poluição e dos engarrafamentos, socialização, economia doméstica do valor pago ao transporte ou ao combustível.

O passe mensal de metrô e ônibus em Toronto custa 121 dólares. Com esse valor compra-se uma bike usada ou nova em promoção na loja. Se a distância entre casa e trabalho permite o deslocamento via duas rodas, em um mês a bike já se pagou. Além de tudo isso, ainda há a diminuição do stress do trânsito para quem dirige.

Circular de bicicleta faz parte da minha história. Desde a pré-adolescência, quando o "camelo" ficava hospedado na casa dos meus avós, porque a minha casa era localizada em um morro com uma ladeira enorme, impossível de ser vencida com a força do pedal. Depois, com a ida para Salvador, outra terra de imensas ladeiras, onde o uso da bike só é possível na parte atlântica, as duas rodas viraram parte do passado.

Quando morei em Barreiras, no Oeste da Bahia, onde trabalhei por quatro anos e meio, retornei ao prazer de pedalar e passei muito tempo me deslocando de bicicleta. Nada se comparava ao sabor do vento, à sensação de liberdade e de relaxamento que o ciclismo trazia. A cidade é plana e eu vivia rodando para cima e para baixo. Pegava estradas vicinais e ia fazer trilhas em busca dos inúmeros rios de água cristalina que se espalham pela região.

Mas nem sempre as pessoas entendem os gostos pessoais, preferindo os gostos médios ditados pela sociedade de consumo. Em Barreiras, eu tinha um amigo de El Salvador (ou seria Nicarágua, nao lembro mais), um agrônomo e professor universitário, que se locomovia, inclusive para ir às aulas, em uma bike bem velhinha. Dessas que hoje faria o maior sucesso entre os hipsters. Veja aqui o que é isso.

A tal bicicleta não era bem vista pelos alunos. Era quase detestada.

Eles, principalmente as garotas, achavam que o mestre deveria ter um carro, algo mais compatível com o seu status de professor universitário. E de solteiro, diga-se de passagem. Mas ele nem ligava, gostava mesmo era de pedalar. Ou de economizar dinheiro e, de quebra, ter mais saúde e boa forma física.

Naquela cidade, eu usava a bicicleta para ir a todos os locais, mas nem precisava para ir ao trabalho. Eu morava perto, então ia andando. Tambem não saía à noite de bike para festas, como já vi várias pessoas fazendo em Montréal e Toronto, quando o clima e a temperatura permitem.

Sempre que eu saía para algum bar ou festa, voltava de carona, ou mesmo a pé. Cidade pequena, tudo perto. Eu até gostava, pois acabava fazendo novas amizades com quem me dava carona. Só uma vez, eu me lembro, o transporte foi bem diferente.

A festa tinha acabado, o dia já estava claro. Em Barreiras, a rodovia federal corta a cidade pelo meio. Eu e mais duas amigas estávamos na beira dessa estrada, sem transporte público ou carona disponível. Então nós pedimos ajuda a um carroceiro que ia passando.

Ele foi gentil e nos permitiu o acesso ao seu veículo movido a suor animal, de potência 1 HP. Lá fomos nós, voltando para o centro da cidade em cima da carroça, rebocada por um cavalo. Cavalo não, certamente um burro ou jegue. E a gente se divertindo um bocado, dando risada da cena, com o teor alcoólico talvez ainda alto, achando tudo engraçado. Rindo até das mercadorias, das frutas e verduras que dividiam o espaço conosco, e que nos olhavam desconfiadas. O carroceiro provavelmente estava indo para a feira.

15.8.11

Gourmet ou gourmand?

Comentario na publicacao do Facebook de AF sobre a manicoba de Cachoeira.

Soh para esclarecer (ou aumentar rss) a discussao sobre os termos gourmet/gourmand, eterna duvida que tambem me acompanha desde a Faculdade de comunicacao. Segundo a Wikipedia (em ingles, curiosamente nao ha verbete em frances), o termo gourmet estaria relacionado aa pessoa com gosto refinado ou que tem bastante conhecimento sobre alimentos e sua preparacao. Ja gourmand significa aquele que gosta de comida em grande quantidade, ou seja, o glutao. Gourmand vem de gourmandise, isto eh, glutonaria, gula. Quando se trata da deliciosa manicoba, acho que nao tem gourmet ou gourmand que resista. Para mim, os dois termos se aplicam.

12.8.11

Ligante

Nao tenho do que me queixar da minha fase pós-adolescente. Antes de completar dezoito anos, já estava na universidade, morando na capital. Tive todo o apoio da família para estudar e tinha uma vida confortável, mas sem luxos. Além disso, ainda tinha uma ótima turma de amigos da minha cidade natal, Ilhéus. Depois que a escola terminou, alguns continuaram morando lá, estudando na universidade da própria cidade. Outros, como eu, foram estudar em Salvador. Outros foram para Sao Paulo. Outros nao quiseram saber de estudar e foram trabalhar.

Os amigos tinham muito em comum, apesar de nao pertencerem à mesma sala de aula. Havia diferenças de idade, mas também havia laços familiares. Talvez o que mais nos ligassse fosse a irreverencia à cultura e ao status quo da nossa cidade, engessada por muito conservadorismo, tradicionalismo e exibiçao da riqueza gerada pela monocultura agrícola do cacau, naquela época com um altíssimo preço no mercado internacional e com pouca produçao mundial. Isso sem contar que era final dos anos 80, ainda havia resquícios da ditadura e forte papel da Igreja Católica, mantenedora do colégio em que estudávamos.

Se por um lado, essa curiosa estrutura social e financeira gerou obras fundamentais da literatura brasileira, principalmente pela criatividade de Jorge Amado, ela causava outros tantos de desconforto pela exibiçao de riqueza e distanciamento entre pessoas. Muitos se consideravam pertencentes a classes distintas e elevadas. O distanciamento atingia todas as faixas etárias, inclusive no colégio em que estudávamos.

Mas a nossa turma nao se reverenciava àquela estrutura, mesmo porque ninguém pertencia à alta classe. Havia gente que nao queria nada com o estudo. Tinha gente que era pobre e se esforçava para ter sucesso no colégio e na vida. Havia gente com a veia artística acentuada. Tinha gente que só queria uma vida alternativa. Havia gente que tentava encontrar o seu papel e o seu caminho. Enfim, adolescentes.

Cada um escolheu a sua área de estudos e trabalho, mas, nas férias, a gente sempre voltava para Ilhéus e fazíamos farras e festas deliciosas. Eu tinha a impressao que aproveitava mais da minha cidade natal quando já nao morava mais lá.

Passada a época da universidade, os caminhos se distanciaram ainda mais. Os trabalhos, estudos aprofundados e os amores mudaram as pessoas de cidade, de estado, de país, de continente. No entanto, as relacoes nao foram perdidas. Eventualmente os astros ajudam e os amigos se encontram. O carinho e a alegria do reencontro continuam intactos.

Felizmente, a tecnologia evolui e surgiram as maravilhas da redes sociais na internet. A turma volta a se reunir, cada um teclando do seu canto, por intermédio do Facebook.

Toda essa introduçao foi para contextualizar um bate-papo regado a lembranças que tivemos nos últimos dias, iniciado pela publicaçao de uma foto da nossa antiga escola.

Em Ilhéus havia um pequeno comércio de batidas (coquetéis, se quisermos chamar assim), chamado Ligante do Almirante. Lembro que o meu pai falava que conhecia desde a juventude. Uma delicia, cremoso, feito de várias frutas. E subia a cabeca de tal jeito que a gente achava que o Almirante, o proprietário e fabricante, adicionava alguma substância extra e misteriosa, nao informada, talvez nao permitida pela saúde publica. O Almirante resolveu expandir o seu negócio, levando o seu Ligante para as festas, shows e eventos. A nossa turma descobriu a bebida e curtimos muito, tomando porres e mais porres.

Com o sucesso nas festas ilheenses, o Almirante montaria barracas nas festas de largo de Salvador e o sucesso foi imediato. A criatividade do soteropolitano logo se destacou para dar nome às novas batidas de frutas. Surgiram o Colante, o Excitante, o Pegante, entre outros. Claro que nenhum do Almirante. O tempo passou e so agora, via internet, fico sabendo que o Almirante faleceu. Imediatamente fiquei com pena de que ele nao tenha deixado nenhum herdeiro para continuar a tradicao dos deliciosos coqueteis, uma vez que nao ouvi mais falar no tal Ligante.

Foi entao que uma das amigas, que continua morando em Ilhéus, me disse que eu estava enganado. O Ligante continua a ser fabricado por um filho do Almirante. Mas sem o mesmo sucesso. Talvez sem aquele extra na receita, que tanto embalou os festeiros no passado, que fazia a diferença e que ninguém conseguiu descobrir o que é. Alguns se arriscam a dizer que é um famoso xarope que causa esquecimento no dia seguinte. Ou um comprimido que reduzia o apetite e fazia perder o sono. Mas isso parece ser lenda urbana.

11.8.11

Pas diplomatique ce monsieur

Voici Leonie Rouleau ce que Le Devoir dit au sujet de M. Harper au Bresil.

Incident diplomatique à Brasilia? | Le Devoir

Leonie Rouleau - et un philosophe a répondu : «Mal élevé».
Les Brésiliens ont découvert le Stephen Harper que les Québécois connaissent: inflexible, intraitable, mesquin et revenchard. Comme un petit gars en culottes courtes, un enfant gâté qui fait des crises chaque fois qu'il n'obtient pas ce qu'il désire. Bientôt on ne souhaitera plus du tout recevoir la «visite canadienne» un peu partout. «Mal élevé» est le terme employé par la presse brésilienne.

Danilo Menezes - Em bom português: malcriado.

7.8.11

Línguas que seduzem

Ainda há muita estrada à minha frente quando se trata de inglês. Apesar de ter estudado e experimentado mais a língua inglesa do que a francesa durante a vida escolar e profissional, o mergulho no francês foi mais profundo. Vários cursos intensivos, sessoes sobre a cultura do Québec, treinamento de francês escrito, um ano de curso técnico com sete horas por dia de convívio na língua de Molière. Várias leituras de autores franceses e quebequenses durante invernos cinzentos em Montreal.

A decisao de vir para Toronto foi rápida e nao sobrou muito tempo para a dedicaçao ao inglês. O convívio em português também nao ajuda muito. Estudo de inglês no Canadá, em sala, foram apenas os quatro meses de aulas diárias em Montreal.

Com a leitura de jornais e livros, o meu vocabulário vem aumentando consideravelmente. Já consigo ler sem precisar ir toda hora ao dicionário. Às vezes um adjetivo ou advérbio fica incompreendido, mas dá para pegar o sentido geral. À medida que a lista de livros aumenta, o entendimento fica mais firme.

Mas é questao de tempo para acostumar o ouvido. Tem uma hora em que nao adianta estudar mais, pois a língua que as pessoas falam nas ruas é muito mais rápida do que a do professor na sala de aula. Entao o tempo, a convivência com os falantes e a exposicao à uma língua serao os grandes professores. Ouvir rádio e tv ajudam muito também.

Em um mundo altamente conectado, a vontade de aprender mais uma língua sempre fica martelando. Seja pela vontade de fazer uma viagem, seja pela influência de um amigo vindo de outro país, seja pela culinária, seja por uma música, seja por uma atraçao qualquer.

Quando eu morava no Brasil uma das minhas grandes vontades era poder praticar outras línguas, poder entender, falar e ler fluentemente. Esse sonho se realiza duplamente no Canadá, em inglês e francês. E, para mim, essa é uma das grandes riquezas deste país, uma das coisas que mais adoro aqui.

Mas o comichao da superficialidade está sempre à espreita. Entao, pensar em estudar mais uma língua? Calma, nada de longos estudos, pois a prioridade agora é o inglês. Mas no futuro poderá ser italiano. Ou alemao. Ou russo. Cada uma dessas línguas tem os seus atrativos e as suas dificuldades. Vejamos.

Italiano. A proximidade com o português é um grande facilitador. Há o fascínio pela culinária do país, a beleza das cidades e do seu povo. A vontade de rodar toda a bota. Como ponto negativo, a restriçao a um único país. Como uma língua tao bonita nao se expandiu mais pelo mundo?

Alemao. A língua mais falada da Europa, mas que também se restringe à Alemanha e Áustria. Ouço falar que o alemao da Suiça é quase outra língua, os suiços dizem que se chama "suiço-alemao". Tenho muita vontade de conhecer o país, mas tenho a impressao de que os alemaes mais articulados e interessantes sabem falar inglês e vao querer praticá-lo, principalmente com uma pessoa vinda do Canadá (olha eu aí me achando...). Além disso, a língua nao é fácil, tem várias declinaçoes (masculino, feminino, neutro).

Russo. O alfabeto cirílico é lindo, parece um código secreto em um filme de aventura. Está aí um grande desafio: aprender um outro alfabeto. Além disso, há várias declinacoes, conjugaçoes verbais e pouca coisa do francês ou do inglês que possa ajudar na aprendizagem do novo vocabulário. Vantagens: os russos, pelo menos os do Canadá, sao pessoas bem legais, simpáticas, gostam de conversar. Vários países do leste europeu e da Ásia falam a língua russa. Muita vontade de viajar pela Rússia, conhecer Moscou e Sao Petersburgo. E também conhecer a Ucrânia.

Entao, o que decidir? Bom, é coisa para o futuro, para daqui a alguns anos.

17.7.11

Tudo isso online

Coisas fantásticas da internet via Facebook. Conhecer uma música francesa por um filme baixado na internet. Ir atrás de informaçoes. Chegar ao site do autor e cantor. Dar um "like" na pagina Facebook do cantor. O cantor convida para ser amigo no FB. Dias depois, ele informa que disponibiliza os arquivos MP3 de alguns dos seus álbuns antigos, justamente o que tinha "aquela" música.

Conhecer mais cançoes, ouvir sem parar uma delas. Publicar um pedaço dessa letra no mural do Facebook. O cantor percebe e dá um "J'aime" em sua publicaçao. Que mais dizer?

Grosseria gratuita

A possibilidade de comentar e receber comentários na internet, sobre qualquer tema, sempre me assustou, desde a época da Faculdade de Comunicaçao. A raiva e a agressividade gratuita, tao comum entre os internautas brasileiros, pegaram o Chico Buarque de surpresa. Quando comparo os comentários feitos nos jornais canadenses online, percebo mais cuidado e respeito da parte dos internautas. Será isso consequencia do maior nível de educaçao? Com certeza, mas acho que nao é só isso. É um certo traço caracterísco brasileiro, que, no confronto sobre uma idéia, parte para o ataque pessoal, em vez de uma argumentaçao mais educada e bem elaborada. Infelizmente, é a grosseria gratuita.

http://www.youtube.com/watch?v=n5LuD2CFhYE

9.7.11

Do lado de cá

Bike, sol forte, calor, praia do lago, livro na areia, água fria. Cisnes brancos. Cherries and blueberries. Verao do lado de cá.

30.6.11

Método de memorizaçao

O canadense foi nadar na piscina do clube. Antes de cair na água, depositou alguns papéis, previamente colocados de envelopes plásticos transparentes, apoiados na placa de indicaçao de velocidade, para que ficassem em pé. Sim, cada raia tem sua própria velocidade (alta, média ou baixa) e uma placa indicativa com sua cor respectiva. Notei uma curiosidade geral entre as pessoas que estavam por perto. Eu estava na mesma raia e nao resisti. Discretamente fui ver do que se tratava. Era uma lista de verbos em italiano, com traduçao para o inglês.

No final de cada volta, o canadense tirava a cabeça da água e lia a lista, para decorar a liçao do curso de italiano. Ou talvez estivesse estudando por conta própria e tivesse acabado de inventar esse método "genial" de memorizaçao nos intervalos da atividade física. Será que se eu fizesse a mesma coisa com uma lista dos temíveis phrasal verbs do inglês, conseguiria aumentar o meu vocabulário? Ou apenas passaria por mais um maluco na piscina?

15.5.11

Faux European manners

Por ter morado dois anos em Montréal e prestes a completar um ano em Toronto, tive e tenho a oportunidade de conhecer as culturas de origem francesa e inglesa que formam o Canadá. Tive o privilégio, assim considero, de vivenciar as duas culturas na pele de um observador estrangeiro.

Os modos franceses indiscutivelmente se parecem mais com os brasileiros. Português e francês sao línguas provenientes do latim e compartilham muitas palavras e entonaçoes. Alguns hábitos também se assemelham. Como, por exemplo, beijar no rosto ao cumprimentar alguém.

O beijo no rosto, na forma de cumprimento, parece ser algo que fascina e aterroriza ingleses, americanos e canadenses, seres de fala e de cultura anglo-saxônica. Mais de uma vez já li sobre o ato de beijar no rosto como se fosse uma prova de emotividade exacerbada. Uma vez foi em um jornal em Montréal, escrito por uma cronista/jornalista de um periódico em inglês. Outra vez foi no livro que estou lendo agora, One Fifth Avenue, da americana Candace Bushnell, conhecida por ser a autora do livro Sex and the City, que deu origem à famosa série de TV.

Madame Bushnell diz em uma breve passagem que beijar no rosto é uma "faux European manner", ou seja, diz que quando um americano beija no rosto, é uma maneira falsa e afetada de mostrar comportamento europeu. Breve tentativa de provar falso refinamento. Como se beijar no rosto fosse privilégio dos europeus.

Na cultura latina brasileira, beijam-se mulheres entre mulheres, homens com mulheres e homens com homens caso haja um grande vínculo familiar ou de amizade. Entre espécies de outras culturas, como árabes, iranianos e indianos, o beijo no rosto entre os homens faz parte da rotina e dos maneirismos sociais.

Mudar de país e de cultura implica em adaptaçao. Entao, nada de grandes manifestaçoes de afeto no Canadá inglês. Se é que o fato de cumprimentar com beijo no rosto pode ser considerado como grande demonstraçao de afeto. Entre os seres canadenses ingleses, o ápice da simpatia consiste na frase "How are you doing?", ou seja, "Como vai você?". Dita de modo enfático, com uma cara simpática. E só. Quem mergulha nessa cultura acaba mudando a maneira de agir e interagir. Quem era acostumado a distribuir beijocas, termina por esquecer (ou negar)o beijo no rosto, que dali para a frente fica lhe parecendo aberraçao.

No caminho da adaptaçao dentro de uma cultura, as pessoas se esquecem que o mundo é mais amplo que parece. Que os beijos no rosto como cumprimentos sao mais disseminados pelo planeta do que a pobre cultura norte-americana e inglesa é levada a crer. O próprio Canadá francês está aí para provar.

4.5.11

Mudanca de hábito

Quando se muda a moradia para outro local, a gente acaba mudando também os hábitos alimentares. Pelo simples motivo do tipo de oferta dos alimentos. Se isso acontece dentro de uma mesma regiao, Estado ou de País, quando se muda de hemisfério, a mudança é gigantesca.

A alimentaçao de uma populaçao está relacionada com o clima, o solo, os recursos hídricos e com o transporte. Isto significa que é natural, prático e mais barato que se consuma o que é produzido localmente. Trata-se de aproveitar os recursos naturais sem ter que recorrer ao transporte de longa distância.

A alimentaçao do Canadá é fundamentada na herança inglesa. Entao, como pièces de resistence, encontramos sanduíches, batatas fritas, salsichas, ovos, bacon, tortas de carne. No entanto, a influência dos imigrantes ampliou enormemente a oferta de alimentos, diversificou o cardápio e sofisticou os hábitos alimentares canadenses. Os chineses trouxeram o arroz, o molho de soja, o frango General Tao e todo o seu menu milenar. Os árabes chegaram com o couscous, o tabule, o homus, o pao pita, o falafel. Os italianos adicionaram as pizzas e as massas. Os mexicanos enviaram as tortillas, os nachos, os burritos. Os gregos legaram souvlaki, o queijo feta e spanakopita. Os japoneses ensinaram o mundo a comer sushi e sashimi. A lista é grande, praticamente infindável.

O Brasil ainda nao tem tradiçao de algo exportável, em termos de culinária ou hábito alimentar, e que se torne assimilável por outras culturas. Feijoada e churrasco sao os maiores candidatos, mas eles nao se mostram facilmente produzíveis em outro local. Pouca disponibilidade dos ingredientes e cortes específicos de carne restringem a produçao e assimilaçao dos pratos brasileiros. Os pratos de dendê da Bahia ou os quitutes da culinária amazônica, mesmo dentro do Brasil, sao consumidos localmente.

Cada local tem as suas maravilhas, nao dá para fazer comparaçoes. Se as frutas tropicais enchem os olhos de cores e o paladar de sumos, os países frios nos presenteiam com as berries: strawberry (morango), raspberry (framboesa), blueberry (mirtilo ou arando), blackberry (amora), cranberry (oxicoco?!). E as cerejas, que para mim e boa parte da populaçao canadense, sao as rainhas da delícia.

Resta entao aproveitar o que cada local tem de bom. Apesar de adorar cookies, muffins, tourtières (tortas de carne), salmao e berries, ando sonhando com pao de queijo, acarajé, vatapá, coxinha de galinha, empada, beiju recheado, doce de leite, paozinho da Bahia (que em Salvador é chamado de pao delícia). Coisas que saciam o estômago e acariciam o coraçao. Em breve mato a saudade.

3.5.11

Livros que chegam

O fácil acesso aos livros é uma das coisas mais bacanas no Canadá. A leitura neste país recebe todo tipo de incentivo. Existem bibliotecas confortáveis, onde se pode passar horas lendo ou pegar emprestados livros, CDs e DVDs para levar para casa. Os lançamentos estao disponíveis sem muita fila. As publicaçoes recebem subsídios do governo e os preços sao acessíveis.

Quando eu morava em Montréal vivia pegando livros nas bibliotecas. Existe uma bem grande, com vários andares, um belo prédio de vidro e metal, bem no centro da cidade, a Grande Bibliotèque et Archives Nationales du Québec, com muitos títulos e em várias línguas. Mas eu preferia quase sempre as bibliotecas dos bairros em que morei, pela proximidade e comodidade.

Se por um lado a obrigaçao de ter que devolver o livro após três semanas é uma coisa chata, por outro lado é motivaçao para nao ficar enrolando e terminar logo a leitura.

Aqui em Toronto aconteceu algo diferente. Nunca entrei em uma biblioteca. Aliás, minto. Entrei uma vez na biblioteca central e fiz o cartao de associado. E nao voltei mais. A razao? Nao precisei, os livros vieram até mim.

Um amigo trabalhou em um condomínio e me trouxe vários títulos descartados por moradores. Achei uma caixa cheia de livros para serem doados, na calçada de uma rua vizinha. Ainda escolhi o que queria. O antigo dono tinha bom gosto. Trouxe Ian McEwan, Doris Lessing e Dan Brown para casa, entre outros. Também comprei livros em francês e inglês a um dólar cada em feira beneficente. Os livros chegaram até mim sem prazo para devoluçao!

O resultado é que a prateleira está cheia. E, como a minha velocidade de leitura em inglês ainda nao é muito alta, ainda tenho muitas páginas pela frente.

27.4.11

Cadê o verde que nao chega?

Daqui a uma semana a primavera chega na metade, pois oficialmente ela teria começado em 21 de março. Mas as árvores ainda estao sem folhas! Se a gente olha com atencao, vê que os brotos estao nascendo, mas ainda vai levar alguns dias (ou semanas) para as paisagens voltarem ao verde total. Essa conversa de estaçoes definidas por aqui é história para boi cochilar. Aqui faz é frio durante 7 ou 8 meses. Mais um mês de primavera, menos de um mês de outono e 3 meses de temperatura razoavel, sendo somente um deles de calor. Que nao é nem um pouco agradável, por sinal, já que o isolamento térmico para o frio transforma os ambientes em fornos durante o calor. Pelo menos aqui em Toronto as temperaturas altas duram mais do que o mísero mês de verao em Montréal. Isso mesmo, o verao em Montreal se resume a um mês. Julho. Ou entre julho e agosto. E que ainda pode ter chuva, como ocorreu há uns dois anos, quando eu morava lá.

Uma característica interessante é que, mesmo com um verao tao curto, a Prefeitura de Montreal, exigencia da tradiçao popular, faz questao de manter piscinas exteriores. Que ficam fechadas por uns 9 a 10 meses por ano!

Em um livro de Michel Tremblay, um dos maiores escritores do Québec, ele reclamava que um local onde as árvores ficavam 5 meses sem folhas nao é bom para se morar. Pois este ano eu estou reparando que as árvores estao sem folhas desde o fim de outubro. Isso dá 6 meses de galhos secos e arbustos retorcidos, ausencia total de verde. Monsieur Tremblay foi otimista.

1.4.11

Keith Haring

Enquanto a primavera nao chega

O inverno acaba mas a primavera demora de chegar. O inverno no Canadá nao dura somente os três meses oficiais. Na realidade sao 5 meses - ou um pouco mais - sem folhas nas árvores. Em Montréal eu vi neve cair no dia 30 de outubro. Em outro ano vi tempestade de neve no meado de abril.

Mas o canadense nao se entrega e, mesmo com todo o frio que ainda resta no início da primavera, se arrisca nos esportes ao ar livre, sem a proteçao de casacos fortes, seja correndo ou pedalando.

É uma pena que parques, lagos e outros locais abertos, de natureza exuberante, só possam ser aproveitados praticamente durante metade do ano. O que o país faz para aproveitar ao máximo é concentrar a época dos estudos durante o inverno. Difícil aí é levantar cedo para ir estudar.

Desde o fim de março a primavera vai aos poucos se instalando. Os sinais vao aparecendo aqui e alí. Os primeiros brotos vao aparecendo. A festa de Saint Patrick, padroeiro dos irlandeses, é comemorada em março e vai animando a cidade. Muita gente veste uma peça de roupa verde, a cor típica deste evento, para lembrar a data. Os pubs irlandeses se enchem de beberroes. Boa parte do Canadá inglês foi formada por imigrantes irlandeses. O verde da festa de Saint Patrick parece lembrar que a verdadeira primavera está para chegar.

"De repente me lembro do verde, da cor verde, a mais verde que existe, a cor mais alegre, a cor mais triste, o verde que vestes, o verde que vestistes, no dia em que te vi, no dia em que me viste". Caetano Veloso, nas palavras de Paulo Leminski.

25.1.11

Entre índios e inuits

É certo: em dia de baixa temperatura ou de nevasca, vai haver dificuldade de transporte. Seja para quem usa transporte público, seja para quem tem o seu próprio carro.

O ônibus está lotado, sou obrigado a esperar o próximo. O seguinte vem confortável, com assentos disponíveis. Mas eu já estou atrasado. Para completar, ainda há ruas interditadas. O trajeto é desviado, tenho que descer em local mais distante, o que estica ainda mais o tempo de caminhada. Se tivesse vindo a pé talvez teria gasto o mesmo tempo, ou menos.

Já conheço alguns rostos que repetem a viagem todos os dias, no mesmo horário, indo para o trabalho ou para os estudos. Os casacos de frio também se repetem e tornam fácil a identificaçao de quem o porta. No inverno eles sao repetidos infinitamente até que se tornem insuportavelmente enjoados. Mas é o tempo em que o frio termina, os casacos voltam para o armário e sao esquecidos até a estaçao do próximo ano.

Em temperaturas chegando a -20, tem-se a impressao de que a média da estaçao (que deve ficar entre -5 e -7) parece clima de primavera. Entao fico tentado a ir caminhando ao trabalho, quando o termômetro subir um pouco. Isso parece possível. Felizmente, ainda nao cheguei ao estágio de alguns malucos canadenses que se agasalham e enfrentam as ruas de bicicleta em temperaturas negativas.

Uma professora que tive em Montréal costumava falar que o frio nao é problema, basta estar bem protegido. No início da vida profissional ela havia morado no Norte do Québec, regiao onde habitam os inuits (esquimós), onde o clima nao dá muita diferença do Pólo Norte e onde só se chega de aviao. Segundo ela, para os moradores da pequena cidade gelada, ir para um local como Montréal - que já é um terror de frio para os brasileiros tropicais -, por exemplo, dentro da mesma província, é como ir para a Flórida. Comparaçao de temperaturas que só canadense entende. Ou acha graça.

Pela história da professora, deu para notar que nao é só no Brasil que os profissionais em início de carreira recebem propostas de trabalho nos cafundós. Ou seja, trabalhar no Norte do Québec nao dá muita diferença de trabalhar no meio da Floresta Amazônica. Nao tem mosquito nem cobra, mas tem urso. E muito gelo e frio.

21.1.11

Para ler um português

O senhor tinha os cabelos totalmente brancos, vestia um casaco de la e eu me dei conta que ele lia um livro de José Saramago durante a curta viagem de ônibus. É uma curiosidade que sempre tenho, confesso agora. Ou me dou conta disso: fico tentando descobrir em que língua lêem as pessoas no transporte público do Canadá. Eu fico tentando achar alguma palavra familiar, um título conhecido, o nome de um autor, entre os livros corajosamente empunhados entre as paradas e as partidas de ônibus, metrô ou bonde - sim, Toronto tem bondes. Claro que o inglês predomina, mas às vezes tem francês, espanhol, russo, línguas orientais e até português! Hoje eu achei alguém lendo em português.

O ônibus estava lotado, em consequência do inverno. Os ciclistas recolheram os seus camelos e poucos pedestres se arriscam a caminhar. Para uma pequena distância de três quarteiroes, as pessoas tomam transporte público. Ninguém quer andar na calçada cheia de neve, com o vento açoitando na pele, dando a impressao que o frio chega a -15 graus, mesmo que o termômetro indique ''apenas'' -8. Nesse clima, míseros dez minutos de espera em um ponto de ônibus sao uma eternidade.

Além do aumento considerável do números de passageiros, estes também aumentam de volume. E nao estou falando do tradicional aumento de massa corpórea que resulta das deliciosas massas, sopas e cremes exigidos pelo inverno. Falo dos imensos casacos que aumentam a circunferência corporal e fazem todos semelhantes a um ''bonhomme'' de neve. Entao fica um aperto danado no ônibus. E todo mundo torcendo que o inverno acabe logo, para poder voltar a caminhar ou ir ao trabalho de bicicleta. Sim, esse sonho é possível no Canadá e suas cidades cheias de ciclovias.

No ônibus cheio, que me fez lembrar os melhores momentos da linha Nazaré-Federaçao, em Salvador, às 6 horas da tarde, com todo o seu esplendor de apertos e cheiros, o senhor passava os olhos pelas longas sentenças de Saramago.

Fiquei com saudade e me deu muita vontade de voltar ler em português. Nada de notícias rápidas e da leitura desconfortável na internet. E sim dizer sim ao prazer de ler no suave aconchego da língua materna, sem a necessidade (ou a precipitaçao) de ir toda hora ao dicionário para aprender o significado de uma nova palavra, seja em inglês ou francês. Se bem que, ao ler Saramago, o dicionário sempre ajuda para aumentar o entendimento entre Brasil e Portugal.

O senhor viu o seu ponto se aproximar, fechou as letras de Saramago e colocou o livro dentro da pasta. Um senhor português idoso e distinto. Poderia ser brasileiro, mas os portugueses estao há muito tempo no Canadá, enquanto os brasileiros sao mais recentes, no máximo há vinte e cinco anos, entao sao mais jovens. O senhor pedia licença para sair do ônibus com um sorriso no rosto. Pedia gentilmente para abrir espaço entre os passageiros amontoados e acolchoados pelos grossos casacos de frio intenso. Ele devia estar feliz em poder fruir da imaginaçao de Saramago.

Lembrei que ainda tenho o moçambicano Mia Couto antes de voltar a qualquer autor em português. Possivelmente ele será a minha próxima parada literária. E lembrei que, infelizmente, há poucos - e disputados - exemplares nas bibiotecas, tanto de Montréal como de Toronto. Acho que só vou ter esse privilégio na próxima mala de viagem que trouxer do Brasil.

Desci no mesmo ponto em que o provável lusitano desceu, na Queen Street. Fui em direçao ao trabalho, aproveitando o caminho aberto aberto pelo português, para conseguir sair do ônibus. Fui seguindo o caminho das Indias.

14.12.10

Na falta de mendigos e vendedores de balinhas, os punks

Os punks sao figurinhas fáceis em Montréal. Vindos de todos os cantos do Canadá, às vezes do outro lado do país, do Oceano Pacífico, lá vem eles para passar o verao na metrópole francófona e curtir os festivais gratuitos de música e teatro.

Eles sao facilmente reconhecíveis. Tatuagens, piercings, cabelos coloridos ou de corte moicano, coturnos, roupas pretas ou de estampa militar, sempre rasgadas. Correntes, couro e tachas em profusao. Quase sempre acompanhados dos seus cachorros.

Mudando de cenário para Toronto, eu tinha acabado de pegar um ônibus. Fiquei feliz de encontrar assentos vagos, o que nao é nem tao difícil de acontecer. Escolhi rápido um local e me sentei. Eu estava cansado, saindo do trabalho.

Nao tive tempo nem de esperar a respiraçao normalizar, quando senti um cheiro forte. Olhei para a o outro lado, em direçao à outra fileira de assentos e vi um punk bem jovem, com boné, piercings em todos os apêndices da cara e cabelos moicanos tingidos de amarelo-ouro. Ao lado dele um filhote de cachorro dormia tranquilamente. Cansado como eu estava, olhei para o bicho (o cachorro!) com uma ponta de inveja. Fiquei imaginando de quem vinha o cheiro, do punk ou do cachorro. Ou dos dois, depois de tao longa e próxima convivência.

Olhei mais à frente e em outro banco também havia um punk, também de boné, cabelo azul e infinitos piercings. E outro cachorrinho, este mais inquieto. O dono-punk tratava de acalmá-lo para nao incomodar as vizinhas do banco da frente, uma indiana e uma chinesa, ou que talvez fosse uma filipina. A diferença é que os filipinos têm a pele mais bronzeada que os chineses.

No desejo pela brincadeira, o cachorro balançava o rabo para os lados e eu conseguia ver a mistura entre os pelos do bicho e as madeixas das orientais, que, tendo absorvido calma e fleuma canadenses, eram incapazes de reclamar, apenas viravam o pescoço e olhavam com leve reprovaçao.

O dono foi fazendo carinho e o cachorro foi acalmando. Os punks também amam. Os seus cachorros.

Crianças e cachorros no Canadá sao os mais dóceis que já vi. As maes circulam por todos os lados, empurrando os carrinhos com as suas crias e estas quase nao choram. Já os cachorros quase nao latem. Seria por causa do frio? Será que se os cachorros canadenses fossem para o calor do Brasil continuariam tao silenciosos?

Pois bem, o cheiro forte continuava. De onde viria? Os cachorros tinham pelo curto e brilhante, indicando bom tratamento. A nhaca parecia vir mesmo dos outsiders. Jovens de pele e olhos claros, canadenses de longa data, possivelmente consumidores de drogas pesadas e defensores de um estilo de vida sem amarras.

Aí eu lembrei da Bahia. Aqui nada de vendedores de balinha, nada de mendigos, de deficientes, nem daqueles performers que vao para a frente do ônibus contar a tragédia das suas vidas nos minutos entre duas paradas e pedir ajuda financeira. Tipo: ''Eu poderia estar roubando, eu poderia estar matando, mas estou aqui pedindo ajuda a vocês...'' Os dramas sao diferentes, mas sao dramas.

Gostaria de estar com a máquina fotográfica para registrar o momento. Mas eu acho que nao arriscaria. Tenho amor à pele, melhor mesmo nao fazer isso. Nao quero saber de punk irado correndo atrás de mim. Tomando satisfaçao, querendo saber se eu o havia confundido com alguma atraçao turística local, talvez algum personagem do Cirque du Soleil.

31.10.10

Dia das Bruxas

Halloween, dia das bruxas. Em Toronto as festividades sao intensas. As casas sao decoradas e as festas acontecem por todos os cantos. As pessoas circulam fantasiadas nas ruas e no transporte público. A data é 31 de outubro, mas bem antes disso já tem canadense se exibindo com máscara, peruca, fantasia ou pintura no rosto. É muito engaçado ver gente de terno e gravata, indo ou voltando do trabalho, ao lado de múmias, bruxas, diabos e o escambau. Uma antiga moradora de Toronto me disse que é um fenômeno recente, de uns dez anos para cá. A festa tem mais tradiçao nos Estados Unidos.

As indústrias de doces faturam alto nesta época. A criatividade nao tem fim. Bombons, pirulitos e jujubas viram caveiras, gatos pretos, esqueletos, olhos de monstros, chapéus de bruxa. As delícias sao oferecidas às crianças para que nao façam nenhuma travessura. Entao, ao saborear um pacote de guloseimas monstruosas, incluindo bala de olho ensanguentado e jujuba de gato preto, lembrei do meu primeiro Halloween.

Acho que eu tinha uns treze anos. A escola de inglês em que eu estudava organizou uma bela festa, que movimentou a cidade. Havia um mapa indicando as casas dos alunos participantes. Na porta de cada uma delas havia um jack-o'-lantern, aquela abóbora recortada com uma vela acesa dentro.

A gente ia passando de carro pelas casas. Estávamos todos fantasiados. Eu saí vestido de fantasma. Eram uns três ou quatro amigos, todos na mesma faixa de idade. Um deles nao era nem aluno da escola. Era uma cidade pequena, naquela época nao havia fiscalizaçao rígida e, aos catorze anos, os moleques viviam de carro para cima e para baixo. A gente localizava as casas e chegava falando 'trick or treat' para encher de bombons a sacola de tecido que a escola havia nos dado.

Acho que nunca comi tantos doces na vida.

5.10.10

Toronto, personagem secundário


Eu estava tranquilamente vendo Chloé, com Julianne Moore, Liam Neeson e Amanda Seyfried. Achei as locaçoes bem bonitas, com neve, ruas nao muito largas e placas de sinalizaçao em um estilo retrô. Depois achei interessante que as personagens marcaram um encontro em um bar chamado The Rivoli. É o mesmo nome do bar em que acontece o encontro Toronto Babel Language, do pessoal do Couchsurfing. Aí eu pensei, que coincidência, um café ou bar nos EUA (pelo menos no filme!) também chamado Rivoli. E ainda fiquei imaginando que o nome originalmente devia ser alguma praça, fonte ou local famoso na Itália, pois Rivoli me parecia algo italiano.

Quando as personagens se encontraram, tomei um susto quando, pela janela do bar/café, vi um streetcar (bonde) vermelho passar. Aí a ficha caiu. Gente, é mesmo Toronto no filme. Nao fizeram nem questao de mudar o nome do bar onde eventualmente vou nas quartas-feiras, localizado na Queen Street.

A partir daí uma série de locais conhecidos desfilam na tela. Allan Gardens, Royal Ontario Museum, Museu de Arte Moderna, um campo de hóquei.

Cloe é o remake de Nathalie, filme francês de 2002, com Fanny Ardant, Gérard Dépadieu e Emmanuelle Béart. Bom drama e bom para quem quiser ver Toronto no cinema, além da sempre talentosa Julianne Moore.

10.9.10

Música para lembrar

Talvez a coisa mais intensa, mais profunda, mais emocionante, mais gratificante de estar vivendo em inglês é poder ouvir e entender - se nao completamente, aos menos grandes pedaços - as cançoes americanas e inglesas que marcaram momentos de história pessoal. :-)))